Calafrios

O filme abre com um comercial de TV apresentando as maravilhas do Condomínio Starline, divulgado como uma ilha paradisíaca, prédio residencial de apartamentos com toda a infra-estrutura para que os moradores nem pensem em sair dali para nada, inclusive com modernas instalações de saúde. Corta para um casal conversando com o corretor, fascinados pelo empreendimento, dispostos a adquirir um apartamento já mobiliado. 

Mas é um filme de David Cronenberg: a próxima sequência leva o espectador para dentro de um apartamento, onde um homem mais velho persegue uma jovem, a deita em uma mesa e, depois de matá-la, abre sua barriga em busca de suas vísceras. Pouco depois, o homem corta o próprio pescoço. 

O tema do filme é um vírus criado em laboratório por um médico, o assassino, e implantado no corpo de uma garota de programa, a vítima. Como a garota atendia a homens e mulheres do condomínio, o vírus se espalha e a narrativa apresenta uma sucessão de cenas escabrosas, misto de violência e sexo. O Dr. Roger St Luc passa a investigar os acontecimentos, motivado pelos relatos de pacientes, e se confronta com a inevitável proliferação da doença que provoca desejos sexuais incontroláveis. David Cronenberg, claro, não poupa o espectador e muito menos a humanidade que se vê diante de seus desejos carnais mais perversos. Atenção para a sequência do elevador, as portas se fecham, quando se abrem, uma garotinha já contaminada se debruça, junto com a mãe, sobre o homem que as infectou.

Calafrios (Canadá, 1975), de David Cronenberg. Com Paul Hampton, Joe Silver, Lynn Lowry, Allan Kolman, Susan Petrie, Barbara Steele, Ronald Mlodzik, Barry Baldaro, Camil Ducharme, Hanka Poznanska, Wally Martin, Vlasta Vrana.

Caçador de morte

Caçador de morte é um dos influentes filmes de perseguição de carros que marcou o cinema dos anos 60/70, assim como Bullitt (1968) e Operação França (1971). Ryan O’Neal interpreta um exímio motorista, que aluga caro seu talento para assaltantes de bancos. Durante um assalto mal-sucedido, ele é visto pela personagem de Isabelle Adjani. O detetive (Bruce Dern) tenta convencê-la a depor e acusar o Driver, mas ela se recusa. 

O filme foi um fracasso de público e crítica nos anos 70, mas acabou se transformando em cult, influenciando filmes modernos como Drive (2011) e em Ritmo de fuga (2017). A narrativa é marcada por um relacionamento intenso entre o casal de protagonistas e o tradicional jogo de gato e rato entre detetive e bandido. Claro, o destaque fica para as estonteantes perseguições de carro nas ruas da cidade. 

Caçador de morte (The driver, EUA, 1978), de Walter Hill. Com Ryan O”Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani. 

Alemanha no outono

Em 1977, a Alemanha foi abalada por uma série de acontecimentos políticos de caráter violento, extremista: o sequestro e assassinato de Hann-Martin Schleyer, presidente da Confederação de Empregadores da Alemanha Ocidentel; o sequestro do avião da Lufthansa; o suicídio na prisão de três membros da RAF – Fração do Exército Vermelho. 

Em Alemanha no outono, onze aclamados cineastas, integrantes do Novo Cinema Alemão, se debruçaram sobre o clima terrorista que se instaurou no país, debatendo as questões da extrema direita e da extrema esquerda. O filme foi realizado em estilo episódico, curtas-metragens ligados pelo tema comum que ficou conhecido como Outono alemão. Destaque para o primeiro episódio, escrito, dirigido e interpretado por Rainer Werner Fassbinder, no qual ele se expõe de forma visceral, desnudando-se diante da câmera física e ideologicamente.

“Quando nos reunimos, no início, um dos motivos que nos levaram a concluir pela necessidade de fazer o filme era enfrentar o medo. Era necessário que as pessoas que não tinham nenhum meio de produção e estavam, talvez, ainda mais amedrontadas do que nós, não se deixassem intimidar pelo sentimento que reinava então na Alemanha, de que a crítica era inoportuna em qualquer de suas manifestações e deveria ser calada.” – Fassbinder (Plano Critico)

Alemanha no outono (Deutschland im herbst, Alemanha, 1978), de Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Alexander Kluge, Maximiliane Mainka, Beate Mainka-Jellinghaus, Peter Schubert, Bernhard Sinkel, Hans Peter Cloos, Edgar Reitz, Katja Rupé, Volker Schlöndorff.

A morte de um corrupto

Xavier Maréchal acorda de madrugada com o toque da campainha de casa. É seu amigo Philippe Dubaye, importante político francês. Dubaye revela que acabou de cometer um assassinato. A vítima tinha em mãos um caderno com nomes de vários políticos franceses, envolvidos em esquemas de corrupção, e estava chantageando Dubaye.

A morte deste corrupto é o ponto de partida para uma intrincada trama de suspense – o caderno é o famoso “MacGuffin” de Hitchcock, pois passa a ser questão de vida ou morte para preservar os importantes políticos envolvidos. Policiais e bandidos contratados entram em ação, assassinatos acontecem, no centro de tudo está Maréchal, envolvido acidentalmente nesta intrincada rede de crimes políticos. Um filme noir de prender o fôlego e instigar a reflexões sobre a perpetuação do poder.  

A morte de um corrupto (Mort d’un pourri, França, 1977), de Georges Lautner. Com Alain Delon (Xavier Maréchal), Ornella Muti (Valérie), Klaus Kinski (Nicolas Tomski), Maurice Ronet (Philippe Dubaye), Daniel Ceccaldi (Lucien Lacor), Julien Guiomar (Fondari), Stéphane Audran (Christiane), (Mireille Darc (Françoise). 

Série negra

O filme abre com Franck Poupart em um terreno baldio, o rádio no capô de seu carro. Ele ensaia uma coreografia que mistura dança e representação de luta de facas, em um momento de total descontração. O que Franck não sabe é que o destino está prestes a jogá-lo em uma trama que envolve a paixão por uma adolescente – a femme fatale do cinema noir, que pode terminar em assassinato. 

Frank trabalha como vendedor ambulante e cobrador de dívidas para um agiota. Ele bate na casa de uma velha senhora e, após oferecer seus produtos, é surpreendido pela oferta da proprietária: sexo com Mona, sua sobrinha adolescente, em troca de um casaco. 

Assim como em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese, há uma premissa de justiça. Franck resolve livrar a menina das garras da cafetina, mas novamente é surpreendido: Mona vira o jogo, revelando que a tia tem muito dinheiro guardado em casa e os dois começam a arquitetar o assassinato da cafetina. 

Série negra apresenta personagens que se cruzam em cenas às vezes ingenuamente cômicas – a relação entre Frank e Tikedes, outras vezes em cenas que anunciam a tragédia de quem oscila entre o bem e o mal – o conflito entre Frank e Jeanne no banheiro. O final deixa em aberto as incompreensíveis reações de mentes doentias. 

Série negra (Série noire, França, 1979), de Alain Corneau. Com Patrick Dewaere (Frank Poupart), Myriam Boyer (Jeanne), Marie Trintignant (Mona), Bernard Blier (Staplin), Jeanne Herviale (La tante), Andreas Katsulas (Andreas Tikedes). 

Noroeste

Todos sabem que Jacques Rivette nunca foi um diretor convencional. Muitos de seus filmes adotam linhas anti narrativas, colocando em cena personagens disruptivos, que vagam sem rumo em meio a caóticas tramas. Noroeste é um dos seus filmes mais experimentais.

A ambientação é em uma praia insular. Um grupo de piratas modernos, liderados por Giulia, habita uma mansão da ilha. Morag, em cumplicidade com Erika, se infiltra no grupo, disposta a vingar a morte de seu irmão. 

O filme é uma miscelânia de referências, incluindo números de dança, duelos de espada, cenas de sexo, aventura no mar, fantasia mitológica. Tudo sem uma coerência narrativa, Rivette segue um fiapo de trama de vingança para despejar na tela o experimentalismo estético que tanto repercutiu durante a nouvelle-vague francesa. 

Noroeste (Noroit, França, 1976), de Jacques Rivette. Com Geraldine Chaplin (Morag), Bernadette Lafont (Giulia), Kika Markham (Erika), Humbert Balsan (Jacob), Larrio Edson (Ludovico). 

Ânsia de amar

Muitos filmes da Nova Hollywood (movimento que teve início em 1967 e se fortaleceu durante os anos 70) tocaram em temas espinhosos, considerados quase tabus pelo cinema. O diretor Mike Nichols praticamente deu o pontapé inicial no movimento e nesses temas polêmicos com A primeira noite de um homem (1967), história de um jovem de 21 anos que é seduzido pela esposa do sócio de seu pai, mulher de cerca de 40 anos.  

O sexo também permeia a narrativa de Ânsia de amar. Jonathan e Sandy dividem o quarto na faculdade e passam parte da noite conversando sobre conquistas amorosas e sexuais. O machismo determina o tom das conversas. Quando os dois se apaixonam por Susan, a trama ganha ares de competição. 

À medida que envelhecem, os amigos continuam trocando confidências, incluindo agora desilusões amorosas, frustrações, aquilo que poderia ter sido. O final é perturbador, reflete as consequências na vida dos dois, principalmente de Jonathan, que se entregou por inteiro à sua condição de conquistador, essa espécie deplorável de predador que insiste em se pavonear pelas noites sem respeito algum pelas mulheres, pela sociedade. 

Ânsia de amar (Carnal knowledge, EUA, 1971), de Mike Nichols. Com Jack Nicholson (Jonathan), Arthur Garfunkel (Sandy), Candice Bergen (Susan), Ann-Margret (Bobbie). 

Baxter, Vera Baxter

A escritora, roteirista e diretora Marguerite Duras experimenta a transposição puramente literária para o cinema em Baxter, Vera Baxter. A narrativa coloca em cena praticamente duas personagens em longos diálogos, com estilo literário, sobre as angústias e frustrações dos relacionamentos amorosos.

Vera Baxter mora em uma luxuosa casa de campo alugada por seu marido. Ela recebe a visita de uma mulher que deve acompanhá-la ao encontro de seu amante, Michel Cayre. Vera passa o filme quase todo sentada no sofá, entabulado conversas frias e ao mesmo tempo plenas de significados com essa mulher desconhecida. A música de uma festa na casa vizinha invade o ambiente repetidamente. Inserts de Vera nua na cama compõem a trama dessa mulher reservada e enigmática, que, possivelmente, foi cedida como dívida de jogo por seu marido ao amante Michel Cayre. A película exige a entrega do espectador às reflexões literárias provocadas pelos densos diálogos.

Baxter, Vera Baxter (França, 1977), de Marguerite Duras. Com Claudine Gabay (Vera Baxter), Delphine Seyrig (a desconhecida), Gérard Depardieu (Michel Cayre).. 

Num ano de 13 luas

O filme tem uma das sequências mais difíceis de assistir do cinema. Elvira guia Zora por um frigorífico, lembrando de sua antiga profissão, quando ainda era Erwin. O diálogo em off é acompanhado por uma sucessão de bois sendo executados, as cabeças cortadas, sangue jorrando pelo chão, os funcionários descamando as vítimas. Aterrador. 

A narrativa acompanha cerca de trinta dias na vida de Elvira, em 1978, começando quando ela é agredida por um grupo de homens em um parque e, logo depois, sendo abandonada por seu namorado. A reconstituição da vida da protagonista é feita através de longas narrações, entrecortadas por seus encontros com pessoas que marcaram sua vida: sua ex-esposa e filha, sua amiga Zora, Anton Saitz, um antigo amigo que foi decisivo na transformação de Elvira. 

As imagens de Fassbinder beiram o surrealismo, retratando os personagens de forma caricata, com comportamentos entre alegóricos e deprimentes. Num ano de 13 luas foi inspirado no ex-amante de Fassbinder que se suicidou antes da produção do filme. Fique com a narrativa do diretor que abre a película, pontuando o nome e o tema desta obra ousada e polêmica. 

“A cada sete anos chega um Ano da Lua. Aqueles que deixam suas emoções influenciar suas vidas sofrem depressões ainda mais intensas nesses anos. Em menor medida, o mesmo pode ser dito dos anos com 13 luas novas. Quando um Ano da Lua também tem 13 luas, podem acontecer tragédias pessoais inevitáveis. No século XX, essa perigosa constelação ocorre num total de seis vezes. Uma delas em 1978. Antes disso, ocorreu em 1908, 1929, 1943 e 1957. 1992 também será um ano em que as vidas de muitas pessoas estarão ameaçadas.”

Num ano de 13 luas (In einem jahr mit 13 monden, Alemanha, 1978), de Rainer Werner Fassbinder. Com Volker Spengler (Elvira), Ingrid Caven (Zora), Gottfried John (Anton Saitz), Elisabeth Trissenaar (Irene). 

O império da paixão

Após o aclamado e polêmico O império dos sentidos, Nagisa Oshima fez essa obra centrada em um triângulo amoroso movido pela paixão, crime e culpa. É também uma história de fantasmas.

Em uma vila japonesa do final do século XIX, a bela e desejada Seki é casada com Gisaburo, um condutor de riquixá. Toyo, um jovem rebelde e inconsequente, seduz Seki e os dois começam um tórrido relacionamento sexual (atenção para a cena em que Toyo pede que a amante raspe suas partes íntimas). 

 Não é spoiler: em histórias assim, o marido sempre é assassinado. Essa virada no roteiro provoca a ruína dos amantes, cada vez mais entregues à paixão e à culpa. Seki começa a ser assombrada pelo fantasma do marido que implora para que o tirem do poço onde seu cadáver foi jogado. A partir daí, o destino trágico dos amantes está traçado. Mais uma vez, o erotismo do cinema de Nagisa Oshima provoca o espectador com violência. 

O império da paixão (Ai no borei I, Japão, 1978), de Nagisa Oshima. Com Kazuko Yoshiyuki (Seki), Tatsuya Fugi (Toyoji), Takahiro Tamura (Gisaburo).