Para sempre mulher

Para sempre mulher (Chibusa yo eien nare, Japão, 1955), de Kinuyo Tanaka.

A renomada atriz Kinuyo Tanaka  foi uma das primeiras diretoras que se tem notícia no cinema japonês que, assim como várias cinematografias importantes, foi amplamente dominado pelos diretores praticamente até a revolução dos anos 60 (nouvelle vague e demais renascenças). Com mais de duzentas atuações no cinema, ela dirigiu apenas seis filmes.

Para sempre  mulher (1955) é seu terceiro longa, baseado na história da poetisa Fumiko Kanaze (Yumeji Tsukioka) que foi vitimada pelo câncer de mama com apenas 32 anos de idade. O filme abre com o cotidiano familiar de Fumiko. Ela é casada com um homem frustrado, dependente de drogas, cuida dos dois filhos pequenos e frequenta um grupo de poetas à noite. O casamento acaba e Fumiko volta para a casa de sua mãe e se apaixona por um dos integrantes do grupo, casado com sua melhor amiga. 

Ela descobre o câncer já em estado avançado e o tratamento da doença coincide com a sua consagração como poeta, seus livros são publicados e admirados. A roteirista e diretora Kinuyo Tanaka preenche essa história real com ousados tons de libertação feminina, sexualidade e as questões da mortalidade. O cinema japonês do pós-guerra estava passo a passo se libertando das amarras da censura e a quase obrigatoriedade social de não tocar em assuntos tabus, como a eterna submissão da mulher aos desejos masculinos. Atenção para uma das cenas mais ousadas deste período: já em fase terminal, a jovem e bela Fumiko, pede ao jornalista por quem se apaixonou, “faça amor comigo.” Eles estão no hospital.

Justiça injusta

Justiça injusta (The sound of fury/Try and get me, EUA, 1950), de Cy Endfield.

Howard Tyler (Frank Lovejoy), um homem de meia idade, está desempregado e sofre com esta condição, principalmente ao chegar em casa e ser “cobrado” pela mulher, pois precisam de dinheiro para o sustento do filho. Uma noite, ele conhece Gil Stanton (Richard Carson), misterioso personagem que o ajuda e, logo depois, faz uma proposta: os dois podem se ajudar, fazendo pequenos assaltos em lojas e casas. 

A virada da trama provoca uma transformação surpreendente do protagonista. Os dois comparsas sequestram um jovem rico com a intenção de pedir resgate ao pai, mas Gil Stanton assassina de forma brutal o herdeiro. Começa então uma caçada policial que termina com a prisão dos dois. 

O filme é baseado em um evento real, retratado também em Fúria (1936), de Fritz Lang. O clímax da narrativa, julgamento e condenação à morte dos assassinos, é assustador sob dois aspectos: o terror da morte estampado em Gil Stanton e o arrependimento de Howard, pacato cidadão de família que se vê enredado em um círculo criminoso, que aceita a condenação como forma de punição e sacrifício necessários para a redenção. 

Onibaba – A mulher demônio

OnibabaA mulher demônio (Japão, 1964), de Kaneto Shindô. Com Nobuko Otawa, Jitsuko Yoshimura, Kei Satô, Taji Tonoyama, Jukichi Uno. 

O filme começa com uma bela sequência, evidenciando o primor fotográfico que acompanhará a trama. Uma plantação de juncos ondulando ao vento, fotografia em preto e branco, dois samurais feridos caminham pela plantação. Um silvo e duas lanças atravessam os juncos se cravando nos feridos. Duas mulheres surgem ofegantes, despojam os homens de suas vestes, arrastam os cadáveres até um imenso e negro buraco, onde são jogados. 

Onibaba – A mulher demônio foi filmado durante três meses em uma plantação de juncos real. Os atores e atrizes foram submetidos às adversidades do tempo e das dificuldades retratadas no filme, como correr em alta velocidade entre os juncos. O diretor Kaneto Shindô compôs com realismo um thriller que oscila entre o suspense, o terror, mas o que salta aos olhos é o erotismo, a sensualidade retratada de forma a trazer à tona o sexo selvagem que envolve os protagonistas.

Japão, século XIV. O país está em uma guerra civil interminável e a população, principalmente os camponeses, praticamente não têm o que comer. As duas mulheres, cujos nomes não são revelados, são sogra e nora. O filho e marido está lutando na guerra. Elas sobrevivem assassinando homens que se embrenham nos juncos para trocar seus despojos por comida. Esse é o verdadeiro horror da película, a miséria, os assassinatos costumeiros que assolam as estradas e campos. Atenção para a cena em que as duas matam um cachorro e o comem sofregamente. 

O jovem Hachi (Kei Satô), volta da guerra. Ele conta que o filho da anciã, e marido da mais nova, morreu em batalha. Faminto, ele passa a participar dos atos das mulheres. Ele mora em uma cabana próxima. O desejo entre os dois jovens explode, em cenas tórridas, com nudez ousada, dentro da cabana, no meio dos juncos, molhados pela chuva. Esse desejo provoca a reviravolta da trama, com o aparecimento, ou criação, da mulher demônio. 

O ponto forte do filme é mesmo a bela direção de fotografia que explora repetidas vezes a beleza dos juncos, associada a uma trilha sonora impactante. A corrida dos amantes em direção um ao outro representa esse desejo carnal irrefreável, enquanto a mulher demônio encarna a moralidade e a repressão. Como pano de fundo, a crueldade que assolou o Japão medieval quando clãs forçaram os homens a lutar em guerras sem sentido, afundando o país em miséria e fome.

O intendente Sansho

O intendente Sansho (Sansho Dayu, Japão, 1954), de Kenji Mizoguchi, recria uma antiga lenda oral japonesa, tendo como base o conto de Mori Ogai. Zushio pai (Yoshiaki Hanayagi) administra uma pequena cidade medieval japonesa. Ele combate a miséria da população com atos benevolentes e a busca de justiça social, mas é punido com o exílio pelo governo central por essas atitudes. Antes de partir, ele ensina a seu filho Zushio um preceito: “os homens são como feras, então mesmo que seja severo consigo, seja misericordioso para com os outros, porque todos têm o direito de serem felizes.” 

A esposa de Zushio empreende uma jornada junto com seus dois filhos, Zushio (Yoshiaki Hanayagi) e Anju (Kyoko Kagawa), para se juntar ao marido. No caminho, são sequestrados por uma quadrilha de tráfico humano. A mãe é encarcerada em uma ilha, onde deve servir como gueixa, e as duas crianças são vendidas ao Intendente Sansho (Eitaro Shindo), administrador cruel de uma poderosa região. 

Mizoguchi não poupa o espectador ao tingir com tintas extremamente melodramáticas o sofrimento dessa família, principalmente dos irmãos que crescem como escravos, presenciando e sendo obrigados a participar de atos criminosos. A princípio, o diretor queria narrar a história de Sasho, mas foi demovido da ideia pelos produtores, temerosos de centrar a trama em um personagem completamente desumano, capaz das atitudes mais crueis para se perpetuar no poder. O protagonismo da narrativa cabe então aos irmãos, cuja submissão e, posteriormente a luta para se libertarem (com uma comovente cena de Anju em um lago) traça paralelos com a história do Japão durante a Segunda Guerra Mundial. 

“É possível identificar e estabelecer uma relação direta entre o modo como Mizoguchi compõe e expõe as atrocidades nos campos de Sansho e os registros imagéticos e documentais dos campos de prisioneiros da Segunda Guerra Mundial. Numa década onde boa parte do cinema japonês se voltava para comentários acerca da guerra, a pontuação de Mizoguchi não apenas estabelece uma crítica às atrocidades cometidas pelos japoneses como também oferece uma possibilidade de redenção para o corpo civil, eventualmente transformado em militar durante o conflito, na figura de Zushio, que, flagelado pelos eventos a que é submetido e pelos horrores que testemunha, esquece os ensinamentos do pai e volta-se para o endosso da violência ali perpetrada. A recuperação de sua identidade num momento de humanidade e a luta por redenção compreendem o grosso da dinâmica confrontativa do filme em seu terço final e tem dois momentos fundamentais. Primeiro na esfera social, na qual Zushio precisa adquirir poder institucional, recusar as dinâmicas da corrupção e do poder que ali imperam, e então propor mudanças sociais e estruturais impactantes e duradouras, que é o que faz como administrador geral da região. Segundo, na esfera pessoal, precisa encontrar sua mãe para, quando se lançar aos seus pés na cena do filme mais forte e sobrecarregada emocionalmente, pedir perdão por seus atos.” – Raphael Cubakowic

Referência: Mestres japoneses. Dez filmes essenciais do cinema clássico nipônico. Ferando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Vídeo, 2022. 

Os amantes crucificados

Os amantes crucificados (Chikamatsu monogatari, Japão, 1954), de Kenji Mizoguchi, narra a história de um amor proibido no Japão do século XVII. Mohei (Kazuo Hasegawa)  é funcionário de uma loja de pergaminhos. Ele se apaixona por Ozan (Kyoko Kagawa), esposa de seu patrão. O romance entre os dois caminha para a tragédia (denunciada pelo título em português), pois combate a rígida sociedade patriarcal japonesa, cujas punições mais severas são impostas, principalmente, às mulheres adúlteras. 

Os longos planos sequências, marca de Mizoguchi, convidam o espectador a acompanhar lentamente o sofrimento dos amantes que se entregam à paixão. Os dois empreendem uma fuga alucinada por lagos e florestas, locais cuja fotografia explendorosa eleva o teor erótico e, ao mesmo tempo, cruel da narrativa. Atenção para a derradeira sequência, o caminhar dos amantes acorrentados para o seu destino.  

A mulher infame

A mulher infame (Uwasa no onna, Japão, 1954), de Kenji Mizoguchi. 

A narrativa se passa em Kyoto, nos anos 50. Hatsuko (Kinuyo Tanaka), uma mulher de meia idade, administra uma casa de gueixas. O conflito acontece quando Yukiko (Yoshiko Kuga), sua jovem filha chega para se recuperar de uma tentativa de suicídio, motivada por uma desilusão amorosa. Yukiko se apaixona pelo namorado da mãe, um ambicioso médico que atende as profissionais da região e é praticamente sustentado por Hatsuko.  

Yukiko representa a modernidade no Japão do pós-guerra, pois renega a tradição incorporada nesses estabelecimentos centenários. A jovem se indispõe com a mãe e as gueixas, mas aos poucos começa a entender e se familiarizar com as mulheres, começando uma relação de ajuda mútua.

A mulher infame trata de um tema recorrente na obra de Mizoguchi: as pressões sociais da sociedade patriarcal japonesa que subjuga e explora as mulheres de forma depressiva e degradante. Para Mizoguchi, os bordeis são muito mais do que casas de exploração sexual, são o refúgio dessas mulheres que buscam, através da solidariedade e do carinho entre elas, sobreviver a essa sociedade cruel.   

O idiota

O idiota (Hakuchi, Japão, 1951), de Akira Kurosawa, faz uma releitura do clássico livro de Fiódor Dostoiévski. A trama é adaptada para o Japão pós Segunda Guerra Mundial. Kameda (Masayuki Mori) lutou na guerra e sofre de epilepsia. Sua personalidade é marcada por uma ingenuidade extrema, ele é capaz de atos de bondade e não espera nada em troca de ninguém. Para a sociedade, é quase um idiota. Kameda desperta o interesse de duas mulheres: Taeko Nasu (Setsuko Hara) e Ayako (Yoshiko Kuga).

 Kurosawa ousou ao ambientar a trama em um período carregado de cinismo, corrupção moral, caos social e profundas diferenças de classes. Nesse contexto, Kameda representa a bondade em uma sociedade composta por pessoas más. A linguagem cinematográfica de O idiota é demarca por planos lento e uma fotografia que expressa a melancolia, tristeza e desilusão da sociedade japonesa após a tragédia da guerra.

O sol brilha na imensidão

O sol brilha na imensidão (The sun shines bright, EUA, 1953), de John Ford.

O Juiz Priest (Charles Winninger) apareceu pela primeira vez no filme Judge Priest (1934), do próprio John Ford. O sol brilha na imensidão é uma espécie de continuação, fato raro no cinema clássico americano do período. 

William Priest segue demonstrando sua dignidade, senso de justiça e humanismo. Ele é juiz de uma pequena cidade do Kentucky, sul dos Estados Unidos, região demarcada pelo racismo que atinge níveis de violência extrema. O Juiz Priest agora tem em mãos dois casos que evidenciam o preconceito da sociedade sulista. Uma prostituta retorna à cidade e é rejeitada por todos; após a sua morte, ela não pode nem mesmo ter um enterro digno. Um jovem negro é acusado injustamente de um crime e está prestes a ser linchado pela população. 

Priest está disputando a reeleição para o cargo e sua corajosa atitude na defesa dos dois casos faz com que ele se indisponha com os eleitores. John Ford carrega sua narrativa com o idealismo e humanismo do Juiz, simbolizado em uma sequência emocionante: mesmo arriscando perder a eleição, Priest organiza e segue à frente do enterro da prostituta, encarando com altivez a sociedade. 

Um crime por dia

Um crime por dia (Gideon’s day, EUA, 1958), é um raro filme policial de John Ford. A trama, adaptada do romance homônimo de John Creasey, acompanha um dia na vida do policial George Gideon (Jack Hawkin. O inspetor tenta desvendar com agilidade casos que incluem o roubo de uma joalheria, um assassinato e até mesmo corrupção interne em seu departamento de polícia. Enquanto isso lida com questões familiares.

Inteiramente filmado em Londres, Um crime por dia é uma trama policial leve, sem grandes reviravoltas. Ford explora o lado humano do policial, sem enveredar por aspectos dramáticos, ao contrário, tratando tudo com bom humor, principalmente na relação amorosa na qual a sua filha se envolve durante esse atribulado dia. São 24 horas na vida do inspetor que, claro, podemos também classificar de uma pessoa comum, trabalhadora e apegada à família. 

Blue jeans

Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure). 

O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental. 

Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias. 

Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos. 

Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans