Ilha dos cachorros

Wes Anderson toca fundo em questões ambientais e políticas, colocando em evidência temas como totalitarismo, corrupção, lixo tóxico, extermínio de etnias. O cenário é o Japão 20 anos no futuro. Para combater surto de febre entre os cachorros, o prefeito da cidade envia todos os cachorros para uma ilha lixão. Nessa espécie de presídio terminal, os cães formam gangues e duelam entre si por alimento. 

Spot, cão de guarda do jovem Atari (sobrinho do prefeito) chega a ilha e se reúne ao bando de Chief. Pouco depois, Atari também desembarca na ilha em busca de seu adorado cachorro. A animação em stop-motion rendeu a Wes Anderson o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim. 

Ilha dos cachorros (EUA, 2018), de Wes Anderson. 

Cinemagia: a história das videolocadoras de São Paulo

O documentário é saudosa viagem ao início e apogeu das principais videolocadoras de São Paulo. O diretor Alan Oliveira registrou depoimentos dos personagens que construíram pequenos impérios do entretenimento: fundadores da Vídeo Norte, 2001 Vídeo, Real, Hobby, entre outros pioneiros. Críticos, jornalistas e frequentadores depõem sobre a magia de entrar em uma loja e ficar tempo indefinido entre as prateleiras de filmes. Tom comum entre as declarações é a possibilidade que as videolocadores proporcionaram de construir relações entre os cinéfilos, alguns pioneiros foram profundos conhecedores da sétima arte que colocaram paixão no ato de alugar filmes, outros, iniciantes que começaram nos corredores o caminho mágico pelo mundo dos filmes. 

É história comum: todo grande ou pequeno império um dia desaba. As videolocadoras foram sugadas, primeiro pelas megastores, como a Blockbuster, depois pela irrefreável ascensão do streaming. Sobrevivem na memória de pessoas que participaram como criadores ou como espectadores das antológicas prateleiras de videocassetes, depois DVDs, onde os filmes esperavam os apaixonados pelo cinema.  

Cinemagia: a história das videolocadoras de São Paulo (Brasil, 2017), de Alan Oliveira. 

O passageiro

O ex-policial Michael McCauley pega todos os dias o trem para o trabalho como corretor de seguros em Nova York. Como sucede com tantos e tantos empregados, é demitido no final do dia e se vê às voltas com problemas sérios, como pagar a hipoteca da casa. Na volta para casa, no trem, é abordado por uma estranha mulher que faz a ele uma proposta: se Michael descobrir a identidade de certo passageiro, possivelmente terrorista, ganhará grande soma em dinheiro. Michael tem até o final da viagem para solucionar o mistério. 

Tramas em trens sempre fascinam o espectador e O passageiro guarda semelhanças com Contra o tempo. Nos dois filmes, o relógio é o inimigo dos protagonistas, decisões devem ser tomadas minuto a minuto. A trama de suspense de O passageiro (passo a passo o ex-policial se vê envolvido em intrincada rede de negócios, poder e polícia) traz questão ética premente: em situação de vulnerabilidade pessoal, até onde se pode ir por dinheiro.  

O passageiro (The commuter, EUA, 2018), de Jaume Collet-Serra. Com Liam Neeson (Michael McCauley), Vera Farmiga (Joanna), Patrick Wilson (Murphy), Sam Neill (Capitão Hawthorne). 

Para todos os garotos que amei

Vez por outra aparece uma comédia romântica com toque original. Lara Jean (Lana Condor) é filha de coreana com americano. A mãe faleceu jovem e deixa o viúvo com as três filhas. Como toda adolescente, Lara Jean tem paixões escondidas e escreve cartas (que nunca envia) para os pretendentes, entre eles o namorado de sua irmã. A irmã caçula acha as cartas escondidas em uma caixa e remete para cada um dos interessados. 

O encontro dos garotos e da garota após tomarem conhecimento das cartas rende situações engraçadas e provoca descobertas nos relacionamentos. O roteiro de Sofia Alvarez e a direção de Susan Johnson colocam em evidência o adolescente olhar feminino sobre a família, os colegas de escola, os namorados. Lana Condor carrega sua personagem com o deslumbramento e revolta no comportamento típicos da adolescência. Atenção para a hilária cena pós-créditos. 

Para todos os garotos que amei (To all the boys I’ve loved before, EUA, 2018), de Susan Johnson. Com Lana Condor, Noah Centineo, Jnel Parrish, Anna Cathcart. 

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Terra selvagem

As sequências de abertura determinam a desolação e dor que imperam na trama: adolescente corre sozinha pela planície gelada, texto poético acompanha seus passos, ela cai na neve; corta para coiote observando o rebanho de ovelhas até ser atingido por um tiro mortal.

As montanhas geladas do Wyoming são cenário para a história. O caçador Cory encontra o corpo de uma adolescente indígena. Ela foi estuprada e morreu correndo descalça na neve, asfixiada pelo frio que invade os pulmões até explodi-los. Jane, agente do FBI, é enviada para investigar.

O crime traz à tona o passado de Cory e coloca em relevo outros personagens também perdidos nesta paisagem desoladora: os habitante da reserva indígena. Terra sangrenta é escrito e dirigido por Taylor Sheridan, roteirista dos marcantes A qualquer custo e Sicario: terra de ninguém. O silêncio do filme no deserto gelado, pontuado pela trilha melancólica, evidencia a dor dos personagens, principalmente de Cory, que continua lutando na neve. Depois das perdas, resta a Cory a vingança e a Jane fechar os olhos para este mundo deserto e abandonado por todos, inclusive pelo governo.

Terra selvagem (Wind river, EUA/Canadá/Inglaterra, 2017), de Taylor Sheridan. Com Jeremy Renner (Cory), Elizabeth Olsen (Jane), Graham Greene (Ben).

O filho de Saul

Saul Ausländer está preso em um campo de concentração da Alemanha nazista. Como outros judeus, ele exerce a função de sonderkommando, responsável por ajudar os nazistas dentro das câmaras de gás. O ponto de vista escolhido pelo diretor é o grande mérito do filme. O espectador sente passo a passo o processo de execução, acompanhando o trabalho e o olhar de Saul dentro da câmara de gás. Saul e os outros sonderkommandos guiam os judeus na entrada, ajudam-nos a se despirem, os encaminham para o interior da câmara de gás. Depois, levam os corpos para o crematório.

Faltava uma película como O filho de Saul para jogar o espectador dentro do sofrimento inimaginável dos campos de concentração. Cada sequência é feita sem cortes, a câmera registra o olhar e o trabalho de Saul, como se cada um de nós participasse e ajudasse no processo de tentativa de extermínio dos judeus.

Em uma das externas, a câmera centrada em Saul, durante a noite, deixa o espectador vislumbrar nazistas executando a tiros os judeus e jogando os corpos na vala. A tensão, durante todo o filme, é estarrecedora. Obra-prima contemporânea, O filho de Saul revela a capacidade expressiva dos recursos de linguagem do cinema.

O filho de Saul (Saul Fia, Hungria, 2015), de László Nemes. Com Géza Rohrig (Saul Auslander),  Sándor Zsótér (Dr. Miklos), Levente Molnár (Abraham).

Cidades fantasmas

A tristeza que permeia o documentário atinge a alma com o poder das imagens do cinema. A câmera de Tyrell Spencer documenta quatro cidades no continente sul americano que foram abandonadas por motivos de decadência econômica, catástrofes naturais e/ou descaso do governo. As cidades são Humberstone (Chile), Fordlândia (Brasil), Armero (Colômbia) e Epecuen (Argentina).

As imagens de ruas desertas, casas abandonadas, prédios em ruínas, praças destruídas, comovem, pois remetem diretamente às memórias de pessoas que viveram e foram felizes nos tempos áureos da exploração do salitre, da extração da borracha, das temporadas turísticas. A pesquisa de Tyrell Spencer traz depoimentos de antigos moradores que rememoram tempos felizes, falam da destruição, acusam empresários, políticos e governos pelas derrocadas das cidades que deixaram milhares de pessoas sem lar.

Os relatos mais impressionantes se referem à erupção do vulcão na Colômbia que destruiu Armero. Segundo moradores, a tragédia seria evitada se as autoridades, que sabiam da iminência da erupção, alertassem a população. Não o fizeram por interesses econômicos, assim como os militares argentinos não impediram a inundação que literalmente afogou a cidade de Epecuén. Cidades fantasmas é o registro/denúncia de como a vida humana é insignificante quando estão em jogo interesses políticos e econômicos.

Cidades fantasmas (Brasil, 2017), de Tyrell Spencer.

Táxi Teerã

Jafar Panahi em mais um filme que reflete sobre o ato de filmar, sobre o cinema, tendo sempre como ponto de partida sua impossibilidade de fazer filmes (o diretor está proibido de trabalhar com cinema pelo governo iraniano). Em Isto não é um filme (2011), Panahi burlou as proibições impostas por um documento, filmando seu cotidiano dentro de casa. Na prática, ele evitou tudo que não podia fazer, como escrever um roteiro.

Táxi Teerã, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, é mais um experimento do diretor. O próprio Panahi dirige um táxi pelas ruas da capital iraniana com a câmera acoplada ao para-brisa. À medida que os passageiros entram, confundindo o espectador sobre os limites entre ficção e realidade, diálogos metafóricos permeiam a viagem. Um vendedor de filmes piratas reconhece o diretor e diz que tudo aquilo é armado, que Panahi está fazendo um filme. A sobrinha do diretor sai da escola com um manifesto da professora sobre como fazer um filme “exibível”. Enquanto Panahi sai do táxi (a câmera nunca deixa o carro, apenas muda de posição para filmar o exterior vez ou outra), a menina tenta convencer um garoto de rua a praticar atos interessantes para que ela possa filmar com o celular.

O marido ferido dentro do carro, após um acidente, desesperado, no colo da mulher, pede a Panahi que grave com o celular o seu testamento, como um retrato destes tempos nos quais a câmera portátil registra, delata. Em diálogo com um comprador de filmes piratas, Panahi expressa a singularidade do cinema. O comprador pede sugestões sobre qual obra assistir. O diretor revela simplesmente: “Todo filme vale a pena ser assistido.” Principalmente este Táxi Teerã, obra-prima do que pode, novamente, não ser um filme.

Táxi Teerã (Taxi, Irã, 2015), de Jafar Panahi.

A sociedade literária e a torta da casca de batata

Juliet Ashton (Lily James) recebe carta de fazendeiro da pequena ilha de Guernsey, situada no Canal da Mancha. Ele pede dicas de leitura para trocar com os membros do grupo de leitores do qual participa, intitulado A sociedade literária e a torta de casca de batata. Em crise criativa, a jovem escritora parte para a ilha intrigada com o grupo com nome inusitado, buscando material para um novo livro. 

O amor pela literatura é o tema de mais um belo filme de Mike Newell (Quatro casamentos e um funeral). O grupo de leitura foi criado durante a ocupação nazista como forma de resistir aos tempos sombrios. Os integrantes escondem um segredo do passado que Lily tenta desvendar. A deslumbrante paisagem da ilha, a singela amizade dos componentes do grupo, o amor que começa a florir – Lily está no meio de tudo isto com o olhar de escritora. Filme para amantes dos livros. 

A sociedade literária e a torta de casca de batata (The guernsey literary and potato peel pie society, Inglaterra, 2018), de Mike Newell. Com Lily James, Michiel Huisman, Tom Courtenay, Katherine Parkison, Matthew Goode. 

Ferrugem

Ferrugem é dos mais impactantes filmes do cinema contemporâneo brasileiro. A adolescente Tati está às voltas com um pretenso namorado, o introvertido e estranho Renet. Durante final de semana com amigos da escola, Tati perde seu celular. Pouco depois, vídeo íntimo dela com o antigo namorado invade as redes sociais. Este ato criminoso, infelizmente comum nos dias de hoje, desencadeia série de conflitos envolvendo Tati e os meninos e meninas da escola e a família de Renet. A grande virada do filme é das cenas mais chocantes e perturbadoras: Tati sozinha no corredor da escola, em frente à câmera de segurança.

O filme conquistou importantes prêmios no Brasil. Traz à tona duas gerações envoltas em seu próprios problemas: os adolescentes consumidos pelas redes sociais, sem saber lidar com a gravidade de atos como postar a intimidade alheia no ambiente virtual; os pais que convivem com problemas nos relacionamentos, no mercado de trabalho, no trato com os filhos. Filme que remete à reflexão destes tempos modernos. 

Ferrugem (Brasil, 2017), de Aly Muritiba. Com  Tiffany Dopke (Tati), Giovanni De Lorenzi (Renet), Enrique Diaz (Davi), Clarissa Kiste (Raquel), Pedro Inoue (Normal).