Sobre café e cigarros

O consagrado diretor indie Jim Jarmusch filmou Sobre café e cigarros (Coffee and Cigarettes, EUA, 2003) ao longo de 15 anos. A série de 11 curtas-metragens independentes tem como coesão narrativa o simples acaso: encontros de artistas diversos, incluindo atores, músicos, rappers, em locais minimalistas, as conversas são acompanhadas por café e cigarros. 

Os temas refletem muito da sociedade, das relações pessoais, compostos por diálogos bem humorados, reflexivos, tensos, mas sempre com o tom despretensioso de quem acaba de se encontrar para um bom bate papo regado a café e cigarros. Os destaques ficam por conta da participação engraçada de Bill Murray como um garçom que é reconhecido pela dupla de rappers RZA e GZA; do papel duplo desempenhado por Cate Blanchett, conversando com ela mesma; da conversa nonsense entre Roberto Benigni e Steven Wright. A fotografia em preto e branco, outra marca de Jim Jarmusch, é deslumbrante, reforça o tom minimalista.   

O preço da traição

Atom Egoyan exercita o neo noir, focando a narrativa na tradicional femme fatale. Chloe é uma jovem e irresistível garota de programa. Ela é contratada por Catherine, uma médica de sucesso de meia idade, para seduzir seu marido David, um professor de música. Catherine suspeita que Davi a trai durante suas viagens para congressos e concertos. Por meio de Chloe, a fidelidade de David será colocada à prova. 

A enigmática trama envolve uma série de artimanhas perpetradas por Chlore, envolvendo o casal em uma rede de desconfianças. A virada do roteiro é previsível, mas coloca O preço da traição no patamar de uma ótima sessão de entretenimento, movida a thriller e erotismo em graus elevados.  

O preço da traição (Chloe, EUA, 2009), de Atom Egoyan. Com Julianne Moore (Catherine),  Amanda Seyfried (Chloe), Liam Neeson (David), Max Thieriot (Michael).

Enter The Void: Viagem alucinante

Gaspar Noé faz uma alucinante incursão pelo mundo metafísico, abordando a pós-morte e a encarnação. Oscar é um jovem traficante de drogas que vive em Tóquio, junto com sua irmã Linda, streaper de uma boate. Seus melhores amigos são Victor e Alex – que lhe apresenta um livro tibetano sobre experiências espirituais após a morte. 

Oscar vai a um clube noturno, The Void, entregar drogas a Victor, mas é traído pelo amigo: a polícia o espera para prendê-lo em flagrante. Refugiando-se no banheiro, Oscar é alvejado pelos policiais. 

O ponto de vista em primeira pessoa é o trunfo da película. A cãmera segue o olhar de Oscar pelo submundo da Tóquio noturna, regada a sexo, bebidas e drogas, esteticamente marcada pelas infindáveis luzes estroboscópicas, o neon agressivo da cidade. 

Após a morte, o espírito de Oscar vagueia pela cidade em longos planos gerais, a famosa câmera fantasma dos primórdios do cinema. O espírito espreita, entra na intimidade de seus entes queridos, sem julgamentos, apenas um observador atento à procura de seu destino. 

Enter The Void: Viagem alucinante (França, 2009), de Gaspar Noé. Com Nathaniel Brown (Oscar), Paz de la Huerta (Linda), Cyril Roy (Alex), Olly Alexander (Victor), Masato Tanno (Mario). 

A caverna dos sonhos esquecidos

Em 1994, três exploradores descobriram uma caverna, perto do Rio Ardèche, sul da França, que contém as pinturas rupestres mais antigas – remontam a 32 mil anos atrás. Foi uma das descobertas mais importantes da arqueologia, com pinturas rupestres tão preservadas que, a princípio, suspeitou-se de fraude. Pesquisas comprovaram a autenticidade da arte.  

A Caverna de Chauvet é fechada à visitação pública, só é permitida a entrada de profissionais e pesquisadores altamente qualificados. O diretor alemão Werner Herzog conseguiu autorização do Ministério da Cultura Francês para, com uma equipe reduzida, assim como o mínimo de equipamentos necessários, filmar a caverna e suas inscrições. 

O resultado é um dos documentários mais fascinantes, quase um tratado sobre artes plásticas e cinema, finalizado em 3D. Segundo Herzog, “a caverna é como um momento congelado no tempo.”

As pinturas ocupam imensos painéis de pedra, representando animais como bisões e cavalos. As imagens de Herzog, acompanhadas de suas reflexões, refletem a tentativa dos artesãos de reproduzir imagens em movimento, retratar momentos como a caçada ou a debandada de animais. 

“Para estes pintores paleolíticos, a interação da luz e das sombras de suas tochas devia ter esta aparência. Para eles, os animais deveriam parecer vivos e em movimento. Devemos atentar que o artista pintou este bisão com 8 pernas, indicando movimento, quase uma forma de proto-cinema.” – Werner Herzog

Jean-Michel Geneste, Director of the Chauvet Cave Research Project também reflete sobre o que sempre impulsionou a humanidade em sua busca pela representação. “A sociedade humana precisa adaptar-se à paisagem, aos outros seres, aos animais e aos outros grupos humanos. E a comunicar algo, a comunicar e registrar memória em coisas muito específicas como paredes, pedaços de madeira, ossos. É a invenção da representação figurativa de animais, de homens, de objetos É uma forma de comunicação entres os seres humanos, além de evocar o passado para transmitir informação, que é melhor do que a linguagem, do que a comunicação verbal. E esta invenção continua idêntica em nosso mundo atual. Como esta câmera, por exemplo.”

Dentro da caverna, os quatro integrantes da equipe de Herzog se moviam em fila indiana (portanto, a equipe de filmagem faz parte do documentário), em caminhos que deveriam ser rigorosamente respeitados. Para captar imagens mais próximas, os técnicos usavam longas hastes para as pequenas câmeras, com baixíssima iluminação. O tempo da equipe dentro da caverna era limitado ao extremo. Tudo confere ao documentário uma rara impressão de realidade de cenas vividas pelo homem há quase 30.000 anos. É o encontro de duas magias, dois sonhos: as pinturas rupestres e o cinema. 

“Estas imagens são lembranças de sonhos há muito esquecidas. Esta é a batida do coração deles ou da nossa? Seremos capazes de compreender a visão dos artistas através desse abismo de tempo?” – Werner Herzog

A caverna dos sonhos esquecidos (Cave of forgotten dreams, EUA/Alemanha, 2010), de Werner Herzog.

The invisible frame

Em 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim, Tilda Swinton e a diretora Cynthia Beatt se uniram em um documentário. A atriz, em um road-movie de bike, percorreu o Muro de Berlim do lado ocidental, buscando vislumbres da outra Alemanha além das paredes.

21 anos depois, a ideia é a mesma, agora sem a demarcação cruel da fronteira. Tilda Swinton percorre livremente vários pontos, em um passeio contemplativo, reflexivo, por ruas, avenidas, parques que outrora foram demarcados pelo muro. A beleza do documentário está neste gesto de liberdade que um passeio de bike representa, deixando o vento ondular os cabelos, o olhar cair livremente sobre estruturas e pessoas, a mente vagar sem amarras.

The invisible frame (Alemanha, 2009), de Cynthia Beatt.

Código desconhecido

O primeiro filme de Michael Haneke na França explora as narrativas cruzadas. É manhã em uma avenida movimentada de Paris. O jovem Jean caminha com Anne pela calçada, discutindo sobre ele ficar ou não na cidade. Eles se despedem, Jean assiste por alguns segundos a um grupo de músicos de rua e joga um pedaço de papel amassado no colo de uma pedinte. Amadou, um jovem negro, vê o ato e aborda Jean, exigindo que ele peça desculpas. 

A partir deste encontro, o filme assume a estrutura fragmentada, sem coerência narrativa. Os fragmentos exploram momentos do cotidiano das pessoas envolvidas, principalmente Anne, uma atriz, seu namorado Georges, um fotógrafo de guerra, Amadou, um negro imigrante, e Irina, a pedinte também imigrante. 

A temática do filme é a grande distinção social, exacerbada pelo racismo e pela xenofobia, que se evidencia em situações cotidianas da cidade: nas ruas, em cafés, nos metrôs (atenção para a longa sequência de abordagem de um jovem marginal a Anne). Juliette Binoche domina, como sempre, mais um filme.

Código desconhecido (Code inconnu: récit incomplet de divers voyages, França, 2000), de Michael Haneke. Com Juliette Binoche (Anne), Thierry Neuvic (Georges), Josef Bierbichler (O fazendeiro), Alexandre Hamidi (Jean), Ona Lu Yenke (Amadou), Grenguta Hariton (Irina), 

A comuna

Erik, professor de arquitetura, é casado há 15 anos com Anna, uma influente apresentadora da televisão norueguesa. Erik recebe uma enorme casa de herança e para conseguir manter os custos da residência, o casal convida vários amigos para morarem juntos, formando uma comunidade. As decisões cotidianas são resolvidas em reuniões à mesa, lideradas por Ole. A harmonia da comunidade ameaça ser rompida quando Erik se apaixona por Emma, uma aluna. Após uma separação amigável, Erik leva Emma para morar na comunidade. 

Thomas Vinterberg (Festa de família), ambienta essa comunidade conflituosa, mas ao mesmo tempo regida pelas leis da amizade, nos anos 70. Os adultos às vezes explodem em crises histéricas, outras vezes se regalam à vinho e olhares cúmplices na mesa. A liberdade sexual está expressa no comportamento de Erik e Anna, no entanto, ela se mostra passo a passo despreparada para essa maturidade compreensiva. 

O contraponto dos adultos é o menino Vilads – ele tem problemas cardíacos e diz a todo mundo que conhece: vou morrer quando fizer nove anos – e a adolescente Freja, filha do casal, que assiste a tudo entre o deslumbramento e a decepção. A grande e tocante sequência do filme é quando Vilads se deita nos ombros da mãe olhando com o olhar terno para Freja, que acaba de apresentar seu namorado à comunidade. 

A comuna (Kollektivet, Dinamarca, 2016), de Thomas Vinterberg. Com Trine Dyrholm (Anna), Ulrich Thomsen (Erik), Helene Reingaard Neumann (Emma), Martha Sofie Wallstrom Hansen (Freja), Lars Ranthe (Ole), Fares Fares (Allon), Magnus Millang (Steffen), Anne Gry Henningsen (Ditte), Julie Agnete Yang (Mona), Sebastian Gronnegaard Milbrat (Vilads).

A teia de chocolate

Os filmes de Claude Chabrol flertam sempre com o thriller psicológico através de tramas que surpreendem pela complexidade dos personagens. Em A teia de chocolate, a esposa do pianista André morre em um acidente de carro. Ele volta a se casar com sua primeira esposa, Mika, especialista em chocolates. A rotina do casal muda de forma avassaladora quando a jovem Jeanne entra em cena, trazendo à tona um mistério do passado de André, envolvendo uma possível troca de bebês na maternidade. 

A narrativa não fornece grandes surpresas, os enigmas do passado, envolvendo também a morte da primeira esposa de André, se tornam previsíveis à medida que a narrativa avança. O destaque da película é Isabelle Huppert/Mika que, através de seus chocolates, seduz, inebria e se revela cada vez mais e mais perigosa. 

A teia de chocolate (Merci pour le chocolat, França, 2000), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Mika), Jacques Dutronc (André Polonski), Anna Mouglalis (Jeanne), Rodolphe Pauly (Guillaume Polonski). 

O leão volátil

Agnes Varda está sentada em um banco de praça, lendo. Ela narra:  “Em 1933 houve uma pesquisa sobre o que poderia ser feito aos monumentos para embelezar Paris. André Breton respondeu: dê ao Leão de Belfort um osso para roer e vire-o ao oeste.”

O tom surrealista consagrado por André Breton está presente na narrativa de O leão volátil. Clarisse é aprendiz de vidente, tem os olhos fascinados pelas predições de sua mentora, Madame Clara. Em alguns dias seguidos, sempre na hora do almoço, ela encontra Lazarus, porteiro que trabalha nas catacumbas parisienses. Os encontros acontecem sempre na Praça Denfert-Rochereau, onde fica a estátua do Leão de Denfert.

Clarisse, sempre com olhar deslumbrado, apaixonado, vê pequenos acontecimentos místicos, surrealistas. Objetos desaparecem nas mãos de Lazarus; o próprio Lazarus desaparece ao atravessar a rua; a sugestão de Breton aparece ante seus olhos: o leão tem um osso na boca, depois é substituído por Zgougou, o gato de Agnès Varda (mascote do Ciné-Tamaris, produtora da cineasta). São os olhos de leitores e espectadores de cinema que, assim como videntes, imaginam coisas o tempo todo. 

O leão volátil (Le lion volatil, França, 2003), de Agnés Varda. Com Julie Depardieu (Clarisse), Frédérick E. Grasser-Hermé (Madame Clara), David Deciron (Lazarus). 

Começar de novo

A estrutura narrativa do filme é o grande destaque. O início, através de uma montagem rápida, narra a relação entre dois amigos escritores, Erik e Philip, desenvolvendo uma história que poderia ter acontecido. O título Reprise entra e outra história, a verdadeira?, começa. A estratégia é sugerida no final. 

Os dois são amigos desde a infância e dividem o sonho de ser escritores. Enviam manuscritos ao mesmo tempo para a editora. Philip tem seu projeto aprovado, mas o manuscrito de Erik é rejeitado. 

Neste primeiro filme da Trilogia de Oslo, o diretor Joachim Trier trabalha com temas importantes para a juventude: sonhos e desilusões, insegurança, sérias crises depressivas – Philip, após o sucesso de seu primeiro livro, entra em uma espiral descendente, sofrendo com crises depressivas. A amizade afetuosa entre Erik e Philip aponta caminhos para vencer todos esses desafios, por vezes incontornáveis, para esses jovens sonhadores.

Começar de novo (Reprise, Noruega, 2006), de Joachim Trier. Com Anders Danielsen Lie (Philip), Espen Klouman Hoiner (Erik), Viktoria Winge (Kari), Odd Magnus Williamson (Morten), Pal Stokka (Geir), Christian Rubeck (Lars), Henrik Elvestad (Henning), Henrik Mestad (Jan), Silje Hagen (Lilian).