O filme abre com Harry Fabian sendo perseguido pelas ruas de Londres. É o destino do protagonista: perseguir o sucesso e ser perseguido pelas falcatruas que pratica.
Sombras do mal é baseado no romance Night and the city, de Gerald Kesh, apesar do diretor Jules Dassin declarar após o lançamento do filme que nunca leu o livro. Harry Fabian se envolve em perigoso esquema de organização de luta livre e bate de frente com Kristo, chefe da máfia londrina desse esporte. Como em todo bom filme noir, a tragédia ronda os personagens que caminham sem volta para a degradação. Os destaques ficam por conta do emocionante diálogo de Kristo com seu pai, o lutador Gregorius; e o ato final de Harry Fabian às margens do Rio Tâmisa.
Sombras do mal (Night and the city, Inglaterra, 1950), de Jules Dassin. Com Richard Widmark (Harry Fabian), Gene Tierney (Mary Bristol), Francis L. Sullivan (Philip Nosseross), Stanislaus Zbyszko (Gregorius), Herbert Lom (Kristo).
A narrativa tem duas frases célebres. Um amigo de Galileu o adverte quando ele teima em provar ao mundo que a terra gira em torno do sol: “Como quem está no poder pode deixar solto um homem que diz a verdade.”, referindo-se às represálias que viriam da igreja católica.
Depois que Galileu se rende à inquisição e nega sua teoria, diz aos fiéis companheiros da ciência: “Triste é o país que depende de heróis.”
O filme de Joseph Losey é inspirado na peça de Bertolt Brecht, escrita em 1938 como protesto contra os regimes totalitários. Pelo olhar de Brecht, a analogia à vida de Galileu Galilei remete aos crimes cometidos pelos ditadores fascistas.
“O que Brecht buscava, e o que a nova versão do American Film Theater para a peça consegue mostrar muito bem, é um drama de ideias, não a biografia. ‘Galileu’, da forma que foi dirigido por Joseph Losey, é um filme para se pensar. Não toma uma vida importante e a reduz às crises domésticas e ao drama histórico (como ‘O homem que não vendeu sua alma’) ou à simplificação pop (‘Agonia e Êxtase’), mas trata-a no âmbito que a tornou importante. Losey mantém-se fiel à natureza especificamente brechtiana da peça. Seu filme, que Brecht teria aprovado, nos mantém a uma certa distância e nos faz lembrar que estamos assistindo a um artifício. O conteúdo, não a habilidade, é o que interessa.” – Roger Ebert.
A encenação do filme é claramente teatral, deixando o brilhante texto de Brecht dominar o tempo narrativo. Topol encarna física e espiritualmente Galileu (apesar de ser criticado na época do lançamento pelo sotaque israelense), compondo o grande cientista de forma entusiástica, com muito humor, sem deixar de lado a amargura quando vê suas teorias contestadas arbitrariamente pelos fanáticos membros da igreja. Ainda hoje, o que fica da peça/filme é que o terror é mais forte do que a verdade.
Galileu (Inglaterra/EUA, 1975), de Joseph Losey. Com Topol (Galileu Galilei), John Gielgud (Cardeal), Marie Larkin (Virgínia), Michael Lonsdale (Cardeal Barberini), Judy Parfit (Angelica Sarti), Tom Conti (Andrea Sarti).
Galileu: um filme inspirado na vida de Galileu Galilei. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Caio Liudvik. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.
A americana Jane Hudson (Katharine Hepburn) chega à Veneza com o deslumbramento comum da primeira visita à esta cidade mágica. Ela percorre sozinha às ruas em meio aos canais, fotografando e se deixando extasiar. Em uma destas perambulações, Jane conhece Rossano (Renato de Rossi) , dono de uma loja de antiguidades, típico sedutor italiano. A paixão entre os dois coloca em debate os rígidos valores morais da solteirona Jane. Mas quem conhece Veneza, sabe que a cidade foi feita para paixões.
Quando floresce o coração (1955) foi todo filmado em Veneza, como se a câmera também descobrisse passo a passo, junto com Jane, o misticismo presente em cada esquina da cidade. O filme é o tradicional drama-romântico, valorizado pelas imagens sedutoras da cidade e pela atuação de Katharine Hepburn.
“Há algo de embaraçoso em seu papel de solteirona caída, mas Hepburn é tão habilidosa que quase, mesmo que não completamente, faz sumir o constrangimento. É difícil acreditar que o namoro de uma puritana seca com um sedutor de meia-idade faça explodir fogos de artifício no céu que o diretor, David Lean, acende, mas este é um daqueles filmes românticos que muita gente guarda na memória com bastante emoção.” – Pauline Kael.
Quando o coração floresce (Summertime, EUA/Inglaterra, 1955), de David Lean. Com Katharine Hepburn (Jane Hudson), Rossano Brazzi (Renato de Rossi), Isa Miranda (Signora Fiorini), Darren McGavin (Eddie Yaeger).
Referência: Coleção Folha Grandes Astros do Cinema. Katharine Hepburn (em) Quando o coração floresce. Cássio Starling Carlos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014.
A história do jovem Winston Churchill é narrada a partir das memórias do ex-primeiro ministro, já idoso. Simon Ward interpreta Churchill na juventude e narra a história, centrando as lembranças na difícil convivência com o pai, membro do parlamento inglês, e no fascínio pela mãe americana, de beleza sedutora na conservadora Inglaterra.
“Imagens históricas em filmes de arquivo e fotografias, semelhanças na aparência dos atores e reconstituição de época por meio de cenários e figurinos são alguns artifícios recorrentes adotados em títulos biográficos que buscam seduzir o público como base na crença na verossimilhança. A todos esses, ‘As Garras do Leão’ junta a narração em primeira pessoa, o que dá a impressão de que assistimos a um relato feito pelo próprio personagens, uma intimidade que nenhum historiador ou biógrafo conseguiria superar.” – Cássio Starling Carlos.
As garras do leão (Young Winston, EUA/Inglaterra, 1972), de Richard Attenborough. Com Simon Ward (Winston jovem/narrador), Robert Shaw (Lorde Randolph Churchill), Anne Bancroft (Lady Jennie Churchill), Anthony Hopkins (Lloyd George).
O filme é um esplendor fotográfico e estético. Com três horas de duração, a narrativa acompanha a ascensão e queda de Redmond Barry, jovem irlandês que se apaixona por sua prima. Após descobrir que ela vai se casar com um capitão do exército, Redmond duela com o capitão e é obrigado a fugir. É o ponto de partida para picarescas aventuras relacionadas ao exército que cruzam seu caminho. Quando consegue se livrar do jugo dos oficiais, Barry casa-se com Lady Lyndon, assumindo um título da nobreza.
A história é narrada em terceira pessoa, a lentidão das longas sequências tem um propósito: retratar a frugalidade da vida dos nobres ingleses que se envolvem em guerras inúteis e passam os dias em jogatinas, motivando intrigas e aproveitando a tediosa vida palaciana. A obra-prima do meticuloso diretor Stanley Kubrick deslumbra e encanta os olhos, um dos grande momentos da fotografia no cinema.
“Filmado por John Alcott usando apenas luz natural, quase sempre na ‘hora mágica’ – o momento do dia em que a luz possui uma nebulosidade perfeita -, e fazendo uso inovador da luz de velas para os interiores, as imagens de Barry Lyndon possuem grande beleza, mas sua perfeição é conjugada com a turbulência interior dos personagens aparentemente congelados. Kubrick é muitas vezes acusado de não expressar emoções, mas a sua contenção aqui é ainda mais tocante.”
Barry Lyndon (Inglaterra, 1975), de Stanley Kubrick. Com Ryan O’Neal (Barry Lyndon), Marisa Berenson (Lady Lyndon).
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008
Eva (Jeanne Moreau) está sentada em um café na Praça São Marcos. Seu belo rosto reflete em um espelho de mão. Tyvian (Stanley Baker) se aproxima, diz algo ao seu ouvido, mas é repelido. Ele se afasta, dizendo que vai esperá-la no bar. Corta para plano geral da praça ainda vazia nesta manhã de inverno. Corta para plano mais próximo, lenta panorâmica passeia pela praça, mostra o canal, as gôndolas ancoradas, a câmera continua em seu giro, agora na avenida que margeia o canal, a ponte de um dos pequenos canais ao fundo, até terminar na escultura encravada em um dos prédios. Entra locução em off: “E ao oriente do Jardim do Éden colocou querubins com uma espada de chamas que revolvia para guardar o caminho da árvore da vida”.
É das belas imagens do filme Eva (Inglaterra, 1962), de Joseph Losey. Veneza é protagonista, representa a dualidade que parece dominar a cidade: amor e tragédia. Há outras cenas: a imponente e misteriosa casa de Tyvian que é invadida por Eva em uma noite de tempestade; o majestoso hotel com janelas abertas para o grande canal, em cujos quartos se consumem amores e riquezas; jovens escritores e cineastas esquiando no mar com a cidade ao fundo; Eva sozinha na Praça de São Marcos, o cortejo de gôndolas sob a chuva no grande canal; Sergio e Tyvian em pé nos barcos se encarando e encarando o destino de Francesa (Virna Lisi). Em algumas cenas, Billie Holiday com sua voz lânguida anuncia a tristeza para quem ama em Veneza.
Tyvian é escritor de sucesso e tem seu livro adaptado para o cinema pelo produtor Sergio Blanco. Os dois amam a bela Francesca. Em uma misteriosa noite de tempestade, Tyvian conhece Eva, prostituta de luxo de Roma que passa finais de semana em Veneza com ricos comerciantes. É a história comum no cinema de homens ricos e bem-sucedidos que se entregam à paixão e devassidão por uma mulher fatal. É a essência de Veneza.
A mesma cidade de Morte em Veneza (Itália, 1971), de Luchino Visconti, que começa com a imagem na penumbra de um barco a vapor, o músico Gustav triste e solitário lendo e cochilando na proa, com pesadas vestes de inverno. Ao longe, ele avista Veneza que aos poucos toma conta da cena e da sua vida. A mesma cidade de Inverno de Sangue em Veneza (ITA/ING, 1973), de Nicholas Roeg, que também apresenta uma bela cena de um cortejo fúnebre cortando o canal da cidade, o restaurador John (Donald Sutherland) em pé na ponta do barco, contemplando a majestosa cidade. A mesma cidade que fascina a todos que passeiam pelas vielas estreitas, pelos canais, inspirando desde a simples contemplação até a entrega total a esta Veneza triste e trágica do cinema.
É dos mais deslumbrantes musicais de todos os tempos. Victoria Page (Moira Shearer), jovem aspirante a bailarina, cai nas graças do empresário Boris Lermontov (Anton Walbrook). Após performance antológica de Victoria em um musical baseado na história de Hans Christian Andersen, Bóris decide transformá-la na maior bailarina de todos os tempos, mas ela deve abdicar de sua vida pessoal e se dedicar integralmente à arte.
Passo a passo, mestre e pupila desenvolvem relação de amor e ódio, encaminhando a narrativa para a tragédia anunciada pelo próprio balé que consagrou Victoria. Os números musicais são repletos de experimentações pictóricas, coreografia, direção de arte e interpretações solos e coletivas dos dançarinos em perfeição estética raras vezes vistas no gênero.
“A heroína é cercada por telas de fundo estranhas, dignas de contos de fadas, para o exuberante balé, porém, o desenhista de produção Hein Heckroth, o diretor de arte Arthur Lawson e o fotógrafo Jack Cardiff trabalham duro para tornar as cenas fora dos palcos aparentemente normais tão ricas e exóticas quanto os momentos de destaque no teatro. (…). Contando com cores brilhantes maravilhosas, uma seleção de músicas clássicas que fogem ao clichê e um viés sinistro que captura perfeitamente a ambiguidade do tradicional, ao contrário dos contos de fadas da Disney, esta é uma obra-prima exuberante.”
Os sapatinhos vermelhos (The red shoes, Inglaterra, 1948), de Michael Power e Emeric Pressburger. Com Anton Walbrook, Marius Goring, Moira Shearer, Robert Helpmann.
Fonte: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
No final de O Leão no inverno (The lion in winter, Inglaterra, 1968), a rainha Eleanor (Katharine Hepburn) se entrega ao desespero, dizendo “Quero morrer, quero morrer”. O rei Henry (Peter O’Toole) a consola: “Você vai morrer algum dia, sabia disso? Espere mais um pouco e acontecerá”. Ela sorri.
Pouco depois, ao se despedirem, Henry grita para Eleanor que se afasta em um barco, “Sabe, espero nunca morrermos.” “Eu também”. Henry então grita, expressão de espanto, “Acha que isso é possível?” e começa a gargalhar, abre os braços e ri sem parar. Eleanor também ri abertamente no barco, um dos braços estendidos.
O leão no inverno segue a tradição cinematográfica da Inglaterra de adaptar grandes textos teatrais da língua inglesa. O filme se passa quase inteiramente no interior do castelo, gira em torno dos conflitos para a sucessão do rei Henry que deve escolher entre seus três filhos. Escolha que leva a degradação e disputas fratricidas.
É um filme lento como muitos filmes que seguem a estrutura teatral. Sua força está no texto e nas interpretações de dois atores consagrados que incorporam essa iminente aproximação da morte. O embate entre Katharine Hepburn e Peter O’Toole remete ao desperdício da vida e à falta de esperanças.
O filme, dirigido por Anthony Harvey, foi indicado a sete oscars e ganhou três, incluindo a terceira estatueta de melhor atriz para Hepburn (ela ainda ganharia mais uma, até hoje a recordista nesta categoria). É um filme que se deve assistir duas, três vezes, prestando atenção nas frases, anotando, se deixando levar pela desilusão serena destes dois grandes personagens (atores) “Nós dois estamos vivos. E pelo que eu entendo, isto é esperança.” – diz Henry olhando para o vazio.
Quatro assaltantes, liderados por Harry (Liam Neeson), executam assalto, são perseguidos pela polícia e executados durante tiroteio em uma garagem. O dinheiro era destinado a um político que lidera a máfia em Chicago. O político ameaça Verônica (Viola Davis), mulher de Harry, caso não consiga reaver o dinheiro. Verônica reúne as outras viúvas do assalto fracassado para arquitetar um novo golpe e devolver o dinheiro.
O filme é adaptado de série inglesa dos anos 80. A ação dá o tom da narrativa, com fortes papéis femininos e virada de roteiro que revela intrincados jogos de poder nos processos eleitorais. Viola Davis domina a película, marcada pela crítica social e política.
As viúvas (Widows, Inglaterra, 2018), de Steve McQueen. Com Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Colin Farrell, Liam Neeson.
Keira Knightley encarna a escritora Colette que revolucionou a literatura erótica no final do século XX a partir da publicação do livro Claudine na escola. No entanto, o livro é assinado pelo marido, Willy, famoso editor da época. Com o sucesso do livro, Willy força Colette a escrever série baseada nas aventuras sexuais de Claudine. O estilo de vida do casal combina com as narrativas, os dois enveredam por jogos sexuais com diversos parceiros.
O filme aborda um problema comum nas conservadores sociedades da época: mulheres que abdicam da autoria de obras artísticas para viverem à sombra dos maridos. A libertação de Colette acontece enquanto ela se reconhece nas aventuras amorosas até que se apaixona por uma jovem que assume identidade masculina na aristocrática elite francesa.
Colette (Inglaterra, 2018), de Wash Westmoreland. Com Keira Knightley, Dominic West, Eleanor Tomlinson, Denise Gouch.