Estranho acidente

A história começa com Stephen sozinho em sua casa de campo, à noite. Ele ouve o som de um acidente, corre até a estrada e se depara com um carro capotado. Anna é retirada com vida, mas o jovem William está morto. Narrativa em flashback reconstitui os dias anteriores ao acidente. A bela e sedutora Anna é aluna de Stephen, namora William e tem um caso com Charley, escritor e amigo do professor. 

O diretor Joseph Losey buscou abrigo na Inglaterra na década de 60 para fazer seus filmes – ele entrou para a deprimente lista negra de Hollywood durante o macarthismo. Estranho acidente traz a sua marca, refletida em personagens marcados por desejos, obsessões, a necessidade íntima de almejar vidas diferentes. Stephen, casado, sua mulher está grávida, deseja sua bela aluna, enquanto nutre inveja do sucesso de seu amigo Charley, tanto profissional como no campo das seduções. 

A trama é baseada no romance de Harold Pinter, com roteiro do dramaturgo Harold Pinter, outro autor perseguido por suas convicções políticas. O filme conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes.   

Estranho acidente (Accident, Inglaterra, 1967), de Joseph Losey. Com Dirk Bogarde (Stephen), Stanley Baker (Charley), Jacqueline Sassard (Anna), Michael York (William), Vivien Merchant (Rosalind).

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Galileu

A narrativa tem duas frases célebres. Um amigo de Galileu o adverte quando ele teima em provar ao mundo que a terra gira em torno do sol: “Como quem está no poder pode deixar solto um homem que diz a verdade.”, referindo-se às represálias que viriam da igreja católica.

Depois que Galileu se rende à inquisição e nega sua teoria, diz aos fiéis companheiros da ciência: “Triste é o país que depende de heróis.”

O filme de Joseph Losey é inspirado na peça de Bertolt Brecht, escrita em 1938 como protesto contra os regimes totalitários. Pelo olhar de Brecht, a analogia à vida de Galileu Galilei remete aos crimes cometidos pelos ditadores fascistas.

“O que Brecht buscava, e o que a nova versão do American Film Theater para a peça consegue mostrar muito bem, é um drama de ideias, não a biografia. ‘Galileu’, da forma que foi dirigido por Joseph Losey, é um filme para se pensar. Não toma uma vida importante e a reduz às crises domésticas e ao drama histórico (como ‘O homem que não vendeu sua alma’) ou à simplificação pop (‘Agonia e Êxtase’), mas trata-a no âmbito que a tornou importante. Losey mantém-se fiel à natureza especificamente brechtiana da peça. Seu filme, que Brecht teria aprovado, nos mantém a uma certa distância e nos faz lembrar que estamos assistindo a um artifício. O conteúdo, não a habilidade, é o que interessa.” – Roger Ebert.

A encenação do filme é claramente teatral, deixando o brilhante texto de Brecht dominar o tempo narrativo. Topol encarna física e espiritualmente Galileu (apesar de ser criticado na época do lançamento pelo sotaque israelense), compondo o grande cientista de forma entusiástica, com muito humor, sem deixar de lado a amargura quando vê suas teorias contestadas arbitrariamente pelos fanáticos membros da igreja. Ainda hoje, o que fica da peça/filme é que o terror é mais forte do que a verdade.  

Galileu (Inglaterra/EUA, 1975), de Joseph Losey. Com Topol (Galileu Galilei), John Gielgud (Cardeal), Marie Larkin (Virgínia), Michael Lonsdale (Cardeal Barberini), Judy Parfit (Angelica Sarti), Tom Conti (Andrea Sarti).

Galileu: um filme inspirado na vida de Galileu Galilei. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Caio Liudvik. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.

Eva

Eva (Jeanne Moreau) está sentada em um café na Praça São Marcos. Seu belo rosto reflete em um espelho de mão. Tyvian (Stanley Baker) se aproxima, diz algo ao seu ouvido, mas é repelido. Ele se afasta, dizendo que vai esperá-la no bar. Corta para plano geral da praça ainda vazia nesta manhã de inverno. Corta para plano mais próximo, lenta panorâmica passeia pela praça, mostra o canal, as gôndolas ancoradas, a câmera continua em seu giro, agora na avenida que margeia o canal, a ponte de um dos pequenos canais ao fundo, até terminar na escultura encravada em um dos prédios. Entra locução em off: “E ao oriente do Jardim do Éden colocou querubins com uma espada de chamas que revolvia para guardar o caminho da árvore da vida”.

É das belas imagens do filme Eva (Inglaterra, 1962), de Joseph Losey. Veneza é protagonista, representa a dualidade que parece dominar a cidade: amor e tragédia. Há outras cenas: a imponente e misteriosa casa de Tyvian que é invadida por Eva em uma noite de tempestade; o majestoso hotel com janelas abertas para o grande canal, em cujos quartos se consumem amores e riquezas; jovens escritores e cineastas esquiando no mar com a cidade ao fundo; Eva sozinha na Praça de São Marcos, o cortejo de gôndolas sob a chuva no grande canal; Sergio e Tyvian em pé nos barcos se encarando e encarando o destino de Francesa (Virna Lisi). Em algumas cenas, Billie Holiday com sua voz lânguida anuncia a tristeza para quem ama em Veneza.

Tyvian é escritor de sucesso e tem seu livro adaptado para o cinema pelo produtor Sergio Blanco. Os dois amam a bela Francesca. Em uma misteriosa noite de tempestade, Tyvian conhece Eva, prostituta de luxo de Roma que passa finais de semana em Veneza com ricos comerciantes. É a história comum no cinema de homens ricos e bem-sucedidos que se entregam à paixão e devassidão por uma mulher fatal. É a essência de Veneza.

A mesma cidade de Morte em Veneza (Itália, 1971), de Luchino Visconti, que começa com a imagem na penumbra de um barco a vapor, o músico Gustav triste e solitário lendo e cochilando na proa, com pesadas vestes de inverno. Ao longe, ele avista Veneza que aos poucos toma conta da cena e da sua vida. A mesma cidade de Inverno de Sangue em Veneza (ITA/ING, 1973), de Nicholas Roeg, que também apresenta uma bela cena de um cortejo fúnebre cortando o canal da cidade, o restaurador John (Donald Sutherland) em pé na ponta do barco, contemplando a majestosa cidade. A mesma cidade que fascina a todos que passeiam pelas vielas estreitas, pelos canais, inspirando desde a simples contemplação até a entrega total a esta Veneza triste e trágica do cinema.

O assassinato de Trotski

Uma de minhas leituras recentes mais tristes e perturbadoras foi O homem que amava os cachorros. O cubano Leonardo Padura usa da narrativa paralela para contar a história de Ramón Mercader e Leon Trotsky até colocar frente a frente, na Cidade do México, assassino e vítima.

Em O assassinato de Trotski (L’Assassinat de Trotsky, Itália, França, Reino Unido, 1972), o diretor Joseph Losey se concentra nos últimos dias deste encontro, preparando o espectador também em montagem paralela para o crime arquitetado e executado a mando do Governo de Stálin. Trotski (Richard Burton) vive enclausurado, junto com a mulher Natália, em uma fortaleza, protegido por correligionários armados. Franck Jackson/Mercader (Alain Delon) transita pela cidade junto com a amante Gita Samuels (Romy Schneider), buscando formas de se inserir na casa e na vida do famoso revolucionário soviético.

Solitário, quase esquecido, com tristeza contagiosa, Trotski passa os dias no jardim, refletindo, ditando para o gravador. Jackson se joga na conturbada vida urbana, em meio a manifestações políticas, o caos das ruas, assistindo a uma impressionante tourada, filmada com requintes de tortura e sadismo no momento da execução do touro, preparação para o ato final do espanhol Mercader. É o confronto também de dois grandes atores em momentos sublimes: Richard Burton e Alain Delon.

“Entre a vítima e o assassino se estabelece uma tripla relação: de oposição, por intermediários e de fascinação recíproca. A de oposição é resumida por Losey no contraste entre um personagem monolítico e um personagem instável. A composição de Richard Burton, pelo próprio fato de agregar elementos ‘estranhos’ ao ator (maquiagem, envelhecimento, mudança da voz), ainda que surpreenda, é equilibrada pela de Delon, que prolonga visivelmente os recursos de uma imagem juvenil. Aliás, a oposição é indicada por Losey desde a primeira aparição dos dois personagens: um diante do espelho, o outro diante de um gradil.” – Gérard Legrand.

Referência: O assassinato de Trotski: um filme inspirado na vida de Leon Trotski. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Euclides Santos Mendes. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.