Quando o strip-tease começou (The night they raided Minsky’s, EUA, 1968), de William Friedkin.
Em 1925, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), uma jovem criada em uma comunidade Amish, chega a Nova York, fugindo da dominação religiosa do pai. O sonho de Rachel é ser dançarina de palco. Ela logo encontra a trupe que se apresenta no teatro burlesco dirigido por Minsky (Elliot Gould). A trupe oferece a Rachel uma apresentação especial à meia-noite, que, na verdade, seria uma farsa para burlar a vigilância repressiva das ligas de decência da cidade. Durante a apresentação, a jovem acaba inventando, por acaso, o strip-tease.
No início da carreira, William Friedkin assume o tom libertário, provocador e irreverente da Nova Hollywood. Quando o strip-tease começou é uma junção de esquetes cômicas nonsenses, números musicais fragmentados, fotografia que oscila entre o preto e branco e as cores exuberantes. O início do filme é uma bela homenagem ao cinema mudo.
O sol brilha na imensidão (The sun shines bright, EUA, 1953), de John Ford.
O Juiz Priest (Charles Winninger) apareceu pela primeira vez no filme Judge Priest (1934), do próprio John Ford. O sol brilha na imensidão é uma espécie de continuação, fato raro no cinema clássico americano do período.
William Priest segue demonstrando sua dignidade, senso de justiça e humanismo. Ele é juiz de uma pequena cidade do Kentucky, sul dos Estados Unidos, região demarcada pelo racismo que atinge níveis de violência extrema. O Juiz Priest agora tem em mãos dois casos que evidenciam o preconceito da sociedade sulista. Uma prostituta retorna à cidade e é rejeitada por todos; após a sua morte, ela não pode nem mesmo ter um enterro digno. Um jovem negro é acusado injustamente de um crime e está prestes a ser linchado pela população.
Priest está disputando a reeleição para o cargo e sua corajosa atitude na defesa dos dois casos faz com que ele se indisponha com os eleitores. John Ford carrega sua narrativa com o idealismo e humanismo do Juiz, simbolizado em uma sequência emocionante: mesmo arriscando perder a eleição, Priest organiza e segue à frente do enterro da prostituta, encarando com altivez a sociedade.
Um crime por dia (Gideon’s day, EUA, 1958), é um raro filme policial de John Ford. A trama, adaptada do romance homônimo de John Creasey, acompanha um dia na vida do policial George Gideon (Jack Hawkin. O inspetor tenta desvendar com agilidade casos que incluem o roubo de uma joalheria, um assassinato e até mesmo corrupção interne em seu departamento de polícia. Enquanto isso lida com questões familiares.
Inteiramente filmado em Londres, Um crime por dia é uma trama policial leve, sem grandes reviravoltas. Ford explora o lado humano do policial, sem enveredar por aspectos dramáticos, ao contrário, tratando tudo com bom humor, principalmente na relação amorosa na qual a sua filha se envolve durante esse atribulado dia. São 24 horas na vida do inspetor que, claro, podemos também classificar de uma pessoa comum, trabalhadora e apegada à família.
Peregrinação (Pilgrimage, EUA, 1933), de John Ford. Com Henrietta Crosman (Henrietta Crosman), Marion Nixon (Mary Saunders), Heather Angel (Suzanne), Norman Foster (Jim Jessop).
A viúva Hannah Jessop é uma mãe opressora e autoritária com Jim seu único filho. Ela não aceita o namoro do filho com Mary, uma jovem de classe social mais baixa e, para impedir o casamento, alista Jim para lutar na Primeira Guerra Mundial.
Esse filme menos conhecido do aclamado diretor John Ford é um relato sensível sobre a perda, luto e sentimento de culpa. Quando recebe a notícia da morte de seu filho nos campos de batalha, Hannah Jessop empreende uma jornada de redenção. A peregrinação do título acontece quando ela aceita participar de um programa do governo americano que leva as mães para a Europa para visitar os túmulos dos filhos mortos durante o conflito.
O destaque do filme é a atuação de Henrietta Crosman. A atriz contribui de forma decisiva neste melodrama, um gênero que John Ford investiu pouco em sua longa carreira.
Legião invencível (She wore a yellow ribbon, EUA, 1949), de John Ford, é o segundo faroeste da Trilogia da Cavalaria, que se completa com Forte Apache (1948) e Rio Grande (1950). O Capitão Nathan Brittles (John Wayne) está a dias de se aposentar quando recebe uma perigosa missão: escoltar a mulher e a sobrinha do comandante do forte em território controlado pelos índios.
A trama é um tributo de Ford ao exército americano, ressaltando a nobreza do Capitão, os laços emocionais que se criam entre os soldados, com a camaradagem aflorando a cada sequência. O tom de melancolia e saudosismo permeia a trajetória de Nathan – as cenas mais sensíveis do filme acontecem quando o Capitão coloca seu banquinho ao lado do túmulo de sua esposa e conversa com ela.
A película foi realizada, como de costume nos filmes de Ford, no Monument Valley, com bela fotografia (vencedora do Oscar daquele ano) em Technicolor de Winton C. Hoch. John Wayne, eterno colaborador de Ford, tem uma de suas atuações mais sensíveis e contidas, emanando sentimentos ternos para seus comandados, para as mulheres que escolta, para o velho índio a quem respeita.
O homem que nunca pecou (The whole town ‘s talking, EUA, 1935), de John Ford. Com Edward G. Robinson, Jean Arthur, Arthur Hobi.
O ponto de destaque deste drama policial de John Ford, resvalando para o humor negro, é o ator Edward G. Robinson, figura tarimbada do gênero noir. Ele interpreta dois personagens: Arthur Ferguson Jones, um pacato (quase O idiota de tão ingênuo, nobre e honesto) funcionário de escritório, é confundido com Killer Mannion, um notório e cruel gangster que acaba de fugir da prisão. A incrível semelhança entre os dois coloca Arthur na mira da polícia, acarretando sua prisão e uma série de reportagens na imprensa.
Essa trama simples, de fácil resolução pela polícia, tem uma reviravolta: Mannion se aproveita da semelhança e assume a identidade do funcionário para continuar praticando seus crimes.
O talento de Robinson no papel duplo se revela a cada momento. Sua face, seu olhar, seu comportamento mudam de forma assustadora. Quando ele é Arthur, a ingenuidade está expressa em olhares, falas e gestos tímidos, o medo dominando . Quando Mannion entra em cena, seu olhar é o próprio terror, por si só uma ameaça à sociedade. A virada final, quando os duplos assumem a identidade um do outro traz um tom de psicanálise à trama, com toques de humor e críticas à sociedade que rotula as pessoas.
Homem morto (Dead man, EUA, 1995), de Jim Jarmusch
Após uma quase interminável viagem de trem, o “almofadinha do leste” William Blake (Johnny Depp) chega a Machine, no Oeste americano, para assumir um cargo de contador. Como demorou muito para chegar, o cargo já havia sido preenchido e, sem dinheiro, Blake passa a noite com uma prostituta. De manhã, o noivo dela aparece no quarto e, após um tiroteio, a prostituta e o noivo morrem.
O que Blake não sabe é que seu destino está selado: o homem que matou no quarto é filho do empresário que o contrataria, um violento e sádico homem do Oeste. Em sua fuga, Blake encontra Ninguém, um índio culto que viveu na Inglaterra, que se torna seu único aliado.
“ Este filme de Jim Jarmusch é um ensaio sobre a contemplação, que seduz através da cinematografia em preto-e-branco de Robby Muller (influenciado por Ansel Adams), do violão primorosamente simples de Neil Young e da interpretação delicadamente poética de Depp. (…). Muito da narrativa e violência em Homem morto é monótona e indiferente, em especial o comportamento obstinado, quase catatônio de Cole Wilson (Henriksen), que não chega a ser um matador a sangue-frio, mas um que não tem sangue algum. O silêncio que impregna o grande vazio do Oeste, a bétula prateada deslizando enquanto William cavalga pela floresta, a objetividade de Ninguém à medida que pratica rituais não muito compreensíveis para um homem não muito consciente convergem para uma evocação quase ininteligível de pessoa, lugar e momento. Quando, ao final, Ninguém empurra William para dentro de um grande lago, a canoa-espírito desliza para o outro mundo, uma visão que relembra o rei Arthur, morto, sendo levado para Avalon.”
Homem morto (Dead man, EUA, 1995), de Jim Jarmusch. Com Johnny Depp, Gary Farmer, Lance Henriksen, Michael Wincott, Iggy Pop, Gabriel Byrne, Robert Mitchum.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Trem mistério (Mystery train, EUA, 1989), de Jim Jarmusch, é composto por três histórias que se entrelaçam em um hotel decadente, em Memphis. Na primeira, um jovem casal japonês chega à cidade e visita Graceland. Eles são fanáticos por rock e querem conhecer tudo sobre o legado musical de Elvis Presley.
A segunda história acompanha Luísa, uma viúva italiana que, após despachar o caixão do marido para a Itália, se vê sem rumo na cidade. Ela também se hospeda no hotel, dividindo o quarto com uma moradora local. Durante a noite, a italiana é visitada pelo fantasma de Elvis Presley.
Nesse mesmo hotel, uma gangue de jovens se esconde após praticar um assalto. Johnny, conhecido como Elvis, está em depressão, motivada pelo abandono da namorada. A terceira história é recheada de violência e humor, bem ao estilo Jim Jarmusch.
As três histórias se passam na mesma noite e os hóspedes são recebidos por uma dupla surreal de porteiros. Trem mistério é uma grande homenagem, recheada de nostalgia, à cultura pop dos EUA, representada por Elvis Presley e por Memphis que carregam, assim como o hotel e seus hóspedes, uma certa decadência.
Uma noite sobre a terra (Night on earth, EUA, 1992), de Jim Jarmusch, desenvolve a narrativa em formato episódico. São cinco histórias que acontecem dentro de táxis, em cinco cidades: Los Angeles, Nova York, Paris, Roma e Helsinque.
Os gêneros das histórias variam entre drama e comédia, principalmente. Em Los Angeles, Winona Ryder vive uma motorista cool, irreverente em seu jeito de vestir, se comportar e falar. O choque acontece quando sua passageira, uma executiva de um estúdio de cinema, se interessa pela jovem motorista e a convida para fazer um teste para um filme.
Esse episódio determina o tom dos demais: narrativas baseadas em extensos diálogos dentro dos veículos, às vezes beirando o absurdo, como no ótimo capítulo passado em Roma. Roberto Benigni transporta um padre em seu carro e quase de forma surreal começa a contar ao padre suas experiências sexuais.
As outras três narrativa mesclam ações de solidariedade a um imigrante perdido em Nova York em sua primeira viagem como motorista, questões filosóficas e raciais debatidas entre um motorista negro e a passageira cega (Paris) e uma tragédia pessoal, recheada de aspectos melancólicos e sombrios. Em Helsinque, o motorista conta sua trágica história para um grupo de passageiros bêbados.
Estranhos no paraíso (Stranger than paradise, EUA, 1984), de Jim Jarmusch, tem um lugar na lembrança de todo cinéfilo que aprendeu a amar os road-movies a partir dos anos 70. A narrativa acompanha a jornada de três jovens, os húngaros Willie (John Lurie) e Eva (Eszter Balint) e o americano Eddie (Richard Edson). Os três embarcam em uma jornada rumo à Califórnia, meio sem rumo e sem dinheiro, bem ao estilo underground da geração perdida dos anos 80.
A história é contada em três capítulos: A Chegada de Eva, Cleveland e Paraíso. O tom de passividade e quase alienação dos jovens é pontuado pela bela fotografia em preto e branco, planos longos, resultando em um ritmo lento, diálogos mínimos entre os três viajantes e trilha sonora composta por música húngara e rock and roll. É o olhar melancólico, porém com um leve bom humor, de Jarmusch sobre o american way of life.
Uma curiosidade genial sobre o filme está no depoimento de Wim Wenders, outro gênio do road-movie, sobre como o acaso fez com que ele ajudasse Jim Jarmusch a realizar Estranhos no paraíso.
“Tem um filme que preciso mencionar: Estranhos no Paraíso. Jim Jarmusch era um assistente muito quieto no filme que eu fiz com Nicholas Ray, Um Filme para Nick. Jim tinha uma banda de rock, uma ótima banda, por sinal, mas queria fazer cinema. Ele era muito modesto, quieto, não falava muito. Um dia, no final das gravações, ele veio ao meu escritório, em Nova York. Abriu a geladeira, sem imaginar que não havia uma garrafa de Coca-Cola ali dentro, e sim restos de filme. Particularmente duas grandes caixas de negativos em preto-e-branco, 35 milímetros, que restaram das gravações de O Estado das Coisas. Eu não tinha usado aqueles negativos, o que é estranho, porque sempre uso meus filmes até o último metro. Mas aqui estavam quatro caixas intocadas de sobras de filme. Comecei a perceber que Jim vinha todo dia, sempre abria a geladeira e ficava olhando fixamente para aquelas caixas. Ele não dizia nada, até que um dia finalmente me diz: “o que você vai fazer com estes negativos?” Eu lhe disse: “não tenho um projeto em preto-e-branco agora, então não vou fazer nada por enquanto”. Jim volta para a geladeira, abre a porta, mais uma vez olha fixamente para os filmes e me diz: “você pode dá-los pra mim?”. Disse-lhe: “claro, melhor fazer algo com eles antes que envelheçam aí”. Então ele vai e faz Estranhos no Paraíso. Ele filmou em 1984, e eu só vi o filme uns dois anos depois. Jim ganhou, com este filme, a Câmera de Ouro no Festival de Cannes [para diretores estreantes]. Eu… hum, não deveria dizer isso, mas ganhei a Palma de Ouro com Paris, Texas, e naquela noite nós dois éramos os homens mais felizes deste planeta. Nós jogamos pinball a noite toda, ficamos terrivelmente bêbados, e estávamos tão felizes um pelo outro. Quero dizer, eu estava orgulhoso de ter ganhado a Palma de Ouro, mas o fato de Jim ter ganhado a Câmera de Ouro era algo muito melhor. Jim sentia o mesmo. Ainda o vejo olhando para aquela geladeira. Às vezes, é o que basta.” – Palavras de Cinema