Tag: EUA

  • Casamento ou luxo

    Charles Chaplin busca uma espécie de alternativa em sua carreira ao dirigir Casamento ou luxo (1923), um drama ambientado em Paris. O diretor tomou o cuidado de alertar o público, inserindo uma cartela nos créditos: “Para evitar qualquer mal-entendido, gostaria de precisar que não apareço neste filme.”

    A trama acompanha Marie, jovem da província enamorada de um pobre artista. O acaso impede que os dois embarquem para Paris. Sozinha na cidade, Marie se torna amante de um playboy rico, bem ao estilo de um bon vivant da aristocracia parisiense. 

    Com forte apelo melodramático, o filme foi um fracasso de público e crítica, deixando Chaplin ressentido. “Meu filme Casamento ou Luxo não teve sucesso na América porque o final não dava margem à esperança e, ainda, porque descrevia a vida tal como ela é. Ao público, ao contrário, agrada que o protagonista escape da morte inevitável, que a mulher volte finalmente para ele, para uma vida feliz. No entanto, Casamento ou Luxo é quase uma tragédia. A tragédia me agrada, e agrada porque sobre sua base há sempre qualquer coisa de belo. E, para mim, o belo é o que há de mais precioso na arte e na vida. É conveniente ocupar-se da comédia quando ali se encontra esse motivo de beleza, mas isso é tão raro.” – Charles Chaplin. 

    Casamento ou luxo (A woman of Paris, EUA, 1923), de Charles Chaplin. Com Edna Purviance (Marie St. Clair), Carl Miller (Jean Millet), Adolphe Menjou (Pierre Revel). 

    Referência: Coleção Folha Charles Chaplin. Casamento ou Luxo. Um filme dirigido por Charles Chaplin. Cássio Starling e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2012.

  • Entre mulheres

    O ano é 2010. Em uma colônia agrícola, moram homens e mulheres regidos pela ortodoxia religiosa que coloca os homens no poder e as mulheres em posições subalternas e subservientes – não podem nem mesmo aprender a ler. Durante um período, jovens da comunidade são drogadas e estupradas, algumas engravidando dos agressores. 

    Alguns desses homens são identificados e levados para a delegacia. Mas os anciões da aldeia avisam: todos os homens vão voltar em 48 horas e as mulheres devem perdoar os agressores. 

    A diretora Sarah Polley adaptou o livro de Miriam Toews que recria os crimes que ocorreram contra as mulheres em um colônia menonita, na Bolívia, em 2009. Grande parte da trama se passa dentro de um celeiro. As mulheres devem votar em três opções: perdoar os agressores, fugir, ficar e lutar. Após empate entre as duas últimas opções, oito mulheres são escolhidas para analisar e decidir. 

    A direção de fotografia espelha, nas cenas externas, a beleza agreste da colônia, com seus campos floridos, o entardecer inebriante, como se fosse um lugar idílico, belo de se viver. Nas cenas internas, particularmente dentro do celeiro, onde acontecem os longos debates entre as mulheres (women talking) a fotografia carrega no ar claustrofóbico, de pura angústia, medo e tristeza – em ambientes assim, as mulheres são espancadas e estupradas. 

    Entre mulheres concorreu a dois Oscars: Melhor filme e Roteiro Adaptado. Vale destacar as atuações de Rooney Mara, Claire Foy e Jessie Buckley. O embate verbal entre as três personagens é sensível, sofrido, quase como um grito de desespero. É um filme de uma brutalidade ensurdecedora, mesmo sem mostrar nenhuma agressão física. 

    Entre mulheres (Women talking, EUA, 2023), de Sarah Polley. Com Rooney Mara (Ona), Claire Foy (Salome), Jessie Buckley (Mariche), Judith Ivey (Agata), Emily Mitchell (Miep), Ben Whishaw (August).

  • Saltburn

    O jovem Oliver Quick chega a Oxford para um período de residência. É o início dos anos 2000 e a juventude da renomada universidade segue os padrões rotineiros: estudos, baladas, álcool, sexo. Oliver, cuja narração em off acompanha a trama, se apaixona pelo belo milionário Felix, “não estou apaixonado por Feliz, eu o amo”, destaca Oliver. 

    Nas férias de verão, Oliver é convidado por Felix para passar a temporada na mansão de sua família. Saltburn é uma espécie de castelo de contos de fadas, habitado por Sir James Catton, sua esposa Elspeth e Annabell, irmã de Félix. E, claro, uma legião de estranhos empregados. 

    A fotografia do filme é um dos destaques, evidenciando a beleza interna e externa da propriedade, assim como os corpos dos jovens neste verão reluzente, pleno de devaneios eróticos. Oliver, a princípio tímido (ou aparenta) passa a ser o pivô de um sensual jogo de manipulação entre a família e convidados. Um dos méritos da diretora Emerald Fennell é tratar de todo o erotismo através de insinuações tensas, sem usar de cenas de sexo ousadas. Félix é o centro do desejo, sua beleza atrai naturalmente os anseios de todos, inclusive dos espectadores. O ponto negativo do filme é a reviravolta final, expressa em confusos flashbacks que exploram a verdadeira personalidade de Oliver.  

    Saltburn (EUA, 2023), de Emerald Fennell. Com Barry Keoghan (Oliver Quick), Jacob Elord (Felix Catton), Rosamund Pike (Elspeth Catton), Richard E. Grant (Sir James Catton), Archi Madekwe (Fernleigh), Sadie Soverall (Annabel Catton).

  • The great buster: a celebration

    Peter Bogdanovich (1939/2022) foi um dos mais importantes críticos dos EUA. Quando começou a dirigir, fez parte da geração da Nova Hollywood. No início da carreira, realizou um sensível filme sobre o cinema: A última sessão de cinema (1971). No mesmo ano, Bogdanovich dirigiu o documentário Dirigido por John Ford; com seu olhar de crítico e realizador, ele dissecou o estilo do mestre John Ford. O próprio Bogdanovich conta que após assistir ao documentário, John Ford, arredio, avesso a contatos com a imprensa, que sempre se recusou a falar de seu próprio cinema, teria se aproximado, estendido a mão a Bogdanovich e dito: “Obrigado.”

    No final da carreira, Peter Bogdanovich se voltou para outro grande do cinema americano de todos os tempos: o gênio da comédia muda Buster Keaton. The great buster: a celebration (EUA, 2018) traz cenas e imagens raras sobre o comediante, inúmeros trechos de seus aclamados filmes e depoimentos de admiradores como Werner Herzog e Quentin Tarantino. 

    A narrativa acompanha a trajetória profissional e pessoal de Buster Keaton, marcada por uma série de clássicos na última década do cinema mudo. Com o surgimento do cinema falado, Keaton continuou a produzir, mas caiu gradualmente no esquecimento até ser homenageado por Charlie Chaplin, em uma performance antológica interpretando a ele mesmo em Luzes da ribalta (1952). Foi a única vez em que os gênios da comédia atuaram juntos no mesmo filme. 

    No aspecto pessoal, fica claro a desilusão de Buster Keaton com os rumos de sua trajetória profissional a partir dos anos 30. Cada vez mais entregue à tristeza e ao alcoolismo, Keaton lutou muito para manter sua arte, centrada na interpretação.

  • We can’t go home

    O diretor Nicholas Ray, autor de clássicos como Juventude transviada e Johnny Guitar atuou como professor nos anos 70, na Harpur College, Nova York. We can’t go home again (EUA, 1973) é uma espécie de trabalho acadêmico, filme experimental que realizou com um grupo de alunos.

    O filme segue o estilo de um docfic, narrativa fragmentada de um pretenso filme de ficção entremeado pelas intervenções de Nicholas Ray, quando pontua questões sobre linguagem, estética e outros procedimentos narrativos. Nas intervenções e orientações aos seus alunos, o diretor reflete sobre seu cinema e sobre o cinema moderno, trabalhando com arrojadas experimentações narrativas e estéticas. Com o perdão do trocadilho, We can’t go home é uma verdadeira aula de cinema. 

  • Laura

    Alfred Hitchcock se referiu que o amor que Scottie (James Stewart) desenvolve por Madeleine (Kim Novak) em Um corpo que cai (1958) era “necrofilia pura”, afinal, Madeleine já era um cadáver. Apaixonar-se pelo retrato de uma jovem morta pode se aproximar disto em um sentido mais poético. 

    Em Laura, clássico do cinema noir, O detetive Mark McPherson está investigando o assassinato de Laura, ocorrido na noite anterior, uma sexta-feira. Ela abriu a porta de seu apartamento e foi alvejada por dois tiros de espingarda. 

    O principal suspeito é o playboy Shelby Carpenter, na lista se inclui também o jornalista excêntrico Waldo Lydecker, espécie de tutor de Laura no mundo profissional. Incluindo o detetive e o pintor do quadro, que não participa da trama, são quatro homens fascinados, apaixonados por Laura. A virada acontece quando o detetive adormece em uma cadeira, com o retrato de Laura ao fundo. A porta se abre e Laura entra. 

    “Nos cenários claustrofóbicos e de um excêntrico tom onírico pelos quais transitam as personagens – raramente acompanhadas de figurantes, o que dá ainda mais relevância a cada linha de diálogo que sai de suas bocas -, um dos elementos simbólicos mais proeminentes é o retrato de Laura pintado por um de seus admiradores, quase onipresente na mise-en-scène minuciosa de Preminger. Representado na tela está uma figura feminina pela ótica masculina que, segundo Waldo, não é capaz de captar a pulsante chama de vida que resplandece de sua pele. Por essa razão, a indagação sobre quem a matou é abandonada antes da metade do filme, pois o que está em jogo é muito mais a existência de cada um dos homens – e por extensão o próprio público, pleno de convicções – atribui a ela.” – Vinicius Lins Magno

    Laura subverte um dos princípios básicos do filme noir: a femme fatale sedutora, fria e calculista que manipula os homens para atingir seus objetivos.  A Laura de Gene Tierney é inocente, em um certo aspecto ingênua de seus encantos, pensa estar apaixonada por Carpenter e quer protegê-lo. Claro, usa de seus encantos joviais para ascender na profissão e na sociedade, se aproveitando do fascínio que o famoso jornalista sente por ela. Mas não é o arquetípico da criminosa do noir. 

    “A protagonista, mesmo que completamente inocente no crime e aparentemente alheia ao feitiço que conjura com sua beleza, não precisa apontar um revólver para o rosto de alguém para fazer as vezes de femme fatale. É a curiosidade quase vulgar em torno de sua figura que acende a pólvora no coração dos homens e os projeto à autodestruição, numa trajetória de insanidade.” – Vinicius Lins Magno. 

    O destaque do filme, uma das grandes cenas do cinema noir, é quando o detetive interroga Laura em seu gabinete. Laura está sentada diante da luz agressiva usada em interrogatórios. McPherson está em pé do outro lado da mesa. Ela acusa o detetive de estar tentando forçá-la a confessar o crime. A conversa segue, Laura abaixa a cabeça e encobre o rosto com uma das mãos: “Não posso, por favor. Essa luz precisa ficar no meu rosto?” McPherson desliga a luz, Laura levanta a cabeça e olha para o detetive, iluminada pela suave luz noir, seu rosto no esplendor de uma triste beleza. Apaga-se o retrato, McPherson finalmente vê Laura surgir diante de seus olhos apaixonados. 

    Laura (EUA, 1944), de Otto Preminger. Com Gene Tierney (Laura Hunt), Dana Andrews (Mark McPherson), Clifton Webb (Waldo Lydecker), Vincent Price (Shelby Carpenter), Judith Anderson (Ann Treadwell). 

    Referência: Livreto encartado no bluray da Versátil Home-Vídeo, curadoria de Fernando Brito.

  • Depois do vendaval

    Depois do vendaval (The quiet man, EUA, 1952), de John Ford.

    Vamos falar de dois beijos. No primeiro, Sean Thornton (John Wayne) e Mary Kate Danaher (Maureen O’Hara) correm fustigados pelo vento da fria Irlanda e entram na cabana de Sean. Quando abrem a porta, o vento impetuoso impele Mary. Sean a segura pela mão e a puxa de volta, de encontro ao seu peito. O beijo acontece ao sabor do vento e da chuva aconchegando os dois enamorados. 

    O segundo beijo. Sean e Mary tentam se esconder da chuva repentina debaixo de um arco de concreto, no cemitério da cidade. Ela olha assustada os relâmpagos, seus cabelos ruivos já respingados pela chuva. John Wayne tira o paletó e encobre os ombros dela. Ele não se importa com a chuva, deixa a água cair pelo seu rosto, encharcar sua camisa branca. Assustada com um relâmpago mais forte, Maureen O’Hara se protege no peito dele. Completamente encharcados, os dois se olham com ternura e se beijam. 

    Dois beijos rápidos, como a época impunha, mas nem mesmo o rígido Código Hays que determinava idiotices assim nos filmes (tempo limitado de lábios nos lábios) conseguiu impedir o erotismo dessas cenas. 

    John Ford conquistou seu quarto Oscar de melhor diretor (recorde não batido até hoje) por Depois do vendaval. O ex-boxeador Sean Thornton retorna à sua cidade natal, na Irlanda, disposto a comprar a casa onde passou a infância. A motivação será revelada mais à frente, em uma sequência que revela a plenitude visual que acompanhou toda a obra de Ford: durante uma luta de boxe nos EUA, Sean mata acidentalmente seu oponente – toda a sequência é silenciosa, a câmera e a montagem evidenciando a angústia e a dor do protagonista após o ato fatídico. 

    Logo após a chegada, Sean vê Mary no belo campo (a paisagem é um dos destaques do filme, emoldurada pela bela fotografia de Winton C. Hoch). Os dois se apaixonam, mas o casamento será impedido pelo irmão de Mary, Danaher (Barry Fitzgerald), um turrão irlandês que não aceita o forasteiro atrevido. 

    A narrativa termina com uma sequência apoteótica: Sean e Danaher se enfrentam em uma luta acompanhada por todos da cidade, que se divertem enquanto apostam no vencedor. A contenda se estende por quilômetros, com intervalos para que os dois descansem e bebam. Por fim, bêbados, se abraçam em uma amizade fraterna. 

    Depois do vendaval é desses filmes que divertem, enternece, deixa o espectador enlevado em uma bela história de amor. Impossível resistir à paisagem da Irlanda, à beleza contagiante de Mary, à tristeza poética de Sean, vencida pela paixão que motiva o desejo de renascer. O nome por trás disto tudo: John Ford, para muitos, o melhor diretor americano de todos os tempos.  

  • Down by law

    Down by law (EUA, 1986), de Jim Jarmusch.

    A abertura do filme é fascinante: um travelling lento pelas ruas de um bairro periférico de Nova Orleans, a fotografia em preto e branco emoldurando a paisagem soturna. O travelling é entrecortado por duas cenas de interior, apresentando os protagonistas Zack (Tom Waits), DJ desempregado e o cafetão Jack (John Lurie) em seus quartos. Ambos são envolvidos em uma armação por desafetos e são encarcerados na mesma cela. Bob (Roberto Benigni), um italiano que mal sabe falar inglês, acusado de matar um homem, se junta aos dois. 

    O diretor indie americano Jim Jarmusch tece um panorama da América marginal por meio desta tríade de atores em atuações excepcionais. A entrada em cena do italiano muda o panorama da cela, até aquele momento ocupada pela desilusão, pela tristeza agressiva. Um dos mais belos momentos da película é a canção entoada pelos três, uma brincadeira com o inglês atrapalhado de Roberto, que contagia todo o corredor. 

    O terceiro ato, em um imenso pântano, traz de volta a paisagem desoladora dessa América marginal, agora um deserto pantanoso. Assim como o bairro do início, também uma espécie de submundo habitado não por criminosos, mas por pessoas opostas ao american way of life que apenas andam em círculos.

  • A adolescente

    A trama começa acompanhando a fuga de Traver, jovem negro, músico de jazz, pelas ruas de uma pequena cidade. Ele foi acusado de estupro por uma mulher branca. Traver rouba um bote e chega a uma ilha particular, reserva de caça, com apenas três habitantes: a adolescente Evelyn, seu avô (que morre logo no início) e Miller, protetor da ilha.  

    Luis Buñuel realiza um filme denso, com fortes cenas de racismo e e pedofilia para compor uma crítica severa à sociedade sulista americana. Evelyn desenvolve uma amizade ingênua por Traver, livre de preconceitos e julgamentos. Ao contrário, Miller e Traver partem para um relacionamento ostensivo, espécie de jogo de gato e rato, movido apenas pelas diferenças raciais, que pode terminar em tragédia.   

    A adolescente é uma coprodução entre EUA e México, ambientando em uma ilha da Carolina do Sul. A ousadia de Luis Buñuel é tratar destes temas, racismo e pedofilia, em 1960, em um estado sulista. Com apenas cinco personagens em cena, Buñuel escancara o horror: Traver já está condenado apenas por ser negro, enquanto Miller, um homem branco, está isento por sua cruel pedofilia. 

    A adolescente (The young woman, México/EUA, 1960), de Luís Buñuel. Com Key Meersman (Evelyn), Zachary Scott (Miler), Bernie Hamilton (Traver), Crahan Denton (Jackson), Claudio Brook (Rev. Fleetwood). 

  • Please baby, please

    É ótimo encontrar filmes contemporâneos nos quais a estética noir ainda provoca forte influência. O grande trunfo de Please baby, please é o visual extravagante, pontuado por números musicais também estranhos e por fortes doses de violência e erotismo. 

    No início da trama, o casal formado por Suze e Arthur presencia uma gangue gótica assassinando um homem a pontapés no beco da cidade. Os dois passam a ser chantageados pela gangue, mas entre os riscos de violência e morte, desenvolvem um complexo fascínio: Suze fica cada vez mais obcecada pelo visual e estilo da gangue; Harry se entrega ao desejo por Teddy, um dos integrantes. 

    O roteiro não traz atrativos, muito menos surpresas. O destaque fica por conta da estética, da participação especial de Demi Moore e da interpretação caricata de Andrea Riseborough (indicada ao Oscar em 2022 por To Leslie).  

    Please baby, please (EUA, 2022), de Amanda Kramer. Com Andrea Riseborough (Suze), Harry Melling (Arthur), Demi Moore (Maureen), Karl Glusman (Teddy), Ryan Simpkins (Dickie), Cole Escola (Billy). 

  • Quem ama não teme

    Quem ama não teme (Never fear, EUA, 1949), de Ida Lupino. O filme abre com a tradicional sequência do gênero musical: um casal de jovens dançarinos se apresenta em um nightclub da Califórnia. A sequência, belamente coreografada, destaca Carol Williams (Sally Forrest), de pernas exuberantes, gestos graciosos e um olhar apaixonado para seu par dançante, Guy Richards (Keefe Brasselle). O casal tem uma promissora carreira pela frente, Guy compondo e coreografando, Sally se afirmando como dançarina. Pouco depois, Carol passa mal, é internada e diagnosticada com poliomielite. É o fim de sua carreira precoce e, possivelmente, de seu caso de amor com Guy. 

    Ida Lupino dirigiu apenas seis filmes, uma das únicas mulheres a ter esse privilégio durante a chamada era do cinema clássico americano, entre os anos 30 e 60. A maioria de seus filmes trazem protagonistas femininas fortes, humanas, que em alguns momentos se entregam à fatalidade, mas se erguem e lutam. É o caso de Carol (espécie de biografia de Ida Lupino que também sofreu com a pólio na infância). 

    A narrativa está impregnada de cores reais no processo da doença da dançarina, retratando de forma vívida o drama dos cadeirantes e o sofrimento físico e emocional diário a que são submetidos nos hospitais de reabilitação. Um dos pontos fortes da trama está na amizade entre Carol e Len Randall (Hugh O’Brien). Os dois são cadeirantes e estão internados no mesmo hospital. Len tem um ar jovial, otimista, alegre, ajuda a todos, ao contrário de Sally, entregue à tristeza e à depressão. Entre os dois, Sally é a única com possibilidades de cura, mas é Len quem se esforça ao máximo nos exercícios, demonstrando uma esperança contagiante. O olhar e a direção sensível de Ida Lupino transformam essa luta cotidiana em gestos de amizade, amor e companheirismo.

  • O preço da traição

    Atom Egoyan exercita o neo noir, focando a narrativa na tradicional femme fatale. Chloe é uma jovem e irresistível garota de programa. Ela é contratada por Catherine, uma médica de sucesso de meia idade, para seduzir seu marido David, um professor de música. Catherine suspeita que Davi a trai durante suas viagens para congressos e concertos. Por meio de Chloe, a fidelidade de David será colocada à prova. 

    A enigmática trama envolve uma série de artimanhas perpetradas por Chlore, envolvendo o casal em uma rede de desconfianças. A virada do roteiro é previsível, mas coloca O preço da traição no patamar de uma ótima sessão de entretenimento, movida a thriller e erotismo em graus elevados.  

    O preço da traição (Chloe, EUA, 2009), de Atom Egoyan. Com Julianne Moore (Catherine),  Amanda Seyfried (Chloe), Liam Neeson (David), Max Thieriot (Michael).

  • O caminho da tentação

    John Forbes vive uma tranquila vida de casado. É corretor de seguros de uma grande empresa, sua rotina se divide entre casa e trabalho, deixando transparecer o tédio que sente no dia-a-dia. Ele se vê envolvido em um caso de fraude à segurada, quando o responsável, Smiley, é preso. John Forbes precisa recuperar os bens que foram doados por Smiley à sua namorada, Mona Stevens.

    Esse encontro encaminha a trama para a tradicional entrada em cena da femme fatale, marca registrada dos filmes noir. No entanto, a grande vítima da narrativa acaba sendo Mona. John Forbes se apaixona por ela, os dois começam um perigoso caso extraconjugal, pois MacDonald, um investigador particular que trabalha para a corretora, também está apaixonado por Mona. Ele usa de todos os meios para conquistá-la, incluindo chantagem, armando uma complexa armadilha para Forbes no final do filme.  

    O final, triste e doloroso, revela como homens cruéis, MacDonald, e os pretensamente íntegros, Forbes, podem destruir a vida das mulheres com quem se relacionam. 

    O caminho da tentação (Pitfall, EUA, 1948), de André De Toth. Com Dick Powell (John Forbes), Lizabeth Scott (Mona Stevens), Raymond Burr (MacDonald). 

  • No silêncio da noite

    Nas primeiras sequências do filme, o roteirista Dix Steele está em um bar. Ele conhece uma jovem e a convida para sua casa. Os dois ficam juntos até o início da madrugada. Dix leva a jovem até o jardim, nesse momento Laurel Gray, sua vizinha do condomínio, passa por eles. Dix se despede da jovem e observa Laurel entrando em casa. Corta para a manhã seguinte. Dois policiais batem na porta do roteirista. A jovem com quem ele se encontrara na noite anterior foi assassinada na madrugada. Durante o depoimento na delegacia, Dix descobre que é o suspeito número 1 do crime. 

    No silêncio da noite é considerado a obra-prima do aclamado diretor Nicholas Ray. É um noir tenso e amargo, com interpretações primorosas de Gloria Grahame e Humphrey Bogart. É também um dos grandes filmes feitos sobre o próprio cinema, retratando a era de ouro de Hollywood, revelando como o sistema de estúdio forçava seus criativos a trabalhar com as regras impostas para que os filmes tivessem apelo comercial. Dix está trabalhando em uma adaptação literária, mas não pode escrever o filme que deseja artisticamente. 

    O grande destaque deste noir repleto de diálogos cortantes, prestem atenção nos depoimentos de Dix Steele e Laurel Gray na delegacia, é a complexidade psicológica que se instaura entre o casal de protagonistas.

    “Dix Steele (Bogart), um roteirista de pavio-curto, é suspeito de um assassanto especialmente cruel, porém sua vizinha de porta, Laurel Gray (Grahame), pode lhe servir de álibi. Isso leva a dupla a um caso passional que é minado quando Laurel se apavora com as tendências violentas de Dix e começa a se perguntar se ele não teria cometido de fato o assassinato. Depois de anos interpretando sujeitos durões, porém românticos, aqui Bogart mergulha mais fundo na sua própria persona, revelando um viés neurótico que poderia ter feito Sam Spade ou Rick Blaine personagens instáveis e absolutamente assustadores nas sequências em que Dix explode, aplicando surras em quem merece e em quem não merece.”

    O início do filme deixa claro para o espectador que Dix não é o assassino. No entanto, até mesmo esse espectador se vê em dúvida durante a narrativa. O crescente descontrole do personagem assusta a todos, principalmente a Laurel Gray. Os dois estão apaixonados, mas Dix se mostra cada vez mais violento, colocando na cabeça de Laurel, que depôs na delegacia sobre a sua inocência, a dúvida, o medo. 

    O filme tem uma sequência antológica, quando a mente criativa, talvez doentia, do Dix roteirista, acostumado a criar cenas de assassinato em seus filmes, se revela. Em frente a um dos policiais, seu amigo, e da mulher dele, Dix reencena como teria acontecido o assassinato dentro do carro, chegando a simular o estrangulamento no pescoço da esposa do policial. Puro terror psicológico. 

    No silêncio da noite (In a lonely place, EUA, 1950), de Nicholas Ray. Com Humphrey Bogart (Dix Steele), Gloria Grahame (Laurel Gray), Frank Lovejoy.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • O bígamo

    O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena. 

    O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos. 

    O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens. 

    O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan). 

  • Mãe solteira

    Sally, uma jovem e ingênua garçonete, se apaixona pelo pianista que toca onde ela trabalha. O caso resulta em uma gravidez, mas o pianista muda de cidade, em busca do seu sonho de ser compositor. A jovem vai à sua procura, mas é renegada e abandonada. Desesperada, sua decisão é se internar em uma instituição que cuida de jovens solteiras grávidas e buscam pais adotivos para as crianças. 

    Mãe solteira é o primeiro filme dirigido pela consagrada Ida Lupino. Ela assumiu o filme durante as filmagens, substituindo Elmer Clifton, que sofreu um ataque cardíaco. Lupino tinha 31 anos e foi responsável pelo roteiro do filme, além de atuar como co-produtora.  

    Lupino impôs um olhar feminino ao drama de Sally, sofrendo com o abandono e as angústias quase insuportáveis da sua decisão de ceder o filho para adoção. Uma característica marcante de Mãe solteira, fruto da experiência da diretora como atriz no cinema clássico americano, é a narrativa visual, com momentos dramáticos transmitidos por planos longos e pela montagem com cortes secos e precisos.  

    Mãe solteira (Not wanted, EUA, 1949), de Ida Lupino e Elmer Clifton. Com Sally Forrest (Sally Kelton), Keefe Brasselle (Drew Baxter), Leo Penn (Steve Ryan).

  • Johnny Gunman

    Muito anos de O poderoso chefão (1972), Johnny Gunman traz a história de dois gângsteres que disputam o controle da máfia em Nova York. Vicious Allie e Johnny Gunman são amigos desde a infância. Ambos trabalham para o chefão Loy Caddy, que é preso por sonegação de impostos. Os dois amigos começam então uma disputa pelo controle exclusivo da máfia, ao invés de dividirem territórios. 

    A narrativa se passa ao longo de uma noite e traz os elementos característicos dos filmes noir: ambientação noturna nas ruas e em bares e apartamentos; diálogos rápidos e cortantes;  a femme fatale que instiga seu amante ao confronto; o belíssimo contraste de sombras e luzes e, claro, a violência latente em pontos certeiros da trama. Um filme de baixo orçamento, bem ao estilo dos filmes B americanos que foram consagrados pelas críticos da Cahiers do Cinema e se transformaram em cults. 

    Johnny Gunman (EUA, 1957), de Art Ford. Com Martin E. Brooks (Johnny G.), Johnny Seven (Allie), Carrie Radisson (Mimi), Nick Rossi (Lou Caddy). 

  • Human flow: não existe lar se não há para onde ir

    O premiado artista chinês Ai Weiwei  compôs um painel impactante e doloroso sobre a situação de refugiados espalhados pelo mundo. Durante um ano, o diretor e sua equipe filmaram o cotidiano de 40 campos de refugiados, em 23 países, entre eles: Líbano, Quênia, Bangladesh, a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

    “Não é apenas um problema político, mas uma questão humanitária e moral”, afirmou o diretor. As imagens do documentário, com uma edição primorosa, retratam o lado humano dos refugiados: o cuidado que eles têm uns com os outros, a luta pela sobrevivência em situações muitas vezes precárias, o sofrimento pela indefinição das condições dos refugiados de apátridas.

    As imagens são acompanhadas de informações de estarrecer, por exemplo, só no Iraque, quatros milhões de pessoas já abandonaram suas casas desde os anos 80; 56 mil refugiados sírios, iraquianos e iranianos cruzam a Grécia toda semana. O documentário é muito mais do que uma denúncia, é uma potente declaração humanitária que deveria ecoar fundo nas nações que fecham os olhos diante dessa escravidão moderna. 

    Human flow: não existe lar se não há para onde ir (Human flow, Alemanha/EUA, 2017), de Ai Weiwei.

  • Caçador de morte

    Caçador de morte é um dos influentes filmes de perseguição de carros que marcou o cinema dos anos 60/70, assim como Bullitt (1968) e Operação França (1971). Ryan O’Neal interpreta um exímio motorista, que aluga caro seu talento para assaltantes de bancos. Durante um assalto mal-sucedido, ele é visto pela personagem de Isabelle Adjani. O detetive (Bruce Dern) tenta convencê-la a depor e acusar o Driver, mas ela se recusa. 

    O filme foi um fracasso de público e crítica nos anos 70, mas acabou se transformando em cult, influenciando filmes modernos como Drive (2011) e em Ritmo de fuga (2017). A narrativa é marcada por um relacionamento intenso entre o casal de protagonistas e o tradicional jogo de gato e rato entre detetive e bandido. Claro, o destaque fica para as estonteantes perseguições de carro nas ruas da cidade. 

    Caçador de morte (The driver, EUA, 1978), de Walter Hill. Com Ryan O”Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani. 

  • The humans

    O cenário é um velho apartamento de dois pavimentos, cuja estrutura ostenta a necessidade de reformas: fios elétricos aparentes, paredes mofadas, luz oscilante, teto ameaçando deixar pedaços pelo chão. A família Blake está reunida para o Dia de Ação de Graças. Durante a noite, marcada por conflitos, revelações, crises depressivas, a família tenta, quase inutilmente, reatar laços. 

    As paredes decrépitas do apartamento, as lâmpadas semi mortas, sugerem, ameaçam, insinuam lentamente que a narrativa caminha para o suspense e o terror. Coisas de uma casa que reflete seus moradores.

    The humans (EUA, 2021), de Stephen Karam. Com Richard Jenkins (Erik), Jayne Houdyshell (Deirdre), Amy Schumer (Aimee), Beanie Feldstein (Brigid), Steven Yeun (Richard), June Squibb (Momo).