Tag: EUA

  • Cinzas que queimam

    Cinzas que queimam (On dangerous ground, EUA, 1951), de Nicholas Ray, começa como um tradicional filme noir. Jim Wilson (Robert Ryan) é um policial solitário e amargurado. Trafega por becos e bares marginais da noite à caça de seus bandidos, despreza as mulheres, seus amigos são os policiais que o acompanham jornada noite à dentro. Seu jeito taciturno sugere uma obsessão em resolver os casos a que é designado usando de brutalidade e violência.  

    A virada do roteiro e do estilo do filme acontece quando o chefe de polícia o adverte por mais uma noite de violência e o encarrega de investigar o assassinato de uma jovem em uma região rural. É como se o filme saísse da noite e entrasse na claridade da neve e do gelo. Durante a investigação, Wilson encontra Mary Malden (Ida Lupino), irmã do assassino. Ela é cega e tenta proteger o irmão a todo custo e vai motivar a transformação do policial. 

    “‘Enxergar’ é o conceito chave em Cinzas que Queimam, pois é a partir do encontro com a cega Mary Malden (a espetacular Ida Lupino), em uma das maiores atuações femininas da história), irmã do assassino, que Wilson muda para sempre. Voltando à questão da ‘readaptação’, é curioso como até o próprio “gênero” do filme parece se alterar, saindo do noir urbano para uma mistura entre realismo poético francês à Renoir e um melodrama. Se o detetive rejeitava a aproximação com as outras mulheres da cidade e consegue se abrir para Mary é justamente porque ela carrega a pureza que as outras não tinham. Em um movimento que lembra muito o encontro de Frankenstein com a cega em A noiva de Frankenstein (1935), o fato dela não enxergar sua aparência exterior, mas sentir quem ele é, deixa aquele personagem vulnerável.” –  Michel Gutwilen (Plano Crítico)

  • Trágico aniversário

    São apenas cinco personagens em cena, reclusos dentro de um pequeno apartamento. O pianista Stanley mora na pensão do casal Petey e Meg. Não sai de casa e demonstra um comportamento imprevisível, irascível, sujeito a rompantes de violência verbal. A chegada de dois estranhos que se hospedam na pensão pode provocar o trágico aniversário do título. 

    O filme é baseado na peça homônima de Harold Pinter que colaborou no roteiro. Os dois estranhos chegam à cidade à procura de Stanley, que precisa ser eliminado. O motivo nunca é revelado, há apenas uma alusão ao IRA (Exército Republicano Irlandês). 

    A direção de William Friedkin utiliza do ambiente claustrofóbico, com ângulos e planos exagerados para aumentar gradativamente a tensão entre os personagens. Os diálogos beiram o surreal, elevando o clima de incompreensão da trama. O final é ainda mais enigmático. Destaque para a atuação de Robert Shaw. 

    Trágico aniversário (The birthday party, EUA, 1968), de William Friedkin. Com Robert Shaw (Stanley Webber), Dandy Nichols (Meg), Moultrie Kelsall (Petey), Patrick Magee (McCann), Sydney Tafler (Goldberg). 

  • Jogando as fichas fora

    Jogando as fichas fora (Blue chips, EUA, 1994), de William Friedkin. 

    Peter Belli (Nick Nolte) é treinador de um time de basquete universitário. Após uma série de derrotas, sua carreira entra em declínio e ele revê alguns de seus princípios de ética e honestidade para conseguir um elenco mais talentoso. 

    Jogando as fichas fora trata de forma ousada das artimanhas efetuadas por grupos para burlar as regras do esporte e lucrar no mercado de apostas (tema sempre atual). O elenco é composto por figuras reais do basquete, incluindo Shaquille O’Neal, o célebre treinador Bobby Knight e comentaristas esportivos. As cenas dos jogos são emocionantes, um admirável trabalho da equipe de cinegrafistas e da direção de fotografia. 

    Uma curiosidade: a sequência final termina em uma “enterrada” fantástica de Shaquille O’Neal. O cinematógrafo Tom Priestley Jr. conta que Bobby Knight fez de tudo para que seus jogadores impedissem essa jogada, pois não aceitava perder um jogo nem mesmo em uma trama cinematográfica. 

  • Um golpe muito louco

    Um golpe muito louco reconstitui o célebre assalto realizado em 1950 à companhia Brink’s de Boston, considerado na época o maior roubo da história dos EUA. O ítalo-americano Tony Pino (Peter Falk) reúne uma trupe de assaltantes de pequeno porte, meio atabalhoados, para executar o assalto. William Friedkin fez uma rigorosa retratação de época, incluindo estudos minuciosos para reproduzir o local do crime. 

    O tom da película é o humor, conferindo aos bandidos uma aura de criminosos desastrados que cai no gosto do público. O destaque da película é o elenco, liderado pela interpretação primorosa de  Peter Falk. 

    Um golpe muito louco (The Brink’s job, EUA, 1978), de William Friedkin. Com Peter Falk, Peter Boyle, Warren Oates, Gena Rowlands, Allen Garfield, Paul Sorvino, Gerard Murphy, Kevin O’Connor.

  • Quando o strip-tease começou

    Quando o strip-tease começou (The night they raided Minsky’s, EUA, 1968), de William Friedkin.  

    Em 1925, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), uma jovem criada em uma comunidade Amish, chega a Nova York, fugindo da dominação religiosa do pai.  O sonho de Rachel é ser dançarina de palco. Ela logo encontra a trupe que se apresenta no teatro burlesco dirigido por Minsky (Elliot Gould). A trupe oferece a Rachel uma apresentação especial à meia-noite, que, na verdade, seria uma farsa para burlar a vigilância repressiva das ligas de decência da cidade. Durante a apresentação, a jovem acaba inventando, por acaso, o strip-tease. 

    No início da carreira, William Friedkin assume o tom libertário, provocador e irreverente da Nova Hollywood. Quando o strip-tease começou é uma junção de esquetes cômicas nonsenses, números musicais fragmentados, fotografia que oscila entre o preto e branco e as cores exuberantes. O início do filme é uma bela homenagem ao cinema mudo.

  • O sol brilha na imensidão

    O sol brilha na imensidão (The sun shines bright, EUA, 1953), de John Ford.

    O Juiz Priest (Charles Winninger) apareceu pela primeira vez no filme Judge Priest (1934), do próprio John Ford. O sol brilha na imensidão é uma espécie de continuação, fato raro no cinema clássico americano do período. 

    William Priest segue demonstrando sua dignidade, senso de justiça e humanismo. Ele é juiz de uma pequena cidade do Kentucky, sul dos Estados Unidos, região demarcada pelo racismo que atinge níveis de violência extrema. O Juiz Priest agora tem em mãos dois casos que evidenciam o preconceito da sociedade sulista. Uma prostituta retorna à cidade e é rejeitada por todos; após a sua morte, ela não pode nem mesmo ter um enterro digno. Um jovem negro é acusado injustamente de um crime e está prestes a ser linchado pela população. 

    Priest está disputando a reeleição para o cargo e sua corajosa atitude na defesa dos dois casos faz com que ele se indisponha com os eleitores. John Ford carrega sua narrativa com o idealismo e humanismo do Juiz, simbolizado em uma sequência emocionante: mesmo arriscando perder a eleição, Priest organiza e segue à frente do enterro da prostituta, encarando com altivez a sociedade. 

  • Um crime por dia

    Um crime por dia (Gideon’s day, EUA, 1958), é um raro filme policial de John Ford. A trama, adaptada do romance homônimo de John Creasey, acompanha um dia na vida do policial George Gideon (Jack Hawkin. O inspetor tenta desvendar com agilidade casos que incluem o roubo de uma joalheria, um assassinato e até mesmo corrupção interne em seu departamento de polícia. Enquanto isso lida com questões familiares.

    Inteiramente filmado em Londres, Um crime por dia é uma trama policial leve, sem grandes reviravoltas. Ford explora o lado humano do policial, sem enveredar por aspectos dramáticos, ao contrário, tratando tudo com bom humor, principalmente na relação amorosa na qual a sua filha se envolve durante esse atribulado dia. São 24 horas na vida do inspetor que, claro, podemos também classificar de uma pessoa comum, trabalhadora e apegada à família. 

  • Peregrinação

    Peregrinação (Pilgrimage, EUA, 1933), de John Ford. Com Henrietta Crosman (Henrietta Crosman), Marion Nixon (Mary Saunders), Heather Angel (Suzanne), Norman Foster (Jim Jessop). 

    A viúva Hannah Jessop é uma mãe opressora e autoritária com Jim seu único filho. Ela não aceita o namoro do filho com Mary, uma jovem de classe social mais baixa e, para impedir o casamento, alista Jim para lutar na Primeira Guerra Mundial. 

    Esse filme menos conhecido do aclamado diretor John Ford é um relato sensível sobre a perda, luto e sentimento de culpa. Quando recebe a notícia da morte de seu filho nos campos de batalha, Hannah Jessop empreende uma jornada de redenção. A peregrinação do título acontece quando ela aceita participar de um programa do governo americano que leva as mães para a Europa para visitar os túmulos dos filhos mortos durante o conflito. 

    O destaque do filme é a atuação de Henrietta Crosman. A atriz contribui de forma decisiva neste melodrama, um gênero que John Ford investiu pouco em sua longa carreira. 

  • Legião invencível

    Legião invencível (She wore a yellow ribbon, EUA, 1949), de John Ford, é o segundo faroeste da Trilogia da Cavalaria, que se completa com Forte Apache (1948) e Rio Grande (1950). O Capitão Nathan Brittles (John Wayne) está a dias de se aposentar quando recebe uma perigosa missão: escoltar a mulher e a sobrinha do comandante do forte em território controlado pelos índios. 

    A trama é um tributo de Ford ao exército americano, ressaltando a nobreza do Capitão, os laços emocionais que se criam entre os soldados, com a camaradagem aflorando a cada sequência. O tom de melancolia e saudosismo permeia a trajetória de Nathan – as cenas mais sensíveis do filme acontecem quando o Capitão coloca seu banquinho ao lado do túmulo de sua esposa e conversa com ela. 

    A película foi realizada, como de costume nos filmes de Ford, no Monument Valley, com bela fotografia (vencedora do Oscar daquele ano) em Technicolor de Winton C. Hoch. John Wayne, eterno colaborador de Ford, tem uma de suas atuações mais sensíveis e contidas, emanando sentimentos ternos para seus comandados, para as mulheres que escolta, para o velho índio a quem respeita. 

  • O homem que nunca pecou.

    O homem que nunca pecou (The whole town ‘s talking, EUA, 1935), de John Ford. Com Edward G. Robinson, Jean Arthur, Arthur Hobi.

    O ponto de destaque deste drama policial de John Ford, resvalando para o humor negro, é o ator Edward G. Robinson, figura tarimbada do gênero noir. Ele interpreta dois personagens: Arthur Ferguson Jones, um pacato (quase O idiota de tão ingênuo, nobre e honesto) funcionário de escritório, é confundido com Killer Mannion,  um notório e cruel gangster que acaba de fugir da prisão. A incrível semelhança entre os dois coloca Arthur na mira da polícia, acarretando sua prisão e uma série de reportagens na imprensa. 

    Essa trama simples, de fácil resolução pela polícia, tem uma reviravolta: Mannion se aproveita da semelhança e assume a identidade do funcionário para continuar praticando seus crimes. 

    O talento de Robinson no papel duplo se revela a cada momento. Sua face, seu olhar, seu comportamento mudam de forma assustadora. Quando ele é Arthur, a ingenuidade está expressa em olhares, falas e gestos tímidos, o medo dominando . Quando Mannion entra em cena, seu olhar é o próprio terror, por si só uma ameaça à sociedade. A virada final, quando os duplos assumem a identidade um do outro traz um tom de psicanálise à trama, com toques de humor e críticas à sociedade que rotula as pessoas.

  • Homem morto

    Homem morto (Dead man, EUA, 1995), de Jim Jarmusch

    Após uma quase interminável viagem de trem, o “almofadinha do leste” William Blake (Johnny Depp) chega a Machine, no Oeste americano, para assumir um cargo de contador. Como demorou muito para chegar, o cargo já havia sido preenchido e, sem dinheiro, Blake passa a noite com uma prostituta. De manhã, o noivo dela aparece no quarto e, após um tiroteio, a prostituta e o noivo morrem. 

    O que Blake não sabe é que seu destino está selado: o homem que matou no quarto é filho do empresário que o contrataria, um violento e sádico homem do Oeste. Em sua fuga, Blake encontra Ninguém, um índio culto que viveu na Inglaterra, que se torna seu único aliado. 

    “ Este filme de Jim Jarmusch é um ensaio sobre a contemplação, que seduz através da cinematografia em preto-e-branco de Robby Muller (influenciado por Ansel Adams), do violão primorosamente simples de Neil Young e da interpretação delicadamente poética de Depp. (…). Muito da narrativa e violência em Homem morto é monótona e indiferente, em especial o comportamento obstinado, quase catatônio de Cole Wilson (Henriksen), que não chega a ser um matador a sangue-frio, mas um que não tem sangue algum. O silêncio que impregna o grande vazio do Oeste, a bétula prateada deslizando enquanto William cavalga pela floresta, a objetividade de Ninguém à medida que pratica rituais não muito compreensíveis para um homem não muito consciente convergem para uma evocação quase ininteligível de pessoa, lugar e momento. Quando, ao final, Ninguém empurra William para dentro de um grande lago, a canoa-espírito desliza para o outro mundo, uma visão que relembra o rei Arthur, morto, sendo levado para Avalon.”

    Homem morto (Dead man, EUA, 1995), de Jim Jarmusch. Com Johnny Depp, Gary Farmer, Lance Henriksen, Michael Wincott, Iggy Pop, Gabriel Byrne, Robert Mitchum. 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Trem mistério

    Trem mistério (Mystery train, EUA, 1989), de Jim Jarmusch, é composto por três histórias que se entrelaçam em um hotel decadente, em Memphis. Na primeira, um jovem casal japonês chega à cidade e visita Graceland. Eles são fanáticos por rock e querem conhecer tudo sobre o legado musical de Elvis Presley. 

    A segunda história acompanha Luísa, uma viúva italiana que, após despachar o caixão do marido para a Itália, se vê sem rumo na cidade. Ela também se hospeda no hotel, dividindo o quarto com uma moradora local. Durante a noite, a italiana é visitada pelo fantasma de Elvis Presley. 

    Nesse mesmo hotel, uma gangue de jovens se esconde após praticar um assalto. Johnny, conhecido como Elvis, está em depressão, motivada pelo abandono da namorada. A terceira história é recheada de violência e humor, bem ao estilo Jim Jarmusch. 

    As três histórias se passam na mesma noite e os hóspedes são recebidos por uma dupla surreal de porteiros. Trem mistério é uma grande homenagem, recheada de nostalgia, à cultura pop dos EUA, representada por Elvis Presley e por Memphis que carregam, assim como o hotel e seus hóspedes, uma certa decadência.  

  • Uma noite sobre a terra

    Uma noite sobre a terra (Night on earth, EUA, 1992), de Jim Jarmusch, desenvolve a narrativa em formato episódico. São cinco histórias que acontecem dentro de táxis, em cinco cidades: Los Angeles, Nova York, Paris, Roma e Helsinque. 

    Os gêneros das histórias variam entre drama e comédia, principalmente. Em Los Angeles, Winona Ryder vive uma motorista cool, irreverente em seu jeito de vestir, se comportar e falar. O choque acontece quando sua passageira, uma executiva de um estúdio de cinema, se interessa pela jovem motorista e a convida para fazer um teste para um filme. 

    Esse episódio determina o tom dos demais: narrativas baseadas em extensos diálogos dentro dos veículos, às vezes beirando o absurdo, como no ótimo capítulo passado em Roma. Roberto Benigni transporta um padre em seu carro e quase de forma surreal começa a contar ao padre suas experiências sexuais. 

    As outras três narrativa mesclam ações de solidariedade a um imigrante perdido em Nova York em sua primeira viagem como motorista, questões filosóficas e raciais debatidas entre um  motorista negro e a passageira cega (Paris) e uma tragédia pessoal, recheada de aspectos melancólicos e sombrios. Em Helsinque, o motorista conta sua trágica história para um grupo de passageiros bêbados. 

  • Estranhos no paraíso

    Estranhos no paraíso (Stranger than paradise, EUA, 1984), de Jim Jarmusch, tem um lugar na lembrança de todo cinéfilo que aprendeu a amar os road-movies a partir dos anos 70. A narrativa acompanha a jornada de três jovens, os húngaros Willie (John Lurie) e Eva (Eszter Balint) e o americano Eddie (Richard Edson). Os três embarcam em uma jornada rumo à Califórnia, meio sem rumo e sem dinheiro, bem ao estilo underground da geração perdida dos anos 80. 

    A história é contada em três capítulos: A Chegada de Eva, Cleveland e Paraíso. O tom de passividade e quase alienação dos jovens é pontuado pela bela fotografia em preto e branco, planos longos, resultando em um ritmo lento, diálogos mínimos entre os três viajantes e trilha sonora composta por música húngara e rock and roll. É o olhar melancólico, porém com um leve bom humor, de Jarmusch sobre o american way of life

    Uma curiosidade genial sobre o filme está no depoimento de Wim Wenders, outro gênio do road-movie, sobre como o acaso fez com que ele ajudasse Jim Jarmusch a realizar Estranhos no paraíso

    “Tem um filme que preciso mencionar: Estranhos no Paraíso. Jim Jarmusch era um assistente muito quieto no filme que eu fiz com Nicholas Ray, Um Filme para Nick. Jim tinha uma banda de rock, uma ótima banda, por sinal, mas queria fazer cinema. Ele era muito modesto, quieto, não falava muito. Um dia, no final das gravações, ele veio ao meu escritório, em Nova York. Abriu a geladeira, sem imaginar que não havia uma garrafa de Coca-Cola ali dentro, e sim restos de filme. Particularmente duas grandes caixas de negativos em preto-e-branco, 35 milímetros, que restaram das gravações de O Estado das Coisas. Eu não tinha usado aqueles negativos, o que é estranho, porque sempre uso meus filmes até o último metro. Mas aqui estavam quatro caixas intocadas de sobras de filme. Comecei a perceber que Jim vinha todo dia, sempre abria a geladeira e ficava olhando fixamente para aquelas caixas. Ele não dizia nada, até que um dia finalmente me diz: “o que você vai fazer com estes negativos?” Eu lhe disse: “não tenho um projeto em preto-e-branco agora, então não vou fazer nada por enquanto”. Jim volta para a geladeira, abre a porta, mais uma vez olha fixamente para os filmes e me diz: “você pode dá-los pra mim?”. Disse-lhe: “claro, melhor fazer algo com eles antes que envelheçam aí”. Então ele vai e faz Estranhos no Paraíso. Ele filmou em 1984, e eu só vi o filme uns dois anos depois. Jim ganhou, com este filme, a Câmera de Ouro no Festival de Cannes [para diretores estreantes]. Eu… hum, não deveria dizer isso, mas ganhei a Palma de Ouro com Paris, Texas, e naquela noite nós dois éramos os homens mais felizes deste planeta. Nós jogamos pinball a noite toda, ficamos terrivelmente bêbados, e estávamos tão felizes um pelo outro. Quero dizer, eu estava orgulhoso de ter ganhado a Palma de Ouro, mas o fato de Jim ter ganhado a Câmera de Ouro era algo muito melhor. Jim sentia o mesmo. Ainda o vejo olhando para aquela geladeira. Às vezes, é o que basta.” – Palavras de Cinema

  • Férias permanentes

    Férias permanentes (EUA, 1980), primeiro longa-metragem de Jim Jarmusch acompanha o jovem Allie (Christopher Parker)  em suas andanças por uma Manhattan quase distópica, formada por ruas e prédios vazios, o lixo se aglomerando pelas ruas e um ar decrépito pairando sobre tudo. O filme custou apenas 12 mil dólares e representou uma espécie de divisor de águas para o cinema indie americano, consagrando o diretor. 

    Parker não estuda, não trabalha, vive deambulando sem rumo, é o típico representante de uma cidade caótica, que entre os anos 70 e 80 atingiu níveis estratosféricos de violência urbana. Jim Jarmusch compôs a deprimente trilha sonora de Férias permanentes, cuja sensação de melancolia e introspecção  está presente também na fotografia fria e no estilo de câmera quase documental. 

  • A estrada perdida

    A estrada perdida (Lost highway, EUA, 1997), de David Lynch, começa como um tradicional filme de suspense. Fred Madison (Bill Pullman é um saxofonista de jazz que vive em Los Angeles com sua esposa Renee (Patricia Arquette). O casal começa a receber fitas de vídeo com imagens do exterior e do interior da casa onde moram, uma demonstração clara de que estão sendo vigiados. A polícia é acionada, mas nada se descobre. Quando Fred imagina que sua esposa pode estar em um caso extraconjugal, relacionado às fitas, a narrativa envereda por um thriller violento e surrealista, bem ao estilo David Lynch, 

    A película pode ser dividida em duas histórias, ambas com as características do cinema noir, incluindo as femme fatalles, e trocas de idenditades surrealistas, algo como as narrativas distópicas cujos universos paralelos trocam de posições. 

    A frase de David Lynch “os sonhos não têm lógica, mas nós os entendemos” se adapta às complexas personalidade de Fred/Pete. Medos e desejos reprimidos, sonhos em múltiplas visualizações, mistérios insondáveis da natureza humana, a narrativa e a estética da trama desconexa exigem do espectador uma imersão sensorial em todos esses devaneios lynchianos. 

  • O desconhecido

    O desconhecido (The Stranger, EUA, 2022), de Thomas M. Wright causou impacto no Festival de Cannes em 2022, quando foi exibido na Mostra Um Certo Olhar. Baseada em uma história real, a trama acompanha um pool de agentes policiais na investigação de um suposto crime que aconteceu dez anos antes: um menino desapareceu perto de uma ponte e nunca foi encontrado. 

    A escritora Kate Kyriacou escreveu o livro  The Sting, contando a saga que se tornou uma das maiores operações policiais da história da Austrália. Henry Teague (Sean Harris) é o principal suspeito. Um grupo de agentes infiltrados partilha de sua jornada, o convencendo a entrar em uma organização criminosa que “apaga” o passado de seus membros. Henry cria uma relação de amizade e confiança com Mark Frame (Joel Edgerton). 

    A montagem não-linear encaminha a narrativa que tem como destaque a relação entre bandido e policial: Mark passo a passo se confronta com princípios éticos e profissionais, principalmente quando descobre o horror do crime. A interpretação de Sean Harris também merece destaque. Solitário, sombrio, o possível criminoso confunde o espectador e a polícia com sua personalidade misteriosa, frágil, talvez doentia. O típico serial killer? Um criminoso frio e dissimulado? Inocente de um crime na verdade nunca esclarecido?

  • Ficção americana

    Thelonious “Monk” Ellison (Jeffrey Wright) é professor universitário e autor de livros desprezados pela crítica e pelo público. Após uma crise no trabalho, ele vai visitar a família em Boston e se vê obrigado a cuidar da mãe que sofre de Alzheimer. Frequentando circuitos literários ele se defronta com autores que considera sem talento algum, mas cujos livros viram best-sellers por retratar a cruel vida dos afrodescendentes nos EUA, explorando o melodrama e a violência. 

    Ficção americana foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado . A virada de roteiro promove uma forte crítica à indústria editorial americana e à sociedade que se deleita com histórias regadas a violência. Monk escreve um livro sensacionalista, com o pseudônimo de Stagg R. Leigh, uma espécie de piada, segundo ele mesmo, que nunca seria levada a sério. No entanto, o livro é comprado por uma editora e dispara na lista dos mais vendidos. 

    O intrigante final eleva a crítica também ao modelo comercial do cinema de Hollywood, colocando em discussão um tema comum no universo editorial e cinematográfico: a luta pela autoria, o conflito entre sucesso comercial e integridade artística. Com leveza e bom humor, Ficção americana é uma surpresa no cinema independente. 

    Ficção americana (American fiction, EUA, 2023), de Cord Jefferson. Com Jeffrey Wright, Tracee Ellis Ross, John Ortiz, Erika Alexander, Leslie Uggams, Sterling K. Brown. 

  • O segredo das joias

    Com O segredo das jóias (1950\) John Huston praticamente definiu o subgênero de filmes de assalto, influenciando diversos clássicos na sequência: Rififi (1955), O grande golpe (1956), Os eternos desconhecidos (1958), Onze homens e um segredo (1960).  

    A trama, roteiro e direção de John Huston, adaptada de romance de W. R. Burnett, tem como princípio a preparação de um grande assalto a uma joalheria, planejado pelo notório “Doc”, que acaba de sair da cadeia. Ele reúne seus comparsas, cada um com uma especialidade: Ciavelli, Gus, Emmerich (financiador do plano) e Dix, protagonista da história, um ladrão de segunda categoria amargurado que transita pela noite em busca de dinheiro para pagar suas dívidas. 

    O roubo na joalheria é um primor narrativo e estético, planejado em cada detalhe, mas sujeito aos incidentes, que acontece quando um guarda noturno desconfia e entra pela porta de escape. A partir daí, cada um dos personagens vive um drama e são vencidos, afinal, por suas próprias ambições e fraquezas humanas. 

    “O filme se divide no planejamento e na captação dos recursos humanos e financeiros para o golpe, no golpe em si e, finalmente, na derrocada de seus componentes, vítimas de seus próprios vícios e fraquezas. ‘De uma forma ou de outra, todos nós trabalhamos em função de nossos vícios’, diz Doc, a certa altura, ele mesmo condenado por sua fixação por ninfetas. Da mesma forma, além da ganância, a fraqueza da personagem de Calhern é sua ‘sobrinha’ (uma iniciante e já insinuante Marilyn Monroe), enquanto o ‘caipira’ Hayden sonha com seu Rosebud, um potro indomado reminiscente de sua infância no interior do Kentucky.” – Carlos Quintão. 

    A escapada de Hayden, ao lado de sua namorada Doll, dirigindo ferido em alta velocidade pela estrada, é um desses grandes momentos de desejo e frustração do cinema. A caminhada final de Hayden em direção à casa que foi de seu pai, em direção aos cavalos é dolorosa, sem esperanças, carregada dos sonhos que o cinema clássico americano tornou impossível em alguns belos finais de filmes. 

    O segredo das joias (The asphalt jungle, EUA, 1950), de John Huston. Com Sterling Hayden (Dix Handley), Sam Jaffe (Doc Erwin Riedenschneider), James Whitmore (Gus Minissi), Jean Hagen (Doll Conovan), Marilyn Monroe (Angela Phinlay).

    Referência: Livreto encartado no bluray da Versátil Home-Vídeo, curadoria de Fernando Brito.

  • Sobre café e cigarros

    O consagrado diretor indie Jim Jarmusch filmou Sobre café e cigarros (Coffee and Cigarettes, EUA, 2003) ao longo de 15 anos. A série de 11 curtas-metragens independentes tem como coesão narrativa o simples acaso: encontros de artistas diversos, incluindo atores, músicos, rappers, em locais minimalistas, as conversas são acompanhadas por café e cigarros. 

    Os temas refletem muito da sociedade, das relações pessoais, compostos por diálogos bem humorados, reflexivos, tensos, mas sempre com o tom despretensioso de quem acaba de se encontrar para um bom bate papo regado a café e cigarros. Os destaques ficam por conta da participação engraçada de Bill Murray como um garçom que é reconhecido pela dupla de rappers RZA e GZA; do papel duplo desempenhado por Cate Blanchett, conversando com ela mesma; da conversa nonsense entre Roberto Benigni e Steven Wright. A fotografia em preto e branco, outra marca de Jim Jarmusch, é deslumbrante, reforça o tom minimalista.