Voltar ao universo infantil, tema recorrente em produções contemporâneas, ganha conotações impactantes no mundo atual, dominado por adultos envoltos em dilemas existenciais, profissionais, adotando atitudes castradoras com os filhos, teimando em não deixá-los se entregar à fantasia. Christopher Robin – Um reencontro inesquecível, baseado na obra de A. A. Milne e E. H. Shepard, trata disso com melancolia e tristeza.
O menino Christopher Robin brinca no Bosque dos cem acres com seus amigos de pelúcia (recriados digitalmente), entre eles Tigrão, Leitão, Bisonho e o comilão preguiçoso Ursinho Pooh. O lema é não fazer nada. O menino é enviado pelos pais para um internato. Corta para Christopher Robin na meia idade, envolto com crise profissional: a fábrica de malas onde trabalha precisa cortar custos, a saída imediata é demissão de funcionários.
Christopher dedica todo seu tempo ao trabalho (deixou de lado há muito o lema e a lúdica infância ao lado de seus bichinhos), não tem tempo para a esposa e muito menos para a filha Madeline. Nesse turbilhão, o Ursinho Pooh aparece de novo em sua vida, arrastando Christopher para uma jornada em busca dos antigos amigos de pelúcia.
O fascínio do filme está em remeter adultos a essa jornada em busca da infância, não para ser novamente criança, mas para entender como os princípios que regem o universo lúdico, fantasioso, mágico de meninos e meninas são importantes para relações pessoais melhores. Ninguém tem dúvidas de que o mundo viveria em paz e harmonia se todos o vissem com o olhar das crianças.
Christopher Robin – Um reencontro inesquecível (Christopher Robin, EUA, 2018), de Marc Forster. Com Ewan McGregor (Christopher Robin), Hayley Atwell (Evelyn), Mark Gatts (Keith Winslow).
A narrativa começa com clássica cena que representa a ideologia do gênero faroeste: família de rancheiros é massacrada por tribo indígena. Rosalie Quaid sobrevive após ver o marido e seus três filhos serem assassinados pelos índios. Corta para o Capitão Joseph Blocker assistindo com tranquilidade seus oficiais espancando alguns índios. Quando chega ao quartel, o Capitão recebe uma missão: levar o chefe Falcão Amarelo e sua família para reserva indígena. No caminho, Joseph encontra Rosalie.
A jornada de militares, civis e índios pelo território selvagem representa os caminhos que a sociedade americana precisou empreender para sua formação. A jornada é marcada por confrontos violentos à mão armada, expondo a natureza preconceituosa, desumana e assassina dos caminhantes. Christian Bale compõe seu personagem com amargura, desilusão, depressão latente que se traduz em comportamentos ora carinhosos, ora violentos e assassinos.
Hostis (Hostilis, EUA, 2017), de Scott Cooper. Com Christian Bale (Capitão Joseph Blocker), Rosamund Pike (Rosalie Quaid). Wes Studi (Chefe Falcão Amarelo), Jesse Plemons (Sargento Kidder).
Certas histórias reais são mais surpreendentes que o mais surpreendente roteiro. É o caso da vida de Barry Seal (Tom Cruise), piloto de avião comercial em crise financeira. Ele é recrutado pela CIA para registrar imagens aéreas da Colômbia, vira traficante de drogas a serviço do Cartel de Medellín, é convencido a fazer papel de agente duplo pelo DEA (departamento que combate o tráfico de drogas nos Estados Unidos). Para completar, o piloto se envolveu no escândalo Irã-Contras durante o governo Reagan: armas que seriam vendidas ao Irã foram desviadas para financiar o treinamento dos Contras, milícia que combatia o governo Sandinista na Nicarágua.
O diretor Doug Liman conta esta complexa história com altas doses de aventura e ousadas sequências no avião pilotado por Barry Seal. Tom Cruise compõe um personagem que vive no limite, vai da crise financeira ao enriquecimento fácil, à falência e precisa lidar com ameaças vindas de todos os lados. O final deste personagem, claro, não poderia ser feliz.
Feito na América (American made, EUA, 2017), de Doug Liman. Com Tom Cruise, Domhall Gleeson, Sarah Wright, Caleb Landry Jones.
É a tradicional história de sobrevivência, da luta dos humanos contra a natureza incremente. A jornalista Alex e o cirurgião Ben se encontram no aeroporto e são surpreendidos com o cancelamento do voo. Eles precisam chegar ao destino com urgência: a jornalista porque está com casamento marcado e o médico para realizar uma cirurgia de emergência. Os dois decidem fretar um pequeno avião e a nevasca nas montanhas provoca a queda. Alex, Ben e um cachorro labrador sobrevivem, resta ao trio caminhar pela neve, enfrentando os perigos da natureza fria e selvagem.
A trama segue os desafios da jornada e abre espaço para o crescente relacionamento amoroso dos protagonistas. A força do filme está no talento de Kate Winslet e Idris Elba, dois grandes atores que seguram a narrativa.
Depois daquela montanha (The mountain between, EUA, 2017), de Hany Abu-Assad. Com Kate Winslet (Alex), Idris Elba (Ben).
Impossível não se emocionar assistindo à Audrey, documentário que retrata uma das atrizes mais fascinantes, dentro e fora das telas, deste maravilhoso cinema clássico americano. O filme traz depoimentos de familiares e amigos da atriz, como Sean Hepburn-Ferrer, Emma Ferrer, Richard Dreyfuss, Clare Waight Keller, John Loring.
Os depoimentos reconstituem a infância de Audrey, quando ela sofreu com os horrores da ocupação nazista na Holanda, vivendo, inclusive, em estado de desnutrição. Foi abandonada pelo pai que se aliou às fileiras nazistas. A vida pessoal da atriz é pontuada ao longo de sua carreira, passando pelos casamentos desfeitos, pelo reencontro com o pai, com destaque para sua atuação como Embaixadora da Unicef.
Os sofrimentos de Audrey durante a segunda guerra mundial, as frustrações de seus relacionamentos amorosos, seu engajamento fervoroso na luta pelas crianças famintas da África e, finalmente, a batalha contra o câncer que a vitimou, são entrecortados pelas belas imagens da carreira da atriz. Imagens eternas: a princesa que passeia liberta pelas ruas de Roma, a filha de um motorista que se transforma em Paris e seduz dois ricos irmãos, a mendiga que ressurge como a mais bela dama, a garota de programa com seu ar ingênuo diante da joalheria e mais, muito mais – poderíamos ficar descrevendo quase sem fim as aparições luminosas de Audrey Hepburn no cinema e em nossa vidas. Melhor assistir ao documentário e correr para rever os filmes.
Duas questões marcaram ideologicamente parte do cinema americano dos anos 50. Primeiro, a guerra fria. A disputa em diversos campos, incluindo a espionagem, envolveu os dois grandes polos mundiais, contrapondo o capitalismo americano e o socialismo soviético. A “ameaça vermelha” virou paranoia para a sociedade americana.
Segundo, o macarthismo. Na década de 50, o senador Joseph McCarthy empreendeu violenta campanha nos EUA para combater comunistas supostamente infiltrados em importantes setores da sociedade. Esta caça às bruxas levou centenas de cidadãos aos tribunais americanos, principalmente cineastas, devido ao imenso prestígio que a classe detinha junto à sociedade. Vários cineastas foram impedidos de trabalhar, alguns condenados à prisão.
Segundo Antonio Costa (Compreender o cinema), em determinados filmes de gênero dos anos 50 “serão evidenciadas as relações entre as temáticas dos gêneros e determinadas linhas de tendências políticas, econômicas etc. Segundo uma exemplificação fornecida por La Polla (1978), podemos notar como o western retrata o modelo do desenvolvimento ‘expansionista e colonialista‘ dos Estados Unidos, enquanto o cinema de ficção será o gênero ‘passível, mais que qualquer outro, de uma leitura política em clave contemporânea durante o macartismo e o perigo vermelho’.”
No clássico western Matar ou morrer (1952), de Fred Zinnemann, há uma alegoria ao macarthismo. O xerife Will Kane (Gary Cooper) pede ajuda aos moradores da cidade para enfrentar três pistoleiros que vão chegar no trem do meio dia para matá-lo. Um a um, os moradores viram as costas, o xerife foge da cidade, mas volta e resolve enfrentar os pistoleiros, mesmo sabendo que seria vítima fácil. Exatamente o que aconteceu com vários artistas nos tribunais americanos, entregues à própria sorte, delatados e abandonados por amigos, tentando se defender sozinhos. “O filme de Zinnemann é ao mesmo tempo um excelente faroeste de suspense e uma perfeita alegoria do clima de medo e suspeita que prevalecia nos Estados Unidos durante a era McCarthy”. – 1001 filmes para ver antes de morrer.
Nestas posições ideológicas, Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, EUA, 1956), de Don Siegel. tem uma singularidade: a dupla leitura. A história se passa em uma cidadezinha do meio-oeste americano. Quando o Dr. Miles Bennell (Kevin McCarthy) retorna à cidade, é procurado por alguns de seus pacientes. Eles relatam que parentes próximos são impostores, estão possuídos. Gradativamente, os moradores da cidade passam por transformações psicológicas, perdem as emoções, andam em grupos como autômatos.
Na verdade, alienígenas estão incubados em uma espécie de vagem e tomam os corpos dos moradores. Analogia ao vírus do comunismo que paira no ar como uma ameaça e pode transformar os cidadãos em vegetais.
A sequência final deixa em aberto outra especulação ideológica. O Dr. Miles, último sobrevivente do vírus, corre da multidão pela cidade. Esconde-se em uma mina abandonada, vê sua namorada ser tomada pelos alienígenas, continua correndo até conseguir sair da cidade e entrar em uma rodovia no meio de centenas de carros. É noite, Miles se desvia dos carros, gritando por socorro, até que se volta para a câmera e grita “você é o próximo”.
A ameaça vermelha e o macarthismo, duas paranoias que chegaram ao limite da criminalidade oficial, se confundem em Vampiros de Almas, este clássico da ficção científica.
“Apesar do clima de filme B, a obra de Siegel – baseada no romance de Jack Finney – está menos interessada em respeitar as convenções da ficção científica do que em dramatizar os perigos do conformismo social e a ameaça de invasão que pode vir tanto de fora quanto de dentro da própria comunidade.” – 1001 filmes…
Referências:
Compreender o cinema. Antônio Costa. São Paulo: Globo, 1989
1001 filmes para ver antes de morrer. Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008
A dama de Shanghai (The lady from Shanghai, EUA, 1948) abre com voz em off do marinheiro Michael (Orson Welles) narrando seu primeiro encontro com a bela e sedutora Elsa Bannister (Rita Hayworth), durante um passeio noturno no Central Park. São os indícios da experimentação de Orson Welles pelo universo do filme noir: narração em primeira pessoa, fotografia noturna das cidades, a sedutora mulher fatal que envolve o amante com propósitos criminosos.
“Com um sotaque irlandês titubeante, Welles é um marinheiro contratado por um advogado aleijado (Everett Sloane, sórdido e assustador) para trabalhar em seu iate e talvez também (como no enredo preservado por Welles em Uma história imortal – 1968) prestar serviços à sua bela esposa. Um assassinato ocorre, seguido por um julgamento em que todos agem de forma no mínimo antiética, e um caleidoscópio louco é despedaçado por um clímax envolvendo um tiroteio numa sala de espelhos. A dama de Shanghai, como filme, é um espelho despedaçado, com fragmentos de genialidade que jamais poderão ser juntados para formar algo que faça sentido.”
Rita Hayworth, de cabelos curtos, está deslumbrante em cada close, em cada ângulo ousado de Orson Welles: tomando sol no iate, cercada pelos três homens que a desejam, pulando de uma rocha para o banho de mar, a luz do cinema noir refletindo em seu rosto quando finge amor, tristeza, desolação. Para completar, a antológica sequência final na sala de espelhos, quando o confronto entre Elsa e Arthur é pontuado por estilhaços de vidros, a imagem da femme fatalle se despedaçando para logo em seguida se reconstituir em um novo reflexo, como a própria Rita Hayworth.
Não espere os cânones do gênero neste revigorante filme noir de Max Ophuls. “Os gêneros são cercados de convenções. É o que fazem. É por isso que os amamos. Mas, quando transcendem essas convenções, levam você a considerações e a reflexões sobre as questões psicológicas e morais que despertam. Aí, tornam-se grandes.”
Essa análise de Richard Schickel, crítico e historiador, se aplica com perfeição à Na teia do destino. Lucia Harper (Joan Bennett) tenta proteger sua filha adolescente da sedução de um atraente mafioso de Los Angeles. Ao descobrir as verdadeiras intenções do namorado, ele quer extorquir dinheiro da família, a jovem provoca acidentalmente a morte do canalha, em uma noite de tempestade. Lucia descobre o cadáver e tenta encobrir o assassinato. No entanto, entra em cena o irlandês Martin Donnelly (James Mason), outro mafioso, que, a serviço de seu chefe, passa a chantagear Lucia.
A reviravolta da trama, consequentemente do gênero, acontece quando o irlandês se apaixona por Lucia. A tradicional femme fatale, presente em várias narrativas noir, agora age por causas nobres, provocando a tentativa de redenção do bandido apaixonado.
Debates éticos permeiam o filme, como adultério, um inocente que pode ser condenado por um crime que não cometeu mas, que, segundo Donnelly vai pagar pelos outros crimes. Joan Bennett é a grande estrela do filme, sua personagem destila charme em cada cena, mesmo nas mais aflitivas, incentivando, talvez inconscientemente, as investidas do irlândes amargurado, capaz de qualquer sacrifício para salvar sua amada. É a transcendência das convenções em um filme belo, triste e sedutor.
Na teia do destino (The reckless moment, EUA, 1949), de Max Ophuls. Com Joan Bennett, James Mason, Geraldine Brooks.
A princípio, o musical segue os passos característicos do gênero. As três filhas do músico Gregory Tuttle (Robert Keith) sentem-se fascinadas por Alex Burke (Gig Young), jovem músico que passa uma temporada na casa enquanto escreve um concerto. Laurie (Doris Day), a filha mais velha, conquista o coração do músico e tudo parece caminhar para os encontros e desencontros motivados pela disputa das outras irmãs.
A virada acontece quando o também músico Barney Sloan (Frank Sinatra) chega à casa para ajudar o amigo Alex. Ele se apaixona por Laurie, mas sua personalidade é o motivo para a grande ousadia deste musical dos anos 50. Barney se sente fracassado na vida, seu pessimismo consigo revela a mente depressiva, caminhando para a atitude polêmica, raramente discutida até esse momento em filmes de gênero: o suicídio.
Frank Sinatra está perfeito como o músico fracassado, que contagia todos ao seu redor com sua tristeza. Doris Day, a eterna garota das comédias românticas, toma conta do filme, revelando sua personalidade amorosa, doce e firme, disposta a lutar para que todos com quem convive fiquem bem.
Corações enamorados (Young at heart, EUA, 1955), de Gordon Douglas. Com Doris Day, Frank Sinatra, Gig Young, Ethel Barrymore, Dorothy Malone.
Nicholas Ray foi amado, talvez idolatrado, pelos jovens críticos da Cahiers du Cinema e posteriormente diretores consagrados da nouvelle vague francesa. Jean-Luc Godard chegou ao extremo de afirmar: “Houve o teatro (Griffith), a poesia (Murnau), a pintura (Rossellini), a dança (Eisenstein), a música (Renoir). Doravante, há o cinema. E o cinema é Nicholas Ray”. A própria teoria do autor, defendida pelos críticos franceses, encontrou em Nicholas Ray uma de suas principais referência:
“Acho que o que nos atraiu foi que havia algo europeu neste diretor de Hollywood. E o que havia de Europeu? Talvez a fragilidade e vulnerabilidade dos personagens principais. Apesar de ele rodar muito com astros como John Wayne ou Humphrey Bogart, seus personagens masculinos não eram machões. Havia uma grande sensibilidade, principalmente no tratamento das histórias sentimentais que dava uma impressão de grande realismo. Numa época em que o cinema de Hollywood não era pessoal ou autobiográfico tínhamos sempre a impressão de que as histórias de amor nos filmes de Nicholas Ray eram histórias reais.” – François Truffaut. Sobre a admiração incondicional pelo cinema de Nichoas Ray, Traffaut completa, em depoimento para um documentário: “Eu já disse uma vez, e repito para esta câmera. Eu disse que um filme como Johnny Guitar teve mais importância na minha vida do que na de Nicholas Ray.”