É um filme silencioso, a narrativa motiva o espectador a se entregar aos belos cenários (Parque Estadual dos Três Picos, região serrana do Rio de Janeiro) e às angústias da protagonista. A menina Maria vive reclusa com a mãe, sofrendo com a ausência do pai que abandonou a família. Um criador de cabras acampa perto da casa e deflagra desejos em mãe e filha. Narrativa paralela coloca Maria e o pai em um ambiente indefinido, conversando em forma de fragmentos.
A película é adaptada dos contos O unicórnio e Matamoros de Hilda Hilst. A adaptação tenta transpor para as telas o universo intimista, carregado das angústias femininas da autora. Poucos atores em cena, característica do cinema brasileiro contemporâneo, paisagens que ajudam a compor a solidão de mãe e filha, ambiente claustrofóbico que permeia a possível insanidade do pai, composição fotográfica que remete ao universo das fábulas. Filme silencioso e reflexivo.
Unicórnio (Brasil, 2017), de Eduardo Nunes. Com Patrícia Pillar, Zé Carlos Machado, Lee Taylor, Bárbara Luz.
Quase memória, de Carlos Heitor Cony, é dos mais belos romances da literatura moderna brasileira. O autor faz incursão à sua infância e juventude, retratando o pai Ernesto, jornalista romântico e visionário.
Ruy Guerra transpõe essas memórias para o cinema com ousadia nos recursos narrativos. Dois Carlos contracenam, tentando reconstituir as memórias do pai. Tony Ramos é o Carlos adulto; Charles Fricks seu alter ego jovem. Flashbacks recriam essas memórias. Mariana Ximenes é a mãe, João Miguel interpreta Ernesto, o pai jornalista que se entrega aos tempos românticos da profissão, ao momentos lúdicos com o filho, à obsessão em fazer voar memorável balão de São João. O tema do filme é a memória, a importância desses momentos passados por vezes incompreensíveis que permeiam a vida de todos nós. E o afeto, sentimento que precisa voltar a ser cultivado em sua plenitudes nesses tempos de crueldade.
Quase memória (Brasil, 2017), de Ruy Guerra. Com Tony Ramos, Charles Fricks, João Miguel, Mariana Ximenes.
Não há momento mais oportuno no Brasil para a produção de filmes sobre o drama das nações indígenas. O documentário de Luiz Bolognesi se debruça sobre tema urgente: a descaracterização da cultura dos povos ancestrais de nossa terra. Perpera foi preparado para ser Pajé da tribo Paiter Suruí. No entanto, abandonou o posto quando uma igreja evangélica foi instalada na região e o pastor angariou fiéis entre a tribo, alardeando que os pajés são “coisas do diabo”.
O próprio Perpera adere à religião. Continua com sua vida simples de pescador e tenta ensinar às crianças os costumes de seu povo. Ele se vê em conflito quando integrantes da tribo recorrem ao Pajé para ajudar em casos de doença, já que os remédios dos brancos não resolvem.
A câmera do roteirista e documentarista Luiz Bolognesi registra tudo com imparcialidade, sem recorrer a julgamentos. Deixa as imagens falarem, o que basta para provocar a reflexão sobre a cruel interferência que o mundo dito civilizado insiste em fazer nas nações indígenas. A película conquistou menção honrosa no troféu Glashutte de documentário no Festival de Berlim.
A Grande Feira (Brasil, 1961) é o segundo longa-metragem de Roberto Pires, após Redenção (1959), considerado o primeiro longa-metragem produzido na Bahia. O filme reúne alguns expoentes do cinema novo ligados ao ciclo baiano, entre eles um jovem Glauber Rocha, responsável pela produção executiva.
O filme “é inspirado em uma revolta popular detonada quando o governo do Estado pensou em acabar com a feira Água dos Meninos, onde trabalhavam mais de mil feirantes, para atender os interesses de grandes companhias imobiliárias que pretendiam construir no local.” – Fernão Ramos.
A trama traz princípios do cinema novo que buscava revolução estética, narrativa e conceitual para o cinema brasileiro. A negra Maria, ladra e prostituta, transita pela Grande Feira e mora no andar de cima da boate de Zazá. O violento Chico Diabo, amante de Maria, logo no início do filme rouba uma joalheria e, na saida, mata um policial. O marinheiro Sueco chega na comunidade e vai mexer com o coração de Maria e da aristocrata Ely, esposa de um rico industrial. Ely sofre com o tédio, citando Camus e Carlos Drummond de Andrade enquanto busca aventuras na noite. Esses tipos marginais, que conta ainda com o receptador Ricardo, se cruzam nos becos, bares, quartos, boates em gradativa adrenalina de sensualidade e violência. Para salvar os feirantes, o plano de Chico Diabo é explodir os tanques da Esso, nos arredores da feira, provocando um incêndio de proporções monumentais.
Está no filme a visão rebelde – e a estética realista – do cinema novo que coloca nas mãos do povo a decisão de seu destino, mesmo que seja através da violência. Segundo ramos, em A Grande Feira, “a representação do universo burguês é caricata e a fala popular revolucionária enunciada sem dramaticidade e com impostação.”
Roberto Pires usa a fotografia em preto e branco e câmera realista para compor o painel caótico dos feirantes nas cenas externas. Nas cenas internas, o diretor não se furta a fotografar os corpos sensuais dos belos atores que compõem o triângulo amoroso. O louro sueco (Del Rey com cabelos tingidos) e a negra Maria emolduram a tela em uma sensual sequência no quarto, com direito a clichês como sapatos caindo ao chão. A fútil Ely se entrega também ao Sueco em fascinantes composições na praia e no cais.
O final do filme é um primor estético e conceitual: cena vista do alto mostra o cais após a despedida de Ely e Sueco. O marido de Ely abre a porta. O espectador vê, à distância, a mulher diminuta, frustrada, entregue ao seu destino, entrar no carro. “Apesar do respeito pelo povo e seus costumes há, no entanto, sempre uma ponta de desprezo (caso de BARRAVENTO, A GRANDE FEIRA e TOCAIA NO ASFALTO) pela apatia e pela incapacidade popular em perceber sua situação e reagir de forma radical.” – Fernão Ramos.
A Grande Feira (Brasil, 1961), de Roberto Pires. Com Geraldo Del Rey (Ronny/Sueco), Helena Ignez (Ely), Luiza Maranhão (Maria), Antonio Pitanga (Chico Diabo), Milton Gaúcho (Ricardo).
Referência: História do Cinema Brasileiro. Fernão Ramos (organizador). São Paulo: Círculo do Livro, 1987.
Vitório perdeu a visão na infância. Vive feliz com sua condição: é pizzaiolo de sucesso, se diverte com amigos, frequenta estádios de futebol. Clarisse, sua esposa, insiste que ele faça uma operação para recuperar a visão. Vitório reluta, mas cede aos apelos.
O filme faz interessante abordagem sobre escolhas, mesmo que seja manter a deficiência que, para muitos, significa estar de olhos fechados para o mundo. O egoísmo também está presente nas relações: para a família, o melhor é Vittório voltar a enxergar. O tom de comédia está na relação entre Vitório e seu assistente Cleomar.
Como outros filmes – Perfume de mulher, O milagre de Anne Sullivan, Um clarão nas trevas, Por trás de seus olhos, a película de Paulo Nascimento trata com sensibilidade a questão da deficiência visual.
Teu mundo não cabe no meus olhos (Brasil, 2018), de Paulo Nascimento. Com Edson Celulari (Vitório), Leonardo Machado (Cleomar), Giovana Echeverria (Alicia), Soledad Villamil (Clarisse), Roberto Birindelli (Dr. Jantzen).
A trama segue a tradicional estrutura de histórias paralelas que podem se cruzar. São quatro, envolvendo diversos personagens: ator de filme pornô discute ao telefone com a mulher, garota de programa; motoboy se apaixona por atendente de lanchonete; casal discute a relação; madrasta e enteada colocam em debate a relação, enquanto velam o corpo do homem responsável pela convivência forçada das duas. A ousadia da trama está na leitura de trechos de um romance que está também sendo encenado em novela de rádio e pode ser o ponto de união das histórias.
O destaque do filme é Marjorie Estiano (das grandes estrelas do cinema nacional) como garota de programa, vestida a caráter para a prática de atos sadomasoquistas. Ao mesmo tempo, ela se entrega ao programa e discute a relação com o marido no telefone. As quatro histórias oscilam entre o drama e a comédia.
Todo clichê do amor (Brasil, 2017), de Rafael Primot. Com Débora Falabella, Eucir de Souza, Clarissa Kiste, Maria Luísa Mendonça, Marjorie Estiano.
Filmes recentes do cinema brasileiro exploram o impacto virtual na vida dos jovens, incluindo Yonlu, Benzinho e Aos teus olhos. No longa de Carolina Jabor a temática é o linchamento virtual a partir de denúncia não-comprovada. Rubens (Daniel de Oliveira), jovem professor de natação, é acusado de ter beijado um aluno na boca. A acusação parte da própria criança. O menino afirma que o fato aconteceu quando eles estavam sozinhos no vestiário, ou seja, sem testemunhas e sem câmeras de segurança (trama similar ao ótimo Infâmia, de William Wyler).
O que se segue são acusações dos pais, a mãe postando em redes sociais, provocando o linchamento virtual e disseminando a revolta em outros pais. O professor de natação não tem como se defender e, em determinado momento, é ameaçado fisicamente. O filme é baseado na peça O princípio de Arquimedes e a opção de Carolina Jabor é não fechar a questão, deixando todos na dúvida. O instigante plano final do filme provoca no espectador o desejo de entrar na mente de Rubens e descobrir a verdade.
Aos teus olhos (Brasil, 2017), de Carolina Jabor. Com Daniel de Oliveira, Marco Ricca, Malu Galli, Stella Rabello, Gustavo Falcão.