Saute ma ville

Saute ma ville (França, 1971) é o primeiro curta-metragem de Chantal Akerman, realizado quando ela tinha 18 anos e estava cursando o primeiro período da faculdade de cinema em Bruxelas (Chantal abandonou o curso logo no primeiro período para seguir na carreira como autodidata).

A própria diretora interpreta uma jovem que chega em seu apartamento com as compras do dia e começa uma série de atividades rebeldes: abre e esvazia gavetas, espalha coisas pelo chão, joga água no piso, expulsa seu gato para a varanda. É um filme silencioso que termina com a jovem vedando todas as frestas de janelas e portas e ligando o gás de cozinha. Impactante e perturbador curta de estreia de Chantal Akerman.

A voz humana

A voz humana (The human voice, Espanha, 2020), de Pedro Almodóvar. Uma mulher (Tilda Swinton) está sozinha em seu apartamento, observando as malas de seu namorado que nunca retorna. Com ela, está o cão do homem, que não sabe que também foi abandonado. 

O curta minimalista de Almodóvar  se passa dentro deste apartamento, ancorando a narrativa em um longo monólogo da mulher enquanto transita pelo ambiente vazio, de cores extravagantes (bem ao estilo Almodóvar). Tilda Swinton é o filme, sua interpretação da mulher obcecada, desesperada, vulnerável e sem destino, transforma o monólogo em uma intensa exposição da intimidade. 

É o primeiro filme de Almodóvar falado em língua inglesa, baseado na peça de Jean Cocteau. Assim como em Estranha forma de vida, o diretor espanhol trabalha com as características principais dos filmes de curta-metragem: poucos personagens em cena, cenários minimalistas, tempo de narrativa concentrado, conflitos intimistas. A força dos dois filmes, acima de tudo, está na complexidade das relações humanas, da intimidade entre as pessoas.

Estranha forma de vida

Estranha forma de vida (Espanha, 2023). Só mesmo o espanhol Pedro Almodóvar conseguiria homenagear o clássico filme de faroeste, respeitando os elementos narrativos e estéticos do gênero, mas subvertendo de forma ousada as relações entre dois ícones do velho oeste: o xerife e o pistoleiro. 

Silva (Pedro Pascal) entra na cidade à procura de Jacke (Ethan Hawke), atual xerife. É um reencontro após 25 anos, os dois foram amigos e amantes na juventude. A paixão reacende, os dois passam a noite juntos, mas no dia seguinte a verdade sobre o reencontro vêm à tona: Jacke está na caça de um assassino – o jovem é filho de Silva. 

Estranha forma de vida foi produzido pela grife de luxo Yves Saint Laurent, tornando o curta-metragem também uma estratégia de storytelling. Almodóvar, claro, teve liberdade para compor uma trama que oscila entre a paixão queer, a rusticidade e a violência do oeste americano. Ethan Hawke e Pedro Pascal estão perfeitos, assumindo com naturalidade e tristeza o belo caso de amor que vivem no filme. 

No final, Pedro Almodóvar não desaponta o espectador amante dos faroestes: o duelo acontece, de forma brutal, porém terna. 

A idade da pedra

A idade da pedra (França/Brasil, 2013), curta-metragem de Ana Vaz, foi filmado nos arredores de Brasília, focando em uma estrutura monumental, petrificado no meio da paisagem do cerrado. Em torno do monumento, trabalhadores da construção civil buscam o seu sustento sob o sol incremente. 

A ausência de narração é uma marca nos filmes de Ana Vaz. Em A idade da pedra, o som é responsável por pontuar de forma estridente, outras vezes suave, esta interação desprovida de harmonia entre o homem e a natureza. As imagens e sons levam o espectador a um estado contemplativo, motivando um olhar sensorial nesta intervenção cruel e suicida dos humanos sobre a natureza.

Blue jeans

Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure). 

O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental. 

Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias. 

Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos. 

Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans

Aribada

O curta Aribada (Colômbia, 2022), de Simon(e) Jaikiriuma Paetau e Natalia Escobar,  filmado na região cafeeira da Colômbia, encantou em festivais, incluindo o prestigiado Festival de Cannes, com suas imagens oníricas, provocativas na união do real, o mágico e o espiritual. 

A narrativa acompanha Karmen, uma jovem indígena trans, que retorna a sua comunidade no meio da selva colombiana. Aribada, o monstro ressuscitado, conhece um grupo de mulheres trans indígenas do povo Emberá. O grupo se autodenomina Las Traviesas e as mulheres ganham a vida colhendo café.

O curta, mescla de documentário e ficção, acompanha a dualidade da vida de Karmen, dividida entre o mundo urbano e sua herança indígena. É um reflexivo relato sobre a sexualidade e as questões de gênero dentro do povo indígena Emberá. As imagens induzem a contemplação, com frames que refletem a beleza da região e levam o espectador a se encantar com a leveza espiritual dos indígenas. Sensível, delicado, provocativo, Aribada é uma viagem entre a natureza e as emoções dos personagens. 

Simão do deserto

Simão do deserto (Simón del desierto, México, 1965) faria parte de um filme conjunto entre Luis Bunuel e outros cineastas. No entanto, só o diretor espanhol filmou sua parte, colocando o filme na categoria de curta ou média-metragem, com cerca de 45 minutos de duração. 

Simão (Claudio Brook) é um fanático religioso que vive no topo de uma coluna no deserto e é adorado pelos habitantes da região (os representantes legais constroem, inclusive, uma coluna muito mais alta para abrigá-lo). Em alguns de seus intermináveis dias na coluna, Simão é assediado pelo próprio Diabo, interpretado por Silvia Pinal em diversas caracterizações. 

A ousadia surrealista de Luis Buñuel confronta os valores religiosos, desnudando a hipocrisia que permeia as atitudes da igreja. Filmado em uma única locação, a coluna e seus arredores áridos, os pontos fortes da película são a relação entre Simão e o Diabo, que assume diferentes formas, entre elas uma jovem mulher que destila erotismo e uma sedutora adolescente.  

Terra sem pão

Terra sem pão (Las Hurdes, Espanha, 1933) foi o terceiro filme de Luis Buñuel, um curta-metragem documental que retrata a vida miserável dos habitantes de Las Hurdes, aldeia localizada no norte da Espanha. Assim como outros documentários, como o clássico Nanook – O esquimó (1922), o diretor espanhol encenou, com a colaboração dos habitantes, grande parte das situações retratadas.

O fato triste e totalmente reprovável dessa estratégia é que a equipe de filmagem provocou as mortes de dois animais – um burro foi lambuzado de mel para que as abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. As cenas estão no filme. 

O curta é uma experiência terrível de se assistir pois retrata a miséria total de homens, mulheres e crianças, muitos com doenças mentais devido à desnutrição (Buñuel filma essas crianças). Mesmo encenado, o retrato é verdadeiro, o documentário foi baseado no estudo etnográfico Las Hurdes: Étude de Géographie Humaine (1927), de Maurice Legendre. Terra sem pão foi banido da Espanha fascista e praticamente não foi exibido no resto do mundo, seguindo a sina do filme anterior de Luis Buñuel, A idade do ouro (1931), que também foi censurado. 

Playback

Agustina Comedi monta Playback (Argentina, 2019) com imagens de arquivo, registros pessoais, entrevistas, para documentar a trajetória de um grupo de travestis e transformistas que atuaram na noite de Córdoba, entre 1980 e 1990. La Delpi funciona como um elo de ligação, pois é a única sobrevivente do grupo, muitos vitimados pela AIDS. 

O documentário é um potente registro da Argentina ainda marcada pela repressora e violenta ditadura militar. A noite underground e queer de Córdoba reserva momentos alegres, rebeldes, uma intensa luta pela liberdade rodeada pelo terror imposto pela conservadora sociedade e pela epidemia da AIDS.

A narrativa fragmentada, não-linear, ajuda o espectador a transitar pelas memórias das personagens, recheadas de sensibilidade, afeto e fraternidade. Playback é um curta-metragem sensível sobre um momento ao mesmo tempo vibrante e trágico da sociedade argentina.  

The potemkinists

The potemkinists (Romênia, 2022), de Radu Jude. 

O curta de Radu Jude centra no debate entre um escultor e uma funcionária do governo, travado em uma praia da Romênia onde foi erguida uma grande escultura. A conversa envereda por uma polêmica envolvendo o clássico O encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein. 

A obra termina com o famoso embate entre a esquadra russa e o Encouraçado, com a confraternização entre os soldados no final. O escultor expõe a verdade: os marinheiros revoltosos navegaram para a Romênia, onde pediram asilo político. A maioria ficou no país, trabalhando e tentando sobreviver, os que voltaram para a Rússia foram executados pelo governo. 

Os diálogos em torno da escultura misturam crítica, ironia e bom humor, versando sobre o cinema, a memória manipulada e a burocracia imposta aos produtores de arte, que devem criar sob os auspícios das autoridades.