Unicórnio

É um filme silencioso, a narrativa motiva o espectador a se entregar aos belos cenários (Parque Estadual dos Três Picos, região serrana do Rio de Janeiro) e às angústias da protagonista. A menina Maria vive reclusa com a mãe, sofrendo com a ausência do pai que abandonou a família. Um criador de cabras acampa perto da casa e deflagra desejos em mãe e filha. Narrativa paralela coloca Maria e o pai em um ambiente indefinido, conversando em forma de fragmentos. 

A película é adaptada dos contos O unicórnio e Matamoros de Hilda Hilst. A adaptação tenta transpor para as telas o universo intimista, carregado das angústias femininas da autora. Poucos atores em cena, característica do cinema brasileiro contemporâneo, paisagens que ajudam a compor a solidão de mãe e filha, ambiente claustrofóbico que  permeia a possível insanidade do pai, composição fotográfica que remete ao universo das fábulas. Filme silencioso e reflexivo.

Unicórnio (Brasil, 2017), de Eduardo Nunes. Com Patrícia Pillar, Zé Carlos Machado, Lee Taylor, Bárbara Luz. 

Serei amado quando morrer

Orson Welles foi um dos pilares da minha dissertação de mestrado, defendida em 2003 na Escola de Belas Artes da UFMG. Dediquei um capítulo do texto à revolução narrativa de Cidadão Kane (1941), no qual o diretor faz um jogo interpretativo com o espectador da primeira à última cena. A seguir, a análise se pautou em Soberba (1942), filme mutilado pelos produtores na sala de montagem (pelo então montador Robert Wise) enquanto Welles estava no Brasil, tentando filmar É tudo verdade. Foi a primeira obra do gênio a sofrer com interferências dos executivos dos estúdios de Hollywood (outro crime aconteceu com A marca da maldade).

Era o começo da lenda difundida por executivos, críticos e membros da comunidade hollywoodiana de que Orson Welles não tinha interesse em terminar seus filmes. A filha do diretor refuta categoricamente, dizendo que basta prestar atenção na genialidade dos filmes terminados (e montados) pelo diretor. A afirmação está em um dos melhores documentários sobre o cinema de todos os tempos: Serei amado quando morrer (They’ll love me when I’m dead, EUA, 2018), de Morgan Neville, produzido pela Netflix.

O documentário reúne imagens do mais célebre filme inacabado de Orson Welles,  O outro lado do vento, cujas filmagens se iniciaram no início dos anos 70 e se estenderam durante toda a década. Orson Welles faleceu em 1985 sem montar o filme. A versão finalizada pela Netflix está disponível no serviço de streaming – a derradeira obra-prima de Welles.

Depoimentos de atores, diretores e técnicos que participaram da odisséia compõem um retrato da genialidade incompreendida daquele que é considerado por muitos como o maior diretor de todos os tempos. O diretor Peter Bogdanovich depõe sobre a sua participação como ator, revelando com emoção passagens importantes do relacionamento entre os dois.

No entanto, o primor do documentário está na própria participação de Welles, em inúmeras imagens de arquivo, depoimentos sinceros e emocionantes sobre o cinema, sobre Hollywood, sobre sua paixão irrestrita pela sétima arte. No final do documentário, após a morte de Orson Welles, o também diretor John Huston (protagonista de O outro lado do vento) tem acesso a um trecho de película no qual Welles ri espontaneamente para a câmera. O responsável pelas filmagens revela que, após assistir ao trecho, John Huston chorou ao ver o amigo gargalhando. Simplesmente chorou, virou as costas e foi embora.

História de um casamento

O filme começa com o casal de protagonistas lendo cartas nas quais desfilam sentimentos felizes na vida em comum, descrevendo como se encantam, como se deslumbram, como riem um do outro. No final das narrações, o espectador é surpreendido: trata-se de terapia em casal, pois Charlie e Nicole já estão no processo de desgaste do casamento.

Charlie é promissor diretor de teatro em Nova York. Nicole abandonou provável carreira de sucesso na TV e no cinema em Los Angeles para seguir o marido. Na primeira parte do filme, a narrativa acompanha os dilemas do casal em vias de separação, mas ainda incertos ante as consequências. Quando Nicole decide voltar para Los Angeles, História de um casamento envereda para pungente drama psicológico envolvendo pais e filhos, além de discutir os processos jurídicos colocando em cena dois combativos advogados (Laura Dern ganhou Oscar de atriz coadjuvante pelo papel da advogada de Nicole). As interpretações de Scarlett Johansson e Adam Driver são o ponto forte do filme, com direito a embate que termina com sofrida (para as personagens e para o espectador) cena no chão da sala.  

História de um casamento (Marriage story, EUA, 2019), de Noah Baumbach. Com Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Ray Liotta. 

Quase memória

Quase memória, de Carlos Heitor Cony, é dos mais belos romances da literatura moderna brasileira. O autor faz incursão à sua infância e juventude, retratando o pai Ernesto, jornalista romântico e visionário. 

Ruy Guerra transpõe essas memórias para o cinema com ousadia nos recursos narrativos. Dois Carlos contracenam, tentando reconstituir as memórias do pai. Tony Ramos é o Carlos adulto; Charles Fricks seu alter ego jovem. Flashbacks recriam essas memórias. Mariana Ximenes é a mãe, João Miguel interpreta Ernesto, o pai jornalista que se entrega aos tempos românticos da profissão, ao momentos lúdicos com o filho, à obsessão em fazer voar memorável balão de São João. O tema do filme é a memória, a importância desses momentos passados por vezes incompreensíveis que permeiam a vida de todos nós. E o afeto, sentimento que precisa voltar a ser cultivado em sua plenitudes nesses tempos de crueldade. 

Quase memória (Brasil, 2017), de Ruy Guerra. Com Tony Ramos, Charles Fricks, João Miguel, Mariana Ximenes. 

Ex-Pajé

Não há momento mais oportuno no Brasil para a produção de filmes sobre o drama das nações indígenas. O documentário de Luiz Bolognesi se debruça sobre tema urgente: a descaracterização da cultura dos povos ancestrais de nossa terra. Perpera foi preparado para ser Pajé da tribo Paiter Suruí. No entanto, abandonou o posto quando uma igreja evangélica foi instalada na região e o pastor angariou fiéis entre a tribo, alardeando que os pajés são “coisas do diabo”. 

O próprio Perpera adere à religião. Continua com sua vida simples de pescador e tenta ensinar às crianças os costumes de seu povo. Ele se vê em conflito quando integrantes da tribo recorrem ao Pajé para ajudar em casos de doença, já que os remédios dos brancos não resolvem. 

A câmera do roteirista e documentarista Luiz Bolognesi registra tudo com imparcialidade, sem recorrer a julgamentos. Deixa as imagens falarem, o que basta para provocar a reflexão sobre a cruel interferência que o mundo dito civilizado insiste em fazer nas nações indígenas. A película conquistou menção honrosa no troféu Glashutte de documentário no Festival de Berlim. 

Ex-Pajé (Brasil, 2018), de Luiz Bolognesi.  

A mula

Clint Eastwood é o mais longevo e produtivo diretor americano. Perto de completar 90 anos, entrega pelo menos um filme por ano, apesar de atuar cada vez menos. Em A mula, Eastwod dirige e protagoniza. Ele é Earl Stone, senhor de 90 anos obcecado pelo cultivo de orquídeas. Está em conflito com a ex-mulher e a filha que o acusam de ter abandonado a família. Stone trabalhou a vida inteira como motorista nas estradas e se vangloria de jamais ter ganhado uma multa. Desempregado e sem dinheiro, ele é despejado de sua casa e acaba se envolvendo com cartel de drogas do México, transportando drogas em sua picape. 

O filme é baseado na vida de Leo Sharp que ficou conhecido como a “mula de 90 anos”. Clint Eastwood se baseou em reportagem do The New York Times para contar essa inusitada história. Earl Stone transporta as drogas como se viajasse a passeio pelas estradas do meio-oeste americano: para em lanchonetes, conversa cordialmente com todos, ajuda uma família a trocar pneus na estrada, ouve música e canta descontraidamente enquanto dirige. Impossível suspeitar de uma mula assim e Stone acaba caindo nas graças do chefe do cartel. 

Como em outras películas, Clint Eastwood tece críticas sobre temas controversos: o sistema político e econômico americano, a estrutura familiar, a acelerada entrega dos jovens à tecnologia, o tráfico de drogas, a emigração, preconceito racial. O velho Earl Stone transita por tudo isso nas estradas, na sua vida cotidiana, um retrato dos EUA. 

A mula (The mule, EUA, 2018), de Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bradley Cooper, Michael Pena, Alison Eastwood, Diane Wiest. 

Estrelas de cinema nunca morrem

Gloria Grahame (1923/1981) foi das atrizes mais promissoras do cinema clássico americano. Trabalhou com grandes diretores como Frank Capra, Vincente Minnelli, Nicholas Ray (com quem foi casada). Em 1952, conquistou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme Assim estava escrito, uma das melhores produções sobre o sistema de estúdio hollywoodiano. Logo depois, sua carreira entrou em declínio devido a escândalos relacionados a assédio sexual. A atriz foi casada quatro vezes, uma delas com seu ex-enteado, Anthony Ray, filho de Nicholas Ray. O diretor acusou Gloria de ter começado o relacionamento com Anthony quando ele tinha apenas 13 anos. Nos anos 70, a atriz trabalhou basicamente com teatro nos EUA e na Inglaterra.

Estrelas de cinema nunca morrem aborda os últimos três anos de vida de Gloria Grahame, quando ela conheceu e se apaixonou pelo jovem ator Peter Turner, de Liverpool. O filme, baseado no livro de Peter, retrata uma atriz vaidosa e obcecada por seu trabalho, o que poderia, inclusive, ter contribuído para sua morte aos 57 anos. Gloria foi diagnosticada com câncer, mas se recusou a fazer quimioterapia pois perderia seus cabelos, em consequência ela não conseguiria mais atuar.

O título original é bela homenagem à relação da cidade de Liverpool com o cinema, representada pela família de Peter Turner. O destaque da película é a abordagem da vida de uma estrela de Hollywood, sofrendo com as imposições dos estúdios mas lutando para se entregar às paixões fora das telas.    

Estrelas de cinema nunca morrem (Film stars don’t die in Liverpool, EUA, 2017), de Paul McGuigan. Com Annette Bening (Gloria Grahame), Jamie Bell (Peter Turner), Julie Walter (Bella Turner). 

Teu mundo não cabe nos meus olhos

Vitório perdeu a visão na infância. Vive feliz com sua condição: é pizzaiolo de sucesso, se diverte com amigos, frequenta estádios de futebol. Clarisse, sua esposa, insiste que ele faça uma operação para recuperar a visão. Vitório reluta, mas cede aos apelos. 

O filme faz interessante abordagem sobre escolhas, mesmo que seja manter a deficiência que, para muitos, significa estar de olhos fechados para o mundo. O egoísmo também está presente nas relações: para a família, o melhor é Vittório voltar a enxergar. O tom de comédia está na relação entre Vitório e seu assistente Cleomar. 

Como outros filmes – Perfume de mulherO milagre de Anne SullivanUm clarão nas trevasPor trás de seus olhos, a película de Paulo Nascimento trata com sensibilidade a questão da deficiência visual.  

Teu mundo não cabe no meus olhos (Brasil, 2018), de Paulo Nascimento. Com Edson Celulari (Vitório), Leonardo Machado (Cleomar), Giovana Echeverria (Alicia), Soledad Villamil (Clarisse), Roberto Birindelli (Dr. Jantzen).

Todo clichê do amor

A trama segue a tradicional estrutura de histórias paralelas que podem se cruzar. São quatro, envolvendo diversos personagens: ator de filme pornô discute ao telefone com a mulher, garota de programa; motoboy se apaixona por atendente de lanchonete; casal discute a relação; madrasta e enteada colocam em debate a relação, enquanto velam o corpo do homem responsável pela convivência forçada das duas. A ousadia da trama está na leitura de trechos de um romance que está também sendo encenado em novela de rádio e pode ser o ponto de união das histórias.

O destaque do filme é Marjorie Estiano (das grandes estrelas do cinema nacional) como garota de programa, vestida a caráter para a prática de atos sadomasoquistas. Ao mesmo tempo, ela se entrega ao programa e discute a relação com o marido no telefone. As quatro histórias oscilam entre o drama e a comédia.   

Todo clichê do amor (Brasil, 2017), de Rafael Primot. Com Débora Falabella, Eucir de Souza, Clarissa Kiste, Maria Luísa Mendonça, Marjorie Estiano. 

Um lugar silencioso

Tramas ambientadas em mundo apocalíptico, no qual a humanidade foi praticamente dizimada, dominam a ficção científica do cinema contemporâneo. Basta dar uma passada pelo catálogo da Netflix para achar uma dúzia de filmes do tipo. A inovação em Um lugar silencioso está na escolha do plot que movimenta a narrativa: a terra foi invadida por seres que não enxergam, mas caçam suas vítimas, os humanos, através do apurado senso auditivo. Casal, interpretado por John Krasinski e Emily Blunt, vive com os dois filhos em cabana na floresta. Só podem se comunicar através de sinais, vivem no mundo silencioso. O problema é que a mulher está grávida, terá seu filho sem anestesia. 

A primeira sequência do filme apresenta de forma perturbadora o que vem pela frente. A luta dos humanos contra o desconhecido, que pode surgir do nada ao menor ruído, rende ótimas cenas de suspense. Em sua estreia como diretor, o ator John Krasinski promete ser dos grandes nomes por trás da câmera. 

Um lugar silencioso (A quiet place, EUA, 2018), de John Krasinski. Com Emily Blunt, Noah Jupe, Millicent Simmonds, Cade Woodward, Leon Russom, John Krasinski.