Benzinho

Irene, o marido Klaus e seus quatro filhos vivem o cotidiano da classe média brasileira, às voltas com problemas de dinheiro e de relacionamentos. O refúgio é uma decrépita casa de praia, ideal de consumo principalmente de Irene. A virada no roteiro acontece quando o primogênito ganha bolsa para jogar handebol na Alemanha. O descontrole toma conta de Irene diante da possibilidade de se afastar de um dos filhos. 

A força de Benzinho está em colocar estes conflitos mesclando humor e drama na medida certa. Importantes debates do contemporâneo pontuam a trama: sonhos de consumo da classe média, violência contra a mulher, estresse provocado pelos traumas cotidianos em família (a mãe completamente entregue aos filhos), jovens sem perspectiva que enxergam apenas o aeroporto como saída. A explosão de Irene na cozinha da casa é o grande momento do filme. 

Benzinho (Brasil, 2018), de Gustavo Pizzi. Com Karine Teles, Otávio Muller, Adriana Esteves, Konstantinos Sarris. 

Monsieur e Madame Adelman

É o funeral do premiado escritor Victor Adelman. Os convidados lamentam e levantam suspeitas sobre a causa da morte. A viúva Sarah Adelman convida o biógrafo do escritor para uma conversa na biblioteca. Com frieza e sinceridade, Sarah rememora toda a vida em comum do casal, quando se conheceram, em 1971, até a morte do escritor.

Os flashbacks são reconstituídos em capítulos, com títulos e data, como em uma narrativa literária. A história mescla romantismo, adultério, tragédias pessoais, conflitos entre o casal e com os filhos, tudo com bom humor. As situações e diálogos compõem um filme irresistível que se completa com a perfeita parceria em cena do casal (também na vida real).

A estreia na direção do roteirista e diretor Nicolas Bedos é promissora e a associação com a literatura revela momentos surpreendentes (o final do filme), quando ficção e realidade podem ser uma coisa só. As imagens que nos encantam no cinema, as palavras que nos seduzem na literatura, escondem mistérios que não precisam ser revelados, mentiras que não precisam de confirmação. Como a boa literatura, como o bom cinema.

Monsieur e Madame Adelman (MR & MME Adelman, Bélgica/França, 2017), de Nicolas Bedos. Com Nicolas Bedos (Victor Adelman), Doria Tillier (Sarah Adelman).

Comeback

A periferia de Goiânia é o ambiente para Comeback, filme que flerta com o thriller de ação e com o faroeste, carregando na composição psicológica do protagonista. Amador, um matador aposentado, recebe a incumbência de treinar o neto de seu amigo Davi. A relação entre os dois passa pelos relatos de Amador, cujas façanhas estão registradas em um álbum de recortes de jornais, incluindo a famosa chacina em um bar nas imediações. Ao mesmo tempo, dois cineastas fazem pesquisa para um filme e colocam em dúvida as histórias relatadas pelo matador que, segundo um deles, “não tem cara de pistoleiro.”

A melancolia está expressa nos diálogos entre Amador e seus antigos colegas de profissão, principalmente Davi, que espera a morte em um leito de hospital. Da mesma forma, o caminhar de Amador pelas ruelas à noite (interpretação primorosa de Nelson Xavier em seu último papel), percorrendo bares, tentando sobreviver à custa de instalação de máquinas caça-níqueis, revelam um homem amargurado, bem ao estilo dos pistoleiros decadentes retratados por John Ford e Howard Hawks nos anos 60. O final, que poderia ser a volta do título, é a constatação de que o passado está irremediavelmente impresso nas memórias do matador.

Comeback (Brasil, 2016), de Érico Rassi. Com Nelson Xavier (Amador), Marcos de Andrade (Neto do Davi), Everaldo Pontes (Davi), Gê Martú (Tio), Sergio Sartorio (Cineasta 1), Eucir de Souza (Cineasta 2).

Ana e Vitória

A dupla Anavitória integra um ritmo musical contemporâneo conhecido como “pop rural”. As duas jovens já conquistaram o Grammy Latino com apenas cinco anos de carreira. O filme Ana e Vitória parte de ideia do produtor das intérpretes para divulgação, se transformando em uma espécie de storytelling em longa-metragem. 

Ana e Vitória interpretam elas mesmas no momento em que se conheceram. É mistura de documentário e ficção e grande parte da narrativa se passa em ambientes fechados: bares, casas de espetáculos, hotéis. Pontos fortes da narrativa são as músicas e a coragem em retratar as escolhas amorosas das jovens e seus parceiros/parceiras. Amizade, amor, sexo, tudo se confunde de maneira natural à medida que Ana e Vitória descobrem sua música e a si mesmas. 

Ana e Vitória (Brasil, 2018), de Matheus Souza. Com Ana Caetano, Vitória Falcão, Thati Lopes, Érika Mader, Bruce Gomlevsky, Clarissa Muller.

Histórias que nosso cinema (não) contava

Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

Yonlu

YonluFerrugem e Torquato Neto – Todas as horas do fim compõem filmes do cinema contemporâneo brasileiro que colocam tema tabu em discussão: o suicídio entre jovens. Enquanto Ferrugem é puramente ficcional, Torquato Neto documenta a carreira do poeta/letrista que participou da tropicália. Yonlu parte de um caso real: em 2006, Vinícius Gageiro Marques, 16 anos, se matou em sua casa, em Porto Alegre. O jovem fazia parte de grupos virtuais de jovens que sofriam com a depressão. Ele filmou e transmitiu on-line seu ato final.

O diretor Hique Montanari faz escolhas estéticas ousadas para recriar os problemas enfrentados pelo jovem. Vinícius era músico, poeta, artista promissor que depois da morte teve várias músicas gravadas. A narrativa usa as músicas para compor o perfil psicológico de Yonlu, provoca interações da animação e do grafismo em momentos de devaneio e coloca atores mascarados em cena com Yonlu para recriar fisicamente o mundo virtual do qual fazem parte os personagens. Um psicólogo, em entrevista a jornalista, explica didaticamente os problemas enfrentados por Vinícius e jovens no mesmo estado. O filme toca em tema polêmico com ousadia e sensibilidade.  

Yonlu (Brasil, 2017), de Hique Montanari. Com Thalles Cabral, Nelson Diniz, Lorena Lorenzo, Leonardo Machado, Liane Venturella. 

A morte de Stalin

A trama apresenta sucessão de situações cômicas, bem ao estilo comédia de erros, envolvendo os fatos reais que antecederam e sucederam à morte do ditador russo. Personagens reais se envolvem em tramas ficcionais, principalmente quando entra em cena uma pianista que seria a responsável pelo envenenamento de Stalin. O filme é baseado em revista em quadrinhos francesa e foi proibido pouco antes da estreia na Rússia (as associações com o atual momento soviético, comandado pelo longevo poder de Vladimir Putin são visíveis). Steve Buscemi, no papel de Nikita Kruschev, é o grande nome da película, comandando as intrigas para assumir o comando do partido comunista após a morte de Stalin. 

A morte de Stalin (The death of Stalin, Inglaterra, 2018), de Armando Iannucci. Com Steve Buscemi, Jeffrey Tambor, Jason Isaacs, Svetlana Stalina.  

O valor de um homem

O valor de um homem é um golpe preciso no sistema capitalista que condena cidadãos ao desemprego e à busca desesperada por condições de subsistência. Thierry tem 50 anos e está desempregado há cerca de dois anos. Passa os dias em entrevistas, ouvindo solenemente que não é adequado para os cargos que pretende. Em casa, junto com a mulher, cuida com carinho do filho deficiente. Até que consegue emprego como segurança de uma loja de departamentos.

Desse ponto em diante, Thierry se confronta com seus princípios, pois tem que vigiar e delatar pessoas comuns que furtam objetos dentro da loja e seus próprios colegas de trabalho que burlam normas para conseguir um dinheiro a mais no final do mês. Os encontros entre os seguranças e os acusados na sala de interrogatório da empresa são exemplares da crueldade fria deste sistema que coloca cidadãos como bandidos, humilhados diante da câmera.

O ator Vincent Lindon foi premiado no Festival de Cannes e com o César, Oscar do cinema francês. A linguagem despojada é outro grande trunfo, quase um documentário (a maioria dos atores são amadores). O filme é construído com uma câmera fria, planos fechados no tormento de Thierry e dos acusados,  cortes secos em sequência evidenciando um cinema feito de olhar direto e sofrido.

O valor de um homem (La loi du marché, França, 2015), de Stéphane Brizé. Com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller.

Corações famintos

A exemplo de Capitão Fantástico (2016), Corações famintos apresenta discussão sobre o direito dos pais criarem seus filhos de forma alternativa. No entanto, no filme do italiano Saverio Costanzo, a reflexão ganhar ar de suspense.

Mina e Jude se conhecem no banheiro de um bar, quando ficam trancados juntos. Mina entra inadvertidamente no banheiro masculino logo após uma crise de diarreia de Jude. Ela quase não suporta o cheiro fétido, metáfora do que está por vir: a podridão que exala dos humanos após se empanturrarem com todos os tipos de alimentos.

Os dois se apaixonam, casam e têm um filho. A partir daí, o relacionamento entra em uma espiral depressiva, movida pela decisão de Mina em criar o filho com alimentos naturais, sem carne, e sem contato com o mundo exterior. A mãe está obcecada por uma visão sobre o filho índigo e por um enigmático sonho de um caçador abatendo um cervo (Corações famintos é adaptação do romance Il bambino indaco, de Marco Franzoso).

Os atores Adam Driver e Alba Rohrwacher ganharam os prêmios de melhor atuação no Festival de Veneza. Eles dominam o filme em um embate psicológico, por vezes físico. Seus personagens se demonstram despreparados para encarar o mundo a partir do momento em que uma vida completamente dependente se institui entre eles. Com final extremo, Corações famintos faz refletir sobre nossa posição diante dos filhos.

Corações famintos (Hungry hearts, Itália, 2014), de Saverio Costanzo. Com Adam Driver (Jude), Alba Rohrwacher (Mina), Roberta Maxwell (Anne).

Minha vida de abobrinha

A animação, Inspirada no romance de Gilles Paris “Autobiographie D’Une Courgette”, usa a fascinante técnica do stop-motion  de massinhas para contar uma história adulta ambientada no universo infantil. O garoto Ícaro (Abobrinha) sofre com os castigos impostos pela mãe alcoólatra. Um dia, escondido no sótão da casa para fugir de uma possível sova, provoca um acidente que resulta na morte da mãe.

Abobrinha é encaminhado para um orfanato onde passa a conviver com outras crianças, todas abandonadas pelas famílias por diversos motivos: uso de drogas por parte dos pais, deportação de uma mãe africana e até um pai que mata a mãe de uma das internas e depois se mata.

O mérito da animação é colocar isto de forma simples, tudo visto pelos olhos das crianças que desenvolvem uma união dentro do orfanato enquanto sofrem solitárias, cada uma à sua maneira. Minha vida de Abobrinha não apresenta as tradicionais viradas na trama, a curta história, cerca de uma hora de duração, é um retrato sensível destas crianças que, mesmo abandonadas, buscam o sentido alegre e infantil da vida.

Minha vida de Abobrinha (Ma vie de Courgette, França/Suíça, 2016), de Claude Barras.