Os artistas sob a cúpula do circo

Os artistas sob a cúpula do circo (Die artisten in der zirkuskuppel: ratlos, Alemanha, 1968), de Alexander Kluge. 

“A utopia fica cada vez melhor enquanto esperamos por ela”. A frase define a jornada de Leni Peickert (Hannelore Hoger), filha de um dono de circo que morre em um acidente no trapézio. Ela herda o circo e empreende uma luta para inovar a arte circense, com apresentações que misturam entretenimento e, ao mesmo tempo, motivam reflexões sociais, políticas e culturais. Leni representa a juventude utópica que tentou mudar o mundo nos anos 60 e fracassou – Leni vive de empréstimos para realizar seu sonho, vai à falência e resolve trabalhar na televisão (a derrocada das utopias diante do sistema capitalista). 

O filme experimental de Alexander Kluge é uma fascinante mescla de ficção, documentário, cenas gravadas em circos, depoimentos para a câmera, colagem de imagens, uma narração poética em off; tudo montado de forma fragmentada, apresentando personagens e situações que se interligam de forma dispersa. A ousadia do diretor Alexander Kluge, integrante do novo cinema alemão, conquistou o Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

Woyzeck

Woyzeck (Alemanha, 1979), de Werner Herzog. 

O soldado raso Woyzeck (Klaus Kinski) vive em uma pequena vila alemã do século XIX. Ele cumpre suas obrigações com dedicação e zelo e só anda correndo pela cidade. É casado com Marie, com quem tem um filho de dois anos. Leva uma vida mísera, sobrevivendo das moedas que ganha do médico da cidade, que usa Woyzeck como cobaia de experimentos físicos e psicológicos. O capitão do regimento também despreza e humilha Woyzeck que aceita tudo com resignação. O soldado sofre também com delírios de perseguição.  

O filme é baseado na peça inacabada de Georg Buchner (o autor faleceu aos 23 anos antes de terminar a obra), considerada uma das mais populares do teatro alemão. Klaus Kinski repete a parceria com o diretor Werner Herzog, os dois tinham acabado de finalizar Nosferatu (1979). 

A narrativa é centrada na lenta degradação de Woyzeck, cada vez mais atormentado pela miséria e pelas humilhações, seus delírios crescem. O estopim acontece quando ele suspeita que Marie está tendo um caso com um oficial. A longa e triste sequência perto do final aponta os limites da mente humana, com uma interpretação sublime de Klaus Kinski. 

Elenco: Klaus Kinski (Woyzeck), Eva Mattes (Marie), Wolfgang Reichmann (Capitão), Willy Semmelrogge (Doutor), Paul Burian (Andres).

Os sobreviventes

Os sobreviventes (Los sobrevivientes, Cuba, 1979), de Tomás Gutiérrez Alea.

Tomás Gutiérrez Alea se inspira em O anjo exterminador (1962), de  Luis Buñuel, para compor uma das severas críticas às classes dominantes cubanas. Após a revolução cubana, a aristocrática família Orozco se isola na propriedade rural, uma mansão suntuosa. Vicente Cuervo é promovido a tutor da família, ficando responsável por administrar os bens e o dinheiro dos Orozco. Em uma festa, ele é flagrado no jardim fazendo sexo com uma das filhas de Sebastián Orozco. Forçado a se casar, passa a integrar a família. 

A narrativa mescla críticas contundentes à elite cubana, representada pelos Orozco, que se recusam a aceitar a revolução, com esquetes de verdadeiro humor negro. Após cada notícia que anuncia represálias, principalmente dos EUA, a trupe formada por dezenas de isolados na mansão, celebra e brinda o fim da revolução. Depois voltam a um estado de letargia, comendo e bebendo sem parar, brigando entre eles, se escondendo no porão da casa com medo do ataque nuclear. 

A narrativa acontece inteiramente dentro da casa e nos arredores com ações de humor negro que assumem a influência surrealista. O padre foge da casa e delega suas funções a um dos integrantes da família, que assume o posto com fervor religioso.  O motorista rouba o carro e deixa escrito na garagem: “Nós também podemos ter um Buick.” A matriarca da família morre no exílio americano e seu último desejo é ser enterrada em Cuba: as cinzas dela são remetidas dentro de uma lata de Sopa Knorr. 

Elenco: Enrique Santiesteban (Sebastián Orozco), Juanita Calevilla (Dona Lola), Germán Pinelli (Pascual Orozco), Ana Viña (Fina Orozco), Reynaldo Miravalles (Vicente Cuervo), Vicente Revuelta (Julio Orozco). 

Dona Lurdes – o filme

Dona Lurdes – o filme (Brasil, 2024), de Cristiano Marques. Dona Lurdes – o filme se insere nas modernas produções transmídias, começando com a novela Amor de mão (2019), cujas variações incluem ainda o romance Diário de Dona Lurdes. Manuela Dias é a autora de todos os formatos. 

No filme, a mãe protetora interpretada por Regina Casé tem que lidar com a síndrome do ninho vazio, quando Ryan, único filho que ainda morava com ela, sai de casa. Dona Lurdes inicia uma amizade com Zuleide, sua nova vizinha, que a incentiva a buscar um novo relacionamento amoroso. 

Com diversas participações de atores e atrizes do elenco global, o filme é claramente sustentado pela atuação nonsense, irreverente e provocativa de Regina Casé. O destaque, negativo, fica por conta de um Evandro Mesquita deslocado, no papel do bom moço apaixonado Mário Sérgio. Ator e personagem não combinam, pois todo espectador sabe o que esperar do grande Evandro Mesquita quando entra em cena. 

Elenco: Regina Casé (Dona Lourdes), Evandro Mesquita (Mário Sérgio), Arlete Salles (Zuleide), Thiago Martins (Ryan), Chay Suede (Danilo), Jéssica Ellen (Camila), Nada Costa (Érica), Juliano Cazarré (Magno). 

A deusa

A deusa (Devi, Índia, 1960), de Satyajit Ray.

Doyamoyee (Sharmila Tagore), de apenas 16 anos, é casada com o estudante universitário Umaprasad. Eles moram na casa do pai de Uma, Kalikinkar Roy (Chhlabi Biswas), junto com outros integrantes da família. Doya é uma bondosa cuidadora, dedicando seu tempo em brincadeiras com o sobrinho de Uma e cuidando do sogro já idoso. O sogro não se cansa de reafirmar que, após a viuvez, Doya é uma “benção” em sua vida.

O diretor Satyajit Ray abre o filme com o letreiro informando que “ouviu essa história de alguém.” A seguir, uma sucessão de imagens da deusa Durga se sobrepõem, formando uma espécie de mosaico da divindade. 

O tema do filme é o fanatismo religioso, deflagrado por um acaso onírico. Uma precisa se ausentar por um tempo para concluir seus estudos. Doya continua com seus afazeres em casa, o sogro se tornando cada vez mais dependente de seus cuidados. Uma noite, Kalikinkar sonha com a Deusa Durga e a imagem se funde com o rosto de Doya. Na manhã seguinte, ele anuncia a todos que a jovem é a reencarnação da deusa. 

O filme retrata temas bastante atuais em questões relacionadas ao fanatismo religioso. Doya passa a ser adorada pelos moradores, pessoas distantes a visitam em busca de cura, que se recusam a buscar tratamento médico pois acreditam no poder da deusa. 

Assim como em outras obras de Satyajit Ray, o conflito de gerações também marca a narrativa. O jovem Uma se recusa a aceitar a situação e tenta tirar Doya da casa. Seu irmão mais velho, o pai e demais membros da comunidade continuam a incentivar o culto, até que um incidente trágico muda tudo.  Em meio a tudo isso, a adolescente Doya passa por um conflito perigoso: a dúvida sobre sua predestinação.

A esposa solitária

A esposa solitária (Charulata, Índia, 1964), de Satyajit Ray.

Charulata (Madhabi Mukherjee) está tecendo um lenço para seu marido. Ela caminha pela casa. Volta ao quarto, se recosta na cama, folheia um livro. Anda pela casa novamente, percorrendo os ambientes luxuosos. Vai até a estante, pega outro livro, continua seu caminhar, agora cantarolando. Abre as persianas da janela, volta ao seu quarto e pega os binóculos duplos. Com o aparelho, observa as pessoas na rua. Tem um olhar curioso, um sorriso no rosto. Abre outra persiana e continua com seu olhar perscrutador para a rua. Se volta para a sala, observa os móveis, senta-se ao piano, faz que vai entoar algumas notas. Nesse momento, Bhupathi (Shailen Mukherjee), seu  marido, entra em cena.

Esta abertura silenciosa, narrativa visual bem ao estilo de Satyajit Ray, aponta o tema do filme. Charu é casada com um próspero e idealista jornalista, que dedica todo seu tempo ao trabalho. Ela passa os dias tentando vencer o tédio, se sentindo cada vez mais solitária na imensa casa onde reside. Tudo muda quanto Amal (Soumitra Chatterjee), jovem primo de Bhupathi, chega para passar uns dias na casa. 

O triângulo amoroso toma conta da narrativa. Amal é um jovem estudante de literatura, com pretensões de se tornar escritor. Ele dedica seu tempo em conversas e leituras com Charu, incentivando para que a jovem também escreva. A aproximação entre os dois é insinuada em gestos, trocas de olhares, versos em pedaços de papéis – a sutileza visual do grande diretor indiano. 

A longa sequência do jardim é de desejar que todo o cinema seja assim, silencioso: Charu brinca no balanço e não consegue desviar os olhos de Amal que escreve deitado na grama. O olhar de Charu oscila, junto com o balançar, entre a admiração, a descoberta, o fascínio, o amor. 

Memórias do subdesenvolvimento 

Memórias do subdesenvolvimento (Memorias del subdesarrollo, Cuba, 1968), de Tomás Gutiérrez Alea.

Cuba, 1961. Diversos cubanos deixam o país, entre eles os pais e a mulher de Sergio (Sergio Corrieri), um negociante que, após a revolução, alugou seus imóveis e passou a viver da renda advinda das locações. Sergio se despede de seus familiares no aeroporto, ele decidiu não deixar o país. Entre 1961 e 1962, o protagonista, que tem pretensões de ser escritor, perambula pelas ruas de Havana, tentando entender os acontecimentos e buscando relacionamentos com mulheres.

O clássico de Tomás Gutiérrez Alea se divide entre a ficção e o documentário. As incursões de Sergio pela nova sociedade é marcada pela amargura: ele toma consciência pouco a pouco que não tem mais como se integrar à nova realidade e sua forma de escape são pequenas aventuras. O relacionamento entre Sergio e uma de suas conquistas, Elena (Daisy Granados), de apenas 16 anos de idade, tem consequências drásticas, pois ele é acusado de estupro pela família da adolescente.  

“Com narrações frequentes, Alea apimenta a história da vida de Sergio com discursos sobre diversos temas. Há um esclarecedor monólogo sobre a dialética marxista, curiosidades sobre as dificuldades de se envelhecer em um clima tropical, o tema genérico do subdesenvolvimento e as inconsistências sociais durante os primeiros dias do governo de Fidel Castro. Esse talvez seja o filme de maior fama internacional produzido em Cuba e dirigido por um dos fundadores da companhia de cinema estatal, Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC). Memórias do subdesenvolvimento é uma crítica impiedosa do sistema capitalista e da revolução comunistda. Dentro da história simples da crise de um homem estão elementos de fantasia, cenas de cinejornais e toques de drama que expressam ao mesmo tempo deleite e desprezo diante do desenrolar da Guerra Fria. Elegante e poderoso, é um tributo à influência criativa de Cuba em um momento de aguda supressão cultural usada como uma máscara para um futuro melhor.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A sala de música

A sala de música (Índia, 1958), de Satyajit Ray. 

Huzor Roy (Chhabi Biswas) passa os dias sentado no terraço de seu palacete, servido por seus dois últimos criados. Uma manhã, ele ouve música na casa ao lado e fica sabendo que é o ritual de iniciação do filho dos vizinhos. Flashback remete Roy à iniciação de seu filho, quando o palácio ainda vivia na opulência advinda do feudalismo – na época, Roy era um rico proprietário de terras.

Satyajit Ray realizou A sala de música no intervalo entre o segundo e terceiro filme da famosa trilogia de Apu. O cineasta, motivado por sua paixão pela música clássica (Ray compôs grande parte da trilha sonora de seus filmes), adaptou o conto de Tarasankar Bandyopadhyay, com a intenção de realizar uma espécie de ópera fílmica, usando músicas clássicas indianas. “Fiquei pensando se música e dança poderiam ser temas aceitos no cinema indiano. Esses senhores feudais normalmente eram mecenas das melhores músicas clássicas indianas. Então a música e a dança eram partes essenciais da história. Achei que seria um filme interessante de se fazer. Neste filme temos um homem rico vivendo em um palácio enorme e sua vida está chegando ao fim. Foi por isso que me atraí por esta história, e foi por isso que fiz o filme.” 

O tema do filme é a decadência do feudalismo diante da modernidade industrial. Uma cena antológica, primor de narrativa visual, demarca essa passagem: Roy chega à varanda de seu palacete e vislumbra a terra árida, que outrora estava coberta de plantações. Um elefante é visto distante, mas visível em sua opulência. Um caminhão entra em quadro pela direita, trafegando pela estrada entre o palacete e o animal. A poeira levantada pelo veículo cobre inteiramente o elefante. 

“A atmosfera de decadência e a melancolia do filme são quase inebriantes. Sentimos o fim do mundo de Roy visceralmente e, ainda assim, como o protagonista, desejamos que ele não morra – por mais impossível que isto seja. A observação atenta e a evocação meticulosa de uma época e lugar – características dos filmes neo-realistas de Ray – funcionam bem aqui, porém para fins mais expressionistas. Vemos que os dois criados restantes estão perdendo a batalha para os elementos da natureza à medida que plantas e insetos tomam conta do castelo. As planícies sem vegetação que Roy observa espelham sua morte lenta. Satyajit Ray explora novas idéias e técnicas neste filme – e é fascinante assistir à expansão do seu estilo. A sala de música é um banquete para os sentidos e uma obra-prima essencial do cinema mundial.”

Elenco: Chhabi Biswas (Huzur Biswarbhar), Gangapada Basu (Mahim Ganguly), Padma Devi (Mahamaya). 

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Pedágio

Pedágio (Brasil, 2023), de Carolina Markowicz.

Suellen trabalha como cobradora de pedágio nas imediações de Cubatão. Ela vive com seu namorado Eraldo e o filho adolescente Tiquinho, que passa os dias entre os estudos e gravando vídeos para a internet se insinuando como transformista. Suellen descobre que Eraldo está envolvido com atividades criminosas e o expulsa de casa. 

A diretora Carolina Markowicz e a atriz Maeve Jinkings repetem a parceria do primeiro longa da diretora, Carvão (2022). O tema do filme é a relação conflituosa entre Suellen e seu filho, com decisões que abrem a reflexão sobre o fanatismo religioso e o preconceito. Suellen recorre a um Pastor que ganhou renome no procedimento de “cura-gay”, tentando matricular Tiquinho no curso. Como o “tratamento” é caro, Suellen se alia a Eraldo, fornecendo informações sobre os viajantes que passam pelo pedágio com potencial para serem assaltados na estrada. 

Pedágio participou de importantes circuitos internacionais, entre eles o Festival Internacional de Cinema de Toronto e o Festival de San Sebastian. O filme foi um dos pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar 2024 e recebeu diversos prêmios no Brasil, consolidando o nome de Carolina Markowicz como uma das mais promissoras diretora do cinema nacional contemporâneo. 

Elenco: Maeve Jinkings (Suellen), Kauan Alvarenga (Tiquinho), Aline Marta Maia (Telma), Thomás Aquino (Arauto), Isac Graça (Pastor Isac).

O herói

O herói (Nayak, Índia, 1966), de Satyajit Ray. 

Arindam Mukherjee (Uttam Kumar), famoso ator de filmes comerciais, embarca em um trem em Calcutá, com destino a Nova Delhi, onde vai receber um prêmio. Naquela manhã, o ator é manchete dos jornais após ser flagrado bêbado, brigando em um bar. 

Durante a viagem de 24 horas, Arindam interage com outros passageiros. Um jornalista que despreza a indústria cinematográfica. Uma adolescente adoentada e silenciosa, sua companheira de cabine, que se limita a olhares ternos para seu ídolo. A mãe da adolescente que fala sem parar sobre sua idolatria, sob o olhar recriminador da filha. Aditi Sengupta (Sharmila Tagore), editora de uma revista feminina, que também sente certo desprezo pelo mundo do cinema.

O herói motiva a reflexão sobre a indústria cinematográfica que cria astros, talvez efêmeros, “basta dois filmes fracassos de bilheteria, para você estar fora do sistema”, diz Adiram em um diálogo. O filme se passa inteiramente dentro do trem, com flashbacks e inserções de sonhos do protagonista – ele caminha por uma montanha de dinheiro até ser sugado diante dos olhos de seu antigo mentor, um diretor de teatro, que se recusa a salvá-lo. 

Os encontros entre Adiram e Aditi – ela funciona como uma espécie de consciência do ator, rendem os diálogos mais provocativos da narrativa. Aditi o confronta, tentando esconder o deslumbramento que sente pelo ator atrás de seus pesados óculos de grau. Adiram também esconde, usando óculos escuros quase o tempo todo, seu olhar conflituoso e amargurado. No entanto, o mestre indiano Satyajit Ray não esconde seu olhar crítico e severo sobre o cinema e suas celebridades.