As praias de Ouroet

As praias de Orouet (Du côté d’Orouet, França, 1971), de Jacques Rozier. 

Caroline, Joelle e Kareen chegam a Orouet, sul da França, para passar as férias de verão. Elas ficam na casa da família de Kareen, um velho sobrado de frente para o mar. Pouco depois, Gilbert, colega de trabalho de Joelle, se junta ao grupo. 

A narrativa é demarcada por inserts que anunciam os dias e as horas do mês de setembro. As jovens se aventuram diariamente pelas praias, fazendas da região, um cassino que mais parece uma vila de pescadores. A virada amorosa acontece quando elas conhecem Patrick, um velejador da região (atenção para a espetacular sequência de Patrick, Caroline e Joelle velejando, o vento fustigando o barco e as velas – um primor de filmagem em mar aberto). 

O diretor Jacques Rozier experimentara esse tipo de narrativa, jovens que se deliciam ao mar e ao sol, no curta Blue Jeans (1958). Em As praias de Orouet, o diretor se consagra com um estilo de filmagens livres, improvisadas, quase como se a câmera também se deixasse levar pelos dias de verão. “Rozier começava a filmar as jovens na praia à tarde, continuava até ao anoitecer e terminava com algumas sequências à luz dos faróis dos carros. Um filme dele é um mosaico, uma invenção permanente, algo muito raro no cinema – Jean-François Stévenin, ator e realizador.

Nada de surpreendente acontece nas quase três horas de duração do filme. Cada sequência acompanha momentos do grupo marcados pela extroversão, pelas brincadeiras em casa e nas praias, pelas refeições, por momentos de melancolia. São as férias de verão em que tudo, ou nada, pode acontecer. 

Elenco: Caroline Cartier (Caroline), Daniele Croisy (Joelle), Françoise Guégan (Kareen), Patrick Verde (Patrick), Bernard Menez (Gilbert).

Quando o tempo cair

Quando o tempo cair (Brasil 2006), de Selton Mello.

Em seu primeiro filme como diretor, um drama melancólico realizado em 16mm, Selton Mello fez uma aposta ousada: escalou como protagonista Jorge Loredo, mais conhecido pelo eterno Zé Bonitinho.

Loredo interpreta Ivan, um homem idoso, já aposentado, que mora em um pequeno apartamento junto com o filho e o neto. O filho está desempregado e sofre com a depressão, motivo que leva Ivan a procurar emprego para o sustento da família.

O curta-metragem aborda questões importantes e crueis da sociedade brasileira como o etarismo no mercado de trabalho e a depressão entre os jovens. Ivan enfrenta isso com resignação e otimismo, como quem sabe que não tem o que fazer diante dos problemas que o acometem, mas não perde a esperança e o olhar carinhoso para a vida, como na cena final, contemplando sua família na praça.

Morango e chocolate

Morango e chocolate (Fresa y chocolate, Cuba, 1993), de Tomás Gutiérrez Alea, conquistou o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim e é o único filme cubano indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A narrativa acompanha a relação que se cria entre David (Vladmir Cruz), estudante de ciências políticas, e Diego (Jorge Perugorría), artista homossexual. Enquanto David é militante comunista, defensor da revolução, Diego tem ressalvas sobre os princípios adotados pelo regime, principalmente em questões relacionadas à censura cultural e às perseguições que sofre por sua identidade sexual. 

O diretor Tomás Gutiérrez Alea, cuja obra mais aclamada mundialmente é Memórias do desenvolvimento (1968), continua com seu olhar crítico sobre as consequências da revolução comunista em Cuba, principalmente, em termos econômicos, sociais e culturais.

Os debates entre David e Diego representam os olhares distintos sobre o regime. Ambos defendem a justiça social, porém discordam sobre os métodos adotados. O preconceito social também é tema relevante da trama. 

A princípio, David renega Diego, “um maricón”, mas se deixa envolver cada vez mais pela sensibilidade, delicadeza e inteligência do jovem artista. O gesto final entre os dois é de enternecer até o mais empedernido dos espectadores. 

Elenco: Jorge Perugorria (Diego), Vladimir Cruz (David), Mirta Ibarra (Nancy), Francisco Gattorno (Miguel). Marilyn Solaya (Vivian). 

Vidas secas

Vidas secas (Brasil, 1963), de Nelson Pereira dos Santos.

A morte da cachorra Baleia é uma das cenas mais tristes do cinema brasileiro. Ela olha uma última vez para os roedores à distância, sem disposição para persegui-los. Baleia se deita e fecha os olhos sonolenta. 

Vidas secas foi filmado em Mirador do Negrão, município paupérrimo (ainda hoje), próximo a Palmeira dos Índios, onde viveu, e foi prefeito, Graciliano Ramos. Nelson Pereira dos Santos, pioneiro do cinema novo brasileiro com seu filme Rio 40 graus (1955), fez escolhas técnicas e estéticas para se aproximar ao máximo da narrativa do romance. 

Os diálogos quase não existem, os personagens, principalmente os protagonistas Fabiano (Átila Iório) e Sinhá Vitória (Maria Ribeiro) trocam frases curtas e inacabadas, como se nada precisasse ser dito diante do sol arrasador. Não há trilha sonora, o som direto capta as sensações do sertão e, em alguns momentos, agride os sentidos do espectador, como o estridente barulho do ranger das rodas do carro de boi. A câmera na mão, tremida, é também um retirante, acompanhando Fabiano e sua família pelas paisagens desertas. A fotografia, feita com luz natural forte, sem filtros, aproveita a inclemência solar para ampliar a sensação de decrepitude dos cenários e dos retirantes. 

“A fotografia e o som do filme são os exemplos mais claros desse movimento, na base do próprio deslocamento da equipe às locações em Alagoas. Vidas secas, nesse sentido, é um filme de sensações, marcado pelo som e pela luz do sertão, em seu modo de serem incorporados artisticamente na forma cinematográfica. A luz forte das imagens foi um grande achado original de Luiz Carlos Barreto, que concebeu a proposta de fotografia com o apoio de Nelson. É uma luz que machuca os olhos. A luz estourada ao fundo, como bem nota Nelson Pereira, faz com que a composição fotográfica tenha que ser feita nos rostos – é o que sobra como matéria na intensidade do branco do céu, que inunda a imagem e impregna a natureza.” – Fernão Pessoa Ramos. 

O filme começa e termina de forma semelhante, adotando a clássica estrutura circular das narrativas. “Um atrás do outro, primeiro surgem a cachorra Baleia, então Sinhá Vitória, Fabiano e os dois meninos, seus filhos. Como o filme vai mostrar, eles vêm de um lugar indefinido para chegar em outro.” – André Miranda

No final, as duas crianças caminham lentamente, atrás vem Sinhá Vitória, por fim, Fabiano, todos carregando pesados pertences e mantimentos apoiados nas cabeças. Ouve-se o som forte de um berrante, a família contorna a cerca que divide a estrada, olha para a paisagem agreste e segue em frente. A câmera não os acompanha, filma os quatro lado a lado de costas (como na bela cena final de Tempos modernos – 1936, de Charles Chaplin) se afastando, se afastando… Falta alguém nesse belo e triste enquadramento.  

Referências:

100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 
Nova história do cinema brasileiro. Volume 2. Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman (organização). São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018

Tiro de misericórdia

Tiro de misericórdia (Der fangschulft, Alemanha, 1976), de Volker Schlondorff.

Erich von Lhomond (Matthias Habich) é um oficial do exército alemão que, após a Primeira Guerra Mundial, comanda suas tropas na luta contra o Exército Vermelho, nos Países Bálticos. Grande parte da trama se passa na Letônia, na propriedade da família de Konrad von Reval (Rüdiger Kirschstein), soldado e amigo de Erich. Sophie von Reval (Margarethe von Trotta), irmã de Konrad, administra a propriedade e sua simpatia pelos comunistas vai provocar a virada trágica da narrativa. 

O diretor Volker Schlondorff, na época casado com Margarethe von Trotta, adaptou o romance homônimo de Marguerite Yourcenar. O filme tem como tema central um sugestivo triângulo amoroso: Sophie se apaixona por Erich, que a rechaça de forma agressiva – a sugestão é sobre a relação entre Erich e Konrad. Em uma cena, Volkmar, soldado apaixonado por Sophie, declara: “Ele (Erich) é esperto, conquista a irmã para tentar conquistar o irmão.”

O título do filme alude a um dos finais mais tristes e frios do cinema de todos os tempos. Sophie, grande personagem da narrativa, passa por um processo de degradação moral, motivada pela frieza com que é tratada por Erich, cuja verdadeira paixão é a guerra. Segundo a própria Sophie, “onde ele pode provar sua virilidade masculina”. 

Sophie abandona a propriedade e se junta aos comunistas, sendo considerada traidora. Ela é capturada pelas tropas de Erich e ouve com dignidade a sentença: “nenhum dos lados está fazendo prisioneiros.” Diante de seu amor, no gesto final, Sophie revela sua admirável força social, política e humana. 

O estado das coisas

O estado das coisas (Der stand der dinge, Alemanha, 1982), de Wim Wenders. 

Wim Wenders dirigiu Hammett (1982), história ficcional baseada na vida do escritor Dashiell Hammett. O filme foi produzido por Francis Ford Coppola, que se desentendeu com o diretor alemão na fase de pós-produção. Coppola não ficou satisfeito com o primeiro corte e dirigiu a refilmagem de diversas cenas, reeditando o filme. 

Frustrado com a experiência em Hollywood, Wim Wenders realizou, no mesmo ano de Hammett, O estado das coisas. O filme é uma reflexão pessoal sobre o processo autoral de fazer cinema e as dificuldades impostas pela necessidade de financiamento. 

A equipe, liderada pelo diretor Friedrich Munro (Patrick Bauchau), está no litoral de Sintra, filmando uma história passada em um futuro distópico que dizimou grande parte da população. O título Os sobreviventes é uma metáfora do sacrifício a que os cineastas se impõem – em alguns momentos os membros da equipe são chamados de os sobreviventes. As filmagens são paralisadas pois Gordon, produtor americano da obra, está em Los Angeles e não envia mais o dinheiro necessário para comprar a película e pagar a equipe.

Durante a espera, os integrantes se isolam no hotel desativado e decrépito à beira-mar que é utilizado para locação de Os sobreviventes. Roteirista, atores e atrizes, equipe técnica, cada um à sua maneira tenta vencer o tédio da espera e lidar com suas frustrações no mundo do cinema. Fritz resolve ir para Los Angeles à procura do produtor e se depara com um esquema perigoso do quai participam importantes figuras de Hollywood. 

A estrutura narrativa de O estado das coisas é a forma de Wim Wenders refletir sobre a sua decepcionante ida para Hollywood e os conflitos permanentes entre o cinema autoral e comercial. O filme é também uma homenagem a esses realizadores sobreviventes: Roger Corman e Samuel Fuller atuam em participações especiais e o nome do diretor, Friedrich Munro, é uma referência ao grande  Friedrich Murnau.

Elenco: Allen Garfield (Gordon), Samuel Fuller (Joe), Isabelle Weingarten (Anna), Rebecca Pauly (Joan), Jeffrey Kine (Mark), Patrick Bauchau (Friedrich Munro).