
Arquivo diário: 21 de agosto de 2025
São Paulo, sociedade anônima

São Paulo, sociedade anônima (Brasil, 1965), de Luiz Sérgio Person.
O diretor Luiz Sérgio Person foi uma espécie de representante isolado do cinema novo em São Paulo. O cinema novo se consolidou com a filmografia de dois grupos de cineastas, baianos e cariocas, que se juntaram na cidade maravilhosa refletindo, debatendo e praticando um cinema contestador, revolucionário, sempre centrando suas histórias na Bahia e no Rio de Janeiro.
“São Paulo S/A possui a particularidade de se inserir no rodamoinho temático e existencial que atinge o novo cinema brasileiro no pós-1964. Dialoga de modo frontal com esse contexto, mesmo situando-se na exterioridade do grupo cinemanovista. Luiz Sérgio Person tem a origem de sua carreira nos quadros que sobreviveram isolados ao desmonte dos grandes estúdios como Mojica e Candeias.” – Fernão Pessoa Ramos.
São Paulo, sociedade anônima tem como protagonista Carlos (Walmor Chagas), um jovem funcionário de uma fabrica de auto-peças para o mercado automobilístico. Ele é casado com Luciana (Eva Wilma), jovem da classe média emergente paulistana, mas mantém casos amorosos com outras duas mulheres: Ana (Darlene Glória), uma ambiciosa jovem disposta a subir na vida, e Hilda (Ana Esmeralda), uma intelectual amargurada que acaba cometendo suicídio.
A cidade de São Paulo é a personagem que move todas as engrenagens, não só desses relacionamentos, mas da sociedade que vive em constantes conflitos, motivados pelo progresso caótico cujo maior representante é a indústria automobilística. Carlos se vê cada vez mais sufocado pelas cobranças de se projetar social e economicamente, impelido até mesmo a se tornar sócio de seu chefe, que usa dos artifícios inerentes à corrupção para fazer bons negócios com as montadoras de automóveis.
“O protagonista Carlos tem consciência social da exploração e da miséria, mas não é isso que o atormenta ou o move. A bruma do vazio está mais embaixo. Ela reduz a velocidade do seu ser no mundo, fixando-a ao espectro da melancolia em meio a uma metrópole pujante que vibra. A inutilidade e o desinteresse tudo empastela, até desembocar na inutilidade da vida e no horizonte do suicídio.” – Fernão Pessoa Ramos.
A narrativa segue a jornada de Carlos de forma fragmentada, usando os seus relacionamentos com as três mulheres como se fossem episódios que se interligam. Nos intervalos destes encontros, Carlos vaga errante pela cidade abarrotada de pessoas e veículos, todos correndo alucinados, apavorados, mas sedentos, diante do progresso mais veloz do que todos.
“É o espírito caótico e devorador da cidade que o roteiro soube captar, mostrando com crueza o que ela oferece e o que cobre de volta, o preço humano da industrialização e da mecanização da vida e das relações sociais. Tem ainda momentos clássicos e que resistiram ao tempo: a silhueta de Ana diante da imagem da cidade, o começo em que o casal dialoga em lugares diferentes, a visita a mãe com clima felliniano.” – Rubens Ewald Filho
Referências:
100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016.
Nova história do cinema brasileiro. Volume 2. Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman (organização). São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018
O quarto ao lado

Em O quarto ao lado (The room next door, Espanha, 2024), Pedro Almodóvar se debruça em um tema sempre polêmico e que tem sido motivo de debates e reflexões, tanto na arte como na sociedade: o direito à eutanásia.
Martha (Tilda Swinton), jornalista e ex-correspondente de guerra, sofre com um câncer terminal. No hospital, ela recebe a visita da amiga Ingrid (Julianne Moore). As duas estavam afastadas há algum tempo e retomam o relacionamento. Ingrid passa a acompanhar Martha em seu dia-a-dia, ajudando-a em seus procedimentos médicos, mas é surpreendida com uma proposta: Martha decide pela eutanásia, ingerindo uma pílusa adquirida no mercado negro da internet (a eutanásila é proibida nos EUA) e deseja que a amiga a acompanhe sem seus dias finais.
Almodóvar adaptou o romance O que você está enfrentando, de Sigrid Nunez. Ingrid é uma escritora, acabou de publicar um romance cujo tema é o medo da morte. Quando se mudam para a casa escolhida por Tilda para o ato final, Ingrid ocupa “o quarto ao lado” e tenta se preparar, enfrentando seus medos mais devastadores.
Durante o Festival de Cinema de Veneza, Pedro Almodóvar declarou que o filme é uma forma de comunicar sua convicção a favor da eutanásia: “Deveria ser possível ter isso em todo o mundo. Deveria ser regulamentado, o parecer do médico deveria ser suficiente.”
Parceiros da noite

Parceiros da noite (Cruising, EUA, 1980), de William Friedkin.
Um corpo de um homem é encontrado dentro do Rio Hudson. Dois travestis são abordados por policiais à noite. Um deles é obrigado a praticar sexo oral com o policial. Em um quarto, um homem nu é amarrado pelo seu parceiro e esfaqueado até a morte.
As cenas de abertura definem o tom do thriller de William Friedkin: ousadia na composição da noite em becos, boates, quartos minúsculos, frequentados por homossexuais masculinos em Nova York. O detetive Steve Burns (Al Pacino) recebe a missão de se infiltrar disfarçado nesse submundo para desvendar a identidade do serial killer que mata seus parceiros da noite com requintes de crueldade.
O diretor abusa de imagens estereotipadas, o filme foi alvo de críticas severas da comunidade LGBTQ+ e muito mal recebido pela crítica. A narrativa segue os padrões do gênero, após a possível descoberta do assassino, o detetive começa um perigoso jogo psicológico com o suspeito, envolvendo desejo e sedução. O final em aberto provoca o espectador, motivando a revisão do filme para buscar as pistas que se espalham pela narrativa, tanto no desenvolvimento do protagonista como no uso sutil da linguagem audiovisual.
Elenco: Al Pacino (Steve Burns), Paul Sorvino (Capitão Edelson), Karen Allen (Nancy), Richard Cox (Stuart Richards), Don Scardino (Ted Bailey).