Este é Orson Welles

Este é Orson Welles – Orson Welles e Peter Bogdanovich reúne série de entrevistas feita por Peter Bogdanovich com Orson Welles durante cerca de 10 anos, entre o início e final dos anos 70. Meu primeiro contato com o livro aconteceu durante minha pesquisa de mestrado, por volta de 2001. Usei capítulos do livro que narram a mutilação imposta pelos produtores a Soberba (1942), segundo filme de Orson Welles. O tema do meu mestrado foi filmes modificados pelos produtores na sala de montagem.

Aos 25 anos de idade, Welles já era consagrado no teatro e no cinema e conquistou o mundo do cinema com o revolucionário Cidadão Kane. A partir daí, sofreu todo tipo de interferência e cortes em seus filmes. Alguns de seus clássicos, como A marca da maldade e Soberba foram inteiramente remontados por terceiros, imposição imposta por produtores descontentes com a visão de Orson Welles. O diretor chegou ao ponto de não conseguir mais trabalho em Hollywood, mas virou referência para o cinema.

“Para alguns de nós, Orson era uma espécie de consciência artística. Em meu trabalho e em minha vida, a influência dele deixou marca indelével. Como diretor tentou manter a integridade e a pureza e, para poder financiá-las, permitiu a degradação e desvalorização do lado ator/personalidade de sua carreira. Orson Welles eletrizou o palco, transformou e definiu o rádio, apontou os rumos (mas ninguém seguiu) para a televisão e fez filmes que inspiraram mais cineastas do que qualquer outro diretor desde D. W. Griffith. Que este artista norte-americano tenha acabado vendendo vinho em comerciais de televisão é de certa forma um alerta, mais para o declínio cultural de nossa sociedade do que para seus percalços individuais.” – Peter Bogdanovich.

No livro, Jean Cocteau tece um belo comentário sobre o gênio.

“Orson Welles é um gigante com rosto de menino, uma árvore repleta de pássaros e sombras, um cão que se safou da corrente e foi dormir no canteiro de flores. É um mandrião ativo, um louco sábio, uma solidão rodeada de humanidade.”

REFERÊNCIA: Este é Orson Welles. Orson Welles & Peter Bogdanovich. São Paulo: Globo, 1995.

Homem no escuro

August Brill, 72 anos, é um famoso crítico literário norte-americano. Após sofrer um acidente de carro, vai morar com a filha divorciada. Katya, sua jovem neta, também vai morar com eles após a morte do namorado na guerra do Iraque. Abalada, ela abandona o curso de cinema e se retrai em casa em longas sessões de filmes ao lado do avô. Assistem clássicos um atrás do outro e depois discutem cenas, seqüências, sensações provocadas pelos filmes.

A trama de Homem no escuro, de Paul Auster, não se limita a essa resenha. Há uma história dentro da história sobre uma nova guerra de secessão nos Estados Unidos; as lembranças de August Brill ao lado da esposa Sonia tomam boa parte do livro. Mas são as poucas análises dos filmes compartilhados por avô e neta que tornam esse livro fascinante. A partir de obras como Ladrões de bicicleta, eles elaboram uma bela teoria sobre “objetos inanimados como formas de expressar emoções humanas.”

Pensando sobre isso, em uma noite de insônia, August Brill faz uma análise emocionante sobre o filme Era Uma Vez em Tóquio (1953) do cineasta japonês Yasujiro Ozu. No filme, a nora vai visitar o sogro após a morte da esposa dele. Ela recebe do sogro um relógio de presente. Ela agradece mas desaba. A seguir, a análise de August Brill/Paul Auster sobre as emoções humanas a partir deste relógio.

“Enquanto observa Noriko chorar, ele então faz uma declaração simples, pronuncia suas palavras de um modo tão direto, tão desprovido de sentimentalismo, que faz a moça vir abaixo, num novo ataque de soluços – soluços longos e lancinantes, um lamento de angústia tão fundo e doloroso que é como se aquilo que ela tem de mais profundo em sua pessoa se rompesse e abrisse.”

“Quero que você seja feliz, diz o velho.”

“Uma frase curta, e Noriko se desmancha, esmagada pelo peso da sua própria vida. Eu quero ser feliz. Enquanto ela continua chorando, o sogro faz mais um comentário, antes de a cena terminar. É estranho, diz ele, quase sem acreditar. Nós tivemos filhos, mas foi você quem fez mais por nós.”

(…)

“Alguns momentos depois disso, estamos dentro de um dos vagões. Noriko está sentada sozinha, olha para o vazio com um ar inexpressivo, sua mente longe dali. Passam-se vários momentos, e então ela ergue o relógio da sogra, que está no seu colo. Abre a tampa de metal, e subitamente ouvimos o estalo do ponteiro de segundos que avança no mostrador. Noriko continua a examinar o relógio, a expressão em seu rosto ao mesmo tempo triste e contemplativa, e, quando olhamos para ela com o relógio na palma da mão, sentimos que estamos olhando o tempo em si mesmo, o tempo que avança ligeiro, enquanto o trem também avança ligeiro e nos empurra para a frente, para dentro da vida, e de mais vida, mas também para o tempo passado, o passado da sogra morta, o passado de Noriko, o passado que vive no presente, o passado que levamos conosco para o futuro.”

“O apito estridente de um trem ressoa em nossos ouvidos, um barulho cruel e pungente. A vida é frustrante, não é?”

“Eu quero ser feliz.”

“E então a cena termina abruptamente.”

O acaso das ruas no processo criativo

Trabalhei como redator publicitário durante mais de 20 anos em agências de Belo Horizonte. Como todo profissional da área, vez por outra eu ficava olhando para o papel em branco na Olivetti, sem estímulo criativo para teclar. A tecnologia evoluiu, novamente, vez por outra, eu ficava olhando para a tela em branco do computador, sem estímulo criativo para teclar.  

Em momentos assim, adquiri um hábito que mudou minha relação com o processo criativo. Levantava-me da cadeira, saía da agência a caminhar pela cidade – ruas do centro, Savassi, shoppings e um lugar especial: o mercado central. Se o tempo permitia, assistia a um filme nos velhos cinemas de rua. Claro, nem sempre era possível até mesmo sair da agência, a pressão do prazo de entrega determinava que a única saída era começar a teclar. Diante do acaso das ruas, ideias surgem.  

O preâmbulo do texto foi motivado pela leitura do livro O guia geek de cinema, de Ryan Lambie. No capítulo sobre O planeta dos macacos (1968), o autor, após bela análise do filme e de seus derivados, relata que nenhum desses filmes teria acontecido se o escritor do livro não tivesse saído a passear e se deparasse com uma jaula no jardim zoológico. 

“É notável que toda a franquia de Planeta dos Macacos deva sua existência a um único momento. Muito tempo antes que o diretor Franklin J. Schaffner, seu elenco e equipe técnica partissem para filmar numa locação do Arizona, Pierre Boulle visitou um zoológico na França. Olhando com curiosidade para um cercado, observou as expressões estranhamente humanas de um macaco e se perguntou o que poderia acontecer se suas posições fossem invertidas: Boulle no cercado e o macaco do lado de fora, encarando-o. Essa foi a semente que levou à criação de O Planeta dos Macacos, uma história que explora o lado sombrio da natureza humana de uma perspectiva divertidamente distorcida. Da mesma forma, os filmes da franquia Planeta dos Macacos nos oferecem um espelho de nossa própria sociedade – e do feio reflexo que ela pode ter.” 

Referência: O guia geek de cinema. A história por trás de 30 filmes de ficção científica que revolucionaram o gênero. Ryan Lambie. São Paulo: Seoman, 2019

Bastidores da Nova Hollywood

Em conversa com uma amiga, comentei que os filmes já não provocam aquela sensação que tínhamos ao sair de diversas sessões de cinema nos anos 70. Pensava nos sentimentos, muitos incompreensíveis para um adolescente, que vivenciei em filmes como 2001 – uma odisséia no espaço, Laranja mecânica, O poderoso chefão, O exorcista, Tubarão, Inverno de sangue em Veneza, Taxi driver, O céu pode esperar, All that jazz – o show deve continuar, Contatos imediatos do terceiro grau, Star wars, Hair, Superman, Alien – o oitavo passageiro.

Muitos destes filmes definiram o cinema contemporâneo americano, uma parcela adotando o conceito de cinema autoral, outros redefinindo o cinema comercial. Em todos os casos eram filmes impactantes, surpreendentes. Viver como espectador o cinema dos anos 70 faz parte da minha formação, influenciando inclusive minhas escolhas profissionais. Talvez isto possa ser entendido com a leitura de Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood, de Peter Biskind.

O autor narra com riqueza de depoimentos a saga dos mais importantes produtores e diretores entre o final dos anos 60 e início dos 80.

Segundo Susan Sontag: “Foi um momento muito específico nos cem anos da história do cinema, um momento em que ir ao cinema, pensar sobre cinema, falar sobre cinema tornou-se uma verdadeira paixão entre estudantes universitários e outros jovens. Você se apaixonava não pelos atores, mas pelo próprio cinema.”

Uma geração formada nas universidades de cinema, com as primeiras experiências na TV ou em produções tipo B de Roger Corman. Os principais nomes são Francis Ford Coppola, Robert Altman, Warren Beatty, Dennis Hopper, Steven Spielberg, George Lucas, William Friedkin, Hall Ashby, Martin Scorsese, Brian De Palma. Segundo Biskind, alguns se perderam na própria magnitude artística, como Coppola.

“Nunca mais Coppola fez filmes comparáveis às obras-primas dos anos 70. Certa vez ele disse que o homem que fez os dois Chefões morreu na selva, e talvez ele esteja certo. Talvez o lítio tenha lobotomizado sua carreira. O produtor Al Ruddy, que passou a acompanhar a carreira de Coppola de longe, depois que os dois brigaram durante a produção de Chefão, disse: ‘Antes de O poderoso chefão ele era um joão-ninguém. Depois, era um dos diretores mais importantes do mundo. Ninguém está preparado para uma viagem dessas. Ele ficou obcecado em ser o tipo de homem que Charles Bluhdorn era. Perdeu o foco, tornou-se mais um diretor que se destruiu tentando viver um filme.’”

Outro diretores, como Steven Spielberg e George Lucas, se “venderam” ao cinema comercial, na opinião do autor do livro. Após criar o conceito de blockbuster com Tubarão, Spielberg cedeu aos interesses dos produtores, ajudando com seus filmes a sepultar a Nova Hollywood (como ficou conhecido o movimento que pretendia dizer não ao sistema de estúdios) no final da década de 70 e trazer de volta o poder dos produtores.

É a trajetória de Martin Scorsese, diretor de Taxi driver, que ilustra o foco principal do livro: um dos mais talentosos diretores autorais que vê sua criatividade e quase a vida ser ceifada pelo uso de drogas. No início da carreira, Scorsese conseguiu se manter afastado das drogas, até que conheceu a cocaína.

“Marty se drogava como se estivesse tomando aspirina. Seu peso vivia aumentando e diminuindo. Além disso, ele e seus amigos precisavam de bebida para desacelerar, e consumiam pelo menos duas garrafas de vinho ou vodka só para adormecer.”

Segundo o próprio Scorsese: “Eu me droguei muito porque eu queria… queria forçar a barra ao máximo, até o fim, para ver se eu ia morrer. Isso era a chave de tudo, ver como seria estar próximo da morte.”

A tônica do livro está explícita no título. Sexo-drogas-e-rock’n’roll  acompanhou a carreira de alguns destes diretores. Num curto espaço de tempo, eles construíram obras-primas do cinema contemporâneo, nitidamente fazendo dos anos 70 a última grande década do cinema. Foram engolidos pelo próprio sistema que combatiam, “jogaram tudo fora” na opinião dos próprios. Mas deixaram seus filmes para lembrar que o cinema é muito mais do que pipoca e bilheterias.

Referência: Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood. Peter Biskind. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009

Duas narrativas fantásticas

Duas narrativas fantásticas, de Dostoiévski, reúne duas novelas do autor: A dócil e O sonho de um homem ridículo, publicadas em 1876 e 1877, respectivamente, no Diário de um escritor, revista redigida e editada pelo próprio autor. Como em outras narrativas de Dostoiévski, a morte é o tema central. Melhor dizendo, o suicídio.

Em A dócil, um homem de meia-idade está diante do caixão de sua esposa adolescente.

“…Pois enquanto ela ainda está aqui – tudo bem: me aproximo e olho a cada instante, só que amanhã vão levar embora e – como é que eu vou ficar sozinho? Ela agora está na sala sobre a mesa, juntaram duas mesas de jogo, e o caixão vai ser amanhã, branco, um gloss de Naples branco, e, aliás, nem se trata disso…”

A narrativa segue do momento em que se conheceram até a morte da esposa. O objetivo do narrador é expor ao leitor sua culpa diante do suicídio da jovem:

“Senhores, estou longe de ser um literato, e os senhores podem ver isso, mas não importa, vou contar assim como eu mesmo entendo. É aí que está todo o meu horror, eu entendo tudo!”

A narrativa de um homem ridículo segue o mesmo princípio. O narrador afirma logo no primeiro parágrafo o perfeito entendimento de sua situação:

“Eu sou um homem ridículo. Agora eles me chamam de louco. Isso seria uma promoção, se eu não continuasse sendo para eles tão ridículo quanto antes. Mas agora já nem me zango, agora todos eles são queridos para mim, e até quando riem de mim – aí é que são ainda mais queridos. Eu também riria junto – não de mim mesmo, mas por amá-los, se ao olhar para eles não ficasse tão triste. Triste porque eles não conhecem a verdade, e eu conheço a verdade. Ah, como é duro conhecer sozinho a verdade! Mas isso eles não vão entender. Não, não vão entender.”

A narrativa conta os passos do homem em uma noite.

“Porque essa estrelinha me trouxe uma idéia: eu tinha decidido me matar naquela noite. Fazia dois meses que isso já estava firmemente decidido, e, apesar de ser pobre, comprei um belo revólver e carreguei-o naquele mesmo dia.”

São duas narrativas escritas próximas da morte de Dostoiévski, em 1881. Refletem uma fase do autor na qual ele estava usando em sua literatura influências jornalísticas, buscando relatos do cotidiano – A dócil é inspirada em suicídios ocorridos em São Petersburgo. Talvez buscasse através de suas personagens o entendimento para um ato tão extremo. Talvez buscasse ele mesmo a verdade.

“O principal é – ame aos outros como a si mesmo, eis o principal, só isso, não é preciso nem mais nem menos: imediatamente você vai descobrir o modo de se acertar. E no entanto isso é só – uma velha verdade, repetida e lida um bilhão de vezes, e mesmo assim ela não pegou! ‘A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade” – é contra isso que é preciso lutar! E é o que vou fazer. Basta que todos queiram, e tudo se acerta agora mesmo.”

O livro, os filmes

É o meu livro favorito, minha personagem idem. Sou apaixonado por Ana Karênina. Poderia ser também por Kitty, outra personagem fascinante entre tantos deste clássico de Tolstói.

Das adaptações para o cinema, prefiro a Ana Karênina de Vivien Leigh, filme de 1948, dirigido por Julien Duvivier. A estação de trem, símbolo destes melodramas clássicos, é palco de um dos mais belos closes: o Conde Vronski vê Ana pela janela do trem, a neve criando a moldura perfeita para o rosto da jovem russa, antecipando pelos olhares cortados pelo frio toda a paixão e tristeza deste relacionamento.

E o que dizer de Greta Garbo também neste papel, em filme de 1935. Será sempre a Garbo daquele olhar escandinavo, cuja própria beleza, mistério e fascínio se confundem com Ana Karênina.

Das adaptações recentes fico com a de Joe Wright (Anna Karenina, Inglaterra, 2012), apesar dos excessos inter narrativos. A mistura de cinema e teatro empolga em alguns momentos, como na corrida de cavalos na qual o Conde Vronski sofre o acidente, entedia em outros, como nas constantes passagens de cena entre os cômodos das casas e o teatro.  Keira Knightley está bonita, amparada pela esplêndida fotografia do filme, e consegue refletir a dualidade de Ana, dividida entre sua paixão por Vronski e seu apego a um mundo que vai aos poucos acabando, anunciando o tempo no qual não cabem mais condes, duquesas, os ingênuos bailes da jovem Kitty e até mesmo famílias felizes. A antológica primeira frase do livro: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.”

E como nada pode ser mais bonito do que Ana Karênina nas páginas, a descrição desta paixão nas palavras de Leon Tolstói, quando do primeiro encontro com o Conde Vronski:

“Com a sua velha experiência de homem de sociedade, bastou-lhe um olhar para compreender, pelo aspecto da desconhecida, que pertencia à alta roda. Curvou-se e ia entrar no vagão quando sentiu necessidade de voltar a olhá-la, não atraído pela sua beleza, nem pela sua elegância, nem pela singela graça que se desprendia de toda a sua pessoa, mas apenas porque a expressão do seu rosto encantador, quando passara junto dele, se mostrara especialmente suave e delicada. No momento em que se voltou, também ela olhara para trás. Seus brilhantes olhos cinzentos, que pareciam escuros graças às espessas pestanas, detiveram-se nele, amistosos e atentos, como se o reconhecesse, e imediatamente se desviaram para a estação, como que procurando alguém. Naquele rápido olhar Vronski teve tempo de lhe observar a expressão de uma vivacidade contida, os olhos reluzentes e o sorriso quase imperceptível dos lábios rubros. Parecia que algo excessivo lhe inundava o ser e, a pesar seu, transbordava ora do olhar luminoso, ora do sorriso. Não obstante ter velado intencionalmente a luz dos olhos, ela transparecia através do leve sorriso.”

A partilha

Os livros estavam espalhados no chão da sala. O sol anunciava uma clara manhã de domingo, a primavera despejando seus cheiros naquela casa banhada de flores. As flores de minha mãe.

Eu perdera no par ou ímpar e a irmã ganhara a oportunidade de escolher primeiro. Olhei para meu livro favorito, mas desviei os olhos com medo de me trair. Com ar de vencedora, ela escolheu As sandálias do pescador. Respirei aliviado.

– Sua vez. – disse a irmã, olhando para O morro dos ventos uivantes. Peguei o livro.

– Vamos fazer diferente. Eu escolho mais um agora e você escolhe dois depois.

Ela concordou. Peguei rapidamente O bosque das ilusões perdidas. A seguir, ela separou para o seu canto Como era verde meu vale. Sorriu ao notar o meu olhar angustiado.

Quando começamos a trabalhar, ainda adolescentes, fizemos um pacto, cada um compraria um livro por mês, formando uma biblioteca única. Era a forma de valorizar nosso pouco salário para fazer aquilo de que gostamos tanto: ler. Dependendo do mês, dava para comprar mais de dois livros. Combinamos, “quando um de nós sair de casa, dividimos a biblioteca”.

Ela pegou o segundo livro, O caso dos dez negrinhos. Terminada a divisão, a irmã me ajudou a empacotar os livros. Descobrimos que não eram tantos assim, pouco mais de uma dúzia foi o que me coube na partilha.

Dias depois, ao arrumar os livros em minha nova casa, no fundo da caixa encontrei Como era verde meu vale. Foi o primeiro livro que coloquei na estante, a lombada verde soltando a cola, revelando o uso descuidado de jovens leitores. Um a um os livros foram encontrando seu lugar no canto do móvel. E até hoje, tantos anos, tantas mudanças depois, o verdadeiro lugar destes livros é na casa dos meus pais, na casa dos meus irmãos.