Ressureição

Ressurreição, primeiro romance de Machado de Assis, foi publicado em 1872. Nas primeiras páginas, já se percebe o estilo: o romantismo, a conversa com o leitor, a refinada ironia, as descrições sedutoras de personagens e situações.

“Félix contemplou-lhe longo tempo aquele rosto pensativo e grave, e involuntariamente foram-lhe os olhos descendo ao resto da figura. O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio túrgido, comprimido pelo cetim; o braço esquerdo, atirado molemente no regaço, destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um fragmento de estátua sobre o musgo de uma ruína. Félix recompôs na imaginação a estátua toda, e estremeceu. Lívia acordou da espécie de letargo em que estava. Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão. Félix apressou-se em apanhar-lho.”

O que mais me impressiona neste início da leitura de Ressurreição é o posfácio. Machado de Assis, então com 33 anos, se dirige com humildade à crítica literária, pedindo benevolência e compreensão na leitura de seu primeiro romance.

“Não sei o que deva pensar deste livro; ignoro sobretudo o que pensará dele o leitor. A benevolência com que foi recebido um volume de contos e novelas, que há dous anos publiquei, me animou a escrevê-lo. É um ensaio. Vai despretensiosamente às mãos da crítica e do público, que o tratarão com a justiça que merecer.”

Não sei se a crítica, o público (e o próprio Machado de Assis) tinham já a noção de estar diante do desenvolvimento de um gênio da literatura. Seria Machado de Assis ainda um autor titubeante, tentando esconder sua insegurança na modéstia? Ou estaria já ensaiando uma de suas marcas literárias: a ironia com seu próprio trabalho e com os dos outros.

“A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que pediu.”

“Ora pois, eu atrevo-me a dizer à boa e sisuda crítica, que este prólogo não se parece com esses prólogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em gênero novo para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para ele, ou se todas me faltam, – em cujo caso, como em outro campo já tenho trabalhado com alguma aprovação, a ele volverei cuidados e esforços. O que eu peço à crítica vem a ser – intenção benévola, mas expressão franca e justa. Aplausos, quando os não fundamenta o mérito, afagam certamente o espírito, e dão algum verniz de celebridade; mas quem tem vontade de aprender e quer fazer alguma cousa, prefere a lição que melhora ao ruído que lisonjeia.”

Se a crítica leu este prólogo, deve ter se sentido incapaz até mesmo de emitir julgamentos. Deve ter simplesmente manifestado reverência ao nascimento do maior escritor da língua brasileira ou a um operário, como Machado de Assis se definiu.

“Não quis fazer romance de costumes; tentei de uma situação e o contraste de dous caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o operário tem jeito para ela.”

Histórias do mar

O fascínio que tenho pelo mar é contemplativo. O sentimento aventureiro de desbravar ondas ficou na adolescência, felizmente. Gosto de me sentar de frente e ficar olhando incompreensível para a beleza. Não passo disso, mas deixo-me embalar pelas histórias de apaixonados que foram além. Basta citar alguns de meus livros favoritos: Moby Dick, de Herman Melville, Lord Jim e Nostromo, de Joseph Conrad, As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

Acabo de ler Histórias do mar – Coletânea de Novas Histórias do National Maritime Museum com esta sensação de voltar às aventuras do mar. O livro reúne contos de autores contemporâneos como Sam Llewellyn, Chris Cleave e Tessa Radley. Histórias que se mesclam entre a aventura dos que enfrentaram oceanos e o cotidiano daqueles que se criaram em frente ao mar. Em ambos os estilos, o fascínio permanece. Às vezes de forma terna, como no conto Devonia.

Não sei como começou isso. Estou com os meus braços em volta dela. E os braços dela em volta de mim. O sol está se pondo no Atlântico e aqui, tão perto da África, está muito quente. (…) Agora eu posso esquecer tudo, porque esta menina, esta menina linda, quis ficar comigo, bem no momento em que nosso navio está para sair do Oceano Atlântico e entrar no Mediterrâneo.”

Outras vezes, de forma assustadora, como no conto Batisferas.

“Quando a porta se abriu mais um pouco, captamos um miasma que ninguém deveria jamais cheirar: o eflúvio de algo inteiramente não humano, abominável, proveniente de um mundo de mucos sugados, absolutamente sem luz, numa umidade asfixiante, abrigo de bocas sôfregas para as quais o corpo humano era um petisco, nada além disso. Negrume encharcado, umidade dos infernos. O metal enferrujado rangeu, e a porta cedeu mais um pouco. O ar fétido escapuliu num silvo e percorreu a multidão; houve quem vomitou. Todos, ao mesmo tempo, deram um passo para trás; alguns saíram correndo. Senti o terror me invadindo. Eu não queria ver o que estava dentro da caixa. O terror subiu rastejando por minha pele e me envolveu, grudento como teia de aranha.”

O fascínio pelo mar, representado em tantas belas histórias dos escritores clássicos aos contemporâneos, está justamente nesta incompreensão. O mar terno das águas azuis é também capaz de provocar o terror, o mais puro terror.

A partilha

Os livros estavam espalhados no chão da sala. O sol anunciava uma clara manhã de domingo, a primavera despejando seus cheiros naquela casa banhada de flores. As flores de minha mãe.

Eu perdera no par ou ímpar e a irmã ganhara a oportunidade de escolher primeiro. Olhei para meu livro favorito, mas desviei os olhos com medo de me trair. Com ar de vencedora, ela escolheu As sandálias do pescador. Respirei aliviado.

– Sua vez. – disse a irmã, olhando para O morro dos ventos uivantes. Peguei o livro.

– Vamos fazer diferente. Eu escolho mais um agora e você escolhe dois depois.

Ela concordou. Peguei rapidamente O bosque das ilusões perdidas. A seguir, ela separou para o seu canto Como era verde meu vale. Sorriu ao notar o meu olhar angustiado.

Quando começamos a trabalhar, ainda adolescentes, fizemos um pacto, cada um compraria um livro por mês, formando uma biblioteca única. Era a forma de valorizar nosso pouco salário para fazer aquilo de que gostamos tanto: ler. Dependendo do mês, dava para comprar mais de dois livros. Combinamos, “quando um de nós sair de casa, dividimos a biblioteca”.

Ela pegou o segundo livro, O caso dos dez negrinhos. Terminada a divisão, a irmã me ajudou a empacotar os livros. Descobrimos que não eram tantos assim, pouco mais de uma dúzia foi o que me coube na partilha.

Dias depois, ao arrumar os livros em minha nova casa, no fundo da caixa encontrei Como era verde meu vale. Foi o primeiro livro que coloquei na estante, a lombada verde soltando a cola, revelando o uso descuidado de jovens leitores. Um a um os livros foram encontrando seu lugar no canto do móvel. E até hoje, tantos anos, tantas mudanças depois, o verdadeiro lugar destes livros é na casa dos meus pais, na casa dos meus irmãos.