Laços

Laços (Holdudvar, Hungria, 1969), de Márta Mészáros. Com Mari Torocsik (Edit), Kati Kovács (Kati), Lajos Balázsovits (Istiván). 

O patriarcado e a masculinidade tóxica são o grande tema do filme de Márta Mészáros, cineasta hungara famosa por seu olhar feminista em um país dominado pelos homens do partido, assim como em grande parte dos países do leste europeu. Edit acaba de ficar viúva, seu promissor marido político morre repentinamente. Ela se vê bajulada pelos membros do partido, mas sabe da hipocrisia: seu marido não era bem visto neste meio.

Esses laços familiares tornam-se cada vez mais opressores, a frustração de Edit com seu casamento se repete na maternidade madura. A grande virada do filme acontece com a personagem Kati. Enquanto Edit segue tentando se libertar, o final da narrativa apresenta uma Kati que se rebela, se recusando a seguir o destino da sogra.  A sequência final é simbólica: a jovem caminha resoluta enquanto é assediada por um grupo de jovens. 

Diamantes da noite

Diamantes da noite (República Tcheca, 1964), de Jan Nemec. Com Ladislava Jansky e Antonin Kumbera. 

A abertura do filme já anuncia o estilo livre e rebelde das filmagens, bem sintonizada com o novo cinema dos anos 60. Dois jovens correm por um campo, a partir de uma linha de trem (escaparam do trem em movimento, destinado ao transporte de judeus para os campos de concentração). A câmera treme incessantemente, desfoca, foca novamente, corre e, por vezes, cai junto com os jovens já exaustos.

É um filme praticamente silencioso, com diálogos curtos e esparsos, a estética privilegia a imagem carregada da tensão da fuga dos jovens exaustos e famintos nos campos, bosques, morro de pedras. Flashbacks e flashforwards confundem o espectador sobre o que realmente aconteceu ou acontecerá, nada é definido, são apenas imagens curtas que cortam a ação. 

O final em aberto provoca ainda mais, remetendo a incerteza, a um mundo onde  nada se prevê, nem mesmo a vida ao fim do dia. Atenção para a sequência dos alemães se embebedando em uma taberna enquanto os jovens assistem as cenas grotescas que podem decidir pela sobrevivência dos dois. 

La chambre

La chambre (França, 1972), um dos filmes da fase inicial de Chantal Akerman, ainda na sua fase de curta-metragista, é uma experiência radical em plano sequência. Durante cerca de 11 minutos, a câmera gira em uma panorâmica de 360° por um quarto. O cenário é composto por móveis e objetos dispersos ao acaso e, a cada final do giro, Chantal Akerman está deitada na cama, em situações diferentes: está debaixo das cobertas, come uma fruta, lê um livro, está ligeiramente sentada. 

É, de certa forma, um tema recorrente na obra da diretora belga: a câmera lenta, planos longos em ambientes fechados; a cozinha em Saute ma ville, o quarto em La Chambre, o apartamento em Eu, tu, ele, ela os ambientes do Hotel Monterey. Experimentalismo, palavra determinante no cinema de Chantal. 

A garota e o eco

A garota e o eco (Lituânia, 1964), de Arūnas Žebriūnas e Regina Vosyliute.

É um prazer se deparar nas plataformas de streaming, no caso a Filmicca, com filmes restaurados de cinematografias que jazem esquecidas na história do cinema. O lituano A garota e o eco acompanha durante um dia o final das férias de verão da pequena Vika (Lina Braknyté) , vivendo um um ingênuo estado de liberdade. 

Ela ajuda o avô com o barco, nada nua no mar, escala as rochas, se diverte em uma cabine telefônica defeituosa. Vika conhece Romas (Valery Zubarev), um garoto local, e os dois exploram os arredores da praia, enquanto são atormentados por um grupo de garotos tóxicos. 

A garota e o eco foi filmado em locação, com poucos personagens, inspirado no estilo neorrealista de fazer cinema, com uma sensibilidade fotográfica e sonora de enlevar os sentidos. Ana conversando com as montanhas, só ela sabe exatamente a posição em que os ecos vão ressoar, representa este dia de verão que todos nós vivemos ou deveríamos ter vivido em algum momento de nossas infâncias. 

Cria cuervos

Cria cuervos (Espanha, 1975), de Carlos Saura.

A pequena Ana (Ana Torrent) está do lado de fora do quarto de seu pai. Ela ouve gemidos de um casal fazendo amor, até que a mulher começa a gritar desesperada. Mercedes, amante de seu pai, sai correndo do quarto, ainda se vestindo, olha fixamente para a menina e vai embora. Ana entra no quarto e olha serenamente para o cadáver do pai. Pouco depois, sua mãe (Geraldine Chaplin) a chama e, com um abraço carinhoso, pede que a filha vá dormir. No entanto, sua mãe já está morta há algum tempo. 

A obra-prima de Carlos Saura é um retrato amargurado da Espanha dominada pelo fascismo do general Franco. Ana cresce rodeada, e fascinada, pela morte. Uma das cenas mais dolorosas da narrativa é a agonia da mãe, gritando de dor na cama, sob o olhar tranquilo da pequena Ana. Fantasia e realidade se misturam em Cria Cuervos, cujo título é inspirado no ditado espanhol: “Crie corvos e eles lhe arrancaram os olhos.”

“Filmado literalmente enquanto Franco estava em seu leito de morte, o filme segue a metáfora da vida sob o fascismo como uma espécie de infância retardada – vista em vários outros filmes espanhois do período -, ainda assim tratando o tema com uma sensibilidade e uma graciosidade refrescantes. Geraldine Chaplin, a musa constante de Saura nesse período, está maravilhosa em um papel duplo como a mãe de Ana, abatida pelo câncer, e a Ana adulta que reflete sobre esses eventos de seu passado. Sua presença segura como a Ana adulta parece deixar implícito que o fascismo já é uma coisa do passado, algo suportado com dificuldade mas que, no fim, é vencido.”

Toda uma noite

Toda uma noite (Toute une nuit, França, 1982), de Chantal Akerman. 

A câmera de Chantal Akerman acompanha vários casais durante uma noite quente do verão de Bruxelas. A narrativa fragmentada tem como tema o romance, encontros que acontecem em bares, restaurantes, quartos, conversas ao telefone. O silêncio e a atmosfera escura da noite ditam o tom do filme, um mosaico de encontros e conflitos que não se desenvolvem, não se resolvem, apenas anunciam aquilo que atormenta os casais: o sexo, o amor, a rejeição. 

Saute ma ville

Saute ma ville (França, 1971) é o primeiro curta-metragem de Chantal Akerman, realizado quando ela tinha 18 anos e estava cursando o primeiro período da faculdade de cinema em Bruxelas (Chantal abandonou o curso logo no primeiro período para seguir na carreira como autodidata).

A própria diretora interpreta uma jovem que chega em seu apartamento com as compras do dia e começa uma série de atividades rebeldes: abre e esvazia gavetas, espalha coisas pelo chão, joga água no piso, expulsa seu gato para a varanda. É um filme silencioso que termina com a jovem vedando todas as frestas de janelas e portas e ligando o gás de cozinha. Impactante e perturbador curta de estreia de Chantal Akerman.

O esqueleto da Sra. Morales

O esqueleto da Sra. Morales (El esqueleto de la señora Morales, México, 1960), de Rogelio A. González.

A obra de Rogelio A. González é cultuada pelos amantes dos filmes de terror, mais precisamente do humor negro. O taxidermista Pablo Morales (Artur de Córdova) é admirado por todos da cidade, pois trata os amigos e as crianças com bondade e respeito. Quando chega em casa, sua vida se transforma: Pablo é tratado com desprezo e crueldade pela mulher que, inclusive, o acusa de agressão física e moral diante do fanático grupo religioso do qual faz parte. Gloria Morales tem ódio do trabalho do marido que mantém no térreo da casa uma coleção de animais empalhados. 

Cansado dos maus tratos, Pablo envenena a esposa e disseca seu cadáver, o mantendo em destaque entre sua coleção. O esqueleto da Sra. Morales é muito mais do que bom humor e terror. É uma sátira aos rígidos costumes da sociedade mexicana, colocando a hipócrita classe média, com seus conceitos religiosos e sociais, como a principal vítima do taxidermista. A sequência do julgamento é puro nonsense, a sociedade diante do esqueleto sem saber o que significa tudo aquilo.