Tag: Márta Mészáros

  • Diário para meu pai e minha mãe

    Diário para meu pai e minha mãe (Napló apámnak, anyámnak, Hungria, 1990), de Márta Mészáros. 

    A última parte da trilogia autobiográfica de Márta Mészáros centra a narrativa na fracassada Revolução Húngara de 1956, quando civis tentaram derrubar o governo apoiado por Stálin. Julie está em Moscou e tenta a tudo custo voltar para Budapeste, Magda está foragida e Janos participa ativamente das atividades revolucionárias. Quando consegue voltar para seu país, Julie, já uma diretora de cinema, documenta as conturbadas ruas de Budapeste e inicia um romance com outro diretor de cinema. 

    O estilo da película contínua na mescla de ficção e documentário, com amplo espaço para a repressão oficial do governo. Outro ponto forte é a luta pela liberdade artística, o cinema verdade dos documentários de Julie e seu namorado se contrapondo às manipulações da mídia governista. O final do filme, após a prisão e julgamento de Janos, é de uma verdade dolorosa, revelando a crueldade dos porões das ditaduras. Ficção também é documentário. 

    Elenco: Com Zsuzsa Czinkóczi (Juli), Jan Nowicki (Janos), Mari Torocsik (Vera), Ildiko Bánsági (Ildi), Anna Polony (Magda). 

  • Diário para meus amores

    Diário para meus amores (Napló szerelmeimnek, Hungria, 1987) é a segunda parte da trilogia autobiográfica de Márta Mészáros. Julie rompe com sua tia Magda, com quem vive em constantes conflitos, e vai morar em Moscou, onde ingressa na Universidade para estudar cinema. É o início dos anos 50, a guerra fria recrudesce e a União Soviética passa a controlar com mão de ferro o leste europeu. Na Hungria, Janos é considerado traidor do partido e preso, mesmo sendo amigo pessoal da poderosa Marta. 

    O destaque da segunda parte é a ascensão dos ideais contra revolucionárias com os trabalhadores organizando movimentos e greves. A alter-ego de Márta Mészáros, Julie, começa a fazer documentários e se vê confrontada por professores e membros do partido devido a suas edições perigosas. 

    Diário para meus amores mantém o estilo ficção/documentário, a montagem fascinante coloca personagens do filme como se estivessem participando de passeatas, comícios e greves. As lembrança de Julie, quando viveu com seus pais em Moscou, são belos momentos estéticos, com a fotografia em preto e branco, principalmente da pedreira onde o pai escultor trabalhava. As imagens trazem beleza a momentos dolorosos de despedida. 

    Elenco: Zsuzsa Czinkóczi (Julie), Anna Polony (Magda), Jan Nowicki (Janos), Irina Kuberskaya (Anna Pavlova), Adél Kováts (Natasha), Gyula Bartus (Deszso). 

  • Diário para meus filhos

    Diário para meus filhos (Napló gyermekeimnek, Hungria, 1984), de Márta Mészáros, é o primeiro filme da trilogia semi biográfica da diretora húngara, composta por Diário para meus amores (1987) e Diário para meu pai e minha mãe (1990). A atriz Zsuzsa Czinkóczi, interpreta Julie nas três obras. 

    Em Diário para meus filhos, Julie é uma jovem adolescente que retorna a Budapeste após um tempo morando em Moscou. Sua mãe morreu vítima de uma doença e seu pai, um escultor, desapareceu nos porões do cruel regime stalinista.

    Em Budapeste, Julie entra em conflito com Magda (Anna Polony), sua mãe adotiva, uma poderosa representante do partido comunista, mas encontra abrigo em Janos (Jan Nowicki), um antigo revolucionário descrente com os rumos do partido. Arredia à escola, a jovem passa suas tardes em salas de cinema.  

    É a história de Márta Mészáros, cujas lembranças compõem o retrato do pós-guerra na Hungria, marcado pela ascensão do partido comunista que, passo a passo, rompe com os ideais dos revolucionários e se consolida como um cruel e despótico governo totalmente sobre o controle stalinista. A diretora mescla a narrativa com cenas documentais de comícios, passeatas, manifestações, oscilando entre a fotografia em cores e preto e branco. Diário para meus filhos conquistou o Grande Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes. 

  • Duas mulheres

    Duas mulheres (Ők ketten, Hungria, 1977), de Márta Mészáros, acompanha a improvável amizade que se forma entre duas mulheres de diferentes gerações. Mari (Marina Vlady) é casada, tem dois filhos já adultos, e administra um albergue para mulheres. Juli (Lili Monori) tem uma filha ainda criança e sofre violência doméstica de seu marido alcoólatra. Ela se refugia no albergue, quebrando as regras, que não permite a entrada de crianças, mas se torna protegida de Mari.

    A amizade entre Mari e Juli passa por momentos ternos e agressivos, evoluindo para descobertas mútuas e solidariedade. Enquanto Juli tenta se desligar de sua relação abusiva, Mari se descobre em um casamento infeliz e sem perspectivas e passa a flertar com a infidelidade e o alcoolismo.  

    Márta Mészáros tece mais uma narrativa que revela a luta constante das mulheres húngaras em busca da libertação das amarras sociais. A filha de Julie é interpretada por Zsuzsa Czinkóczi que, nos anos 80, será a protagonista da aclamada trilogia autobiográfica de Márta Mészáros, composta por: Diário para meus filhos (1984), Diário para meus amores (1987) e Diário para meu pai e minha mãe (1990). 

  • Adoção

    Adoção (Örökbefogadás, Hungria, 1975), de Márta Mészáros.

    Kate (Katalin Berek) é uma operária que, aos 42 anos, sente desejo de ter um filho com seu amante casado, pai de dois filhos. Diante da recusa do amante, ela passa a considerar a ideia de adoção, principalmente depois que conhece Anna (Gyongyver Vigh), uma adolescente que vive em um orfanato. 

    Adoção é o primeiro filme dirigido por uma mulher a conquistar o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim. Márta Mészáros, cuja grande marca temática em sua obra é o feminismo, aborda com leveza o tema da maternidade. A relação entre Kate e Anna é fascinante, composta por ternura, às vezes uma certa agressividade verbal e recusa, mas sempre com esse olhar intimista das mulheres sobre si mesmas. 

    A ousadia do cinema da diretora húngara se mostra durante a trama. Anna leva seu namorado, também adolescente, para a casa de Kate, onde se trancam no quarto explorando a sensualidade e o erotismo. São dois adolescentes em belas cenas eróticas que, com certeza, não teriam espaço no cinema atual. 

  • Libertação

    Libertação (Szabad lélegzet, Hungria, 1973), de Márta Mészáros.

    A narrativa acompanha o relacionamento amoroso de Jutka ( Erzsébet Kútvolgyi), jovem operária, com Andras (Gábor Nagy) , um universitário que faz parte da classe média emergente na Hungria. O conflito de classes é o tema do filme: Jutka finge ser também uma universitária para ser aceita pelos pais e no círculo social de seu namorado. 

    O tema é tratado com sensibilidade, a jornada de Jutka é a busca da aceitação de sua condição operária até se sentir segura para o confronto com os pais de Andras. As cenas sutis de sexo são de uma delicadeza fascinante, a câmera enquadra e, às vezes, passeia pelos corpos dos amantes, a fotografia em preto e branco, a granulação da película, refletindo a beleza dos jovens apaixonados. 

  • Não chorem, lindas

    Não chorem, lindas (Egy őszinte szerelem története, Hungria, 1970), de Márta Mészáros.

    Juli (Jaroslava Schallarová) é uma jovem operária de uma fábrica de tecidos em Budapeste. Ela está de casamento marcado com um colega de trabalho, jovem que flerta e beija outras mulheres junto com um grupo de amigos. A cidade está sediando um festival de música, misto de rock’n’roll e música folk húngara. A trilha sonora da apresentação das bandas pontua a jornada de Julie em busca de um último momento de liberdade, pois a juventude húngara também está imersa neste importante momento da contracultura na Europa. 

    É o terceiro longa-metragem da diretora Márta Mészáros, a obra segue sua marca de trabalhar com personagens que retratam a classe operária da Hungria, principalmente as mulheres que buscam seu espaço na sociedade, renegando a estrutura patriarcal. Julie se envolve com um dos integrantes de uma banda e se entrega ao relacionamento com rebeldia. A trilha sonora é o grande trunfo do filme. 

  • As herdeiras

    As herdeiras (Orokseg, Hungria, 1980), de Márta Mészáros.

    Budapeste, 1936. Szilvia (Lili Monori) é uma mulher rica que se vê pressionada pelo pai, empresário, a ter um filho. É a condição para ela herdar a fortuna da família. No entanto, Szilvia é estéril e oferece dinheiro a Irene (Isabelle Huppert), jovem judia, a conceber um filho com seu marido. 

    O triângulo amoroso que se forma a partir deste acordo deflagra os conflitos da narrativa que beira a tragédia quando explode a Segunda Guerra Mundial e começam as perseguições aos judeus. Isabelle Huppert, em um de seus primeiros papeis no cinema, domina a trama. Sua personagem luta pelo seu amor e por seus filhos, mas não se esconde dos nazistas, encarando com altivez o seu destino. O cinema feminista de Márta Mészáros lança um olhar cruel sobre a divisão de classes e a conivência da burguesia europeia com os crimes cometidos pelos nazistas e seus aliados.

    Elenco: Isabelle Huppert (Irène), Lili Monori (Szilvia), Jan Nowicki (Ákos), Zita Perczel (Teréz), Sándor Szabó (Komáromi). 

  • A garota

    A garota (Eltávozott nap, Hungria, 1968), de Márta Mészáros.

    O novo cinema dos anos 60 representou um importante marco para as mulheres. Excluídas durante décadas do processo de direção cinematográfica, as jovens deste período desafiaram o domínio masculino, compondo obras viscerais, com forte teor feminista. Os exemplos são muitos: Agnés Varda, Chantal Akerman, Lina Wertmuller, Agnieszka Holland, Vera Chytilová, entre outras.

    A garota (Eltávozott nap, Hungria, 1968), longa-metragem de estreia de Márta Mészáros, é o primeiro filme dirigido por uma mulher na Hungria. A jovem Erzi (Kati Kovács) foi criada em um orfanato em Budapeste. Ela decide visitar sua mãe biológica (Teri Horváth) que vive em uma pequena cidade do interior. A mãe a recebe com relutância, mas diz que é necessário esconder a filiação de seu marido e dos habitantes do município. 

    A narrativa apresenta um confronto entre um possível mundo moderno que se anuncia e o conservadorismo arraigado, ancorado em tradições que condenam e punem mulheres por atitudes consideradas imorais. É um tema recorrente na filmografia da diretora húngaro. Em Nove meses, por exemplo, Márta Mészáros confronta esse conservadorismo patriarcal: a jovem protagonista não esconde da sociedade, apesar de ser também condenada, que é mãe solteira de um menino, cuja maternidade resultou de um namoro com seu amante, um professor universitário casado. 

    O final sensível de A garota deixa em aberto esses desafios que se apresentam para as jovens: Erzsi caminha sozinha por um gramado ladeado onde um grupo de adolescentes brincam.  Após mexerem com a garota, eles param para vê-la desaparecer sozinha e altiva no bosque em frente.

  • Como se estivesse em casa

    Como se estivesse em casa (Olyan, mint othon, Hungria, 1978), de Márta Mészáros.

    András (Jean Nowicki) retorna a Budapeste de uma longa temporada nos Estados Unidos e se depara com sua vida desestruturada: Anna (Anna Karina), sua ex-esposa, está casada e tem um filho, perdeu seu emprego de professor na Universidade, não tem dinheiro para se sustentar. András vai passar uma temporada com os pais no interior e começa um relacionamento conturbado com Zsuzsi (Zsuzsa Czinkóczi), uma criança rebelde que vive em uma família pobre, com seis irmãos. 

    Márta Mészáros aborda, como grande tema, o deslocamento social, a falta de raízes.  András tenta se impor em seu país após voltar da América e apresenta um comportamento rebelde, por vezes infantil, outras vezes grosseiro com as pessoas. Sua relação com Zsuzsi, tentado ser um pai adotivo,  coloca na mesma sintonia duas pessoas que não se enquadram nos aparatos sociais e buscam, por meio do afeto, encontrar um caminho, cada um à sua maneira. 

  • Nove meses

    Nove meses (Kilenc hónap, Hungria, 1976), de Márta Mészáros.

    Se você ainda não conhece o cinema da húngara Márta Mészáros, comece por Nove meses e se prepare para uma das sequências finais mais impressionantes do contestador cinema dos anos 70. Juli (Lili Monori) trabalha em uma fábrica no norte da Hungria. Ela cursa ciências agrárias, tem um filho de seu amante anterior, um professor universitário casado, com quem mantém um ótimo relacionamento. 

    János (Jan Nowicki), seu supervisor na fábrica, assedia Juli e os dois começam um relacionamento conturbado. O conflito se instaura: Juli tem uma personalidade libertária, não teme assumir sua posição de mãe de um amante casado, luta para se emancipar através dos estudos, enquanto János se mostra cada vez mais possessivo, ciumento e apegado às ideias e atitudes machistas – ele exige, por exemplo, que Juli abandone seu filho e pare de trabalhar. 

    O filme caminha neste compasso libertador, com o forte olhar feminista de Márta Mészáros até a sequência final, arrebatadora, quando a atriz Lili Monori rompe as barreiras entre ficção e realidade de forma linda, corajosa e ousada.  

  • Laços

    Laços (Holdudvar, Hungria, 1969), de Márta Mészáros. Com Mari Torocsik (Edit), Kati Kovács (Kati), Lajos Balázsovits (Istiván). 

    O patriarcado e a masculinidade tóxica são o grande tema do filme de Márta Mészáros, cineasta hungara famosa por seu olhar feminista em um país dominado pelos homens do partido, assim como em grande parte dos países do leste europeu. Edit acaba de ficar viúva, seu promissor marido político morre repentinamente. Ela se vê bajulada pelos membros do partido, mas sabe da hipocrisia: seu marido não era bem visto neste meio.

    Esses laços familiares tornam-se cada vez mais opressores, a frustração de Edit com seu casamento se repete na maternidade madura. A grande virada do filme acontece com a personagem Kati. Enquanto Edit segue tentando se libertar, o final da narrativa apresenta uma Kati que se rebela, se recusando a seguir o destino da sogra.  A sequência final é simbólica: a jovem caminha resoluta enquanto é assediada por um grupo de jovens.