O amigo americano

O restaurador e artesão de molduras Jonathan Zimmermann é diagnosticado com leucemia e tem pouco tempo de vida. Raoul Minot, espécie de gangster moderno, descobre isso através de Tom Ripley, um negociante de obras de arte falsificadas. A trama é adaptada do romance Ripley’s game, de Patricía Highsmith, cujo protagonista já foi vista em algumas dezenas de adaptações cinematográficas. 

Perto da morte, Jonathan recebe uma proposta tentadora de Raoul Minot: assassinar dois homens em troca de muito dinheiro, garantindo independência financeira para sua mulher e filho. O amigo americano é a experimentação de Wim Wenders pelo cinema noir, afinal, é uma trama policial ambientada nas ruas das cidades (atenção para a sequência de perseguição e assassinato nas estações do metrô). No entanto, o título do filme simboliza o grande tema da narrativa: a amizade velada que cresce entre Jonathan e Tom Ripley. Destaque também para a estética do filme, como aponta o ótimo texto de Fernando JG: 

“Se há problemas da ordem de um roteiro que não é pleno em suas motivações, nada tenho a dizer de negativo a respeito da fotografia. Poucas imagens da Alemanha serão tão lindas quanto as de Wim Wenders, que traduzem, nas cores adotadas para representá-la, um tom de melancolia e nostalgia numa beleza incomensurável. As imagens escurecidas, soturnas e barrocas combinam tanto com o drama de Zimmerman, quanto com a estética policial; no entanto, o que é mais excelente em termos técnicos são os enquadramentos feitos ao longo de cada instante do filme. Cada frame é tão geometricamente perfeito que nos dá a impressão de estarmos sempre diante de um quadro muito bem modelado. Bem conduzida, a câmera faz giros impecáveis ao redor dos personagens e nos faz perceber que ela está sempre em movimento, buscando cercar o seu objeto – e quando ele não se situa num local apropriado, ela mesma faz o papel de enquadrá-lo numa posição ideal, entregando shots fotográficos arrebatadores por meio de close-ups inesquecíveis.” – Plano Crítico

O amigo americano (The american friend, Alemanha, 1977), de Wim Wenders. Com Dennis Hooper (Tom Ripley), Bruno Ganz (Jonathan Zimmermann), Lisa Kreuzer (Marianne Zimmermann), Gérard Blain (Raoul Minot). 

Ervas flutuantes

Ervas flutuantes (Ukigusa, Japão, 1959), de Yasujiro Ozu. O segundo filme colorido de Ozu, com direção de fotografia de Kazuo Miyagawa, é um primor estético, uma profusão de cores que traduz a temática da narrativa: um grupo teatral, denominado Ervas flutuantes, chega a uma pequena ilha para apresentações. Os figurinos, a maquiagem, a cenografia teatral, ilustram esse mundo colorido de artistas mambembes que fazem de sua arte celebrações à vida. 

O conflito acontece quando Komajuro Arashi (Ganjiro Nakamura), mestre do grupo, passa a visitar com frequência sua ex-amante, com quem tem um filho. A crise familiar, tema recorrente da obra de Ozu, provoca conflitos também no grupo teatral que, convivendo com teatros vazios e a monotonia dos dias, caminha para o esfacelamento. 

“Embora os filmes de Ozu geralmente contenham um número surpreendentemente grande de planos e façam, muitas vezes, experiências com a construção do espaço cinematográfico, a impressão predominante que temos de Ervas flutuantes é que ele se trata de uma série de naturezas mortas interligadas e que seu ritmo está em harmonia com a repetição tranquilizante da vida cotidiana. O plano de abertura do filme – contrastando e comparando o volume, o formato e a cor de uma garrafas com os de um farol – sugere uma ausência de movimento, o ruído de um motor de barco ao fundo reforçando a ‘completude’ e a ‘plenitude’ da imagem à mostra. Nesses momentos, o filme alcança uma espécie de quietude, uma serenidade estrutural resignada, que acompanha até mesmo as obras mais trágicas de Ozu, como Era uma vez em Tóquio.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Duelo silencioso

Duelo silencioso (Shizukanaru ketto, Japão, 1949), de Akira Kurosawa, é adaptado de uma peça teatral de Kazuo Kikuta. Durante a Segunda Guerra Mundial, o jovem médico Kyoji (Toshiro Mifune) contrai sífilis de um paciente durante uma operação. 

Após o fim da guerra, o médico esconde a doença de todos. Ele estava de casamento marcado com um amor de infância, mas cancela o casamento sem explicações. Grande parte da trama se passa em um pequeno núcleo, dentro do hospital onde Kyoji trabalha, junto com seu pai. Cada vez mais dedicado ao trabalho, Kyoji se isola das relações sociais, convivendo amargurado com sua doença. 

O ponto de destaque do filme é um longo e ousado monólogo do Dr.Kyoji, quando ele revela a sua jovem assistente a luta diária que empreende contra seus desejos masculinos. Toshiro Mifune, parceiro habitual de Kurosawa, oscila entre a amargura complacente e a raiva, um grande e inesquecível momento da interpretação no cinema. 

Fim de verão

O título original do filme pode ser traduzido como “O outono da família Kohayagawa”, representando com mais clareza a temática do filme: a família comandada pelo patriarca Kohayagawa se defronta com os conflitos inerentes à velhice, ao fim da vida. A família administra uma pequena fábrica de saquê. Duas das filhas, uma viúva e outra solteira, estão diante da pressão inerente da sociedade para se casarem, mas preferem fazer suas próprias escolhas, casar não é uma opção para a viúva. O pai, adoentado, foge quase diariamente para se encontrar com sua amante, a contra gosto dos filhos. 

Em seu penúltimo filme, Ozu se debruça mais uma vez sobre questões familiares, centrando seu olhar nas mulheres da família, debatendo o papel delas na nova sociedade japonesa. Devem ser independentes para decidir sozinhas o caminho a seguir. 

A política dos autores, ou teoria do autor, se aplica de forma contundente no cinema de Ozu: os planos estáticos com a câmera ligeiramente baixa, a falta de movimentação da câmera, as elipses demarcadas por “fotografias” do cotidiano, a quase ausência de interpretação dos atores, renegando o sentimentalismo ou o melodrama e, principalmente, a repetição temática. Assistir a um filme de Ozu é como assistir a variações do mesmo tema, no entanto, em cada filme o encanto e o fascínio surgem da direção de fotografia e do enquadramentos que levam o espectador a indefiníveis sensações de beleza poética diante da imagem. 

Fim de verão (Kohayagawa-ke no aki, Japão, 1961), de Yasujiro Ozu. Com Ganjirô Nakamura (kohayagawa Manbei), Setsuko Hara (Akiko), Yôko Tsukasa (Noriko), Michiyo Aratama (Fumiko), Keijo Kobayashi (Hisao).

De cierta manera

De cierta manera (Cuba, 1977),  é o único filme da cubana Sara Gómez. Ela morreu durante a montagem do filme, aos 31 anos, vítima de uma crise de asma. A película, filmada em 1971, só foi lançada em 1977, após a participação na montagem de Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa. 

O início do filme, em narrativa invertida, transcorre durante um tribunal de trabalhadores que devem julgar um colega que se afastou do trabalho, supostamente para se encontrar com uma mulher. Essa sequência volta no final do filme. 

Entre as sequências do tribunal, conhecemos Yolanda (Yolanda Cuéllar), uma professora idealista que se confronta com a miséria e as dificuldades de alunos “marginais” no Bairro de Miraflores, um dos mais pobres de Havana na época. Ela mantém um relacionamento com Mario (Mario Balmaseda), peça-chave do tribunal, um trabalhador que não encontra seu lugar nestes primeiros anos da revolução cubana. O sonho de Mario é tornar-se membro da sociedade abakua, organização religiosa influenciada pela maçonaria e pela religiosidade yorubá. Só homens podem fazer parte da sociedade, simbolizando o caráter machista de Mario que vai colidir com a politizada e libertária Yolanda.

“O romance entre os dois é uma pequena metáfora da Cuba que se desmonta e precisa se reconstruir após a revolução. A todo tempo o caminhar da narrativa romântica do filme é interrompido pelos excertos documentais, que de início têm enfadonho caráter jornalístico, mas aos poucos vão se convertendo em digressões que dialogam e questionam a trama ficcional (e vice-versa). Uma das melhores sequências do filme, por exemplo, é a cena em que o casal discute enquanto caminha pela Calle 23, e encontra um amigo de Mario; o momento de tensão é interrompido por uma sequência que nos apresenta a peculiar história deste amigo.” – Beatriz Macruz – Site Mulher no cinema

Começo de primavera

O jovem Shoji trabalha no escritório de uma grande empresa. Durante o horário de almoço, combina com os colegas uma caminhada pelo litoral em um domingo de verão. Durante a caminhada, ele e sua colega de trabalho Keiko, se afastam dos demais e começam uma relação mais íntima, convergindo para o romance, concretizado em uma ousada, para a época, sequência em uma pousada, quando os jovens estão conversando vestidos com roupões de banho. 

Mais uma vez, as lentes de Ozu se voltam para a desestruturação familiar no Japão do pós-guerra. Shoji é casado, sua esposa se afasta à medida que percebe a traição. A vida cotidiana desses jovens assalariados, marcada pela monotonia tanto no trabalho como nas relações entre os casais, é retratada com a costumeira linguagem fria, sem melodrama, quase documental do mestre japonês. 

Keiko é julgada e condenada por palavras pelo grupo de amigos, revelando a misoginia milenar da sociedade japonesa. Shoji, ao contrário, deve se acertar com sua mulher e deixar tudo para trás. É um triângulo amoroso complacente e resignado que deve aceitar o destino, melancólico, assim como o próprio Japão pós-guerra.  

Começo de primavera (Soshun, Japão, 1956), de Yasujiro Ozu. Com Chikage Awashima (Masako Sugiyama), Ryô Ikebe (Shôji Sugiyama), Keiko Kishi (Chiyo Kaneko). 

Chocolate

O primeiro filme da prestigiada Claire Denis é uma volta à infância, memórias da época em que viveu com seus pais em uma fazenda em Camarões. No início da película, a jovem Frances está caminhando por uma estrada litorânea. Um homem, acompanhado de seu pequeno filho, oferece carona a ela. Durante o trajeto, ela se depara com paisagens, moradores das cidades, as lembranças. 

Em flashback, a narrativa retoma a infância da menina Frances na fazenda. Seu pai, Marc, vive ausente, pois é responsável pelo gerenciamento da região. Aimée, a mãe, vive reclusa em casa, entregue aos comandos da casa. O personagem motriz da trama é Protée, espécie de mordomo “faz tudo”, inclusive cuidar da menina, com quem desenvolve um relacionamento recíproco de ternura e compreensão.  

A relação colônia/colonizador está expressa nesse pequeno contexto familiar e em situações mais amplas. A relação entre Aimée e Protée é marcada pelo imperativo da patroa branca e a submissão (aparente) do empregado negro. No entanto, o conflito se revela no erotismo sugerido entre os dois, em alguns momentos, quase concretizado. 

Ao mesmo tempo em que lida com questões políticas complexas, como agradar um grupo preconceituoso de turistas e investidores endinheirados, Marc se vê diante do inevitável conflito posto pela sua família (também simbólico no contexto geral): ficar e caminhar para a ruptura ou partir e deixar a África para os africanos. 

Chocolate (Chocolat, França, 1988), de Claire Denis. Com Isaach De Bankolé (Protée), Giulia Boschi (Aimée Dalens), François Cluzet (Marc Dalens), Mireille Perrier (France Dalens). 

Alice nas cidades

O jornalista Philip Winter percorre o interior dos EUA tirando fotos com sua polaroid. Ele está pesquisando para uma reportagem sobre as paisagens e cidades do oeste americano, mas não consegue concluir a matéria. Após conversar com o editor, resolve retornar para a Alemanha. No aeroporto, ajuda a jovem mãe Lisa van Damm a comprar as passagens. Impedidos de voar naquele dia, os três dormem no mesmo quarto de hotel: Philip, Lisa e a menina Alice.  

Em Alice nas cidades, Wim Wenders explora um dos temas recorrentes em sua cinematografia: o road-movie, marcado por personagens solitários que perambulam sem destino. Philip é surpreendido no aeroporto com uma mensagem da mãe de Alice, que resolve não embarcar, confiando a filha ao jornalista. A partir de Amsterdã, os dois empreendem uma viagem de trem, depois de carro, procurando a casa da avó de Alice.

Wim Wenders costuma dizer que não entende como os espectadores assistem a seus filmes, onde praticamente nada acontece. É fácil de responder: basta se deixar levar pela beleza poética das imagens, muitas vezes acompanhadas de longos silêncios, outras demarcadas por uma trilha sonora que atinge o íntimo.

A viagem de Alice e Philipp, o enternecedor relacionamento que se desenvolve à medida que se deparam com a paisagem, as ruas e lanchonetes das cidades; o silêncio entre os dois parece dizer ao espectador: não tente encontrar, apenas caminhe.   

Alice nas cidades (Alice in the cities, Alemanha, 1974), de Wim Wenders. Com Rudiger Vogler (Philip Winter), Yella Rottland (Alice), Lisa Kreuzer (Lisa van Damm). 

Flor do equinócio

Wataru Hirayama é um bem sucedido homem de negócios. Na abertura do filme, em uma cerimônia de casamento, faz um discurso libertário ao elogiar a decisão da noiva em se casar com o jovem que ama, renegando a tradição japonesa do casamento arranjado. Da mesma forma, incentiva sua sobrinha a fazer suas próprias escolhas, não aceitando as imposições da mãe que tenta a todo custo “arrumar” um marido para ela.

No entanto, Hirayama se confronta consigo mesmo quando descobre que sua filha Setsuko está prestes a se casar com um jovem que ela própria escolheu. Hirayama não permite o casamento, revelando sua personalidade contraditória, algo como duas faces.

É o filme mais feminista de Ozu. O patriarca é confrontado pelas três mulheres de sua casa: Setsuko exige que o pai a deixe fazer suas próprias escolhas, é apoiada pela irmã caçula e pela mãe, que com pacata resiliência tenta vencer a recusa do marido. Em uma narrativa paralela, a filha de um amigo de Hirayama foge de casa para morar com seu namorado, pianista de uma boate. 

Flor do equinócio é mais uma bela leitura do tema sagrado do mestre Ozu: as relações familiares, determinadas pelas tradições milenares do país, em conflito com a nova sociedade do pós-guerra. Deixar o passado e saudar o novo está simbolizado na sensível cena de um grupo de patriarcas bebendo à mesa enquanto ouve com melancolia uma antiga canção entoada por um deles. 

Flor do equinócio (Higanbana, Japão, 1958), de Yasujiro Ozu. Com Shin Saburi (Wataru Hirayama), Kinuyo Tanaka (Kyoko Hirayama), Ineko Arima (Setsuko Hirayama), Yoshiko Kuga (Fumiko Mikami).