A montanha sagrada

A narrativa é dividida em duas partes. Na primeira, um homem com semelhanças físicas ao Jesus Cristo consagrado pelo cinema, transita por uma paisagem agreste, tem o rosto coberto por moscas, é sequestrado por um grupo de crianças e amarrado em uma cruz. O crucificado é salvo por um anão sem pés e mãos. Os dois desenvolvem uma relação de amizade e agressão. 

Na segunda parte, um alquimista reúne um grupo de pessoas, cada um representando um planeta do sistema solar. O misticismo se evidencia em referências ao tarô, estranhos rituais, invocação a deuses e busca pela Montanha Sagrada. 

A experimentação surrealista escatológica (recheada de cenas que beiram a repulsa) de Alejandro Jodorowsky contou com apoio financeiro de John Lennon e Yoko Ono. As duas histórias se encontram, sem coerência narrativa, através de um intrincado jogo de imagens e frases soltas, bem ao estilo Jodorowsky de provocar estranheza em graus elevados. 

A montanha sagrada (The holy mountain, Mèxico, 1972), de Alejandro Jodorowsky. Com Alejandro Jodorowsky, Horacio Salinas, Zamira Saunders, Juan Ferrara. 

Cronos

Guilhermo Del Toro é essencialmente um cineasta das imagens. Trata seus filmes com um apuro visual e técnico de encher os olhos. Em Cronos, seu primeiro filme, essa marca já está lá, como a anunciar um dos grandes estetas do cinema, consagrado posteriormente em obras como HellboyA colina escarlateA forma da água e, acima de tudo, O labirinto do fauno

Cronos abre com a história de um alquimista espanhol que, fugindo da inquisição, vai parar em Vera Cruz, México. Sua vida é dedicada a pesquisar a imortalidade, isso resulta em um invento chamado Cronos, dispositivo mecânico similar a um inseto. Corta para os anos 90, um estranho é encontrado morto após o desabamento de um prédio. É o alquimista. Corta para uma loja de antiguidades onde estão Jesus Grill e sua neta, a silenciosa Aurora.

A história em si não apresenta muitas surpresas. É a releitura de Del Toro do mito do vampiro. Jesus Grill encontra e experimenta o dispositivo. Ele passa por mutações físicas e psicológicas, seu corpo cada vez mais necessitado do Cronos, enquanto sua mente e seus sentimentos relutam. A ação da trama acontece com a entrada de Angel, espécie de capanga do velho e rico Dieter de la Guarda, moribundo que passa a vida procurando pelo dispositivo do alquimista.

Os conflitos psicológicos do protagonista remetem a dois outros grandes filmes sobre imortalidade deste período: Highlander e Sede de viver

A direção de fotografia de Guillermo Navarro imprime à trama um misto de fascínio, tristeza e repulsa, afinal, cenas escatológicas também marcam o cinema de Del Toro. Atenção para as belas sequências da pulsante engrenagem dentro do inseto dourado e para a sequência do banheiro durante a festa de virada de ano. Poucas vezes o cinema de vampiro foi tão impactante.

Cronos (México, 1993), de Guillermo Del Toro. Com Federico Luppi (Jesus Grill), Claudio Brook (Dieter de la Guarda), Ron Pearlman (Angel), Aurora (Tamra Shanath). 

A morte no jardim

Luis Buñuel planejou A morte no jardim como referência direta à Espanha do General Franco, de onde o diretor teve que se exilar no início de sua carreira. O cenário é a pequena vila de mineração incrustada em país indefinido da América Latina. O governo toma posse da mina de ouro e expulsa os mineradores. Eles se revoltam nas ruas da cidade e grupo de foragidos se encontra em um barco: o jovem explorador europeu que é acusado de roubo; minerador rico e sua filha surda e muda; o missionário da cidade; um soldado; a prostituta e o mercenário dono do barco.

Em termos narrativos, A morte no jardim guarda semelhanças com No tempo da diligências (1939), de John Ford. Representantes de classes sociais distintas estão juntos no mesmo veículo e se defrontam com o perigo. No faroeste de Ford, são os índios. No drama social de Buñuel, a floresta amazônica coloca em risco mortal os personagens.

A morte no jardim (La mort en ce jardin, França/México, 1956 ), de Luis Buñuel. Com Simone Signoret (Djin), Charles Vanel (Castin), Michel Piccoli (Padre Lizardi), Michèle Girardon (Maria), Georges Marchal (Shark).