Parceiros da noite

Parceiros da noite (Cruising, EUA, 1980), de William Friedkin. 

Um corpo de um homem é encontrado dentro do Rio Hudson. Dois travestis são abordados por policiais à noite. Um deles é obrigado a praticar sexo oral com o policial. Em um quarto, um homem nu é amarrado pelo seu parceiro e esfaqueado até a morte. 

As cenas de abertura definem o tom do thriller de William Friedkin: ousadia na composição da noite em becos, boates, quartos minúsculos, frequentados por homossexuais masculinos em Nova York. O detetive Steve Burns (Al Pacino) recebe a missão de se infiltrar disfarçado nesse submundo para desvendar a identidade do serial killer que mata seus parceiros da noite com requintes de crueldade. 

O diretor abusa de imagens estereotipadas, o filme foi alvo de críticas severas da comunidade LGBTQ+ e muito mal recebido pela crítica. A narrativa segue os padrões do gênero, após a possível descoberta do assassino, o detetive começa um perigoso jogo psicológico com o suspeito, envolvendo desejo e sedução. O final em aberto provoca o espectador, motivando a revisão do filme para buscar as pistas que se espalham pela narrativa, tanto no desenvolvimento do protagonista como no uso sutil da linguagem audiovisual.  

Elenco: Al Pacino (Steve Burns), Paul Sorvino (Capitão Edelson), Karen Allen (Nancy), Richard Cox (Stuart Richards), Don Scardino (Ted Bailey). 

Insônia

Insônia (Insomnia, EUA, 2002), de Christopher Nolan. 

Os detetivses Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckhart (Martin Donovan) chegam a uma cidade do Alaska para investigar o espancamento, seguido de assassinato, de uma jovem de 17 anos. São de Los Angeles e foram enviados para trabalhar no caso pois estão sob investigação da Corregedoria que pode resultar na destruição da reputação de Will. 

Os dois primeiros filmes de Christopher Nolan, Seguinte (1998) e Amnésia (2000), foram realizados de forma independente. Os filmes repercutiram na crítica e despertaram o interesse dos estúdios. Em seu terceiro filme, Nolan contou com um grande orçamento para filmar em locações no Alaska e reunir dois atores de peso nos papeis principais: Al Pacino e Robin Williams. 

Insônia é baseado no longa norueguês homônimo de 1997. A trama, com sequências de thriller dos gèneros suspense e policial, tem uma virada quando um tiroteio na neblina resulta em um assassinato acidental. É a entrada em cena do escritor Walter Finch (Robin Williams), assassino da adolescente. A partir daí, a trama envereda para um jogo entre policial e assassino, envolvendo chantagem, embates psicológicos e conflitos éticos.  

Passo a passo, a mente turva de Will, pois ele passa dias sem dormir na cidade que nunca anoitece (o sol da meia noite) o enredam em uma perigosa trama envolvendo consciência profissional e necessidade de preservar a sua reputação.

Não matarás

Não matarás (Broken Lullaby, EUA, 1932), é um filme atípico de Ernst Lubitsch, famoso por suas comédias. O melodrama, com forte teor humanista, acompanha a jornada de Paul Renard, músico que lutou na primeira guerra mundial. Em uma trincheira, Paul mata um soldado alemão, Walger Holderlin, e lê a carta da vítima que seria enviada para sua noiva, Elsa. 

Atormentado pelo assassinato, Paul parte para a Alemanha disposto a pedir perdão aos pais de Walger. É 1919 e os resquícios da guerra ainda pairam assustadoramente no ar, o ódio mútuo entre alemães e franceses impede relacionamentos. Isto fica claro logo no primeiro encontro entre Paul e o Dr. Holderlin, pai de Walger. 

O filme, feito em 1932, é um forte manifesto de Lubitsch contra a ascensão do fascismo na Europa e os indícios de um novo conflito. Atenção para o desabafo humanista do Dr. Holderlin, em atuação magistral de Lionel Barrymore, em um bar repleto de “homens velhos” que destilam ódio, motivado pelas perdas de filhos na guerra: “Éramos velhos demais para lutar, mas não velhos demais para odiar e mandar nossos filhos para a guerra” 

Elenco: Lionel Barrymore (Dr. H. Holderlin), Nancy Carroll (Elsa), Phillips Holmes (Paul Renard), Louise Carter (Madame Holderlin), Tom Douglas (Walger Holderlin).

O diabo disse não

O diabo disse não (Heaven can wait, EUA, 1943), de Ernst Lubitsch.

O rico e aristocrático Henry Van Cleve (Don Ameche) morre aos 70 anos. Em seu caminho para a eternidade ele é recebido por Sua Excelência O Diabo, Henry tem certeza que deve pagar por seus pecados de forma cruel.

O diabo disse não é uma deliciosa comédia de Ernst Lubitsch, o mestre do gênero no cinema clássico hollywoodiano. Lubitsch conseguia tratar com leveza e bom humor as situações mais dramáticas, como nesta história marcada por abandono dos pais, adultério, frustrações nos relacionamentos amorosos e morte. 

O próprio Henry conta sua história ao diabo, tentando mostrar que não merece ir para o reino dos céus. Foi um jovem relapso na escola, só se interessando pelas meninas, passou a juventude em noitadas, aproveitando o dinheiro dos país sem se preocupar com trabalho. A vida de Henry muda quando conhece Martha (Gene Tierney), noiva de seu primo. Os dois se apaixonam e, nessa mesma noite, durante a festa de noivado, fogem, provocando um escândalo na família. 

Durante cerca de 30 anos, o relacionamento do casal é marcado pelas idas e vindas, frustrações e incertezas diante do relacionamento que se esperava para a vida inteira. A abordagem revela muito da ideologia de Hollywood, cujos filmes, amparados pelo Código Hays, aceitavam e perdoavam atitudes machistas e dominadoras dos homens, enquanto às mulheres cabia perdoar e voltar para os braços dos maridos. Atenção para a cena no início do filme quando o diabo abre o alçapão, jogando uma senhora no inferno porque ela não tem mais pernas bonitas.

O pecado de Cluny Brown

O pecado de Cluny Brown (Cluny Brown, EUA, 1946) é o último filme dirigido por Ernst Lubitsch. O diretor marcou o cinema clássico americano com suas comédias e se consagrou por uma marca conhecida por “toque Lubitsch” que influenciou outros grandes nomes do cinema, principalmente Billy Wilder.

Cluny Brown (Jennifer Jones) é uma jovem de classe baixa, irreverente, ingênua e atrevida que, após protagonizar uma hilária intervenção em uma aristocrática festa londrina, é enviada por seu tio para trabalhar em uma suntuosa casa de campo no interior da Inglaterra. Como empregada, ela reencontra o refugiado escritor theco Adam Belinski (Charles Boyer) – a narrativa se passa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Os dois passam por um relacionamento marcado pela irreverência de ambos e por situações de confronto com a conservadora e preconceituosa sociedade inglesa. 

Um dos grandes momentos do filme é quando Cluny Brown é apresentado ao casal Carmel, donos da residência. Confundida com uma ilustre visitante, Cluny é tratada com regalias durante o chá até que se anuncia como a nova empregada. A reação do casal, evidenciada pela sutileza visual do “toque Lubitsch”, demarca o grande tema dessa comédia recheada de críticas sociais. 

Sangue selvagem

Sangue selvagem ((Wise blood, EUA, 1979), de John Huston. 

Hazel Motes (Brad Dourif) chega a sua cidade natal após ser dispensado do exército devido a ferimentos sofridos na Guerra do Vietnã. Ninguém sabe exatamente que ferimentos são esses, pois ele “tem vergonha de dizer onde foi atingido.” Hazel Motes, após diversos conflitos com os moradores da cidade, parte em peregrinação, adotando uma vida sem crenças, até que chega a uma cidade sulista e decide criar a Igreja Sem Cristo, pregando nas ruas, sem aceitar qualquer tipo de ajuda financeira. 

Os irmãos roteiristas e produtores Benedict e Michael Fitzgerald adaptaram o primeiro romance de Flannery O’Connor, Wise Blood, publicado em 1953. A jornada espiritual de Hazel Motes é marcada por imolações, auto sacrifício e atitudes violentas contra os desafetos religiosos – atenção para a sequência de extrema violência na estrada. 

Sangue selvagem é um raro filme de John Huston, um dos grandes do sistema de estúdio de Hollywood, feito de maneira independente, de baixo orçamento e contando com uma equipe pequena e colaborativa em todos os aspectos. Grande parte foi filmada nas ruas de Macon, na Geórgia, contando com atores não-profissionais, que muitas vezes nem sabiam que estavam sendo filmados – como na divertida cena do gorila. O xerife, que tem participação relevante na narrativa, é o próprio xerife da cidade, assim como a prostituta que acolhe Hazel. “Ela era uma prostituta, era prostituta na cidade.” , comenta o roteirista e produtor Benedict Fitzgerald, que analisa a escolha de John Huston para dirigir o filme.

“Queríamos fazer isso e éramos ambiciosos, queríamos fazer algo que sabíamos que era importante. Ver se encontrávamos alguém importante que se interessasse pela história e reconheceria seu valor. E tivemos sorte de termos pensado em John Huston. Estávamos considerando outros, mas eles ficariam tão impressionados pela natureza alegórica da história, ou pelo que consideravam grotescos ou pela alegoria em si, que não seria uma história contada do jeito que boas histórias são contadas, muito direta. John nunca fez nada além disso. Ele gostava de contar a história como ela era. Do jeito que é. E o fato dele achar que era uma comédia, que o exagero religioso ou o coração religioso era um ponto forte, foi um mal-entendido, nós nunca tentamos forçar o diretor. Ele foi em frente e fez. E lembro que no último dia ele colocou as mãos nos meus ombros e disse: acho que fui enganado.”

Elenco: Brad Dourif (Hazel Motes), John Huston (Grandfather), Dan Shor (Enoch Emory), Harry Dean Stanton (Asa Hawks), Amy Wright (Sabbath Lily), Mary Nell Santacroce (Landlady).

Que se faça luz

Que se faça luz (Let there be light, EUA, 1980), de John Huston.

Durante a Segunda Guerra Mundial, cinco grandes diretores de Hollywood embarcaram para a Europa: John Huston, William Wyler, John Ford, George Stevens e Frank Capra.  O objetivo era participar do esforço de guerra, documentando os combates no continente europeu.  A série Five came back narra a odisseia dos diretores e traz depoimentos de importantes cineastas contemporâneos sobre o processo e as obras documentais criadas sobre a guerra.

O documentário Que se faça luz, filmado em 1946, se destaca devido à temática e às polêmicas suscitadas. John Huston visitou hospitais psiquiátricos e coletou depoimentos de veteranos da guerra que enfrentavam transtornos psicológicos devido às experiências em frentes de combates. A partir dos anos 70, a doença foi denominada de transtorno do estresse pós-traumático. 

John Huston contou com a colaboração de médicos e pacientes, que permitiram que algumas sessões fossem gravadas, incluindo práticas de hipnose. O que se vê nas telas é um retrato doloroso e cruel dos traumas causados pela guerra, não permitindo, às vezes, a reintegração dos soldados à sociedade e à vida familiar.

O governo americano considerou o documentário impróprio para veiculação, alegando que mostrava a condição dos soldados de forma desmoralizante. O filme foi censurado durante mais de 40 anos, ganhando uma restauração em 1980, quando finalmente veio a público como uma contundente denúncia da guerra e seus efeitos permanentes.

Caminhando com o amor e a morte

Caminhando com o amor e a morte (A walk with love and death, EUA, 1969), de John Huston. 

Anjelica Huston debutou no cinema sob a direção de seu pai. A narrativa de Caminhando com o amor…  se passa na França, século XIV, durante a revolta dos camponeses. O caminho de Claudia (Anjelica Huston), uma adolescente cuja família é da nobreza francesa, se cruza com o do andarilho Heron (Assaf Dayan), um estudante do interior que sonha em conhecer o mar. A revolta entre camponeses e nobres explode, a família de Claudia é assassinada e os dois jovens, apaixonados,  empreendem uma fuga por regiões marcadas pela violência. 

O lirismo dos apaixonados dá o tom da narrativa: eles cruzam bosques, se abrigam em um mosteiro, em um castelo prestes a ser invadido e, em todos os lugares, se entregam ao amor carnal. O melodramático final se anuncia em cada encruzilhada, em cada decisão de Claudia e Heron. 

Elenco: Com Anjelica Huston (Claudia), Heron of Fois (Assaf Dayan) Anthony Higgins (Robert of Loris), John Hallam (Sir Merles), John Huston (Robert the Elder).

O diabo riu por último

O diabo riu por último (Beat the devil, EUA, 1953), de John Huston. Com Humphrey Bogart (Billy Dannreuther), Jennifer Jones (Gwendolen Chelm), Gina Lollobrigida (Maria Dannreuther), Robert Monley (Peterson), Peter Lorre (Julius O’Hara), Edward Underdown (Harry Chelm), Ivor Barnard (Major Jack Ross). 

A incursão do eclético John Huston pela comédia resultou em um filme irônico e ousado.  O cenário é uma cidade paradisíaca da Itália à beira-mar. Um grupo de turistas espera o navio zarpar, cujo capitão está doente, entre eles os casais formados por Billy e Maria Dannreuther e Harry e Gwendolen Chelm. Quatro trapaceiros têm negócios obscuros a tratar com Billy e também se encontram na cidade. Tudo se complica quando um assassinato, praticado em outra cidade, envolve os protagonistas da narrativa. 

Esqueça o tom simplista da narrativa policial. O mérito do filme é o tom ousado da comédia, incluindo uma divertida e consentida troca de casais. A sequência do acidente de carro na estrada à beira-mar é deliciosa, assim como os imprevistos que esse acidente provoca. Bogar e Gina Lollobrigida dominam o elenco, ele, com a ironia e o sarcasmo estampados em cada cena; ela com uma pretensa ingenuidade que eleva o tom de erotismo da narrativa. O major fascista Jack Ross está hilário em suas explosões de violência. 

Elenco: Humphrey Bogart (Billy Dannreuther), Jennifer Jones (Gwendolen Chelm), Gina Lollobrigida (Maria Dannreuther), Robert Monley (Peterson), Peter Lorre (Julius O’Hara), Edward Underdown (Harry Chelm), Ivor Barnard (Major Jack Ross).

Cidade das ilusões

Cidade das ilusões (Fat city, EUA, 1972), de John Huston. Com Stacy Keach (Tully), Jeff Bridges (Ernie), Susan Tyrell (Oma), Candy Clark (Faye), Nicholas Colasanto (Ruben). 

John Huston foi um dos diretores mais “aventureiros” da clássica Hollywood. Entre outras atividades, ele foi marinheiro e boxeador e as filmagens de alguns de seus filmes são repletas de histórias sobre esse jeito de viver perigosamente, principalmente, Uma aventura na África (1951)

Cidade das ilusões, realizado no melhor momento da Nova Hollywood, é um filme intimista, deprimente, corrosivo no tratamento do fracasso individual. O boxeador Tully abandonou os ringues no auge da carreira, entregando-se ao vício do álcool. Mora em um quarto simples e sobrevive em subempregos nas colheitas. Durante um treinamento na academia, Tully conhece Ernie, um jovem talentoso que, com o treinamento certo, pode ser um grande boxeador. Sob a tutela do treinador Ruben, Ernie dá os primeiros passos no ringue, enquanto Tully tenta se colocar em forma e voltar a competir, mas a ilusão e o fracasso rondam a caminhada dele novamente. 

“No final, Tully não se encontra muito ‘livre’ para viver a vida de realizações masculinas, conformado com seu isolamento e fracasso, Huston sugere que não há nenhum caminho fácil para a ‘cidade das ilusões’ e de riqueza que é o sonho americano. Com as suas sequências de boxe autênticas, locações desoladas na Califórnia e uma atuação perfeita e sutil de um conjunto talentoso Cidade da ilusões oferece um retrato realista, porém poético, da obsessão demasiado humana de realizar sonhos irrealizáveis de auto-transformação e transcendência.”

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.