O filme segue a estrutura clássica de superação. No início, o policial Will Sawyer não consegue impedir um atentado contra reféns. A consequência é a morte de inocentes e de alguns de seus colegas. Corta para dez anos depois, ele perdeu parte da perna no atentado, está casado com a médica que o atendeu, tem dois filhos. Will está fora da polícia, agora trabalha como consultor de segurança. Precisa aprovar o projeto de mega tecnológico prédio em Hong Kong. Terroristas invadem o prédio onde estão sua mulher e filhos.
O melhor de Arranha céu – Coragem sem limite são as referências a Duro de matar (1988), filme que catapultou a carreira de Bruce Willis no cinema e a reconstituição da clássica sequência final de A dama de Shanghai (1948), de Orson Welles. De resto, é comum filme de ação com sequências espetaculares de efeitos visuais.
Arranha céu – Coragem sem limite (Skyscraper, EUA, 2018), de Rawson Marshall Thurber. Com Dwayne Johnson (Will Sawyer), Neve Campbell (Sarah Sawyer), Chin Han (Zhao Long Zhi), Roland Moller (Kores Botha).
O jovem Simon abre o filme apresentando sua família, sua vida normal de classe média e avisa: eu tenho um segredo. A narrativa segue o cotidiano de Simon em casa, no Colégio com os amigos e sua correspondência via e-mail com Blue, que também esconde a homossexualidade. A virada acontece quando Martin, colega de escola, descobre a correspondência e chantageia Simon, ameaçando divulgar as cartas.
Com amor, Simon é singela e bela história de descoberta e revelação, com tocante sequência final no parque de diversões, metáfora da passagem da adolescência para a fase adulta.
Com amor, Simon (Love, Simon, EUA, 2018), de Greg Berlanti. Com Nick Robinson (Simon Spier), Josh Duhamel (Jack Spier), Jennifer Garner (Emily Spier), Katherine Langford (Leah Burke), Alexandra Shipp (Abby Suso), Logan Miller (Martins Addison), Jorge Lendeborg Jr. (Nick Eisner), Keiynan Lonsdale (Bram Greenfild), Talitha Bateman (Nora Spier).
Quando Charles Foster Kane soltou da mão a redoma de vidro e pronunciou a palavra “rosebud”, uma revolução se anunciou na história do cinema. As extravagâncias técnicas que o diretor Orson Welles e o diretor de fotografia Gregg Toland imprimiram em Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941) assombraram o mundo cinematográfico. Em termos narrativos, camadas de flashbacks também inovaram na busca do jornalista pelo significado da palavra que Kane pronuncia antes de morrer. No entanto, a trama parte de recurso tão antigo quanto contar histórias: a volta à infância motivada por um objeto simbólico.
Corta para 2001. O fotógrafo Bobby Garfield está em seu estúdio, fotografando uma redoma de vidro. Toca a campainha, ele recebe encomenda pelo correio. Abre a caixa e se depara com uma surrada luva de beisebol. Junto, recorte de jornal informa sobre a morte de um herói militar. Pensamentos de Bobby anunciam: “O passado pode chegar derrubando a sua porta. E você nunca sabe para onde ele vai te levar. Você só pode esperar que seja um lugar para onde você queira ir.” Bobby pega a foto de uma menina, coloca na carteira e sai em busca de seu passado.
Segundo o roteirista Michel Chion, acessórios cenográficos podem ter papel revelador ou mesmo simbólico: “É o caso de objetos cuja posse é disputada e que representam o poder, a riqueza, o saber ou ainda a infelicidade, a lembrança, a infância (o trenó de Citizen Kane, que representa o objeto perdido).” Esses clichês narrativos são caros ao cinema clássico americano.
A viagem leva Bobby ao funeral do amigo de infância Sully, dono da luva. Durante a solenidade, outro recurso narrativo comum é usado: flashbacks revelam os meninos Bobby e Sully e a menina Carol brincando no bosque.
Lembranças de um verão é adaptação de texto de Stephen King, autor especialista no gênero literário que desperta emoções há tempos imemoriais. Um princípio de textos do autor é a volta à infância em um período determinado que demarca a passagem. Em toda boa narrativa de gênero como as do mestre Stephen King, o passado esconde mistérios.
Personagens centrais para a elucidação do mistério escondido em um verão da década de 50, quando Bobby acaba de completar 11 anos, entram em cena quando o flashback toma conta da narrativa. A mãe do garoto, o pai ausente e Ted Brautigan, inquilino que chega para morar no andar de cima da casa de Bobby.
Jacqueline Nacache indica que a forma mais segura de identificar o gênero consiste na análise do início do filme, quando elementos simbólicos e personagens são apresentados ao espectador. Não pretendo analisar passo a passo o filme. Concentro-me nos minutos iniciais para dizer do fascínio que sinto por narrativas que, de forma clássica, me permitem descobertas de mistérios envoltos aos personagens e me remetem a recantos insondáveis da memória.
Lembranças de um verão trabalha com temas fundamentais na formação de todos nós: atitudes lúdicas da infância, bullying, amizade, o primeiro beijo, pacto entre amigos, a incompreensão do universo dos pais, assédio, o fascínio por um adulto que pode determinar como vamos enxergar o mundo (no caso de Bobby, aprender com Teddy a olhar o futuro). A guerra fria também demarca a narrativa, “homens ordinários” perseguem Teddy e algo que ele tem para uso em fins políticos..
O filme acontece com a simplicidade visual e técnica das narrativas clássicas, pontuada por frases de efeito e trilha sonora encantadora. Ao final do filme, fica da simplicidade o que todos nós buscamos por mais complexo que seja: “Aquele foi o último verão da minha infância.”
Lembranças de um verão (Hearts in Atlantis, EUA, 2001), de Scott Hicks. Com Anthony Hopkins (Ted Brautigan), Anton Yelchin (Bobby Garfield), Hope Davis (Liz Garfield), Mika Boorem (Carol Gerber), David Morse (Bobby Garfield adulto).
Referências:
O roteiro de cinema. Michel Chion. São Paulo: Martins Fonte, 1989
O cinema clássico de Hollywood. Jacqueline Nacache. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2005
Em Sicário: terra de ninguém a trama colocou em debate os limites éticos na luta contra o crime organizado. Enquanto a policial vivida por Emily Blunt combate movida por princípios da lei e justiça, o personagem de Josh Brolin, Matt Grover, usa de atos escusos para atingir os objetivos. Já Alejandro, sicário interpretado por Benicio Del Toro, encontra motivações na mais violenta vingança.
A continuação coloca novamente Matt Graver e Alejandro em ação na fronteira do México. A missão de Alejandro é sequestrar a filha do líder de cartel de drogas mexicanos, colocar a culpa na gangue rival, explodindo uma guerra entre as facções. O plano dá errado, Alejandra se vê sozinho com a menina no deserto mexicano e Matt recebe ordens de eliminar o sicário.
A violência pontua a ação (com direito a impressionante execução perpetrada por adolescentes em uma arena), deixando espaço para a complexidade das relações entre Alejandro e Isabel, sequestrador e refém. O final abre as janelas para a conclusão da história em novo filme, possivelmente com novo sicário.
Sicário: dia do soldado (Sicario: day of the soldado, EUA/Itália, 2018), de Stefano Sollima. Com Benicio Del Toro (Alejandro), Josh Brolin (Matt Graver), Isabela Moner (Isabel Reyes).
O diretor Clint Eastwood fecha espécie de trilogia baseada em atos heroicos perpetrados por soldados e pessoas comuns, incluindo Sniper Americano e Sully: o herói do Hudson. A história na qual se baseia 15H17 – Trem para Paris aconteceu em 2015, quando um marroquino aterrorizou os passageiros de trem que ia de Amsterdã para Paris. Três amigos americanos à bordo impediram a tragédia e foram saudados como heróis por autoridades e pela população.
Clint Eastwood escalou os próprios salvadores para interpretarem seus papéis no filme. A primeira parte da trama narra a relação de amizade entre os três no colégio, depois os caminhos separados que seguiram até o encontro em uma viagem pela Europa. Nesse ponto, embarcam no trem e protagonizam o combate contra o terrorista. O mérito do filme está em colocar atores não profissionais vivendo suas próprias odisseias, sem a exigência de interpretação. É quase uma reconstituição registrada pelas câmeras, sem grandes sequências de ação, pois dentro do trem quase tudo foi movido pelo acaso. Não é o melhor de Clint Eastwood, mas o diretor continua com seu olhar clássico para o cinema.
15H17 – Trem para Paris (The 15:17 to Paris, EUA, 2018), de Clint Eastwood. Com Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone.
A narrativa segue os clichês do gênero: Dominika (Jennifer Lawrence), bailarina promissora, é recrutada por serviço secreto russo para se tornar agente especial, na verdade assassina profissional bem ao estilo Nikita. Em uma missão, Dominika conhece Nathaniel Nash (Joel Edgerton), agente da CIA. Os dois assumem relação movida a paixão, riscos, revelações e traições. Em meio aos clichês e sequências de assassinatos violentos, sobra a sensualidade de Jennifer Lawrence, em ousadas cenas de sexo e nudez. O final do filme reserva virada surpreendente.
Operação Red Sparrow (Red Sparrow, EUA, 2018), de Francis Lawrence. Com Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Charlotte Rampling, Matthias Schoenaerts.
Charlize Theron é o destaque da trama, protagonizando cenas de pancadaria nas quais bate e apanha à vontade (ela mesma gravou as cenas) e desfilando erotismo, com direito a ousada cena de sexo com Sofia Boutella.
Lorraine Broughton (Charlize Theron) é agente do MI6. Ela é enviada sob disfarce para Berlim para investigar o assassinato de um oficial e resgatar lista de agentes duplos. O ano é 1989, às vésperas da queda do muro de Berlim. Como toda boa trama de espionagem, a narrativa é carregada de ação, surpresas, traições, assassinatos inesperados, enfim, tudo a que o espectador almeja ao sentar na cadeira diante deste gênero. Atômica está um passo acima devido, claro, à atriz que já conquistou seu Oscar e lugar no olhar dos cinéfilos.
Atômica (Atomic blonde, EUA, 2017), de David Leitch. Com Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman, Eddie Marsan, Sofia Boutella.
Alicia Vikander é das grandes atrizes do cinema contemporâneo, oscilando entre produções independentes e de entretenimento puro. Caso de Tomb Raider: a origem, baseado no reboot do jogo, lançado em 2013.
Lara Croft sofre com o desaparecimento do pai, renega a fortuna da família e vive seu cotidiano de labuta com problemas pessoais, financeiros. Quando descobre um mapa escondido na mansão da família, parte para uma misteriosa ilha, tentando resolver o mistério do desaparecimento do pai. A jovem inexperiente se defronta com exploradores cruéis, seres míticos, armadilhas mortais em um templo milenar.
O roteiro é previsível, assim como as cenas de ação. Resta Alicia Vikander em ótima performance como heroína sem superpoderes, movida por dilemas humanos, descobrindo seu destino como Lara Croft.
Tomb Raider: a origem (Tomb Raider, EUA, 2018), de Roar Uthaug. Com Alicia Vikander, Dominic West, Walton Goggins, Kristin Scott Thomas.
Na primeira sequência, o detetive Sal Friedland anda pelas ruas de uma cidade futurista. O ponto de vista da câmera é subjetivo, o espectador acompanha o olhar do personagem cruzando com pessoas. A novidade é que o olho é literalmente a câmera: registra tudo em um chip implantado na mente.
Anon parte de princípio fascinante: todas as pessoas têm câmeras implantadas, as imagens ficam gravadas, portanto, é simpls elucidar um assassinato, basta aos policiais acessar os registros da vítima e conferir se o criminoso foi visto. A virada acontece quando série de assassinatos acontece após um hacker conseguir inverter o ponto de vista no momento do crime, ou seja, a câmera registra pelo olhar do assassino. Anon, misteriosa mulher, cruza o caminho de Sal e coloca incertezas nos olhares de todos.
O diretor Andrew Niccol é responsável por outras narrativas ambientadas em futuros distópicos: Gattaca – Experiência genética (1997) e O preço do amanhã (2011). Anon é o mais puro entretenimento neste universo, trazendo como adicional a marca do diretor: questões éticas, filosóficas, existenciais neste futuro não tão distante.
Anon (EUA, 2018), de Andrew Niccol. Com Clive Owen, Amanda Seyfried, Colm Feore, Mark O’Brien.
A ousadia conceitual e estilística de David Lynch despontou logo no primeiro filme, Eraserhead (1977). Seguiram-se obras impactantes, com a marca surreal, beirando o escatológico: O homem elefante (1980), Duna (1984), Veludo azul (1986), Coração selvagem (1990), Cidade dos sonhos (2001), a revolucionária série Twin peaks – os últimos dias de Laura Palmer (1992).
O documentário David Lynch: a vida de um artista traça um retrato do lado menos conhecido do cineasta: suas incursões pela pintura. David Lynch conversa com a câmera em seu atelier nas colinas de Hollywood Hills, em Los Angeles, refletindo sobre seu processo criativo. Imagens de filmes caseiros reconstituem as origens de sua relação com a arte e depoimento instigante revela como as artes plásticas impulsionaram sua carreira de roteirista e diretor de cinema. Documentário imperdível para amantes do cinema, revelação das relações entre as pinceladas de Lynch e seu onírico mundo nas telas.
David Lynch: a vida de um artista (David Lynch: the art life, EUA/Dinamarca, 2016), de Jon Nguyen.