Baronesa

A interseção entre documentário e ficção é tendência do cinema brasileiro. A diretora Juliana Antunes exercita o estilo em Baronesa, projeto que começou como um documentário quando ainda estudava Cinema e Audiovisual e enveredou para relatos ficcionais envolvendo personagens da periferia de Belo Horizonte. 

Andreia mora no bairro Juliana, mas está construindo uma casa no vizinho Baronesa (Juliana Antunes relata que a ideia do filme começou da observação do transporte público de Belo Horizonte, pois diversos bairros trazem nomes femininos). Leid, amiga de Andreia, cuida dos filhos enquanto espera o marido sair da cadeia. As filmagens aconteceram em locações, com moradoras do próprio bairro que improvisaram situações e diálogos. A câmera assume posição íntima das personagens, registrando imagens do cotidiano e diálogos coloquiais sobre criação dos filhos, sexo, questões sociais. Em determinada sequência, tiros invadem o som ambiente, equipe de filmagem e personagens correm para dentro da casa. Neste momento das filmagens aconteceu um tiroteio no bairro, conflito de duas gangues do tráfico rivais. Está no filme. É a força de Baronesa: o registro do cotidiano de mulheres da periferia, envolvidas pelos dramas e tragédias da realidade. 

Baronesa (Brasil, 2017), de Juliana Antunes. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares. 

O animal cordial

Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.

A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.  

O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes. 

Quando as luzes das marquises se apagam

O documentário começou como trabalho de conclusão do curso do diretor Renato Brandão quando estudava Cinema e Audiovisual na Escola de Comunicação e Artes da USP. As pesquisas abordaram o apogeu dos cinemas de rua em São Paulo, situados em torno das Avenidas Ipiranga e São João. As diversas salas na mesma região ficaram conhecidas como Cinelândia Paulista. 

Depoimentos relembram os tempos áureos dos cines Broadway, Ópera, Regina, Saci, Avenida, Marrocos, Jussara, República, Ritz, entre outros. Participam do documentário personagens como Ignácio de Loyola Brandão, José Moreira, Inimá Santos, Paula Freire Santoro, Máximo Barro, Carlos Augusto Calil e o empreendedor do ramo de cinemas Francisco José Luccas Netto.  

Como em outras metrópoles, as salas da Cinelândia Paulista deram lugar a cinemas eróticos, estacionamentos, igrejas, lojas de varejo. A resistência fica por conta do Marabá, única sala que permanece funcionando no circuito comercial. 

Quando as luzes das marquises se apagam – A história da Cinelândia Paulista (Brasil, 2018), de Renato Brandão. 

Mulheres alteradas

Os quadrinhos da argentina Maitena foram adaptados primeiro para o teatro no Brasil, depois para as telas. A narrativa acompanha os conflitos cotidianos de quatro jovens mulheres. Keka está em crise no casamento e pede férias no trabalho para viajar com o marido e tentar salvar o casamento. Leandra está cansada das baladas e tira uma noite para cuidar dos filhos de sua irmã Sônia, que por sua vez aproveita para se esbaldar em uma boate sem o marido, com direito a experiências sexuais. A workaholic Marinatti precisa agarrar a oportunidade de um grande caso no escritório de advocacia em que trabalha para subir na carreira. Tudo dá errado quando conhece um pretendente na noite. 

A comédia escrachada tem como ponto forte as protagonistas femininas. Estão no filme importantes debates por trás das situações hilárias, associados aos conflitos entre trabalho, família, relacionamentos. Alessandra Negrini domina a película.  

Mulheres alteradas (Brasil, 2018), de Luís Pinheiro. Com Deborah Secco (Keika), Alessandra Negrini (Marinatti), Monica Iozzi (Sônia), Maria Casadevall (Leandra), Daniel Boaventura (Christian), Sergio Guizé (Dudu).

Mormaço

A narrativa abre com imagem de Ana deitada na pedra ao sol, em uma cachoeira. Corta para imagens de explosões de obras, preparando a cidade para as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016. Cortina de fumaça invade as ruas, Ana é envolta pela densa e sufocante onde de calor e sujeira. 

As cenas de abertura determinam o tom do filme: o calor do Rio associado às obras das Olimpíadas provocam ondas de revoltas. Ana é advogada e defende causa popular dos moradores da Vila Autódromo, despejados por conta da construção da Vila Olímpica. Ela mora em prédio que também está em vias de abandono pelos moradores, pois hotel de luxo será construído no local. Manchas começam a aparecer na pele da advogada sem diagnóstico preciso pelos médicos. 

Mormaço debate os problemas decorrentes do megaprojeto olímpico, colocando em pauta o agressivo plano de desocupação de moradores. A degradação da cidade e das pessoas é indicada através de metáforas visuais e narrativas. Atenção para a triste imagem dos desocupados arrastando seus pertences na calçada em frente ao Estádio Olímpico.  

Mormaço (Brasil, 2018), de Marina Meliande. Com Mariana Provenzzano (Ana), Paulo Gracindo (Pedro), Analú Prestes (Rosa), Sandra Maria Teixeira (Domingas).  

Como nossos pais

Rosa (Maria Ribeiro) representa as angústias de grande parte das mulheres na contemporaneidade. Perto dos 40 anos, ela enfrenta problemas no casamento, frustrações no trabalho, convive com dilemas de relação com as filhas adolescentes, cuida dos pais idosos. A mãe sofre com doença terminal e faz revelação bombástica sobre a paternidade de Rosa, provocando reviravoltas nos caminhos da protagonista.

Como nossos pais é o retrato dos problemas que assolam famílias de classe média: conflitos entre gerações, desconfianças e infidelidades conjugais, frustrações profissionais, machismo, liberdades sexual, abandono dos pais. Rosa faz refletir sobre o papel da mulher em meio a tudo isto, afirmando o protagonismo feminino – Laís Bodanzky na direção, Maria Ribeiro como protagonista – na recente produção do cinema brasileiro. 

Como nossos pais (Brasil, 2017), de Laís Bodanzky. Com Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri. 

Bingo, o rei das manhãs

O cinema brasileiro se debruçou com louvor sobre personagens que fizeram a história da nossa televisão, da nossa cultura pop. Hebe – A estrela do Brasil (2019), Chacrinha – O velho guerreiro (2018) e Bingo: o rei das manhãs (2017) recriam parte da biografia de ícones da telinha. 

Vladimir Brichta interpreta Arlindo Barreto, mais famoso intérprete do palhaço Bozo no programa que encantou as crianças na década de 80. Por contrato, Arlindo Barreto não podia revelar a identidade por trás do palhaço. A narrativa acompanha sua obsessão em busca da fama, tentando bater no ibope uma certa rainha dos baixinhos e provar a si mesmo e aos executivos seu talento. Na vida pessoal, são retratados seus dramas pessoais com o filho, que se sente abandonado, seu envolvimento com mulheres, álcool e drogas. 

Os bastidores da criação de programas na crescente indústria televisiva da época, movida a números do ibope, revelam a cruel pressão a que são submetidos os artistas. Vladimir Brichta é destaque do filme, entregando um personagem engraçado, tenso, deprimente. 

Bingo: o rei das manhãs (Brasil, 2017), de Daniel Rezende. Com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Tainá Muller, Augusto Madeira, Ana Lúcia Torre. 

O segredo de Davi

Davi é jovem estudante de cinema cujo voyeurismo se traduz no hábito de filmar pessoas às escondidas. Tem aparência angelical, gestos delicados, falas comedidas, mas se transforma ao cometer o primeiro assassinato: sua vizinha Mara, que reaparece a partir daí, provocando o instinto violento de Davi que comete outros crimes. 

O primeiro longa do diretor Diego Freitas segue a tendência de lançamento de bons gêneros no cinema nacional, a exemplo de As boas maneiras e O animal cordial. O ponto forte da película é o apuro estético, com sequências estilísticas nas incursões do personagem pela noite paulistana.

O segredo de Davi (Brasil, 2018), de Diego Freitas. Com Nicolas Prattes (Davi), Neusa Maria Faro (Maria), André Hendges (Jônatas), Bianca Muller (Dóris).    

Lino

A tecnologia digital provocou reviravolta na história da animação brasileira. Os curtas-metragens invadem as telas favorecidos pelo Anima Mundi. As crianças finalmente conseguem assistir a animações de longa-metragem com mais regularidade (até os anos oitenta foi produzido apenas um longa de animação no Brasil). O estúdio de animação Start Anima já lançou O grilo feliz (2001), O grilo feliz e os insetos gigantes (2009) e Lino, delicioso imbricamento entre o mundo humano e animal. 

Lino trabalha como animador de festas infantis, vestido de gato. No início da narrativa, relata em primeira pessoa sua inacreditável tendência ao azar. É o típico loser, sem esperança, sem perspectivas. Ele se envolve com um mago que o transforma em gato gigante. O sucesso é imediato, Lino passa de azarão a celebridade. 

Selton Mello empresta sua voz ao gato. As trapalhadas de Lino envolvem tentativa de voltar ao corpo humano, toques de romance e trama policial. Diversão garantida.  

Lino (Brasil, 2017), de Rafael Ribas.

Corpo elétrico

O jovem paraibano Elias trabalha em uma confecção de roupas. A rotina de Elias se divide entre o trabalho e a aspiração de ser estilista e as noitadas com amigos, quando se entrega à busca por amantes. 

O diretor Marcelo Caetano segue tendência do cinema brasileiro contemporâneo: câmera na mão próxima dos personagens, acompanhado com naturalidade momentos rotineiros no trabalho, a caminhada pelas ruas, documentário e ficção se alternando no estilo de captação e montagem. Marcelo Caetano diz que desconstruiu o roteiro, deixando a improvisação fluir, tanto no processo de filmagem quanto de interpretação dos atores. A simplicidade do final revela a força deste cinema/retrato da vida que flui diante das câmeras. 

Corpo elétrico (Brasil, 2017), de Marcelo Caetano. Com Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ronaldo Serruya, Ana Flavia Cavalcanti, Linn da Quebrada.