O comerciante das quatro estações

Quando volta do serviço prestado à Legião Estrangeira, no Marrocos, em 1947, Hans Epp começa a trabalhar como feirante, junto com a esposa, Irmgard Epp. Para aumentar os rendimentos, ele percorre as ruas de bairros com um carrinho de frutas, anunciando para as janelas suas ameixas e peras. 

Com este personagem singular, Fassbinder compõe a metáfora das quatro estações. Hans vê seus dias passarem de forma repetitiva, quase um espectador passivo de sua própria vida sem sentido. Ele é o protótipo do homem fracassado, cuja profissão é humilhante para sua família burguesa. Em casa, ele agride a esposa e despreza a filha única.  

O comerciante das quatro estações surgiu após Fassbinder ficar fascinado pelo cinema de Douglas Sirk. As referências ao melodrama são claras durante a trama, com o protagonista entregando-se ao sofrimento sem possibilidades de redenção, caminhando de forma irreversível para um abrupto ato final, quando bebe atá a morte sob os olhares dos amigos. Fassbinder não poupa o espectador, filmando o ato de forma seca, quase como se fosse natural o auto sacrifício do personagem. Preste atenção no final pós morte, no comportamento indiferente, frio e desprezível da família de Hans, da esposa e de seu amante. 

O comerciante das quatro estações (Handler der vier jahreszeiten, Alemanha, 1971), de Rainer Werner Fassbinder. Com Hans Hirschmüller, (Hans Epp) Irm Hermann (Irmgard Epp), Hanna Schygulla (Anna Epp). 

Human flow: não existe lar se não há para onde ir

O premiado artista chinês Ai Weiwei  compôs um painel impactante e doloroso sobre a situação de refugiados espalhados pelo mundo. Durante um ano, o diretor e sua equipe filmaram o cotidiano de 40 campos de refugiados, em 23 países, entre eles: Líbano, Quênia, Bangladesh, a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

“Não é apenas um problema político, mas uma questão humanitária e moral”, afirmou o diretor. As imagens do documentário, com uma edição primorosa, retratam o lado humano dos refugiados: o cuidado que eles têm uns com os outros, a luta pela sobrevivência em situações muitas vezes precárias, o sofrimento pela indefinição das condições dos refugiados de apátridas.

As imagens são acompanhadas de informações de estarrecer, por exemplo, só no Iraque, quatros milhões de pessoas já abandonaram suas casas desde os anos 80; 56 mil refugiados sírios, iraquianos e iranianos cruzam a Grécia toda semana. O documentário é muito mais do que uma denúncia, é uma potente declaração humanitária que deveria ecoar fundo nas nações que fecham os olhos diante dessa escravidão moderna. 

Human flow: não existe lar se não há para onde ir (Human flow, Alemanha/EUA, 2017), de Ai Weiwei.

Coração de cristal

O diretor Werner Herzog afirmou que hipnotizou os atores durante as filmagens, pois queria deles uma atuação sem vida, como se estivessem conformados, sem esperança, caminhando letárgicos para o fim que se anuncia durante todo o filme. Verdade ou não, Coração de cristal transparece essa sensação de finitude, reforçada pelo ritmo lento e contemplativo da narrativa. 

A história se passa em uma aldeia da Bavária, século XVIII. Os moradores vivem às custas da fabricação do vidro-rubi, no entanto, o mestre vidraceiro morre e leva junto o segredo dessa quase alquimia. O dono da fábrica sacrifica tudo em busca de descobrir o segredo e, passo a passo, a degradação toma conta de todos.

Hias, protagonista e espécie de profeta, contempla tudo do alto de uma montanha. A estética da película apresenta cenas deslumbrantes: o clima gelado da Bavária, a imensidão à frente de Hias em sua montanha, o processo de fabricação do vidro, essa arte milenar. Dizem que Herzog queria hipnotizar também o espectador durante as sessões. Desistiu da ideia e, creio, não seria preciso: a beleza etérea da película cuida disso.  

Coração de cristal (Herz aus glas, Alemanha, 1976), de Werner Herzog. Com Josef Bierbichler (Hias), Stefan Güttler (Hüttenbesitzer), Clemens Scheitz (Adalbert). 

Alemanha no outono

Em 1977, a Alemanha foi abalada por uma série de acontecimentos políticos de caráter violento, extremista: o sequestro e assassinato de Hann-Martin Schleyer, presidente da Confederação de Empregadores da Alemanha Ocidentel; o sequestro do avião da Lufthansa; o suicídio na prisão de três membros da RAF – Fração do Exército Vermelho. 

Em Alemanha no outono, onze aclamados cineastas, integrantes do Novo Cinema Alemão, se debruçaram sobre o clima terrorista que se instaurou no país, debatendo as questões da extrema direita e da extrema esquerda. O filme foi realizado em estilo episódico, curtas-metragens ligados pelo tema comum que ficou conhecido como Outono alemão. Destaque para o primeiro episódio, escrito, dirigido e interpretado por Rainer Werner Fassbinder, no qual ele se expõe de forma visceral, desnudando-se diante da câmera física e ideologicamente.

“Quando nos reunimos, no início, um dos motivos que nos levaram a concluir pela necessidade de fazer o filme era enfrentar o medo. Era necessário que as pessoas que não tinham nenhum meio de produção e estavam, talvez, ainda mais amedrontadas do que nós, não se deixassem intimidar pelo sentimento que reinava então na Alemanha, de que a crítica era inoportuna em qualquer de suas manifestações e deveria ser calada.” – Fassbinder (Plano Critico)

Alemanha no outono (Deutschland im herbst, Alemanha, 1978), de Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Alexander Kluge, Maximiliane Mainka, Beate Mainka-Jellinghaus, Peter Schubert, Bernhard Sinkel, Hans Peter Cloos, Edgar Reitz, Katja Rupé, Volker Schlöndorff.

A caverna dos sonhos esquecidos

Em 1994, três exploradores descobriram uma caverna, perto do Rio Ardèche, sul da França, que contém as pinturas rupestres mais antigas – remontam a 32 mil anos atrás. Foi uma das descobertas mais importantes da arqueologia, com pinturas rupestres tão preservadas que, a princípio, suspeitou-se de fraude. Pesquisas comprovaram a autenticidade da arte.  

A Caverna de Chauvet é fechada à visitação pública, só é permitida a entrada de profissionais e pesquisadores altamente qualificados. O diretor alemão Werner Herzog conseguiu autorização do Ministério da Cultura Francês para, com uma equipe reduzida, assim como o mínimo de equipamentos necessários, filmar a caverna e suas inscrições. 

O resultado é um dos documentários mais fascinantes, quase um tratado sobre artes plásticas e cinema, finalizado em 3D. Segundo Herzog, “a caverna é como um momento congelado no tempo.”

As pinturas ocupam imensos painéis de pedra, representando animais como bisões e cavalos. As imagens de Herzog, acompanhadas de suas reflexões, refletem a tentativa dos artesãos de reproduzir imagens em movimento, retratar momentos como a caçada ou a debandada de animais. 

“Para estes pintores paleolíticos, a interação da luz e das sombras de suas tochas devia ter esta aparência. Para eles, os animais deveriam parecer vivos e em movimento. Devemos atentar que o artista pintou este bisão com 8 pernas, indicando movimento, quase uma forma de proto-cinema.” – Werner Herzog

Jean-Michel Geneste, Director of the Chauvet Cave Research Project também reflete sobre o que sempre impulsionou a humanidade em sua busca pela representação. “A sociedade humana precisa adaptar-se à paisagem, aos outros seres, aos animais e aos outros grupos humanos. E a comunicar algo, a comunicar e registrar memória em coisas muito específicas como paredes, pedaços de madeira, ossos. É a invenção da representação figurativa de animais, de homens, de objetos É uma forma de comunicação entres os seres humanos, além de evocar o passado para transmitir informação, que é melhor do que a linguagem, do que a comunicação verbal. E esta invenção continua idêntica em nosso mundo atual. Como esta câmera, por exemplo.”

Dentro da caverna, os quatro integrantes da equipe de Herzog se moviam em fila indiana (portanto, a equipe de filmagem faz parte do documentário), em caminhos que deveriam ser rigorosamente respeitados. Para captar imagens mais próximas, os técnicos usavam longas hastes para as pequenas câmeras, com baixíssima iluminação. O tempo da equipe dentro da caverna era limitado ao extremo. Tudo confere ao documentário uma rara impressão de realidade de cenas vividas pelo homem há quase 30.000 anos. É o encontro de duas magias, dois sonhos: as pinturas rupestres e o cinema. 

“Estas imagens são lembranças de sonhos há muito esquecidas. Esta é a batida do coração deles ou da nossa? Seremos capazes de compreender a visão dos artistas através desse abismo de tempo?” – Werner Herzog

A caverna dos sonhos esquecidos (Cave of forgotten dreams, EUA/Alemanha, 2010), de Werner Herzog.

The invisible frame

Em 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim, Tilda Swinton e a diretora Cynthia Beatt se uniram em um documentário. A atriz, em um road-movie de bike, percorreu o Muro de Berlim do lado ocidental, buscando vislumbres da outra Alemanha além das paredes.

21 anos depois, a ideia é a mesma, agora sem a demarcação cruel da fronteira. Tilda Swinton percorre livremente vários pontos, em um passeio contemplativo, reflexivo, por ruas, avenidas, parques que outrora foram demarcados pelo muro. A beleza do documentário está neste gesto de liberdade que um passeio de bike representa, deixando o vento ondular os cabelos, o olhar cair livremente sobre estruturas e pessoas, a mente vagar sem amarras.

The invisible frame (Alemanha, 2009), de Cynthia Beatt.

O desespero de Veronika Voss

Fassbinder conquistou o Urso de Ouro em Berlim com seu penúltimo filme, três meses antes de sua morte. Veronika Voss é uma estrela de sucesso na Alemanha dos anos 50. Ela se torna dependente de drogas e sua carreira entra em decadência. Ela conhece Robert Krohn, num bosque, em uma noite de chuva. A partir daí, Verônica tenta retomar seu lugar no cinema, assim como na própria vida, mas ela se entrega cada vez mais ao vício.

O desespero de Veronika Voss compõe a trilogia de Fassbinder sobre a Alemanha do pós-guerra (os outros são Lola e O casamento de Maria Braun). É um melodrama, gênero que o diretor tanto amou, que aborda as cicatrizes quase incuráveis dessa nação que praticamente se auto destruiu ao assumir o nazismo. Veronika Voss e a Dra. Marianne Katz simbolizam esse país doente, enquanto Robert tenta buscar uma saída para essa degradação generalizada.  

O desespero de Veronika Voss (Die sehnsucht der Veronika Voss, Alemanha, 1982), de Rainer Werner Fassbinder. Com Rosel Zech (Veronika Voss), Hilmar Thate (Robert Krohn), Annemarie Duringer (Mariane Katz).

Num ano de 13 luas

O filme tem uma das sequências mais difíceis de assistir do cinema. Elvira guia Zora por um frigorífico, lembrando de sua antiga profissão, quando ainda era Erwin. O diálogo em off é acompanhado por uma sucessão de bois sendo executados, as cabeças cortadas, sangue jorrando pelo chão, os funcionários descamando as vítimas. Aterrador. 

A narrativa acompanha cerca de trinta dias na vida de Elvira, em 1978, começando quando ela é agredida por um grupo de homens em um parque e, logo depois, sendo abandonada por seu namorado. A reconstituição da vida da protagonista é feita através de longas narrações, entrecortadas por seus encontros com pessoas que marcaram sua vida: sua ex-esposa e filha, sua amiga Zora, Anton Saitz, um antigo amigo que foi decisivo na transformação de Elvira. 

As imagens de Fassbinder beiram o surrealismo, retratando os personagens de forma caricata, com comportamentos entre alegóricos e deprimentes. Num ano de 13 luas foi inspirado no ex-amante de Fassbinder que se suicidou antes da produção do filme. Fique com a narrativa do diretor que abre a película, pontuando o nome e o tema desta obra ousada e polêmica. 

“A cada sete anos chega um Ano da Lua. Aqueles que deixam suas emoções influenciar suas vidas sofrem depressões ainda mais intensas nesses anos. Em menor medida, o mesmo pode ser dito dos anos com 13 luas novas. Quando um Ano da Lua também tem 13 luas, podem acontecer tragédias pessoais inevitáveis. No século XX, essa perigosa constelação ocorre num total de seis vezes. Uma delas em 1978. Antes disso, ocorreu em 1908, 1929, 1943 e 1957. 1992 também será um ano em que as vidas de muitas pessoas estarão ameaçadas.”

Num ano de 13 luas (In einem jahr mit 13 monden, Alemanha, 1978), de Rainer Werner Fassbinder. Com Volker Spengler (Elvira), Ingrid Caven (Zora), Gottfried John (Anton Saitz), Elisabeth Trissenaar (Irene). 

Lola

1957. A jovem e bela Lola é cantora e prostituta em um bordel. Seu amante e protetor é Schuckert, importante construtor da região da Baviera que consegue contratos corrompendo os principais políticos, incluindo o prefeito, frequentador assíduo do cabaré. Esse lucrativo esquema ameaça ser rompido com a chega do honesto Von Bohm para assumir o cargo de Secretário de Obras da cidade. 

Fassbinder, como uma homenagem, faz a releitura do clássico O anjo azul (1930). Após ser ofendida em uma noite por Schuckert, Lola começa um jogo de sedução com Von Bohm, escondendo sua condição. O honesto cidadão se apaixona pela cantora e as reviravoltas da trama incluem a subversão de seus princípios morais e éticos.

O tema do filme é a Alemanha do pós-guerra que busca se reerguer economicamente, tem que reconstruir suas cidades. O bordel é o símbolo político deste tempo, lugar onde todos se vendem, incluindo políticos, empresários, idealistas como o socialista Esslin e os íntegros como Von Bohm. 

Lola (Alemanha, 1981), de Rainer Werner Fassbinder. Com Barbara Sukowa (Lola), Armin Mueller-Stahl (Von Bohm), Mario Adorf (Schuckert), Mathias Fuchs (Esslin).

Lar dos esquecidos

O terror parece ser o gênero da segunda década do século XXI. Basta ver a quantidade de produções que são lançadas nos diversos streamings. Lar dos esquecidos, produção alemã disponível na Netflix, segue as normas do gênero, além de fazer referência explícita ao clássico A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero. 

A narrativa abre com um brutal assassinato: um idoso mata sua cuidadora, massacrando sua cabeça com um cilindro (referência à aterradora cena de Irreversivel). Corta para Ella dirigindo em uma estrada com seus dois filhos. O destino é a sua cidade natal, um povoado com poucos moradores, a maioria deixou a cidade. Restou aos idosos da cidade uma casa de repouso, onde foram praticamente abandonados pelos parentes. 

Na noite do casamento da irmã de Ella, os idosos se revoltam, acometidos por uma espécie de vírus que os torna violentos e sanguinários. Segue-se um massacre na cidade, com os idosos sitiando a casa onde aconteceu a festa. É a noite dos mortos vivos, no caso, idosos abandonados, relegados a uma vida solitária e sem perspectivas em uma casa de repouso decrépita. Terror e crítica social se misturam em Lar dos esquecidos.  

Lar dos esquecidos (Old people, Alemanha, 2022), de Andy Fetscher. Com Melika Foroutan (Ella), Louie Betton (Alex), Paul Fassnacht (Aike), Ott Emil Koch (Noah), Stephan Luca (Lukas), Anna Unterberger (Kim).