Chove dentro e fora de mim
sexta-feira de um janeiro
repentinamente frio
jornais dão conta
de buracos e lama nas estradas
até as plantas
lamentam esta água sem fim.

Madrugada sem alma
entre Bandeira, Pessoa
e uma taça de vinho
relembro janeiros passados
e a mulher que amei.

Chove dentro e fora de mim.

Ela disse, depois de cheirar
meu peito corrompido
– esse perfume não é seu
é o que restou de amar
seios e regaço
de outra que te prendeu
e levou da crença um pedaço.

Farejou como cão bramido
o rastro de seu dono traído
Agora sem paz ela dorme
na certeza da noite sem nome.

Hoje amanheceu para grandes paixões
daquelas que vazam o dia 
e a solidão dos casais
um certo ar molhado em volta
um resíduo estranho de sonho.

(pena, não posso ter essa grande paixão
se ao menos chovesse e a encontrasse na rua)


De qualquer maneira
volto para casa à noite
assisto o jornal, tomo banho
depois durmo
pensando na grande paixão
que seu perdeu no dia.