O tiro saiu do eleitor
e atingiu fundo a nação
agora gente pega em armas
alguns com dedos apontados nas ruas
outros despejam cartuchos em favelas
outro posa de metralhadora
a maioria incrédulos assustados
anda à desvio de balas perdidas
e à noite sente tristeza
por quem decidiu
que a segurança de todos
deve estar debaixo do travesseiro.
Arquivo da categoria: Verso
Apaixonados
beijam à tôa
param pela cidade
em pontos
de namorados
tempo ousado
se conhecem
dentro dos carros.
Casados
beijam de boa noite
flertam pela cidade
com dias passados
tempo usado
se desconhecem
dentro do quarto.
Amantes
beijam roubados
desafiam pela cidade
o perigo e a maldade
tempo louco
descobrem
a vida sem planos.
O que resta ainda para ler?
Anais, Charles, Lawrence
alguns próprios pensamentos
que me assombram a noite
enquanto assisto à vida
espectador em chamas.
Posso discutir literatura,
cinema, futebol
como converso sobre futebol!
são paixões e não se emendam
vivem assim, à flor
só não posso falar de poesia
poesia é estado da alma
e a alma, meu Deus,
onde anda a minha alma?
Um livro de contos policiais
coleção negra, clássicos noir
algo assim como a
mulher de cabelos negros.
Sexta-feira, lua-cheia
em algum canto, alguém morre
em outros cantos, amantes
bêbados, assassinos e prostitutas
Los Angeles, San Francisco, Continental OP.
Só conheço a vida de livros
na varanda, no canto, sozinho
um conto, um gole de cerveja
onde anda a mulher noir?
Percorremos drivein’s e motéis de terceira
fizemos amor no quintal de sua casa
em pé, na varanda, atrás das portas
sob o signo devasso, desvairado.
Vivemos o prazer cruel da infidelidade
a aventura noturna dos bares
bebendo ávidos na madrugada
gotas e gotas da vida.
Havia necessidade violenta
agressiva, fome talvez
havia desejo e juventude
era sempre a última noite.
Namoro uma mulher
que não me beija mais
a mulher que não
me beija mais
não a beijo mais
beijos são assim
quando acabam
não se sabe
quem não beija mais.
Ela se parece
Rita Hayworth
na minha imaginação
cinematográfica
e quando ela vem trabalhar
de cabelos molhados
a imaginação vira
mise-em-scène
pornográfica.
Ainda te vejo morrendo
na balada ionesca do acaso
é como se a enxergasse
estendida na penumbra.
Ainda procuro seus olhos
no espelho da mocidade
ainda beijo seu rosto
naquela cândida madrugada
De onde saiu você
daquelas conchas
que se cata na areia
última página de
romance policial
filme água com açúcar
De onde saiu você
de salada de fruta
cheiro de hortelã
siesta na Espanha
gole de coca-cola
com gelo e limão
De onde saiu você
mulher cheirando a banho
cama com lençol lavado
chuva na vidraça
cerveja na varanda
na hora do pôr-do-sol
De onde saiu você
camelot, atlântida, liliput
e se for do planeta mongo
cheia de poderes para o bem
para o mal, para não me deixar
mais sair de você