Ele vem
pede alguns beijos
umas palavras
que não sou de dizer.
Desisto da vida
deixo de pensar
fico toda
toda ele.
Hoje amanheceu para grandes paixões
daquelas que vazam o dia
e a solidão dos casais
um certo ar molhado em volta
um resíduo estranho de sonho.
(pena, não posso ter essa grande paixão
se ao menos chovesse e a encontrasse na rua)
De qualquer maneira
volto para casa à noite
assisto o jornal, tomo banho
depois durmo
pensando na grande paixão
que seu perdeu no dia.
Adeus, Paris
fico com Maria,
Roberto
ouvindo tiros
e o bater do coração.
Adeus, Rússia
seus dias
abalaram-me
antes mesmo
de conhecer
Ana.
Adeus, Grécia
Itália, Egito
guardo-a
na estante
Elizabeth Taylor.
(despeço-me dos
filmes da minha
aldeia universal.)
Adeus, Áustria
goodbye, so long
farewell
triste, triste
mil vezes triste
quem não gosta
de musical.
Adeus, Casablanca
vai-te avião
mas deixa
Ingrid comigo
para sempre.
Adeus, Shane
é hora de dizer
adeus àquela
criança que
madrugava
em frente à TV.
Caminhamos para distante
como se fosse tão longe
mas tão longe é o caminho do real
que sempre caminhamos nas nuvens
acima do mal.
E tão longe é o caminho do mal
que quase não nos perdemos
apenas nos descobrimos como amantes
nada mais do que humanos
mas algo acima do que homem e mulher
algo além do que além de tudo sonhamos
algo além do notável, procurando o irreal
em uma noite longa
onde vivemos sonhos de poeta
através da lenta progressão do encontro.
Já faz tempo, vagava
perdido a procurar estrelas
como as vagas ondas do mar
em pedras a se arrebentar.
Te lembras?
Olhares discretos
lugares bonitos
poucas noites
para te descobrir
(eu queria apenas um abraço).
Te lembras do toque de meus dedos em seu braço
em seus seios, em seu sexo?
Não lembres do toque de meus lábios nos seus
viva-o eternamente como um beijo eterno apenas
guarda-o naquelas tardes, naquelas noites
no murmúrio de palavras vãs
no medo de tirarmos as roupas pela primeira vez.