Nós que nos amávamos tanto
fomos vencidos pelo
pronome definido
que começa e termina toda frase
forma inalterável de dizer
Eu.
Categoria: Verso
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Dê-nos uma longa e bela madrugada e seremos felizes
dê-nos uma calça desbotada e uma camisa surrada
para que possamos sentir nossos corpos
dê-nos um solo e nós plantaremos
dê-nos uma árvore e nós colheremos
não nos dê amigos, deixe-nos conquistá-los
dê-nos um coração mas não com sentimentos
deixe que eles nasçam com os dias
dê-nos um sonho e nós faremos dele outro sonho
dê-nos asas mas não nos dê liberdade
deixe-nos lutar por ela
dê-nos um corpo mas não nos mostre o caminho
deixe que nossos olhos o apontem
dê-nos um sol nascendo e faremos dele uma esperança
deixe-nos ter esperança para brilharmos como o sol
dê-nos a noite e as estrelas seremos todos
deixe-nos viver e amaremos como um só. -
Paixão
se tivesse forma
seria mar
inquieta
inconstante
ruidosa.Se tivesse nome
paixão rimaria
com tarde insana
de praias
febril, excitante
até se resignar serena
saudosa.Assim a paixão engana
um jogo de formas e nomes
desordenada, envolvente
perigosa
mistura de desejos
traidora
nos joga na aventura
sem hora
do corpo e da alma. -
Duas irmãs tomam sol na praia
uma tem o olhar longe
para o namorado distante
a outra procura pela praia
vê jovens tem sede.Guarde por um momento
esses olhos adolescentes
num piscar serão lembranças
do tempo que desejavam.Voltemos anos depois
lá estão as duas irmãs
aquela com seu marido ao lado
na sombra cuida dos filhos
e tem o mesmo olhar distante.A outra toma sol
o marido se levanta
e os olhos da mulher
olhos com sede adormecida
se voltam para a quietude
do mar sem ondas. -
Os olhos de um poeta
são olhos
vida
admiração
beleza e orgulho
rebeldia contida
e constante amor incontido.
Os olhos de um poeta
são olhos
choram
temem
adoram e cantam
a lua
o sol
o mar e as estrelas.
Seus olhos amam
uma criança ou um cão
um pobre e um velho
que sofrem por viver.
Os olhos de um poeta
brilham
de noite sob a lua
no céu de mil estrelas.
Os olhos de um poeta
que olhos
ardem
cantam
choram
sofrem
amam demais. -
Parece que vou adormecer
embalando a tristeza em seu colo
parece mentira
ando perdido em seus seios
na verdade, estou de novo apaixonado.
Por onde andam aqueles olhos
que na adolescência das paixões
penetravam na puberdade de nossa cama?
O vento a trouxe de volta
e agora ando sonâmbulo na noite
por favor, não me torture
me beija, me dispa, me ame
ou então me faça esquecer.
Já vai? adeus. Quando voltar
me procura na ilusão
verá doces lembranças
de quando andávamos pelos sonhos
procurando por estrelas
em cada olhar apaixonado. -
Seu vestido preto
anda desbotado
gasto de tão desejado
a alvura do que esconde
que decote sutil
envergonhou meu olhar
e esse corte entre as pernas
faz-me sonhar noite e dia
com ele se rasgando inteiro.Agora que já me expôs tanto
dispa-se desse receio tolo
ajudo com o fecho se difícil
prometo-me eterno a você
peça, tudo faço
mas por favor
tira logo esse vestido. -
O tiro saiu do eleitor
e atingiu fundo a nação
agora gente pega em armas
alguns com dedos apontados nas ruas
outros despejam cartuchos em favelas
outro posa de metralhadora
a maioria incrédulos assustados
anda à desvio de balas perdidas
e à noite sente tristeza
por quem decidiu
que a segurança de todos
deve estar debaixo do travesseiro. -
Apaixonados
beijam à tôa
param pela cidade
em pontos
de namorados
tempo ousado
se conhecem
dentro dos carros.Casados
beijam de boa noite
flertam pela cidade
com dias passados
tempo usado
se desconhecem
dentro do quarto.Amantes
beijam roubados
desafiam pela cidade
o perigo e a maldade
tempo louco
descobrem
a vida sem planos. -
Um livro de contos policiais
coleção negra, clássicos noir
algo assim como a
mulher de cabelos negros.Sexta-feira, lua-cheia
em algum canto, alguém morre
em outros cantos, amantes
bêbados, assassinos e prostitutas
Los Angeles, San Francisco, Continental OP.Só conheço a vida de livros
na varanda, no canto, sozinho
um conto, um gole de cerveja
onde anda a mulher noir? -
Percorremos drivein’s e motéis de terceira
fizemos amor no quintal de sua casa
em pé, na varanda, atrás das portas
sob o signo devasso, desvairado.Vivemos o prazer cruel da infidelidade
a aventura noturna dos bares
bebendo ávidos na madrugada
gotas e gotas da vida.Havia necessidade violenta
agressiva, fome talvez
havia desejo e juventude
era sempre a última noite. -
De onde saiu você
daquelas conchas
que se cata na areia
última página de
romance policial
filme água com açúcarDe onde saiu você
de salada de fruta
cheiro de hortelã
siesta na Espanha
gole de coca-cola
com gelo e limãoDe onde saiu você
mulher cheirando a banho
cama com lençol lavado
chuva na vidraça
cerveja na varanda
na hora do pôr-do-solDe onde saiu você
camelot, atlântida, liliput
e se for do planeta mongo
cheia de poderes para o bem
para o mal, para não me deixar
mais sair de você