Nós que nos amávamos tanto
fomos vencidos pelo
pronome definido
que começa e termina toda frase
forma inalterável de dizer
Eu.
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Cuidado com o que fazes
pois em cada esquina, vigilante
te espreita um impostor
soturno, registra seus atos.
Silêncio, resguarda seus sonhos
alimenta-os apenas na dormência
pois podem roubá-los
ou simplesmente matá-los.
Seu perfume ficou em mim
como uma marca, a lembrança
do momento em que seu cheiro
confundiu-se com o suor da tarde
é o que resta
buscar seu perfume
em tardes indistintas da memória.
Dê-nos uma longa e bela madrugada e seremos felizes
dê-nos uma calça desbotada e uma camisa surrada
para que possamos sentir nossos corpos
dê-nos um solo e nós plantaremos
dê-nos uma árvore e nós colheremos
não nos dê amigos, deixe-nos conquistá-los
dê-nos um coração mas não com sentimentos
deixe que eles nasçam com os dias
dê-nos um sonho e nós faremos dele outro sonho
dê-nos asas mas não nos dê liberdade
deixe-nos lutar por ela
dê-nos um corpo mas não nos mostre o caminho
deixe que nossos olhos o apontem
dê-nos um sol nascendo e faremos dele uma esperança
deixe-nos ter esperança para brilharmos como o sol
dê-nos a noite e as estrelas seremos todos
deixe-nos viver e amaremos como um só.
Paixão
se tivesse forma
seria mar
inquieta
inconstante
ruidosa.
Se tivesse nome
paixão rimaria
com tarde insana
de praias
febril, excitante
até se resignar serena
saudosa.
Assim a paixão engana
um jogo de formas e nomes
desordenada, envolvente
perigosa
mistura de desejos
traidora
nos joga na aventura
sem hora
do corpo e da alma.
Amanhã estarei só
num dia sóbrio
sem amantes
sem estrelas
sem o absinto
de Oscar Wilde.
Estarei só
eu só queria amar
mas os sonhos
sempre morrem
ao entorpecer
Duas irmãs tomam sol na praia
uma tem o olhar longe
para o namorado distante
a outra procura pela praia
vê jovens tem sede.
Guarde por um momento
esses olhos adolescentes
num piscar serão lembranças
do tempo que desejavam.
Voltemos anos depois
lá estão as duas irmãs
aquela com seu marido ao lado
na sombra cuida dos filhos
e tem o mesmo olhar distante.
A outra toma sol
o marido se levanta
e os olhos da mulher
olhos com sede adormecida
se voltam para a quietude
do mar sem ondas.
Os olhos de um poeta
são olhos
vida
admiração
beleza e orgulho
rebeldia contida
e constante amor incontido.
Os olhos de um poeta
são olhos
choram
temem
adoram e cantam
a lua
o sol
o mar e as estrelas.
Seus olhos amam
uma criança ou um cão
um pobre e um velho
que sofrem por viver.
Os olhos de um poeta
brilham
de noite sob a lua
no céu de mil estrelas.
Os olhos de um poeta
que olhos
ardem
cantam
choram
sofrem
amam demais.
Parece que vou adormecer
embalando a tristeza em seu colo
parece mentira
ando perdido em seus seios
na verdade, estou de novo apaixonado.
Por onde andam aqueles olhos
que na adolescência das paixões
penetravam na puberdade de nossa cama?
O vento a trouxe de volta
e agora ando sonâmbulo na noite
por favor, não me torture
me beija, me dispa, me ame
ou então me faça esquecer.
Já vai? adeus. Quando voltar
me procura na ilusão
verá doces lembranças
de quando andávamos pelos sonhos
procurando por estrelas
em cada olhar apaixonado.
Seu vestido preto
anda desbotado
gasto de tão desejado
a alvura do que esconde
que decote sutil
envergonhou meu olhar
e esse corte entre as pernas
faz-me sonhar noite e dia
com ele se rasgando inteiro.
Agora que já me expôs tanto
dispa-se desse receio tolo
ajudo com o fecho se difícil
prometo-me eterno a você
peça, tudo faço
mas por favor
tira logo esse vestido.