Zé do Muro

Bate você…. você.” Demorei um pouco a entender os gritos do técnico no meio da confusão de jogadores cercando o juiz na grande área. Batata já estava com a bola nas mãos, próximo à marca do pênalti. Zé do Muro continuava gritando: “Bate você… você.”, o dedo apontando para mim.

Acredito que nenhum dos jogadores do meu time, todos adolescentes entre 13 e 16 anos, sabia o nome depois de José, mas o bairro inteiro conhecia a origem do apelido. A rotina de Zé do Muro era simples: saía de casa por volta das três da tarde, descia a rua até o bar e bebia, com amigos ou sozinho, até o momento em que o dono do bar começava a baixar as portas. Não é difícil imaginar a dificuldade em andar rua acima após essa longa jornada etílica. Ele andava dez ou quinze passos e apoiava o ombro no muro, esperava um pouco, andava mais alguns passos, encostava-se no muro novamente. Virou Zé do Muro.

Zé do Muro só era visto sóbrio duas vezes por semana: na sexta-feira, dia de treino do time de meninos da rua, e no jogo de domingo. As mãos trêmulas segurando o cigarro, gritando enraivecido por erros fundamentais como passes mal trocados. Depois dos treinos, a gente se sentava, Zé do Muro ao centro, a noite tomando conta do campo. Em cinco minutos de preleção, ele versava sobre preceitos que, ensinava, todos deveriam respeitar no futebol. Nunca chute a bola com o bico da chuteira; dribles só têm sentido na direção do gol, o resto é firula, provocação; não existe idiotice maior do que cruzar a bola da intermediária para a grande área, pois os zagueiros estão sempre de frente…

Eram 40 minutos do segundo tempo. O placar, 3 x 2 para o time adversário. Decisão do torneio Bola de Ouro, patrocinado pelo Bar do Careca. O empate levaria o jogo para a prorrogação. Batata já com a bola debaixo do braço. Zé do Muro continuou gritando até deixar claro a ordem: eu fizera os dois gols do meu time e deveria bater o pênalti. Peguei a bola das mãos de Batata.

O morro atrás do gol estava cheio de torcedores: pais, mães, irmãos, parentes, vizinhos – manhãs de domingo de futebol. Respirei fundo, olhar fixo nos olhos do goleiro. Corri e um segundo antes desviei os olhos para a bola.

Naquela noite, caminhei sozinho pelo bairro. Andei por cerca de uma hora, as ruas quase desertas, passando pelos prédios que se erguiam na explosão imobiliária vertical daqueles anos 70. Ao voltar, quando virei a esquina da minha rua, vi um vulto encostado no muro a poucos metros de distância. Decidi atravessar para o outro lado, pensei, no estado em que está ele não vai me ver. Mas Zé do Muro começou a andar em passos acelerados, firmes, em poucos segundos estava na minha frente. Ele despenteou meus cabelos com a mão, sua voz soou clara e forte: “Da próxima vez, olhe firme nos olhos do goleiro.”

A seguir, voltou a caminhar. Quando abri o portão da minha casa, olhei para trás. Quase no fim da rua, iluminado pela luz do poste, Zé encostado no muro. Ele andou mais alguns passos, apoiou o ombro novamente no muro. Assim, de muro em muro até virar a esquina.

Voo noturno

O avião passou em frente a parede de vidro do bar do hotel, em direção a pista de pouso. Era o terceiro avião que Fábio seguia com o olhar, as luzes indicando a aproximação desses fascinantes voos noturnos. Agradeceu ao garçom o copo de uísque, deixou os olhos no reflexo do vidro, agora encontrando a escuridão.

Nas diversas vezes em que viera a Zurique, nunca encontrara tempo para se sentar em uma das mesas do bar, perto da janela de onde se vê o aeroporto. Lembrou-se dos tempos de menino. O tio morava próximo ao aeroporto da Pampulha. Quando a família de Fábio visitava o tio, o menino rapidamente dava um jeito de fugir daquelas conversas de sofá, atravessava a rua, empilhava cinco ou seis tijolos ao lado do muro do aeroporto e esperava, pescoço pouco acima do muro, um avião pousar. Se fosse corajoso, colocaria mais alguns tijolos na pilha, com um pequeno esforço conseguiria subir e sentar-se no alto do muro, as pernas caídas do lado de dentro enquanto os aviões desfilavam em frente, a pista ao alcance de algumas poucas passadas.

Mas Fábio era menino medroso. Imaginava um guarda gordo, grosso bigode cobrindo a boca, o cassetete pendurado no cinto chegando quase até o chão, quepe enterrado na cabeça. O guarda chegava debaixo do muro, agarrava suas pernas e o puxava para o lado de dentro, jogando-o ao chão. Deitado na terra, ele sentia o pé do guarda em seu peito, o cassetete batendo de leve na sua face, o brilho sádico no olhar do policial.

Fábio girava o copo de uísque, o líquido dando voltas nas laterais. Depois de tantos anos, tantos voos, não sabia bem porque estava agora olhando de novo aviões a pousar. Olhou o relógio, ainda tinha cerca de uma hora antes de sair para o aeroporto.

Adriana chegou cheirando a banho, os longos cabelos molhados, o tom fresco do ar da noite estampado em suas faces. Deixou a chave do quarto em cima da mesa. Outro avião cortou o silêncio que se interpôs naquela troca de olhares. “Você não pode ficar mais um ou dois dias?”, ela  perguntou.

Eles se conheceram três dias atrás. Adriana estava sentada na amurada às margens do rio, um livro nas pernas, o corpo ligeiramente curvado, uma jaqueta jeans a protegendo do vento da tarde. Às vezes ela ajeitava os cabelos atrás da orelha, tentando evitar que eles atrapalhassem sua leitura.

Já fazia cerca de cinco minutos que Fábio a observava – uma quase menina perto dele, sentado no banco do jardim poucos metros adiante. Adriana levantou os olhos na direção de Fábio e deixou-os assim, um flerte longo, curioso, como se olhasse para um rosto há muito tempo querido. Ela levantou-se, caminhou em direção ao estranho que a encarava tão sem cerimônia e ao mesmo tempo tão meigo, sentou-se a seu lado no banco, deitou o rosto no ombro de Fábio e continuou a leitura.

“Não, não posso ficar. Tenho mil coisas para fazer no Brasil, devo voltar em três ou quatro meses, depende dos negócios. Até lá seu curso já acabou. Você vai ficar bem?”, respondeu Fábio, voltando a girar o uísque no copo. “Porque você não fica mais uma noite. Nós voltamos para o quarto…” “Não posso. Tenho negócios a resolver, minha …. Não me olhe assim…”

Fábio tirou os braços de Adriana com calma de seu pescoço. Fazia mais de uma hora que estava acordado, controlando a respiração como se embalasse o sono da jovem deitada em seu dorso. Resolveu se levantar. À medida que deslizava para o lado, substituiu seu corpo pelo travesseiro, pousando a cabeça dela suavemente, sem acordá-la.  Sentou-se na escrivaninha em frente à cama.

A meia luz do quarto era suficiente. Ligou o computador pensando em preencher os relatórios que deveria encaminhar para a empresa. Precisava de uma desculpa para justificar o atraso de um dia, não só na empresa. Enquanto o windows rodava na tela negra do notebook, deixou os olhos no espelho em frente, presos na imagem nua de Adriana na cama. Ela estava de bruços, abraçada com o travesseiro, o corpo resplandecendo de juventude, uma perna ligeiramente dobrada, a outra esticada, a imagem de menina impregnando o quarto de desejo. “Em que você está pensando?” Fábio não havia percebido os olhos semicerrados de Adriana. “Aposto que está pensando em mim, com tesão.”

Ele ficou um longo tempo olhando, percorrendo seu corpo, até que ela pegou novamente no sono, os braços apertados no travesseiro, as costas arfando lentamente. Não. Não pensava em você. Pensava no menino empilhando tijolos até dar conta de esticar o pescoço por cima do muro. Ele desce, pega mais três ou quatro tijolos, consegue apoiar as palmas das mãos no muro e com um pequeno impulso passa uma das pernas, depois outra e, cansado, as mãos um pouco arranhadas, senta-se no alto, as duas pernas para o lado de dentro do muro. O menino espera um bom tempo até um avião apontar no horizonte, refletindo o sol do final de tarde. O avião passa bem em frente a ele, pousando com leveza na pista.

O sol começa a desaparecer, deixando a tarde avermelhada. O menino espera outro avião, talvez apareça um guarda gordo, de grossos bigodes, o longo cassetete pendurado no cinto, e o puxe pelas pernas. Talvez.

Entre parafusos e engrenagens

O motorista do guincho abriu o capô do carro, mexeu em pontos incompreensíveis para mim e deu aquele suspiro de entendido.

– É o cabo. Tá solto, coisa simples…  acho que não precisa rebocar, é só apertar, assim…. apertar bem…. vamos ver se pega, vai lá, liga o carro.

– O carburador tá sujo. Carros de dupla carburação são mais complicados. Tem que andar tudo reguladinho, tem que tá sempre conferindo, desregula um, depois o outro. – debruçado no motor, o pai levantava a cabeça de vez em quando para explicar. As mãos sujas de óleo, o suor escorrendo pelo rosto.

Eu podia ouvir a conversa dos meninos na rua. Era início de noite, depois do jantar iam chegando aos poucos, a aglomeração acontecia sempre na porta de minha casa. A rampa da garagem era um bom lugar para sentar, a casa ficava no centro do quarteirão, local estratégico.

– Liga o carro, vai lá, vamos ver se aprende. – o pai me ajudou a sentar no banco, meus pés quase não chegavam aos pedais.

– Senta mais na beirada… isso. Agora vira a chave devagar até ouvir o barulho da ignição, assim, assim…. não, solta, solta a chave. – olhei assustado para o pai, certo de ter feito alguma coisa errada. Ele passou a mão na minha cabeça.

– De novo, quando você ouvir o barulho do motor dá uma pequena acelerada, com calma, é fácil, tá vendo? é simples. – ouvi maravilhado o carro funcionando. O pai deixou que eu ficasse um tempo, com a ponta dos pés apertei o acelerador, o barulho aumentou, aumentou, invadiu a garagem.

– Agora vem cá, deixa o carro ligado. – voltamos para a traseira do carro, o motor trepidando. – Tá vendo aqui, olha só, você mexe e o carro acelera. Como são dois carburadores… . – ele continuava a explicar, esquecido do tempo. Quando seu rosto quase sumia perto do motor, meus olhos se desviavam para o portão da garagem. Meus ouvidos divididos entre o barulho do motor e a algazarra dos meninos.

– Tá vendo este cabo?, ele costuma soltar, se algum dia o carro morrer com você na rua, dá uma olhada, costuma ser muito simples, só apertar um pouco, pega aquela chave pra mim.  – ele esperou alguns segundo, percebeu que eu não tinha ouvido, descobriu meus olhos na rua. O pai limpou as mãos em um pedaço de estopa, passou um pano pelo suor do rosto. Abriu o portão da garagem e fez um gesto com as mãos.

Saí para a rua, o ar livre da noite, os meninos já organizados para brincadeiras. O pai ficou um tempo parado, sorriso nos lábios, depois fechou o portão e voltou para seu motor, sozinho, perdido entre ferramentas, parafusos e engrenagens.

Sentado no banco, ouvi o barulho do motor funcionando. Apertei o acelerador devagar, depois um pouco mais fundo, mais fundo, o barulho aumentando. O motorista do guincho levantou a cabeça e fez um gesto como quem diz, já está bom. Ele fechou o capô do carro. Passava da meia-noite, o celular tocou, minha mulher perguntando se já resolvera.

– Já. Coisa simples, só um cabo que soltou.

A partilha

Os livros estavam espalhados no chão da sala. O sol anunciava uma clara manhã de domingo, a primavera despejando seus cheiros naquela casa banhada de flores. As flores de minha mãe.

Eu perdera no par ou ímpar e a irmã ganhara a oportunidade de escolher primeiro. Olhei para meu livro favorito, mas desviei os olhos com medo de me trair. Com ar de vencedora, ela escolheu As sandálias do pescador. Respirei aliviado.

– Sua vez. – disse a irmã, olhando para O morro dos ventos uivantes. Peguei o livro.

– Vamos fazer diferente. Eu escolho mais um agora e você escolhe dois depois.

Ela concordou. Peguei rapidamente O bosque das ilusões perdidas. A seguir, ela separou para o seu canto Como era verde meu vale. Sorriu ao notar o meu olhar angustiado.

Quando começamos a trabalhar, ainda adolescentes, fizemos um pacto, cada um compraria um livro por mês, formando uma biblioteca única. Era a forma de valorizar nosso pouco salário para fazer aquilo de que gostamos tanto: ler. Dependendo do mês, dava para comprar mais de dois livros. Combinamos, “quando um de nós sair de casa, dividimos a biblioteca”.

Ela pegou o segundo livro, O caso dos dez negrinhos. Terminada a divisão, a irmã me ajudou a empacotar os livros. Descobrimos que não eram tantos assim, pouco mais de uma dúzia foi o que me coube na partilha.

Dias depois, ao arrumar os livros em minha nova casa, no fundo da caixa encontrei Como era verde meu vale. Foi o primeiro livro que coloquei na estante, a lombada verde soltando a cola, revelando o uso descuidado de jovens leitores. Um a um os livros foram encontrando seu lugar no canto do móvel. E até hoje, tantos anos, tantas mudanças depois, o verdadeiro lugar destes livros é na casa dos meus pais, na casa dos meus irmãos.

Algum lugar do passado

Venha ver a vista do final de tarde. Os carros cruzam as ruas, alguns com faróis acesos, outros insistem na última luz do dia. Bando de pássaros voa em sincronia logo abaixo da janela.

Lembro-me de nossa vista do quarto de hotel. O calor daquelas tardes de abril nos deixava sonolentos, entregues ao prazer do ar condicionado, da cama despretensiosa, do roçar de pernas sem desejo. O cheiro gostoso do seu corpo recendendo a sol. Entregues à tarde, ao nada, à sensação de nos deixarmos. No final da tarde, sentados na varanda do quarto, o sol escondido atrás do hotel refletia uma luz morna nas águas do mar, a maré alta batendo no arrimo de concreto, quase ao alcance dos nossos pés. Nossos olhos entregues.

Os pássaros não voam mais. Devem estar no ninho. Existem três grandes árvores frondosas no lote vizinho. Decerto estão ali, penas encolhidas, asas protegendo o corpo como um abraço próprio, se preparando para a noite longa, incerta.

Você gosta de caminhar entre árvores no final da tarde. Entre pés de fruta. Entre roseiras. Os pés com vontade de pisar descalços na grama, mas receosos de pequenas picadas. Às vezes, você estica um pouco o pescoço, chega o nariz perto dos ramos da vegetação. Dama da noite. Tardes no sítio. O pai acorda da sesta. As mãos cruzadas nas costas, anda calmo pelo quintal, a vistoriar laranjas, mangas, flores de jabuticabeiras, folhas de alface na horta. Os cachorros andam ao lado, despencam em uma correria por nada. É hora de dar milho às galinhas. Ele conversa com elas, a cada uma um nome.

Depois, bem à tardinha, o sol se escondendo no morro, ele pega o equipamento de matar formigas. Vai caçar a praga que destrói folhas, flores, devorando num ritmo eterno o trabalho do dia. Você vai atrás, indica a entrada dos formigueiros. O pai coloca o tubo no buraco, bombeia formicida dentro. Mais à frente, outro buraco, mais outro, a noite derrama sua luz fraca. Os olhos do pai desistem da busca, já não enxergam. Talvez uma lanterna, você sugere. Vamos deixar para amanhã, tenho todo o tempo, as formigas também. Diz o pai e senta-se ao meu lado na varanda. A mãe já está sentada, esperando a novela das seis. Entre uma conversa e outra, entre um silêncio e outro, a noite chega com o misterioso som dos noturnos. A mãe repete a frase de todos os dias, é tão gostoso dormir com o barulho dos sapos, acordar com o galo cantando. Os olhos descansam em um ponto qualquer da escuridão.

Todos os carros já estão com faróis acesos. Não podem mais com a penumbra, com as sombras da noite que levam meus olhos para algum lugar do passado.

Cortejo de amigos

Foi a madrugada mais fria do ano. Perto de 15 graus, edredons e cobertores saíram dos armários. A cama ficou mais aconchegante pela manhã. Cai uma chuva fina, o tempo incerto entre o outono e o inverno.

Gosto de lentidão pela manhã. Tomar banho quente pensando em coisas por fazer, outras já feitas. Nos meus tempos de agência de propaganda, gastava água e conta de luz em busca de ideias debaixo do chuveiro – cantores de terceira, poetas e redatores publicitários são ameaça ecológica. É bom preparar o café, me sentar à mesa com a xícara fumegante, sem pressa, tomando goles folheando uma revista, o jornal do dia. Às vezes, essa lentidão da manhã fria traz lembranças.

No rádio toca O rancho da goiabada, de Aldir Blanc e João Bosco. Pela segunda vez, presto atenção quase religiosa nesta música. A primeira foi no final da década de 70, no enterro de Zé Carlos, amigo de infância.

Ele morreu afogado em Guarapari, antes de completar 20 anos. As lembranças dele são esparsas: moreno, pequeno bigode teimando em não crescer, cabelos curtos, gosto refinado por samba. Era daqueles que puxavam a canção em rodas de violão, de bem com a vida, a voz desafinada sobressaindo.

Nossa turma ia chegando aos poucos no começo da noite, saindo do trabalho, da escola.  O ponto era o bar da rua, mesas na calçada. As conversas, comuns: futebol, estudos, trabalho, política, até a bebida começar os efeitos e alguém aparecer com o violão. Zé Carlos sempre dava jeito de puxar a música do João Bosco e Aldir Blanc. Ele começava cantando baixinho, acompanhando o ritmo do violão, olhos baixos, bebericando a cerveja nos intervalos, esperando a hora para soltar a voz: “e a sobremesa é goiabada cascão, com muito queijo depois café, cigarro e um beijo de uma mulata chamada Leonor ou DAGMAR….” Pelo tom de voz, a alegria represada, quase um grito, fiquei com a impressão de alguma Dagmar na vida do amigo. Talvez mulher casada, sonho de muito adolescente.

No enterro de Zé Carlos, enquanto acompanhamos o caixão pelas alamedas do cemitério, uma voz tímida começou a cantar O rancho da goiabada. Os amigos foram aderindo até se transformar em coro alto, triste, ecoando no vazio do Cemitério da Colina.

A música e o cortejo ficaram gravados na minha memória. Indissociáveis. A primeira lembrança triste da adolescência, como uma despedida daqueles dias felizes.

Hoje, nessa manhã fria de outono, acho a música mais bonita. Aumento um pouco o rádio, presto atenção, guardo trechos da letra na bela interpretação do Quarteto em Cy. Acabo de tomar o café, me preparo para sair, penso no trabalho que tenho pela frente. Aos poucos esqueço a música, me concentro em coisas mais presentes. Como tantas e tantas lembranças, O rancho da goiabada está guardada em uma pequena rua de bairro.

Conversa de adultos

Gabriela saiu da piscina e sentou-se no chão, de frente para a mãe.

– Você está triste, mãe. – a mãe tirou os óculos escuros.

– Por que você diz isso?

– Dá para notar. Não precisa nem prestar muita atenção.

– Deve ser o dia. Domingo costuma ser monótono, sem nada para fazer, todo final de semana neste sítio. A mesma vista, as mesmas pessoas, tanta gente aqui sem ter o que fazer, com vontade de fazer coisas que não pode. Acho que estou um pouco cheia, só isso.  – ela surpreendeu-se de desabafar com a filha assim.

– Não estou falando só de hoje. Estou falando de todos os dias. – a mãe ficou alguns segundos sem saber, levantou-se, caminhou até perto da grade do deck. O sol começava a se aproximar da montanha, batendo quase de frente em seus olhos, derramando uma luz clara na paisagem verde, deixando árvores, matas e caminhos com uma cor estourada, quase indistinguível.  Debruçou-se na sacada e ouviu a voz de Gabriela, bem perto de seu ouvido. Voz baixa, tranqüila e segura, como se falasse de um segredo, mas sem medo de revelar segredos.

– Papai já sabe que você está apaixonada por outro homem?

– Enlouqueceu, menina.

– Deixa disso, mãe. Escutei você no telefone outro dia. – ela pensou em negar, um jeito de virar o jogo. Olhou por alguns segundos para a filha, ela permanecia tranquila, os olhos esperando. – E então. Papai já sabe?

– Não. Acho que ele não percebeu nada. Ele fica dia e noite no trabalho, eu também, a gente nem tem tempo para desconfiar dessas coisas. – não sentiu medo nem pesar por ter se revelado tão naturalmente para a filha, apenas surpresa consigo mesma. Pegou-a pela mão e levou-a de volta para as cadeiras ao lado da piscina. Por fim, sentou-se e afundou a cabeça entre os joelhos, como se desse conta do que acontecera. Sentiu a mão de Gabriela em seus cabelos. Levantou o rosto.  – Coisa feia, escutar conversa dos outros.

– Eu sei. Desculpa mãe, foi sem querer. É sério? vocês estão juntos há muito tempo? ouvi você dizer te amo.

– É. É sério. Acho que pela primeira vez na vida estou amando de verdade. Não que eu não tenha amado seu pai. É um amor diferente, com paixão. Como se, como se…. ah, não sei.

– E você quer ficar com ele.

– Quero. É a coisa que eu mais quero na vida.

– Porque você não conversa com o papai. Talvez ele entenda. – a mãe olhou com carinho a filha, os cabelos loiros, olhos azuis, “Deus, como ela cresceu”.

– Não posso. Nós temos você, eu não posso fazer isso com você.

– Pera aí, mãe. Eu não tenho nada a ver com isso. É uma história entre você, papai e o seu …. o seu….o seu namorado.

– Mas Gabriela, você não entende.

– Acho que quem não está entendendo é você. Daqui a pouco eu saio de casa, vou viver a minha vida e você vai ficar aqui. Você e o papai. Pelo jeito, infelizes.

– Não é tão simples ….

– Na verdade é simples. Você não ama o papai. Acho que o papai também não ama você mais. Ficam aí, apegados a essas coisas materiais, dizendo com orgulho de tudo que construíram juntos. Agora você está apaixonada, está tendo um caso. Se fosse um caso passageiro, vá lá. Mas não. Parece que não. Você acabou de dizer que quer ficar com ele mais do que tudo na vida. Está triste, deprimida, sofrendo. E diz que vai sacrificar a sua vida por mim. Eu não peço isto. Filho nenhum pede isto. Vocês é que decidem assim. Vivem dizendo, “vocês são a minha vida”, e tem aquela conversa fiada, aquela chantagem barata: “dediquei a minha vida por você, fiquei noites sem dormir, deixei de fazer tudo que queria”. Não vem com essa que eu não quero carregar este peso. Se você sacrificar alguma coisa é problema seu. Convenhamos, né mãe. Vocês complicam tanto a vida.

– Mas eu vou separar você e seu pai ….

– Ah, não vai. Mas não vai mesmo. Eu adoro o papai. Vou continuar convivendo com ele. Eu tenho amigos de pais separados, você sabe. Eles vivem do mesmo jeito. Ninguém morre, ninguém mata. Uns carregam lá os seus problemas, mas… os pais tão aí, cuidando da vida, dos filhos, trabalhando, vivendo. Acho que vai ser até legal ter duas casas, conhecer seu namorado, a namorada do papai. É a vida, mãe.

Um estremecimento tomou conta do corpo de Gabriela. Ela encolheu os braços. O sol acabara de se esconder atrás da montanha.

– Você vai se resfriar minha filha. Vem cá, deixa eu enxugar você. – ela pegou a toalha e envolveu-a toda, passando a toalha pelos cabelos molhados da filha. – Tem certeza que você vai ficar bem?

– Mãe, eu já estou crescidinha. Por falar nisto. Mês que vem é meu aniversário. Já comprou o meu presente?

– Não sei, o que você quer?

– Humm. Tava pensando numa mobilete.

– Mobilete?

– É. Aquela moto pequena que o Arthurzinho tem.

– Ah, não. É muito perigoso. Você ainda não tem idade.

– Mãe. Eu já vou fazer doze anos. Dá para deixar esse negócio de menininha de lado?

Velhos discos de vinil

Ângela levou o copo de vinho aos lábios sem tirar os olhos dos meus. Três horas depois, o corpo dela repousava no meu. Naquela tarde, uma chuva serena esfriara de vez o tempo em Maringá. A neblina encobrira a serra, da janela da casa se viam nuvens baixas passando como fumaça entre as araucárias da serra. Na pousada em frente, um ou outro casal aparecia na varanda por alguns minutos, como a maldizer o tempo que acaba com finais de semana românticos, casos eventuais, passeios aventureiros ou coisa parecida que a paisagem inspira. Aventuras na serra e amores selvagens não combinam com este frio impiedoso.

Há mais de dez minutos eu estava na janela, pensando no telefonema de poucos minutos atrás.

– Meu amor, não posso subir hoje. Dois médicos adoeceram ao mesmo tempo e me escalaram de última hora para o plantão desta noite. Você sabe… início de feriado, estes idiotas morrendo sem parar nas estradas…

Há cerca de dois meses, Cláudia e eu alugamos uma casa na serra para finais de semana. Todos os amigos alertaram da praticidade de ficar em pousadas, ao invés de pagar aluguel, além dos consertos que todas as casas necessitam.

– Vamos ter trabalho, tem certeza que a gente tem disposição para pegar a Dutra todo final de semana? –  Cláudia respondeu que seria como uma aventura, um desafio. Só não teve coragem de completar que talvez fosse a última tentativa para aquele casamento que insistia em sobreviver sem romantismo, o sexo se limitando aos domingos de manhã.

Ela prometera descansar um pouco após o plantão e subir logo depois do almoço.

– Juízo, heim!!! – alerta desnecessário para um homem que não entendia mais o significado de determinados olhares que trocava com uma ou outra mulher.

À tardinha, tomei a decisão sem sentido, com aquela chuva fina, de caminhar pelas ruas da vila. Desisti logo que desci do carro e o vento jogou a garoa fria no meu rosto. Estava em frente a um bar que sempre me atraíra. O proprietário decorara a fachada com discos de vinil, dentro, só tocavam velhos LPs, aquele som chiado tomando conta do ambiente.

Pedi um vinho. O bar estava vazio, com apenas três ou quatro casais mais velhos. Ouvi uma risada alta às minhas costas. Os casais à minha frente olharam em direção à mesa, reprovadores, revelando a imperdoável interrupção do ensimesmar. Despejei um pouco mais de vinho no copo, a vontade incontrolável de me virar e também acusar, dizer do absurdo de naquela noite fria, solitária e sem esperança, alguém rir daquela maneira.

Na segunda risada, ainda mais alta, me voltei em um impulso para a mesa imediatamente atrás da minha, onde três mulheres conversavam. Ângela sentiu de imediato a ferocidade do meu gesto e abaixou os olhos. Por poucos segundos. Passou os dedos pela borda do copo, os lábios se contraíram em um leve sorriso e voltou a levantar os olhos em direção aos meus. Ficamos assim um tempo. Ela se levantou, caminhou até a minha mesa e se sentou à minha frente, sem sequer pedir licença. Um gesto impulsivo, instinto natural de quem sabe que estes olhares não podem se transformar, na manhã seguinte, no arrependimento do que não aconteceu.

Ângela, de rosto anguloso, emoldurado por cabelos castanhos levemente cacheados que caíam até os ombros. Seus olhos amendoados deixavam a sensação de chuva mais evidente, seus dedos finos e longos envolviam o copo de vinho com delicadeza, com a suavidade de alguém que trabalha com carinho nas mãos, talvez uma paisagista, arquiteta, quem sabe artista plástica. Conversamos pouco, Ângela fez a proposta sem rodeios.

Não sei. Hoje, tantos anos depois, envelhecendo ao lado de Cláudia, minhas lembranças daquela noite são as lembranças do olhar. Ângela debruçada em meu peito após o amor, lembrança indelével, como as araucárias embranquecidas pelo inverno rigoroso da serra.

Tiros na noite

A mãe deixou a panela cair. O coração disparou, barulho de metal repicando no piso da cozinha sempre a irritava. Conseguiu prender a panela com o pé, parando aquele som que entrava fundo em seus ouvidos. Respirou fundo, abaixou-se lentamente, uma das mãos nas costas, pouco acima das nádegas, a outra recolhendo o utensílio barulhento. Jogou a panela na pia. Meu Deus! mais barulho. Viúva, morava sozinha, na sua rotina, uma cachorra poodle, conversa matinal com as vizinhas, caminhada pelo quarteirão, cochilo depois do almoço, a novela das seis… das sete. Até que a filha e a neta vieram morar junto. Ih, ela acordou! Foi ao quarto da neta, encostou o ouvido na porta. Abriu devagar, descalçou os chinelos, andou lentamente até perto da cama. Dormia. Juro que ouvi um choro. Esses barulhos, sei não, essas coisas da noite. Denise na rua até essa hora. Fechou a porta do quarto, caminhou até a sala. Conferiu se as janelas estavam fechadas, a porta. Foi quando a mãe ouviu o tiro.

Roberto, o ex-marido, contou à polícia que naquela noite ele e Denise tinham finalmente feito as pazes. Comeram pizza se lembrando de velhos tempos. Ele não bebera. Nunca bebo quando estou dirigindo. Na saída, chamei Denise para um motel. É tarde, me leve para casa. A nossa? Não. A casa da mamãe, Dani pode acordar, a mãe não tem mais idade para levantar de noite. No carro, ela deitou o rosto em meu ombro, apertou a minha mão. Foi o que disse.

Paramos no portão da casa da sogra. Uma hora da manhã, a rua deserta. A luz do poste estava queimada. Denise me abraçou, beijou minha boca, assim, beijo mesmo, com saudade, com… Isso entra no depoimento? Ouvi uma batida no vidro do carro, na janela do lado de Denise. Um rapaz com revólver. Apontou a arma. Ele bateu de novo, pensei que fosse quebrar o vidro. Fez sinal para abaixar a janela. Obedeci,  você sabe, a arma na nossa cara. Ele me mandou descer. Eu não sabia o que fazer, fiz gesto de abrir a porta, Denise gritou assustada, fez um movimento descontrolado em minha direção. Foi quando escutei o tiro.

Denise casara-se cedo, aos dezenove. Levava vida de dona-de-casa: filha, casa, marido bem de vida. Com o tempo, perdeu o encanto, o desejo. Quando soube das noitadas do marido, não se importou. Deixou o tempo passar, a filha crescendo. Um dia, como acontece com poucas mulheres que vivem para o lar, acordou. Mudou-se para a casa da mãe, arrumou emprego. Entusiasmou-se. Roberto não. Passou a persegui-la, exigindo a volta. Ele  freqüentava a casa para ver a filha. Ficava até mais tarde, a mãe ressabiada, esse volta não volta, minha liberdade foi embora, nessa idade tomando conta de menina.

O advogado entrou com os papéis. Agora não tem volta. Roberto: tem. Ou você não fica com nada, não põe a mão em um centavo meu. E tem mais, se te pego com outro, é tiro. Denise não levou a sério, conversa fiada, pensou.

Na noite em que voltavam para casa – ideia dele sair para conversar, só comer uma pizza e conversar – Roberto tinha semblante calmo, feliz. Na saída da pizzaria, tentou beijá-la. Ela recusou. Vamos para um motel. Ela recusou. No caminho de casa, pensava na filha, fazia planos, os olhos vendo as ruas, as luzes da cidade. Na porta da casa da mãe, ele parou o carro debaixo do poste. Denise observou a luz queimada, a rua na penumbra. Sem lua, sem luz, o farol do carro apagado.

Assustou-se com barulho no vidro. Um rapaz com arma na mão. Antes dele bater de novo, o vidro desceu lentamente. Ela olhou assustada para Roberto. Ele já estava com a perna para fora do carro. Roberto afastou-se lentamente do carro. Foi quando Denise escutou o tiro.

A menina dos olhos distantes

O vento entrou pela janela aliviando por segundos a temperatura deste setembro quente como há muito não se vê. A sensação térmica parece grudar o ar da noite em minha pele para sempre, como manchas de sol que não se vão. Há um segundo motivo que me prende agora em frente à janela, tentando sentir uma brisa sequer. Ontem à noite, voltando da farmácia do bairro, a lua cheia surpreendeu, despontando acima dos prédios. Imaginei esta vista da sala de jantar de meu apartamento, onde tenho o hábito de me sentar para escrever ou navegar pela internet.

“Tem certeza que teremos lua cheia novamente? Este vento está congelando.”, disse Anne.

Há quase uma hora estávamos sentados em frente ao mar, um pequeno grupo de adolescentes espalhados pela areia, olhos presos na escuridão e na espuma branca das ondas. Eu tinha visto a lua nascer atrás das dunas na noite anterior e chamei o pequeno grupo de amigos para assistir ao espetáculo na praia. Caminhamos cerca de vinte minutos e, quase aos pés das ondas, esperamos. Ficamos cerca de uma hora ali, o vento frio de julho cortando, levantando com agressividade os cabelos de Anne. Ela debruçou o corpo sobre os joelhos, tentando frear o movimento do vento. Seus olhos parados na areia, o dedo riscando imagens sem sentido.

Foi nesta mesma posição que a vi pela primeira vez, sentada à minha frente na praia quase deserta de Tucuns, três dias antes, naquela manhã de 1981. Um cachorro pequinês correu em direção a ela. Anne se levantou, jogou os longos cabelos pretos para trás, chegavam quase à cintura de um corpo magro, sem contornos definidos. Era ainda uma menina em formação, a ingenuidade transparecendo no seu jeito de correr em direção à água, nos seus olhos sempre distantes.

Não lembro mais se paixões adolescentes nascem assim, de imediato. Podem ser questões científicas de hormônios, mas prefiro pensar em manhãs à beira-mar, em uma linda menina brincando com seu cachorro, na lua surgindo vermelha, o rastro iluminando o mar, dedos se entrelaçando, roçar de braços, a cabeça caída em meu ombro à medida que a lua deixava às águas e ocupava seu espaço imponente.

Escrevo hoje, contemplando outra lua cheia, pensando em Anne. A menina que brincava com dedos na areia e trocou seu primeiro beijo ao luar, como deveriam ser todos os primeiros beijos.