Categoria: Prosa

  • O velho na porta do quarto

    Abri os olhos na escuridão da madrugada. Em frente à porta, estas portas de duas bandas dos quartos de casas do interior, estava sentado um velho. Cabelos brancos cortados rentes, roupas cinzas, grossas, sujas, como se acabasse de voltar do trabalho da roça. Estava sentado em um tamborete, baforando seu cachimbo negro, enchendo de fumaça e medo o quarto. A escuridão era total, mas o velho estava ali, na minha frente, como se iluminado por uma luz fraca, recortando-o do negrume do quarto.

    Fechei os olhos, escondi a cabeça debaixo do cobertor. É um sonho, o resto do sonho. Impossível. Era tão real que eu poderia tocá-lo se tivesse coragem para me levantar. Mesmo debaixo do cobertor, que me sufocava cada vez mais, eu podia sentir o cheiro do cachimbo, da fumaça asfixiante entrando pelas frestas da cama. Esperei alguns minutos sem pensar em nada mais a não ser o velho na porta do quarto.

    Coragem. Sou apenas um menino, é hora de mostrar coragem. Para quem? Estou sozinho nesse quarto escuro. Mãe!… Porque esses tios do interior colocam janelas e portas de madeira tão densas, tão perfeitas em seu fechamento que não permitem entrar sequer a luz do poste da rua, tão fechadas em si mesmas que nem a lua cheia dessas noites de inverno consegue deixar um ponto de luz que seja no chão do quarto.

    Coragem. Abaixei devagar o cobertor, tentei acostumar os olhos à densa escuridão olhando primeiro para o teto. Deixei o cobertor na altura do queixo, levantei a cabeça na direção da porta. Respirei fundo, pensei em coisas boas: beijo de mãe, brincar de tico-tico-fuzilado depois da chuva, pegar o boletim na escola com média azul em matemática, dar voltas na praça em sentido contrário à menina que eu tinha certeza amaria por toda a vida. Abri os olhos. A fumaça asfixiante, o velho calmo, bonito, agora vejo, bonito como um avô, continuava sentado na porta do quarto. Imóvel, olhos fixos em mim como se nada mais pudesse fazer. A beleza daquela visão não afastou o medo. Medo cada vez maior. Vontade de gritar, chamar pela mãe dormindo no quarto ao lado, mas só consegui me enrolar debaixo do cobertor.

    Não sei quanto tempo fiquei assim, quanto tempo suportei a falta de ar debaixo daquelas vestes grossas, pesadas, cheirando a guarda-roupa. Não sei se dormi e acordei, dormi e acordei; perdi aos poucos a noção do tempo, das coisas, dos pensamentos, desejava o amanhecer.

    Ouvi o barulho das pesadas janelas de madeira se abrindo. A mãe puxou o cobertor, estranhando aquele exagero todo. “Fez frio essa noite, heim!”. Sim. Frio, medo. Depois o calor debaixo da coberta, o cheiro do fumo, do suor daquele velho, aquele velho sentado ali na porta. As portas do quarto estavam abertas, cada banda encostada em uma parede. A mãe dobrou cuidadosamente a roupa de cama. As janelas deixavam entrar a luz do sol. Toda janela agora tem que estar aberta, entro por ambientes abrindo cortinas, persianas, janelas, abrindo janelas.

    Nunca mais vi o velho da porta do quarto. Às vezes, vejo coisas tenebrosas em meus sonhos e quando abro os olhos o resto me envolve. Fecho os olhos e espero que a imagem desapareça até ficar apenas o medo do que foi, do que pode vir dessas noites incompreensíveis.

  • Natália

    O velho homem acordou com o grito: “Natália”. Abriu os olhos e tentou virar a cabeça para um lado, para o outro, percorrer o quarto em busca de alguém. Alguma coisa prendia seu pescoço, ele podia sentir os tubos enfiados em sua boca e só conseguiu olhar para o alto. Revirou os olhos e vislumbrou as cortinas, mesmo com a visão embaçada pode perceber a cor encardida e gasta do tecido branco.

    – Bom dia Seu Cláudio. Como está passando hoje Seu Tarcísio. É só uma picadinha Seu Antônio… – ouvindo a enfermeira, compreendeu onde estava. De olhos abertos, fitando o teto, esperou ouvir uma voz conhecida, a mão amiga apertar sua mão num gesto de consolo e tristeza. Mas a única presença foi da enfermeira. Ela desembrulhou alguns equipamentos e remédios, disse algumas palavras de carinho enquanto media a pressão, regulava o soro, aplicava injeção, o ritual lento e doloroso de tentar infundir-lhe esperança. Ele voltou a adormecer.

    O frio da tarde do litoral paulista afastou todas as pessoas da orla naquele dia. O dia amanhecera claro, iluminado, depois de três dias de chuva fina e fria. No entanto, o mar estava naquela incompreensível revolta. A ressaca levava as ondas até a parede do calçadão, a água batendo com fúria, espirrando nos poucos curiosos que venciam o medo para ver este espetáculo da natureza, o perigo rondando a explosão de água e espuma, como se mais hora menos hora o mar fosse tomar conta da rua.

    Ele não podia perder. Passou o dia andando pela cidade, indo de uma praia a outra. No fim da praia central, a rua subia por uma colina, local dos apartamentos dos mais ricos. A vista dos últimos andares deve ser esplendorosa, pensou enquanto andava em direção ao topo da colina, onde a rua fazia a curva e começava a descer em direção à outra praia. Na curva, moradores e turistas se reuniam para a vista do mar, quase sempre no final de tarde. Outros armavam suas varas de pescar, equipadas com grandes molinetes capazes de arremessar a linha além das ondas.

    Neste dia, a colina estava vazia. Sozinho, ele esperava o mar bater com violência no penhasco. Chegava então o pescoço sobre a amurada e olhava para baixo a tempo de ver as águas escorregando rochas abaixo, deixando as pedras cor de musgo. Segundos depois, o mar voltava violento, batia no paredão de pedra, respingando em seu rosto assustado que rapidamente recuava.

    No final da tarde, o mar se acalmou, voltou ao seu leito normal, deixando à vista a imensa faixa de areia molhada. O sol frio incentivara alguns poucos moradores e turistas a passear pelo calçadão. Antônio sentou-se no banco da praia central, de frente para o mar.

    Uma menina corria pela areia como se a praia fosse inteiramente dela. A menina sentou-se na praia deserta, pouco se importando com a umidade em sua bunda, em suas pernas. Ela passou a revirar a areia molhada, tentando moldar alguma coisa que ele não conseguia enxergar. Ajoelhada, a menina dava voltas no monte que subia aos poucos, as mãos repetindo o gesto de descer do topo até a base, alisando a areia. Depois, começou a cavar pequenos orifícios dos lados, totalmente curvada, quase beijando o pequeno monumento. Ele imaginou a areia molhada entrando nas unhas da menina, deixando pingos em seu rosto, o vento embaraçando seus longos cabelos.

    A menina ficou uns quinze minutos nessa desajeitada brincadeira. Por fim, se levantou, esticou os braços para o alto, bateu as mãos no peito, nos braços, na bunda, nas pernas, tentando se limpar da areia. Passou a andar por uma pequena extensão da praia, a cabeça baixa, chutando areia com os pés. Às vezes, se abaixava, pegava alguma coisa, olhava atenciosa para a palma da mão, jogava o objeto no chão e voltava a caminhar. Andava até um certo ponto, se virava na direção do mar, caminhava mais alguns metros e voltava na mesma direção, para perto da construção de areia que fizera, percorrendo outra faixa da praia. Assim foi fazendo espécies de retângulos, descendo lentamente em direção ao mar.

    Um casal de idosos parou perto de Antônio. Estavam bem agasalhados, a senhora com o braço enfiado no braço do senhor. Ficaram alguns segundos olhando a menina na praia. A senhora disse alguma coisa bem baixo, ambos sorriram e voltaram a caminhar.

    De repente, a menina começou a correr em direção ao mar. “Natália”, “Natália”. O grito ecoou nos ouvidos de Antônio e só então ele percebeu a jovem mulher sentada em outro banco, poucos metros adiante. Ela se pôs rapidamente de pé, chegou até perto da grade que separava o calçadão da praia, as mãos em concha na boca. “Natália”.

    Antônio fez gesto de se levantar, pensando em correr para a praia, mas a menina parou quase na divisa com as águas e voltou. Ele pode ver, mesmo à distância, a beleza dos olhos infantis procurando a mãe. A menina começou a caminhar lentamente de volta e parou perto da escultura de areia. Começou a chutá-la, espalhando areia para a frente, para os lados, pisou em cima com força, deu alguns pulos, socando a areia. No fim, quase exausta, olhou com um sorriso vitorioso para a mãe. Ela observava preocupada a menina. Os olhos de Antônio ficaram entre a mãe e a menina, que agora estava bem perto da escada do calçadão.

    Antônio levantou-se e começou a andar, um sentimento repentino de solidão. Parou e se voltou a tempo de ver mãe e filha caminhando de mãos dadas, de costas, em sentido contrário a ele. Teve uma vontade incompreensível de gritar “Natália”.

    Esse grito que agora bate em sua mente e o faz despertar na solidão fria e sem vida da enfermaria.

  • O aniversário da menina

    Pensei que era apenas mais um namorado, até que ela anunciou-se grávida. Ela já dissera em conversas reservadas que se chegasse aos trinta solteira partiria para a produção independente.

    A filha nasceu provocando uma revolução naquela mulher. De adolescente rebelde, jovem mais preocupada com festas, bares e noitadas, a mãe caseira, gastando todo o tempo que tinha depois do trabalho com sua pequena.

    O jovem pai era intermitente. Era visto em aniversários, reuniões, depois, sumia. Falavam em casar, juntar, mas não passava disso. Uma noite, na casa da namorada, pediu o carro do futuro sogro emprestado. Saiu, quase madrugada, dizendo que voltaria dali a pouco. Desapareceu durante três dias. Outro pai entrou na história. Ele já conhecia o enredo do filho desde a adolescência e sabia onde encontrá-lo. Partiu para aqueles pontos obscuros que todos temem e muitos insistem em freqüentar. Encontrou o carro depenado, sem rodas, sem ferramentas, sem acessórios. Conseguiu resgatar tudo a custo da experiência em negociações que ganhara nesses casos. Devolveu o carro, pediu desculpas, levou o filho consigo para mais uma temporada em clínicas.

    Revelou-se o segredo daquela luta silenciosa e permanente. O jovem desapareceu durante dois anos. As notícias vinham de seu pai: está no interior de São Paulo. Entre uma clínica e outra, notícias mais desanimadoras: tirou TV, som, até roupas, tirou tudo da casa dos pais. O pai, diziam alguns, entregara os pontos. Nas vezes em que era visto, tinha sempre os olhos tristes, semblante cansado. Logo depois, sabia-se que estava acompanhando o filho, agora em uma fazenda no interior de Minas.

    No aniversário de dois anos da menina, voltei a ver o jovem pai. Contou que estava trabalhando na fazenda e não pretendia voltar para Belo Horizonte. Parecia nervoso, inquieto, andando pela casa atrás da filha. Depois dos parabéns e fotos de costume, ele pediu que todos na festa se reunissem na sala.  Ficou algum tempo calado, depois se levantou  e falou abertamente.

    – Acho que todos sabem do meu problema. Não me arrependo das coisas que fiz, é a minha vida. Arrependo-me do que não fiz, principalmente de não ter visto a minha filha crescer. Tirou as alianças do bolso e fez o pedido de noivado. O pai dele, encolhido no sofá, não tinha os olhos tristes. Pareceu-me muito mais um olhar atento e cuidadoso.

    A menina brincava com sua mais nova boneca no chão da sala, estranhando aquele mundo de gente ao redor. De repente, ela tentou se levantar, tropeçou na boneca quase do seu tamanho e caiu, rosto no chão. Várias mãos acudiram ao mesmo tempo, mas as do jovem pai chegaram primeiro. Levantou a filha, apertou-a contra o peito, embalando-a carinhosamente. A menina ficou ali, no colo do pai, o choro acabando aos poucos.

    Os convidados foram se retirando. O jovem pai foi embora. Foi a última vez que o vi.

  • O cavalo malhado

    Naquele dia, as mãos do velho Antônio tremeram um pouco mais ao colocar a fita cassete no aparelho de som. Ele levou as mãos ao coração, respirou fundo. A tremedeira vinha aumentando, mas o médico o confortara: “idade, esforço de um ou outro dia mais agitado, você não pode mais trabalhar tanto no sítio”.

    Antônio sentou-se na varanda como fazia todo final de tarde. Levantou a mão esquerda até a altura dos olhos. Ainda tremia. Culpou a emoção da hora, a voz de Frank Sinatra, talvez.

    Aquela hora merecia trilha sonora. Elvis Presley, Nat King Cole, Frank Sinatra, Billie Holiday, vozes do entardecer. Antônio ficava na varanda sozinho com a música até o sol se esconder no morro em frente. Às vezes, um passante, morador como ele daquela pequena vila, o cumprimentava da estrada. “Boa tarde, seu Antônio.”. Ele respondia com aceno de mão, balançar da cabeça, sem dar muita conversa, temia que o vizinho se achegasse e perturbasse seu momento. Gostava de ficar sozinho com a música, olhando o entardecer.

    No morro em frente, cerca de quatrocentos metros distantes da casa, ficavam as cocheiras dos cavalos da fazenda-laboratório especializada na produção de soro antiofídico. Da varanda de sua casa, Antônio podia ver os cochos onde os cavalos se reuniam no final da tarde para comer. Ele lamentava animais tão belos servindo como cobaias para veneno de cobra. Maldizia os cientistas, pensava no veneno circulando nos animais, depois a sangria, outra sangria, mais e mais sangue sendo retirado até o cavalo se extinguir. Ele imaginava o cavalo deitado na grama, as patas esticadas, a cara de lado na terra, a imensa força daquela vida deixando de existir.

    “Old man river, that old man river …”. Antônio deixou a canção tomar conta, os olhos fixos no morro. Alguns cavalos pastavam, outros afundavam as cabeças nos cochos. De repente, um dos cavalos empinou, as patas dianteiras cortaram o ar, a cabeça fazendo movimentos circulares. O cavalo malhado ficou por alguns segundos suspenso no ar, as patas traseiras suportando todo o peso enquanto o relincho estridente ecoava no morro. Os cavalos pararam de comer, todas as cabeças se levantaram ao mesmo tempo, os que descansavam ficaram alertas, detrás das árvores surgiram dezenas de animais, a agitação tomou conta do morro. Em instantes, a tropa fez um círculo em volta do malhado que continuava no seu ritual de patas, cabeça e relincho.

    Antônio não tirava os olhos da fazenda. O malhado saiu em disparada na direção do topo do morro. O que se viu foi quase um balé. Os cavalos abriram passagem para o malhado e saíram em sincronia perfeita atrás do líder, sem atropelos, sem confusão, primeiros os da frente, à medida que se abria espaço os outros seguiam até que todos estavam correndo na mesma direção, formando fila de três, quatro cavalos correndo lado a lado.

    O velho Antônio não podia acreditar. Tentou imaginar quantos cavalos, cinquenta, cem, talvez mais, seguindo o malhado. Eles correram por cerca de dois quilômetros até o alto do morro, o barulho das patas batendo na terra, ecoando como um trovejar, o estouro de uma manada. No alto do morro, o malhado fez um movimento circular, inclinando bastante o corpo para não diminuir a velocidade, e desceu, a tropa seguindo seus passos, marcando uma trilha no meio do mato. Os cavalos desceram até perto das cocheiras, contornaram as edificações, cada um pisando na pegada do outro, sequer um atropelo, o malhado à frente. Numa carreira desabalada subiram novamente o morro até o ponto exato onde fizeram a primeira volta e refizeram todo o caminho.

    Os cavalos repetiram o galope, subindo e descendo o morro três vezes. Em alguns momentos, quando passavam pela terra batida sem grama ou mato, a poeira cobria grande parte da tropa. Logo à frente, os cavalos emergiam da fumaça marrom como se tudo aquilo fosse meticulosamente planejado pelo mais talentoso dos coreógrafos.

    Depois da terceira volta, o líder diminuiu as passadas perto dos cochos. O malhado resfolegava, trotando em passos largos, ditando o tom de descanso para a tropa. Ele parou no meio de uma clareira, as cocheiras ao fundo, uma fileira de árvores à sua frente. Os animais começaram a se dispersar. O sol desaparecera deixando a tarde com uma luz difusa. Antônio pode ver ainda o malhado com a cabeça erguida, contemplando sua tropa, imponente, orgulhoso.

    Antônio não tirava os olhos do morro na esperança de ver uma vez mais o longo tropel dos cavalos, ver pela última vez aquela cena que nunca mais se repetiria em sua vida. Aquela cena que contou a filhos, netos, amigos e muitos, claro, duvidaram. Na confusão de luzes entre o entardecer e a noite, Antônio divisou poeira levantando na estrada logo abaixo do morro. Acompanhou com os olhos a poeira até enxergar o carro fazendo o contorno na estrada e se dirigindo em direção à sua casa.

    Quando o carro do filho passou bem em frente à varanda, Antônio enxergou com toda clareza sua companheira há quase cinquenta anos sentada no banco de trás, brincando com os netos. Antônio levantou a mão esquerda, um aceno trêmulo, mais trêmulo agora. O tremor do velho homem diante do inesperado da vida.

  • O fantasma da estrada

    Prontos para ouvir uma história de fantasma? – meu irmão levantou as sobrancelhas, eu me recostei na cabeceira da cama, puxei a coberta até perto do queixo, deixando apenas o rosto e os olhos arregalados de fora.

    O pai sentou-se no pé da cama. O quarto era pequeno. O espaço entre as duas camas era a conta da mesa de cabeceira onde meu irmão deixava o velho radinho de pilha ligado bem baixo. Era um quarto apertado de uma casa pequena, situada naqueles conjuntos populares que realizavam o sonho-casa-própria da classe média no milagre econômico dos anos 70..

    – O pai tinha um sítio, distante cerca de três quilômetros da cidade. Lá para os lados de São Vicente do Grama. Era noite de lua cheia, dessas luas que deixam a gente com vontade de ficar deitado na grama olhando o céu. Era sábado, tinha festa na cidade. Com barraquinha, fogueira de São João e muita gente dando voltas na praça. Já contei pra vocês que na minha cidade os homens davam voltas na praça em sentido contrário às mulheres? – Meu irmão fez sim com a cabeça três vezes.

    – Fazia muito frio. Vesti a minha calça Lee novinha em folha, camisa listrada e jaqueta jeans. Eu tinha uns 15 anos e costumava fazer o caminho da estrada no sábado à noite. Nessa noite, prestem bem atenção, a lua estava cheia, tomando conta do céu. O vento passava pelos bambuzais da beira da estrada num chiado sem fim, indo e voltando. Uhhhh… Uhhhh…. mais ou menos assim. Eu conhecia cada buraco, cada curva da estrada. Se fosse durante o dia, eu daria uns galopes para encurtar o tempo, mas, à noite, todo arrumado pra festa, não podia ficar suado, não é mesmo?

    – Comecei a andar devagar, o pensamento solto… De repente, logo depois da primeira curva, quando a mata na beira da estrada ficou mais fechada, ouvi um barulho bem leve. Uma espécie de toc, toc. “Deve ser algum bicho na mata”, não me preocupei. Continuei andando, ainda ouvindo o barulho. Toc, toc, bem baixinho. Toc, toc. Parei durante alguns segundos, olhei para os lados, estiquei os ouvidos. Nada. Nem um pio, apenas o barulho do vento. – Eu me inquietei na cama. O pai fez uma pausa, respirou fundo.

    – Voltei a andar. Toc, toc. Parei de novo e nada. Olhei para o céu, nuvens passavam na frente da lua. Comecei a andar mais rápido, não que eu estivesse com medo, vocês sabem, não tenho medo de fantasmas, bichos, essas coisas. O barulho aumentava junto com minhas passadas. Outra curva da estrada. Parei. O barulho também.

    – “Tem alguém aí?” Gritei e só ouvi o eco da minha voz. Senti um calafrio de cima em baixo com aquela voz estranha batendo nos meus ouvidos. Olhei para os lados, pra frente, pra trás. Procurei no chão alguma pedra, achei um pedaço de pau. Voltei a andar segurando o porrete na mão. Os passos cada vez mais rápidos e o barulho perto de mim. – Meu irmão se mostrou mais interessado, chegou  a ensaiar uma pergunta, mas o pai fez um gesto com a mão como a dizer: espere.

    – Pensem bem. A estrada deserta, mata fechada de um lado, do outro um grande descampado. A lua de vez em quando sumia atrás das nuvens e o escuro tomava conta. E aquele barulho. Não era um barulho distante, era ali, ao meu redor. De passos rápidos, passei a pequenos galopes. Toc, toc, toc, toc, toc….. O suor escorria pelo meu rosto. Parei em uma grande reta. Olhei de novo pra tudo quanto é lado. Nada. Ninguém. Nem uma vivalma. Barulho nenhum, até o vento agora se fora.

    – Voltei a correr, agora uma corrida destrambelhada. Toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc. Tropecei, caí de bruços na terra. Fiquei alguns segundos com a cara encostada no chão pensando, é agora. Mas nada, só o silêncio. Respirei fundo, sentindo uma leve dor na mão. Tentei me levantar, minhas pernas não responderam.

    – Contei até três e me levantei de supetão, saindo numa correria pela estrada. Toc, toc, toc, toc. Passei pela ponte que marca a entrada da cidade. Eu não aguentava mais, minhas pernas pareciam nem existir de tanto cansaço. O ar entrava e saía pela minha boca, pelo meu nariz.. – O pai parecia cansado mesmo. Ele respirou pausadamente e esperou um tempo antes de voltar à história, aumentando a nossa ansiedade.

    – Atravessei a ponte e entrei em desabalada carreira pela rua principal. As luzes fraquinhas dos postes me tranquilizaram um pouco. Parei curvado debaixo de um poste, as mãos sobre os joelhos. Prestei atenção, não ouvi mais o barulho. Sentei-me na escada da porta de uma das casas. Aos poucos fui recuperando o fôlego, o cansaço diminuindo, só as gotas de suor não paravam de escorrer pelo meu rosto. Eu sentia as costas também empapadas de suor. Tirei a jaqueta jeans. Minhas mãos ardiam, esfoladas da queda na estrada. Olhei para minha calça Lee novinha. Estava suja de terra. Comecei a bater as mãos no tecido, tentando tirar a poeira. Comecei pelas coxas, as duas mãos espanando a poeira. Fui descendo até chegar nas canelas. A calça tinha bocas largas, quase cobrindo os sapatos. Comecei a bater nas barras. Toc, toc. Parei de bater. Voltei a bater. Toc, toc. Bati com mais força. Toc, toc, toc, toc. – O pai viu um sorriso no rosto do meu irmão.

    – Levantei-me maldizendo a minha ignorância e voltei a caminhar em direção à praça da cidade. A jaqueta jogada no ombro. Toc, toc. Olhei para as pernas. As barras das calças batendo uma na outra. Toc, toc, toc…

    Permaneci em silêncio, meu irmão comentava a história animado. Eu pensava naquela estrada longa, deserta e enluarada. Pensava no pai correndo, perseguido pelo fantasma. O pai parecia na dúvida, perguntou se eu entendera o final. Talvez tenha pensado: “quando ele crescer um pouco mais…”

    Pouco importava. Era apenas mais um conto do meu pai. Com o tempo, aprendi que estas noites que o pai passava sentado ao pé da cama dos filhos ajudaram a definir a minha própria história.

  • Cadeira cativa

    Beto. Você já viu Cinema Paradiso?” Demorei a identificar quem era ao telefone. A voz do pai estava diferente, emocionada, como raras vezes eu ouvira.

    “Ainda não pai. É bom?”

    “Depois que você assistir a gente conversa.”

    Pais costumam contar as mesmas histórias aos filhos. A pergunta “já te contei a história ….” é a deixa para repeti-la, sempre com um toque a mais. Das memórias do meu pai, a cadeira de cinema com corrente e cadeado é quase surrealista.

    Ele nasceu em Jequeri, pequena cidade da Zona da Mata. “Com exceção de certos usos, todas as cidadezinhas se parecem”, escreveu Balzac em A mulher Abandonada. Na cidade do pai, a igreja fica na Praça Central, imponente, é vista de qualquer ponto. Nas noites de sábado, depois da missa, os mais velhos tomavam o rumo de casa, os jovens iam dar voltas na praça até cansar. Homens andando em um sentido da rua, mulheres em sentido contrário. As mais recatadas faziam o sinal da cruz ao passar pela porta da igreja. Mas nem a ameaçadora cruz da igreja tomando conta do céu era capaz de impedi-las de se entregar ao doce pecado do flerte.

    “Ali ficava o cinema.” Disse o pai certa vez, apontando a casa do padre, na praça, do outro lado da rua. Meu pai era o caçula de uma família de oito irmãos. Desde cedo, os filhos homens de Oséias dominaram duas instituições da cidade: tocavam na banda e trabalhavam no cinema. Meu pai, pequeno ainda, acompanhava admirado os irmãos tocando trompete, trombone e clarinete pelas ruas.

    “Mas eu gostava mesmo era do cinema. Eu era o único menino da cidade que não pagava ingresso e tinha cadeira cativa. Seu Tio Zezé era o projecionista. Seu Tio Nadir, porteiro. Eu contava nos dedos os dias para ver os seriados de Flash Gordon e Buck Rogers na sessão de sábado. Chegava sempre em cima da hora. Seu tio me deixava passar pelo lado da roleta. A sessão já estava lotada, os meninos gritando, pulando, jogando papéis nos outros. Eu andava calmamente no meio de todos até a primeira fila, às vezes tropeçando em um ou outro sentado no chão. Na frente de todos, tirava a chave do bolso, abria o cadeado e desenrolava a corrente dos braços da cadeira. O Tio Zezé só começava a sessão quando eu me sentava. No dia em que eu chegava atrasado, o filme demorava a começar. Enquanto morei na cidade, ninguém mais sentou naquela cadeira, na primeira fila. Se eu não fosse ao cinema, a cadeira ficava vazia, fechada a corrente e cadeado…”

    Saí tarde da sessão de Cinema Paradiso. Era noite de inverno, fiquei parado alguns minutos em frente ao cinema, as mãos cruzadas apertando a blusa no peito. Depois de assistir à Cinema Paradiso é quase impossível não pensar na cena do cineasta Salvatori vendo a edição das cenas cortadas de beijos. Mas outras cenas se confundiam na minha cabeça: meu pai menino chegando na porta do cinema, Tio Nadir passando a mão em sua cabeça e deixando-o entrar sem pagar; Tio Zezé na cabine espiando pela abertura o irmãozinho tirar a corrente e sentar-se; um bando de meninos gritando e pulando de emoção a cada cena do filme naquela cidadezinha do interior.

    No outro dia, passei na casa do pai.

    “Pai, fui assistir Cinema Paradiso ontem.” Ele esperou alguns segundos, os olhos brilhando.

    “Já te contei a história da minha cadeira com corrente e cadeado no cinema?”

  • O cinema e o silêncio

    A máscara negra desceu sobre o rosto deformado de Anakin Skywalker. Certos closes tomam conta dos nossos olhos e do que eles escondem. No final de A Vingança dos Sith, a máscara de Darth Vader dominou o cinema através do mais completo silêncio.

    Em 1980, entrei no cinema tentando dominar a ansiedade que me persegue desde a década de 70, antes de cada filme da série Star wars. Naquele ano, o filme ainda era chamado de Guerra nas estrelas e parecia a história de Luke Skywalker, guerreiro estelar, samurai, pistoleiro e piloto de combate. Dentro do cinema lotado, os adolescentes gritam e assobiam a cada batalha de O império contra-ataca. Impossível ficar indiferente diante do idealismo místico de Luke e do romantismo cínico de Hans Solo.

    Luke Skywalker finalmente se encontra com Darth Vader. Eles duelam pelos corredores da Cidade das Nuvens. A cena é famosa. Um dos vilões mais lembrados do cinema decepa a mão do herói, o jovem cavaleiro jedi procura fugir mas tem abaixo o abismo. Luke agarra-se como pode, a dor estampada no rosto. Darth Vader estende a mão para ele e numa frase revela o segredo da saga.

    Não sei quantas pessoas cabiam naquele velho e grandioso cinema que guardava o glamour da sétima arte: tapetes vermelhos, dois andares, escada em caracol, tela de 70 mm. Quando a câmara deu close em Darth Vader e a voz impiedosa de James Earl Jones invadiu o cinema, nada mais se ouviu. Nem um som, nem um suspiro. O fascínio da revelação se traduziu em completo silêncio.

    A vingança dos Sith encerra uma história de seis filmes. História que perdeu muito da magia e ganhou efeitos visuais espetaculares, que trocou o glamour por uma franquia milionária, a marca Star warsA vingança dos Sith invadiu metade dos cinemas no mundo inteiro, domina jornais, revistas, programas de TV e a sempre inquietante Internet, que acabou com a sensação de ser surpreendido por uma frase tão banal quanto “Eu sou seu pai”.

    Mas dentro do cinema, quando a máscara de Darth Vader tomou conta da tela, o silêncio era o mesmo de 1980.

  • Os filmes do meu pai

    Lembro-me de minha mãe perguntando quando eu era criança, “quando você crescer, vai ser o que?” Eu respondia seco e direto, “escritor”. A mãe sorria. Lembro-me de meu pai perguntando, “o que você mais gosta de fazer?” Meus pensamentos conflitavam durante alguns segundos antes da resposta, “futebol e cinema”. O pai sorria.

    Quem acompanha com paciência esse blog intermitente percebe que aqui se juntou escrever com cinema. Escrever sobre cinema acabou se tornando um reencontro. Um reencontro com domingos de manhã, quando o pai me deixava na porta do Cine Progresso para uma sessão da Disney. Um reencontro com noites de sábado quando, já adulto e casado, eu passava na casa do pai e nossas conversas terminavam no cinema – geralmente depois de esgotar todos os comentários sobre o Atlético.

    – Pai, esse final de semana assisti a Viva Zapata!

    – Com Marlon Brando e Anthony Quinn.

    – E o diretor?

    – Elia Kazan. – respondia o pai, sorriso no rosto, orgulho de cinéfilo que lembra nomes de atores, atrizes, diretores, filmes com a exatidão de uma prece.

    Meu pai falava do Cine Brasil como um templo. Os fiéis de terno e gravata enfileirados na porta, esperando para ver deuses como Ava Gardner, Ingrid Bergman, James Stewart, John Wayne, Greta Garbo, Burt Lancaster, Humphrey Bogart, Marlon Brando, Montgomery Clift, Sofia Loren ….

    Meu pai amava Os brutos também amam e Casablanca. Meu pai amava o Atlético Mineiro. Meu pai nadava com a elegância de Johnny Weissmuller. Meu pai era um homem quieto e silencioso. Meu pai foi confundido há muitos e muitos anos com um ator de cinema americano, pois estava de chapéu e capote debaixo de uma marquise numa noite de chuva e foi assim que minha mãe se apaixonou. Meu pai sentava-se a meu lado todas as noites de segunda-feira na distante década de 70 para ver Jornada nas Estrelas. Meu pai amava filmes de faroeste, John Ford e Alfred Hitchcock. Meu pai adorava Frank Sinatra, Elvis Presley e Nat King Cole.

    Escrevo sobre meu pai agora no passado. Mas sei que tudo dele está em mim. Daqui a alguns dias, quando a dor se acomodar em algum lugar do coração, vou voltar a assistir os filmes que tanto amávamos. E com saudade vou sentir vontade de dizer.

    – Pai, vi Johnny Guitar. Com Joan Crawford, Sterling Hayden e Mercedes McCambridge. O diretor é Nicholas Ray.

  • Livrinhos de faroeste

    Era sábado, pouco depois do meio-dia. Peguei os chumbinhos, fui até o quintal, encostei no muro uma latinha, voltei para o lado oposto e armei a espingarda. Mirei devagar e aproveitei, por instantes, a sensação do pequeno Joe na clássica primeira seqüência deShane (1953). Puxei o gatilho. O estampido seco ecoou na cozinha, nos ouvidos de minha mãe.

    Ouvi o grito às minhas costas: “Menino, onde você arrumou essa coisa?”. “Presente do pai.” Ela olhava sem entender. O que se seguiu foi uma discussão entre pais que varou a tarde e me impediu de dar outros tiros. O pai dizia que avisou a ela sobre a tal espingarda de aniversário. A mãe jurava que  quando ouviu “espingardinha de chumbo” acreditou se tratar de um brinquedo, nunca imaginou que aquilo atirava de verdade.

    Mas foi a própria mãe quem me apresentou ao fascinante mundo do western, inclusive me presenteando com revólveres de espoleta. Minha mãe amava filmes de faroeste. Spaghettis italianos então, nem se fala. “Gosto mesmo é quando o mocinho mata três ou quatro de uma vez num duelo”. E emendava dizendo da paixão por Burt Lancaster e Kirk Douglas, notórios galãs de fitas de mocinhos e bandidos.

    Ela me passou essa paixão associada a outra grande herança: o gosto pela leitura. Pelo menos uma vez por semana, íamos a casa de seu irmão buscar livrinhos de faroeste para ler. O tio abria o guarda-roupa onde guardava pilhas e pilhas daquela literatura descartável, escrita em série por autores desconhecidos, a maioria assinando com pseudônimo. As tramas giram em torno do mesmo assunto: ladrões de gado, tenentes do exército e índios, vinganças familiares, assalto a bancos, cidades assoladas por bandoleiros e o pistoleiro solitário com sentimentos nobres para salvar a cidade.

    Eu e a mãe líamos pelo menos uns dois por semana e voltávamos para buscar mais na casa do tio. Daí para as sessões da tarde que não se cansavam de reprisar sempre os mesmos westerns foi um salto. Assistíamos juntos, fascinados.

    Com o tempo, a mãe se acostumou aos meus tiros em latinhas de conserva e tudo o mais inanimado que pudesse servir de tiro ao alvo. Às vezes, após um estrondo maior, eu ouvia um suspiro vindo de dentro da casa e a imaginava no gesto solene do sinal da cruz.

  • Cena de cinema

    “Ele é igualzinho aquele ator de cinema.” A irmã deu um pulo da cama assim que Alice entrou aos gritos pela janela.” “Quem?”  “Aquele ator de cinema… do filme que assistimos na semana passada. Vem, vem ver.”

    As irmãs dormiam no quarto voltado para a rua, bastava abrir a janela e o movimento estava bem ali. Vez por outra elas se assustavam quando, deitadas na cama, a modorra quente da tarde, abas da janela de madeira abertas, um amigo assobiava, outra amiga pulava de repente no meio do quarto às risadas.

    Era assim a vida das meninas: debruçadas na janela, esperando um rosto novo, diferente dos rapazes que passavam três, quatro vezes por dia em frente a casa. No sábado à noite, davam voltas na pracinha da igreja, moças em sentido contrário aos rapazes, olhares se cruzando até enjoarem um do outro.

    Alice, mal completados 16 anos, era dois anos mais velha do que a irmã. Há algum tempo elas ludibriavam o horário das nove da noite, estipulado pelo pai, de entrar em casa e se recolherem. Pouco depois das dez, quando a noite encobria com o silêncio aquela casa austera, as meninas destrancavam a taramela da janela e pulavam de volta para a praça.

    Naquele sábado chovia como se o céu se desprendesse. Quando Alice entrou esbaforida, encharcando o chão do quarto, repetindo “igualzinho aquele ator de cinema”, a irmã pensou em chamar a mãe para detectar febre na filha. Dedos benignos de mãe, bastava um toque na testa e, pouco depois, compressas de água refrescavam.

    Alice juntou a irmã pelas mãos e, quase sem perceber, as duas estavam no passeio da rua, a chuva caindo pesada nos cabelos, nos ombros. “Corre, senão ele vai embora. Olha lá, olha lá…”

    Do outro lado da rua, debaixo da pequena marquise de uma das entradas da igreja, um rapaz se escondia da chuva. Apesar do cedo da hora para sábado à noite, a praça estava deserta. A irmã forçou a vista: o estranho vestia um sobretudo cinza, caindo até abaixo dos joelhos. Uma das mãos estava no bolso, a outra, pendente ao longo do corpo, deixava ver brasa entre os dedos. Ela acompanhou o estranho erguer o cigarro até os lábios. A luz fraca do poste impedia que as meninas vissem os traços do rosto. No breve instante em que o cigarro tocou os lábios e a brasa refletiu com um pouco mais de intensidade, o clarão de um relâmpago iluminou a noite, ajudando as meninas a vislumbrarem um rosto moço, moreno, o chapéu escuro encobrindo a cabeça.

    “É ou não é igualzinho… o moço que falou tanto coisa bonita no aeroporto.”

    Quando viu as irmãs, o estranho tirou lentamente o cigarro dos lábios, soltou uma longa baforada e arredou pé de debaixo da marquise, sentindo a água da chuva bater com força na aba do chapéu. Deixou o cigarro cair no chão e, agora com as duas mãos nos bolsos, atravessou lentamente a rua, provocando sobressaltos nos seios da adolescente Alice, como naquelas noites em frente à tela grande do cinema.

  • Minha bela Jimena

    Quando chego em casa à noite, Jimena me espera no portão. Ela ouve o barulho do carro de longe e começa a latir. Abro o portão da garagem e a encontro dando voltas no jardim, feliz, saudosa de afagos, chorando mansamente de ansiedade, pedindo atenção na noite.

    Ela chegou onze anos atrás, da raça pastor-alemão, inquieta, andando pelos cantos da casa, reconhecendo o lugar, marcando espaço. Deitou-se, o focinho entre as patas, esperando o nome. Carlos Heitor Cony tinha uma setter chamada Mila, homenagem à rua onde o escritor Franz Kafka morou em Praga. Como minhas maiores viagens são através dos livros e filmes, minha homenagem foi para uma das lembranças visuais mais arrebatadoras da minha infância: Sophia Loren no filme El Cid (1961), de Anthony Mann.

    Quando a mãe permitia, eu ficava assistindo a filmes de madrugada. Ainda sem vídeos e DVDs, minha única opção era a famosa Sessão Coruja da Rede Globo. Eram noites de sono perdidas para conhecer alguns clássicos do cinema, exibidos sempre depois da meia-noite. Em uma dessas madrugadas da década de 70, conheci a história do lendário herói espanhol Rodrigo de Bivar (Charlton Heston), apelidado El Cid pelos muçulmanos.

    O filme El Cid é o típico representante do gênero épico que fez muito sucesso até a década de 60 no cinema americano. Fotografia em technicolor, cenas de batalhas grandiosas, astros hollywoodianos interpretando personagens mitológicos (o próprio Charlton Heston fizera, dois anos antes, Ben-Hur), uma bela história de amor como pano de fundo. Era a época dos grandes espetáculos, dos grandes filmes, do grande cinema.

    Época das grandes atrizes, daquelas que tomavam conta da tela e de quem estava fora dela. Basta o primeiro fotograma de Sophia Loren em El Cid para entender a beleza do filme. Ela é Jimena, uma nobre da corte espanhola, noiva de Rodrigo de Bivar, antes dele se transformar no herói que vai libertar a Espanha dos muçulmanos.

    No auge da fama, a italiana Sophia Loren carregava vários adjetivos: esplendorosa, sedutora, radiante, para muitos representava a exuberância devastadora da mulher latina (basta um close em seus seios e lábios para entender o que estou dizendo).

    Nunca mais esqueci Jimena e ficava ano a ano esperando as reprises de El Cid. Assisti a cada uma delas na TV, em vídeo, em DVD, sempre com o mesmo fascínio em cada cena de Sophia Loren. Revi o filme nestes dias, motivado por semanas cuidando de minha Jimena, devido a uma doença. Com todo o carinho que ela exige, necessita e merece.

  • Herói da infância

    Aprendi a nadar antes dos cinco anos de idade. Entrava em rios, piscinas, lagoas. Atravessava correnteza e distâncias com o pai atrás – ele era a segurança da chegada. Meu pai era pequeno, magro e deslizava na água. Cortava a piscina com elegância de causar inveja. Um de seus amigos da juventude, companheiro de cinema, sempre dizia quando o via nadando: “Lá vai o Johnny Weissmuller”. Os outros amigos não sabiam pronunciar o nome e passaram a chamá-lo de Tarzan.

    Johnny Weissmuller (1904-1984), nascido na Romênia, ganhou cinco medalhas de ouro de natação nas olimpíadas de Paris – 1924 e Amsterdã – 1928. Foi o primeiro atleta a nadar 100 metros rasos em menos de um minuto. Durante a carreira, estabeleceu 67 recordes mundiais.

    Forte e bonito, foi seduzido primeiro pela publicidade, posando como modelo para uma campanha de maiôs, e logo depois pelo cinema. Em 1932, vestiu a tanga de Tarzan,  personagem que o acompanharia pelo resto da vida. “Quando cheguei a Hollywood, o produtor disse que meu nome era longo demais para caber no letreiro.” – relata Weissmuller. O diretor W. S. Van Dyke (1889-1943) explicou ao produtor. “Você não sabe quem ele é? O maior nadador do mundo. – o produtor concordou em não mudar o nome e ainda sugeriu incluir algumas cenas de natação no filme.”

    Tarzan, o Homem Macaco foi lançado em 1932. Além das cenas de natação, Johnny Weissmuller personificou o grito mais famoso da história do cinema. Ele interpretou Tarzan em 11 filmes. A partir de 1948, incorporou outro personagem, Jim da Selvas, em mais 16 filmes. Morreu pobre e esquecido no México, num hotel em Acapulco, em 1984.

    Quanto ao outro Johnny Weissmuller, herói da minha infância, dividiu comigo algumas braçadas e muitas, muitas conversas sobre cinema. Meu pai me apresentou às pequenas felicidades do dia-a-dia: uma piscina, um jogo do Atlético Mineiro, uma sessão de cinema.

  • Pedras de Acapulco

    Meu pai era um homem magro, leve. Nadava com elegância, como se flutuasse milímetros acima da superfície, a cabeça submersa, os braços entrando e saindo ritmados da água sem fazer barulho, sem espirrar água para os lados.

    Lembrança da infância: meu pai no alto do trampolim do clube, altura de cerca de 10, 12 metros. Ele olha a última vez para baixo, abre os braços, se deixa cair do trampolim com os braços esticados acima da cabeça, salto na diagonal, como se deixasse o peito resistir ao ar para se preservar no voo durante um tempo maior. O pai entra na água com a elegância de sempre, sem muito barulho, sem muita água espirrando, e emerge menos de dois segundos depois. Salto bonito. Imagem que mais parece recriação fantástica de menino  – lembranças da primeira infância sempre se confundem com fantasia.

    Muito tempo depois, o filho já adolescente repete o ritual em uma cachoeira na Serra do Cipó, do alto de uma pedra. Subo atrás do pai pela encosta rochosa até o patamar, espécie de plataforma lapidada por milênios. Grande poço de águas turvas se forma debaixo da queda d’água. Chego à beira da pedra e sinto medo. Recuo.

    – Você não vai pular? – pergunta o pai.

    – Só se você pular primeiro.

    Ele posiciona-se na ponta da plataforma, abre os braços e pouco depois aparece na água escura, pequeno lá embaixo. O pai acena para mim como a dizer “não tenha medo”.

    Eu já saltara de vários lugares, de trampolins, de pedras. Domingos da minha infância e adolescência eram frequentemente domingos em piscinas, rios. O pai saltando e nadando com os filhos, presença segura apesar da inconsequência que hoje sinto nessas disputas entre pais e filhos. A mãe rezava, dava para ver pela sua expressão que ela rezava e maldizia o marido por instigar os filhos a essas loucuras. No fim do dia, voltávamos para casa, o pai calado ao volante do carro ouvindo a mãe bradar que nunca mais sairíamos a passeio em busca de rios e cachoeiras. Mas no outro fim de semana lá estava ela, cedo cedo preparando o almoço, o pão com salame, apressando todo mundo.

    Hesito novamente no alto da pedra. Eu nunca saltara de altura assim. O pai, ainda na água, acena, como a mostrar que é seguro. Naquela hora, os pés quase tocando o vazio, as pedras, a água, o medo,  finalmente entendi o fascínio que o pai sentia por alguns filmes.

    – Você já assistiu O Seresteiro de Acapulco? – o pai acaba de encher o copo de cerveja, bebe mais um gole e continua  – O filme é passado em Acapulco, no México. Quase no final, Elvis Presley sobe no penhasco, o mar embaixo, garganta d´água entre as rochas. Ele tinha que vencer o medo da altura. Chega na beirada e salta, os braços abertos. É uma cena maravilhosa. – ouvi essa narração repetidas vezes e mesmo já tendo assistido ao filme, deixava que ele a contasse novamente.

    Deixo o corpo despencar no vazio. Os braços abertos buscam equilíbrio, o corpo ligeiramente na diagonal vence a resistência do ar até bater na água e submergir rapidamente. O medo dá lugar à sensação de juventude. Olho para os lados tentando decifrar olhares de admiração. O primeiro olhar que vejo é do rosto de meu pai bem perto de mim, sorrindo.

  • Olhando para o céu

    O pai e a mãe acordaram os filhos de madrugada. Traziam a expressão de novidade e fascínio. Andamos até a rua de cima. Vários amigos já estavam aguardando, alguns com colchas e cobertores nas costas. Não me lembro exatamente o ano, foi no início da década de 70, e nem mesmo o cometa que procurávamos. Lembro-me de crianças e adultos na madrugada olhando para o céu.

    A mesma cena de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg. Pessoas sentadas na estrada à noite. As espaçonaves passam num jogo de luzes e cores e desaparecem na escuridão. Spielberg começava a mostrar o seu fascínio por mundos e seres desconhecidos que habitam a mente das crianças. O final de Contatos Imediatos do Terceiro Grau representa o imaginário de quem sempre vasculhou o universo a procura de objetos não identificados. As notas musicais, as pequenas espaçonaves dançando no céu, a gigantesca nave flutuando sobre a terra, o deslumbramento no olhar de François Truffaut (nesse momento, creio, é o próprio Truffaut  e não o cientista que ele interpreta). Cenas inesquecíveis de um filme carregado de otimismo e esperança.

    Em E.T., o Extraterrestre (1982), Spielberg mostrou a saída para o medo e a intolerância que dominam o mundo adulto: o olhar das crianças.  O filme é das fábulas mais ternas de todos os tempos.  Duas crianças de mundos diferentes, quase incomunicáveis, evoluem da estranheza para a amizade. As cenas são mostradas sob o ponto de vista das crianças. E. T. combate a ideologia alardeada pelos antigos filmes de ficção científica produzidos no auge da guerra fria entre EUA e URSS que sempre colocavam os alienígenas como ameaça, o invasor.

    No filme de Spielberg, a ameaça vem dos adultos. Na cena da perseguição, as crianças fogem de bicicleta dos carros da polícia que chega a fazer um cerco à mão armada aos fugitivos. Na edição comemorativa de vinte anos do filme, Spielberg substituiu, usando recursos digitais, as armas dos policiais por walkie-talkies. Achava a violência das armas exagero num filme carregado de lirismo.

    Lirismo que vem da infância do diretor. A bicicleta de Elliot voando na noite e passando em frente à lua é bela referência a Peter Pan. O roteiro de Melissa Mathison e a direção mágica de Spielberg reservaram um final capaz de comover o mais empedernido espectador. Impossível não deixar a lágrima correr na hora do abraço do E. T. em Elliot. No meu caso, algumas lágrimas a mais, carregadas de lembranças: o filme termina com crianças e adultos olhando para o céu.

  • Música do passado

    Marina chegou perto do meu ouvido.

    – Feche os olhos. – ouvi passos se afastando,  ainda sentindo cheiro de cabelos molhados.

    Há quantos anos não ouço esse som. O clique do toca-discos acionado, o braço levantando automaticamente, o LP girando no prato, o primeiro contato da agulha com o vinil, os ruídos da agulha deslizando no vazio até se encontrar com a primeira faixa de música, os acordes se misturando com o chiado no fundo, as caixas de som reverberando. Há quantos anos não ouço essa música.

    O vento de junho denunciava um mês frio. Nessas noites, eu vestia calça e jaqueta  jeans tradicional sobre camiseta de malha, tênis da moda não muito caro, condizente com meu salário de datilógrafo (estamos nos lembrando de coisas que já não existem) e saía andando pela cidade a pé, entre um cinema e outro, entre uma pizzaria e outra, entre um bar e outro, entre coisas assim. Andar pela cidade em noites de inverno. Mãos nos bolsos, ombros caídos, a brisa fria no rosto, flertando com meninas acobertadas nas fachadas dos cinemas.

    Poucos carros passavam em frente ao Cine Amazonas naquele domingo à noite. Pode se passar uma vida e vou me lembrar do glamour de tardes e noites na porta deste cinema, de olhares, de sensações de espera, “ela não vem” e quase na hora de começar a sessão a menina aparece do outro lado da rua. E ficamos nos olhando através dos carros que não a deixam atravessar.

    Eram quase dez horas da noite, eu andava impaciente pela entrada para afastar o frio e o medo de entrar atrasado.

    Carlos e Marina chegaram a tempo, calmos como sempre.

    – Cadê Juliana? – ele perguntou assim que me viu.

    – Ela não vem. Desistiu na última hora, a mãe encheu o saco, disse que isso não é hora de ir ao cinema. Você conhece. Vim sozinho, segurar um pouco de vela. – Marina sorriu daquele jeito que a tornava um encanto.

    Marco e Juliana, Carlos e Marina. Cresceram na mesma rua, brincaram de esconde-esconde, estudaram juntos na escola do bairro, assistiram aos pequenos e grandes filmes deste tempo. Naturalmente, tudo acabou em romance.

    Marina sentou-se entre mim e Carlos. Apagaram-se as luzes, ficou no ar o silêncio respeitoso de amantes do cinema. Silêncio interrompido pela canção de amor dos créditos iniciais.

    A mesma música que escuto agora, mais de vinte anos depois, recostado no sofá, as cenas do filme passando pela minha mente, as lembranças daquele momento se misturando ao cheiro dos cabelos molhados de Marina, tentando e quase conseguindo sentir as mesmas sensações daquela noite no cinema.

    No momento em que a canção do filme tomou conta da sala escura, Marina deixou seu braço roçar no meu, dividindo de propósito aquele estreito braço de cadeira de cinema que parece feito para provocar. Ela mexia o braço lentamente, sua pele na minha pele. Olhei de lado com temor, Marina estava com a cabeça deitada em Carlos, olhos fixos na tela. Ela passou os dedos suavemente pelo dorso da minha mão. Fechei a mão em seus dedos com certa violência, como uma recusa. Ou aceitação. A mão dela relaxou por alguns segundos, mas quando a música estava quase no clímax, Marina de súbito entrelaçou seus dedos entre os meus pelo tempo suficiente para me fazer esquecer.

    No final do filme, quase uma hora da madrugada de segunda-feira, me despedi sem graça do casal de namorados. Um aperto de mão em Carlos, dois beijos no rosto de Marina, bem perto dos lábios, bem perto.

    Vinte anos. Fazia tanto tempo que não via Marina, Carlos já se distanciara há muito. Tudo me vem agora com os cabelos molhados de Marina roçando em minha pele.

    – Você se lembra? – ela me perguntou com seus lábios quase tocando nos meus, a música daquele filme antigo já nas últimas faixas.

  • Alice e a Bruxa do Oeste

    Alice deitou a cabeça em meu ombro e me apertou com força. A Bruxa do Oeste fazia malabarismos com sua vassoura, deixando no céu, em um rastro de fumaça, uma frase de alerta a Dorothy. A reação de Alice às aparições da Bruxa era se aproximar cada vez mais. Primeiro, olhar amedrontado, depois, leves arrepios sentidos no toque dos braços, finalmente, a cabeça apoiada no ombro, as mãos enlaçadas em meu antebraço.

    Pouco depois, o filme ganhou aquele ar soturno, as cores berrantes do Technicolor deram lugar a nuances desbotadas. Dorothy e seus amigos penetravam na floresta mal assombrada em direção ao castelo da Bruxa. Alice tremeu levemente e, pela primeira vez, passei o braço por cima de seu ombro, apertando-a, roçando meus lábios em seus cabelos… Um estrondo ecoou no cinema. Imediatamente as luzes e a projeção se apagaram, a sala ficou às escuras. Gritos temerosos, tumulto, o rosto de Alice em meu peito.

    Pequenos pontos luminosos surgiram nas laterais. Os lanterninhas gritavam “calma, calma”, “não se assustem”, “sem correria”. Em vão, meninos já corriam pelos corredores. Um lanterninha subiu no palco e gritou: “é apenas uma queda de luz, fiquem sentados, fiquem sentados, daqui a pouco a luz volta…”

    Os meninos sossegaram aos poucos, ouvi uma frase solta: “um ônibus bateu no poste aí em frente.” Afaguei os cabelos de Alice. “Vou ver o que aconteceu”. Ela me olhou desolada, talvez pensando na Bruxa do Oeste, se ligando a esses acasos que transformam a simples queda de luz em presságios sombrios. “Não saia daqui”. Ela assentiu com a cabeça e, naquele breve instante de olhos recíprocos, a vontade de buscar o que meus sentidos pediam desde que Dorothy cantou “Over the rainbow”: 

    “Não demoro”. Segui pelo corredor até o banheiro nos fundos do cinema. A janela dava para a Av. Amazonas. Do outro lado da avenida, pequena confusão se formava em frente ao ônibus em cima do passeio. A visão do alto deixava claro o acontecido: o ônibus batera no poste, a frente do veículo estava achatada, como a enlaçar o poste.

    Era fim de tarde de domingo, aquela parte do bairro estava sem luz, escuridão total começava a tomar conta do cinema. Voltei para perto de Alice. Ela estava mais calma, conversava com as amigas. Todos já sabiam do acidente. Alguns minutos depois, o lanterninha subiu novamente no palco e avisou que não poderíamos esperar mais. Pediu que saíssemos do cinema com calma, em fila. Na porta, cada um receberia um ingresso válido para a próxima semana.

    No domingo seguinte, voltei ao cinema sem Alice. Dorothy também não estava comigo. Era outro filme, O Mágico de Oz saíra de cartaz.

    Cerca de quinze anos depois, tarde da noite, apaguei as luzes da sala e coloquei a fita no videocassete. Quando Dorothy começou a cantar “Over the rainbow”, eu já estava nas lembranças daquela tarde. Os personagens entraram na floresta mal assombrada. Assisti finalmente ao resto do filme neste estado insensato a que sou levado por filmes do passado. Dorothy acordou em sua casa no Kansas repetindo “não há lugar melhor do que o nosso lar”. Fiquei ainda um tempo na escuridão da sala, como naquela tarde no cinema da minha adolescência. Tentei, inutilmente, relembrar o gosto dos lábios de Alice.

  • Cartaz de filme

    Eram os primeiros anos da década perdida. Eu saía do emprego na Rua Rio de Janeiro e caminhava pelo centro da cidade até o ponto de ônibus. O centro ainda não tinha todo esse emaranhado de pernas e carros, mas as pessoas já iam para casa com ansiedade. Na Avenida Paraná, trabalhadores, donas de casa, adolescentes se amontovam no final da tarde debaixo das placas azuis: 1505 – 1504 – 1503. Números marcando o destino.

    Quando o ônibus parava, pouco importava sexo ou fragilidade, a pequena multidão disputava a porta do ônibus. O coletivo demorava a arrancar, o motorista insistia em fechar a porta travada pelos passageiros, a vontade de chegar em casa se sobrepondo ao instinto de sobrevivência. Quando a porta fechava, sobrava nos rostos das pessoas a sensação de vitória e desalento. Vitória pelo embarque; desalento pelos cerca de 30, 40 minutos que passariam espremidos, com a sensação de sardinha em lata, expressão comum na época para designar coletivos em horário de pico.

    Várias vezes eu deixava passar um, dois, três ônibus, esperando inutilmente o desafogo da multidão. Passei a adiar minha chegada ao ponto, dando volta pelos cinemas da cidade. Primeiro no Palladium; descia a Goytacazes até o Metrópole; dali pela Afonso Pena, parava no Acaiaca; subia a Tupis com destino ao Jacques; passava em frente ao Tamoios; gastando tempo no fascinante hábito de olhar cartazes de filmes.

    Eu ficava alguns momentos parado no saguão de entrada de cada cinema, olhando as fotos dos cartazes, nomes de atores, atrizes, diretor. Às vezes, anotava a data de estreia à lápis num pequeno bloco. Outras vezes, apenas antecipava na mente o filme, especulando, a partir do gênero, personagens, tramas, desfechos. Bons tempos. Ainda não existia a Internet com trailers, resenhas, críticas e tudo que infesta a rede nessa poderosa estratégia de marketing, acabando com o glamour e a surpresa do cartaz do filme.

    Em um início dessas noites, a cidade se mostrou mais confusa, as pessoas mais ansiosas, o coração me pesou, o futuro pareceu incerto. Parei na porta do Cine Palladium. Em cartaz: Blade Runner – O Caçador de Andróides, de Ridley Scott.

    Comprei ingresso e entrei, sessão quase vazia. Cerca de duas horas depois, quando os créditos começaram a subir pela tela, continuei sentado. As poucas pessoas apressadas tomaram seu rumo. Esperei os nomes sumirem na tela, a música cessar.

    Não me levantei. Aos poucos, foi entrando gente para a próxima sessão. O filme começou novamente. Pensei, posso ficar, mais à noite os ônibus passam vazios. Pensei, posso ficar dentro do cinema um pouco mais.

  • Cine Amazonas

    Foi meu primeiro gesto de liberdade. Andei cerca de cem metros da minha casa até o ponto. Peguei o ônibus, paguei o trocador com o dinheiro contado, sentei-me quieto na janela, diminuto no banco, os olhos na altura do começo do vidro. Esticava vez por outra o pescoço para ver o caminho, certeza de não me perder. Desci na Avenida Amazonas, andei menos de um quarteirão, as mãos nos bolsos da bermuda (um hábito que ficou, mãos nos bolsos) tocando o dinheiro, certeza de não perdê-lo, e entrei no Cine Amazonas. Comprei o ingresso, escolhi uma cadeira mais ao fundo, esperei o início do filme.

    Passou a ser meu programa de domingo, abençoado pela mãe “vai com Deus!, meu filho”. Ir ao Cine Amazonas, sozinho ou em turma de meninos, sessões vespertinas, filmes de censura livre que saíam de cartaz direto para as sessões da tarde da Rede Globo. Era só um programa de menino que descobria as desamarras da vida.

    Com o tempo descobri outros caminhos, outros cinemas. O Alvorada, Guarani, aprendi a andar pelo centro da cidade decorando as ruas do Metrópole, Acaiaca, Brasil, Royal, Jacques, Palladium.  Quando eu chegava em casa, minha mãe perguntava simplesmente “gostou do filme?”. Sabia que eu não tinha me desviado porque sabia que para mim era impossível não ir ao cinema.

    Em cada um desses cinemas, guardo lembranças de filmes. Os Dez mandamentos no Cine Guarani, Nasce uma estrela no Acaiaca, 2001 Uma odisséia no espaço no Pathé, King Kong (ou melhor, Jessica Lange), no Brasil, Guerra nas estrelas no Palladium.

    Do Cine Amazonas, ficaram dois filmes, duas músicas. O primeiro, do fim da infância. Judy Garland cantando Over the rainbow, sonhando em sair da pobreza para uma terra encantada, andando por uma estrada de tijolos amarelos ao lado de amigos, o espantalho sem cérebro, o homem de lata sem coração e o leão sem coragem. Destino, a fantasia do Mágico de Oz. Na verdade, um encontro com eles mesmos, na difícil encruzilhada do medo e desejo de cada um.

    O outro filme, do início da adolescência. Katie está num bar e vê Hubbell, um soldado da marinha americana, dormindo na cadeira, bêbado. As lembranças de Katie tomam conta da tela, junto com os créditos do filme e a música The way we were. Hubbell corre pelo campus da universidade e Katie distribui panfletos políticos. Dois jovens, ela uma ativista ambiental e política, radical, não se rende a uma discussão. Ele, despretensioso e sedutor, se deixa levar pelas festas e garotas enquanto cresce o sonho de ser escritor.

    Anos mais tarde, depois da guerra, no bar, seus caminhos voltam a se cruzar. Vão se amar, se casam, têm uma filha. É um filme de quem sonha e luta pela liberdade individual. No final, eles estão separados por uma rua: Hubbell, saindo de um restaurante que o seu sucesso pode pagar; Katie do outro lado distribuindo panfletos políticos. The way we were, minha adolescente lembrança do Cine Amazonas, filme com um dos títulos mais bonitos em português: Nosso amor de ontem.

  • Tardes de domingo

    “Cuidado com os degraus.” Acomodei minha filha entre os braços de forma que eu pudesse enxergar os lances da escada após o alerta de minha esposa. Meu filho mais velho descera rápido e pude ouvir, à distância, o toque da campainha. Minha esposa descia devagar à frente, duas bolsas penduradas em cada ombro com todos os apetrechos necessários a passeios com crianças pequenas. Fomos os últimos a chegar, o sol batia perpendicular em uma das janelas da sala.

    “Trouxe os filmes?” Respondi ao meu irmão com o olhar na direção da bolsa saliente pelas caixas de VHS.

    “Você tem sessão de filmes antigos?” Era a terceira locadora que eu percorria no centro da cidade, horário de almoço se esgotando. Nas outras duas, apenas filmes comerciais, lançamentos recentes, sucessos de bilheteria do cinema que inundavam o mercado de VHS, satisfazendo um público eufórico com a novidade de assistir a filmes na telinha, sem as amarras de horários, dublagens mal-feitas e cortes para comerciais que a TV impõe. O atendente indicou a pequena prateleira escondida no canto da loja.

    Nas prateleiras dos blockbusters, as capas com fotos e nomes dos filmes em relevo se destacavam, com espaços entre uma fita e outra para deixar todas bem à mostra. Na esquina de filmes antigos, espécie de escaninho acomodava pequenos fichários, com o nome do filme sobressaindo na ponta, acima do orifício que encobria a ficha inteira. Olhei para a distante luz do teto, ajeitei os óculos e comecei a garimpar ficha por ficha, levantando o pequeno pedaço de papel plastificado, buscando na memória nomes de filmes, diretores, atores aos quais meu pai se referia.

    “Gary Cooper e Ingrid Bergman. Você precisa ver este filme. Assisti no Cine Brasil, espera um pouco.” Meu pai voltou pouco depois com álbum de fotografias, remexeu nas páginas e mostrou novamente a foto: ele na porta do Cine Brasil, terno, gravata e chapéu, ao fundo a enorme fila do cinema. “Era o meu programa de sábado, domingo, segunda… olha a fila, repara, todo mundo bem vestido, era um ritual. E os filmes, ah, os filmes…”

    O atendente da locadora pegou as fichinhas, separou as fitas, pensei alguns segundos se voltava à esquina da loja em busca de mais um ou dois filmes. O tempo, tempo e dinheiro eram incertezas nestes primeiros anos de casamento.

    Depois do lanche, o irmão mais velho chamou a família para perto da TV e apresentou a novidade: um aparelho preto, embutido na estante abaixo. Os meninos se acomodaram pelo chão da sala, deixando o sofá para os avós, pais e tios. Coletânea de desenhos da Warner Bros, depois A história sem fim, todos os olhares presos na tela de TV. Ninguém se mexia, às vezes a sala era invadida pelo silêncio expressivo, momento de entrega e suspense, até que gargalhadas das crianças, espontâneas, sinceras, de contágio imediato, percorriam a sala. A tarde de domingo terminou junto com o filme, em poucos segundos as crianças corriam pela casa.

    Busquei outra fita na sacola. Os adultos voltaram a se acomodar, minhas irmãs já com ar de cansaço, minha mãe sentou do lado de fora, preferindo os netos. Meu pai permaneceu no canto do sofá, seus olhos pequenos, desproporcionais diante dos grandes óculos, fitos nos créditos: Gary Cooper e Ingrid Bergman.

    Com pouco menos de meia hora de filme só restavam eu e meu pai na sala. Todos saíram aos poucos. Quando Roberto explodiu a ponte, o contador marcava mais de duas horas de filme. Crianças menores dormiam, minha esposa perguntara por duas vezes a hora de ir embora, minha mãe cochilava na rede. Há algum tempo eu ouvia roncos de meu pai.

    Roberto era o último a atravessar o desfiladeiro, o cavalo desviando dos morteiros dos soldados de Franco. Uma explosão, o cavalo cai, Roberto é carregado pelos amigos até uma saliência e colocado no chão, encostado à rocha, as pernas quebradas.

    São várias lembranças daquela tarde noite de domingo. O pai deitado no sofá, entregue ao cansaço; a mãe cochilando na rede; os irmãos conversando baixo na mesa da sala para não atrapalhar minha entrega ao filme; a esposa em voltas pela casa, vigiando o sono da filha; crianças correndo, jogando videogame no quarto; Roberto, ferido, despedindo-se de Maria. Que meus olhos ainda estejam presos neste domingo é mágica associação da beleza da família assim, espalhada pela casa. E um filme de fundo.

  • As primeiras sessões de cinema

    O pai segura firme a mão da filha caçula ao atravessar a rua. Anda rápido no calçamento de pedras, olha entre um sentido e outro preocupado com carros. Ele sequer olha para trás, pois desde cedo ensinara os filhos homens a se cuidarem sozinhos. Mesmo assim, meu irmão mais velho me prende pela gola da camisa, acelerando os passos ao notar minha distração no meio da rua.

    O trânsito de Belo Horizonte, no início dos anos 70, não era de provocar receios. Adolescentes ao volante sem carteira conviviam com velhos motoristas. Antes dos 14 anos, meu irmão já dirigia o Gordini branco do pai, atravessando a cidade, geralmente à noite, quando guardas de trânsito preparavam os lençóis. Dirigia como experiente motorista, despreocupado, até que a família sentiu o temor da polícia bater à porta.

    Nestes anos de farda no país, o menor sinal de polícia fazia tremer. Domingo à tarde, meu irmão saiu de carro e foi surpreendido poucos quarteirões depois por uma viatura. Apesar dos insistentes sinais da polícia, acelerou o carro, empreendendo uma fuga até a porta de nossa casa. Vizinhos saíram à rua, meninos correram em volta da viatura que parou atrás do Gordini, mulheres assustadas correram a gritar os maridos.

    Meu irmão entrou correndo em casa e o pai, com a tranquilidade que irritava seus adversários mais ferrenhos na porrinha, saiu à rua e entabulou conversa à boca miúda com os dois policiais. Minutos depois, estavam todos sentados no sofá da sala. Na cozinha, a mãe andava de um lado para o outro, sem saber direito onde estava o bule de café.

    Meia hora depois, os policiais trocavam apertos de mãos com o pai na porta de casa. Um deles, ante o olhar atento dos vizinhos, fez uma repreensão severa à qual o patriarca respondeu com promessa de nunca mais deixar o filho roubar seu carro.

    O pai passava o tempo ensimesmado em suas tarefas diárias. O aperto de um parafuso nas velhas máquinas que tanto e tão bem consertava. Os olhos parados na TV em preto e branco, assistindo a desenhos dos estúdios Hanna Barbera. O remexo do garfo no prato de comida de um jeito calmo, como quem não tem mais nada a fazer.

    A língua do pai se soltava depois de um ou dois copos de cerveja, quando, no bar, começava a discutir cinema com um amigo. Os dois passavam horas conversando sobre clássicos do cinema.

    – Qual o melhor faroeste de todos os tempos?

    – Rastros de ódio. – respondia de pronto o amigo.

    – Prefiro Johnny Guitar. – retrucava o pai, bebericando a cerveja. – E a cena de Jane Russell deitada na grama… Quem é mesmo o diretor do filme?

    – Howard Hawks.

    – Não, é o outro Howard… Hughes.

    Homem de hábitos, um deles, levar os filhos todo domingo às sessões matinais do Cine São Carlos, no início da Rua Padre Eustáquio. Ele deixa o carro na Rua Rio Casca e segue na frente com a filha caçula segura pela mão. Os filhos homens andam atrás, enfrentando pequenos desafios da vida como atravessar ruas. O caminho para minhas primeiras sessões de cinema.

    Na porta do cinema, o pai segue até a pequena abertura na parede, protegida por grossas barras de ferro. Ingressos na mão, beija a face da filha, passa a mão nos meus cabelos, fita o primogênito, recomenda:

    – Cuide de seus irmãos. E se comportem. Sala de cinema é um templo, quando a luz do projetor se acender, silêncio… . – à medida que a fila anda, conta pelo menos uma cena do desenho.

    – Vocês vão ver uma das imagens mais impressionantes, nem parece filme infantil. Os abutres voando pelo desfiladeiro… bem, não posso contar o final.

    – Ninguém consegue segurar as lágrimas quando Bambi vê a mãe… deixa pra lá.

    – Você já viu um elefante bêbado? – solta uma risada leve, quase sem som.

    O pai nunca entrava conosco. Voltava para nos buscar perto do horário de almoço.

    Naquele domingo, como de costume, ele espera os filhos passarem pela roleta. Quando entramos no saguão do cinema, o irmão comenta.

    – Uê! Ele não contou nada do filme.

    Assim que sentia os filhos em segurança dentro do cinema, o pai dava meia volta em direção à Rua Rio Casca. Logo depois, a gente corria para dentro do cinema, já participando da algazarra que tomava conta da sala. Naquele domingo, o pai continua parado na porta do cinema. As mãos, como de costume, enfiadas no bolso. Até que, sem mais nem menos, ele grita, desviando o olhar para o cartaz afixado na parede lateral.

    – Ei, ele pode voar.