Categoria: Prosa

  • Oséias

    Seus amigos de infância o conhecem por Enyr de Oséias. Muitos anos depois da época em que se passa essa crônica, a mulher dele ainda ri quando atende o telefone e ouve: “Posso falar com a Senhora Enyr?”. Ela reluta um instante e responde: “Aguarde um instante. Vou chamar o Senhor Enyr”. Mas na distante infância, um nome andrógino não importava para os pequenos amigos. Ele era o líder do grupo.

    Os meninos se reuniam no fim de tarde para peladas de bola de meia. Enyr dividia os times. Os meninos discutiam se naquele dia de verão nadariam na pedreira ou na prainha. A decisão cabia a Enyr. Os meninos caminhavam em pé de guerra para o campo de batalha, rua de cima contra rua de baixo. Enyr à frente.

    Órfão de mãe, era assim a infância, vida de menino do interior, o dia passado entre ruas, rios e brincadeiras. Os irmãos mais velhos, nas vezes em que eram chamados à rua para apartar brigas, acalmar vizinhos exaltados contra aqueles “moleques sem mãe”, reclamavam ao pai Oséias: “O Enyr precisa de uma boa surra”.

    Meu avô Oséias. Nas férias de dezembro, a família saía de Belo Horizonte rumo ao interior. Difícil viagem de três horas nos precários asfaltos da década de 60, mais duas horas de terra, o valente Dodge rompendo buracos, deslizando na poeira ou na lama. Enyr, meu pai, cuidadoso ao volante, conhecedor dos atalhos daquela quase estrada. Quando chegávamos, o avô estava à porta, um sorriso nos lábios. Pegava um dos netos e o envolvia num abraço demorado, o outro, menor, enroscado em sua perna esperava a vez.

    Essas são as imagens que tenho de meu avô, construídas mais pelas conversas com meu pai do que por minhas próprias lembranças. Quando meu avô morreu, eu tinha apenas cinco anos de idade. Imagino as cenas da infância de meu pai no interior como se elas estivessem dentro de mim. Na verdade estão. Carrego memórias de família e hoje escrevo a história que meu pai me contou para que eu conhecesse o meu avô.

    “O Enyr precisa de uma boa surra”, diziam os irmãos mais velhos ao pai Oséias. Nesse dia, quando o pequeno Enyr se sentia merecedor de uma boa surra, sabia que devia retardar sua volta para casa. Entrava em casa já de noite, silencioso. Oséias esperava sentado em sua velha cadeira, na sala, um livro no colo, os óculos na ponta do nariz. Ele levantava os olhos por cima das lentes e dizia, “Se te pego moleque.” Voltava os olhos para o livro, murmurando “Se te pego moleque….”

    Quando ele fechava o livro, a casa já dormia. Meu avô trancava a porta da frente, olhava uma última vez para a rua deserta iluminada por estrelas. Caminhava pela casa, a madeira do assoalho rangendo com as passadas. Passava pelo quarto dos filhos e filhas, olhava um por um, ajeitava travesseiros e cobertas. Por último, entrava no quarto do filho caçula para deixar um beijo de bons sonos no rosto do moleque que dormia.

  • Primos do interior

    A casa dos meus pais, em Belo Horizonte, era também a casa dos primos do interior. E das tias grávidas. As tias chegavam com barriga de nove meses, mãos nas cadeiras segurando todo aquele peso. No dia do parto, a mãe chamava o táxi, apertava a mão da grávida no banco de trás, esperava ansiosa no corredor do hospital, carregava o bebê para o berçário e respirava aliviada. As tias ficavam para o resguardo, depois iam embora, a mãe respirava aliviada de novo.

    Os primos chegavam adolescentes, um ou outro nascera ali mesmo, com timidez do tamanho da cidade de onde vinham. O primo Luiz acabara de completar 18 anos: alto, magro, cabelos louros caindo lisos até os ombros. Era hora de trabalhar, desafogar a mesa dos pais, chegara a sua vez de ocupar o quartinho dos fundos da nossa casa, cômodo de cimento liso, telhado de amianto, apenas uma cama e cômoda para guardar as roupas. A simplicidade a mãe compensava com carinho, lençóis sempre brancos, cobertor quentinho para as noites de inverno, um prato de comida requentada quando ele chegava à noite.

    Emprego na época não era tarefa das mais difíceis, bastava ter disposição e um pouco de instrução. Luiz entrou para o Banco Mercantil de São Paulo. Virou bancário de dia e de noite, pois passou a bater ponto também no salão de festas do sindicato, na Rua Tamoios, quase esquina com Avenida Paraná. E revelou sua criatividade para burlar porteiros em favor dos primos da cidade grande.

    A entrada no salão de festas do sindicato só era permitida para os bancários. Luiz passou gilete na extremidade de sua carteirinha sindical, abrindo um rasgo imperceptível ao lado da foto 3×4. Nas noites de sábado, ele entrava primeiro no salão. Chegava na janela mais distante da escada de entrada e jogava a carteirinha. Meu irmão mais velho pegava, colocava a própria foto 3×4 em cima da outra. Entrava, voltava à mesma janela e jogava novamente a carteirinha. Era minha vez. A foto cuidadosamente encaixada por cima da outra.

    A timidez do primo Luiz não combinava com suas artimanhas. Apaixonado pelo Botafogo e pelo Atlético, creio que na ordem contrária, ele comprou uma cota da Vila Olímpica, na época campo de treinamento dos jogadores do Atlético. A cota dava direito a colocar seus irmãos como dependentes. Luiz chegou na sede administrativa do clube com cópia da certidão de nascimento de três de seus irmãos, junto com três fotos: minha, do meu irmão e irmã. Durante muitos anos, eu e meus irmãos entramos no clube com aqueles nomes estranhos dos primos do interior ao lado das nossas fotos, correndo o risco de nos trairmos ao menor questionamento. Com o tempo, comprei minha própria cota e, orgulhoso pelo nome verdadeiro na carteirinha, continuei a frequentar aquele fascinante espaço, convivendo com meus ídolos do futebol: Toninho Cerezo, João Leite, Marcelo, inesquecível Reinaldo.

    Mas Luiz era menino do interior. Nunca perdeu aquele jeito arredio, as palavras soando lentamente até a quarta ou quinta cerveja, aí as frases saíam aos trambolhões, a gagueira aumentando a cada dose. Ele pediu transferência para uma cidade menor e deixou o quartinho dos fundos livre para outros primos que também começaram a vida na cidade grande, dormindo naquele cômodo de telha de amianto. Nunca reclamaram do calor, das noites de inverno, de uma ou outra goteira no telhado que o pai corria para arrumar.

    O quarto dos fundos da casa de minha mãe já não existe. Deu lugar a uma casa mais ampla. Muitos dos primos não vejo há tempos. Mas agora, nesta madrugada fria de junho, assim que recebo a notícia pelo telefone, penso que o quarto na casa da mãe foi mais do primo Luiz. Afinal, nossas imagens estiveram juntas naquelas noites no sindicato dos bancários, nossos nomes tinham o laço de sangue em todos aqueles sábados na Vila Olímpica. Éramos irmãos.

    Para Luiz Roberto Burgarelli

  • Na hora do almoço

    O termômetro da Praça Sete marca 36 graus. Tempo seco, sufocante, como as pessoas que se aglomeram nos pontos de ônibus, debaixo das marquises das lojas, nas calçadas, esperando o sinal verde para pisar no asfalto quente. A fumaça dos carros se mistura ao suor das pessoas, dos prédios, ao vapor do piche esmorecido, formando uma camada ameaçadora pouco acima de nossas cabeças, ar espesso e claustrofóbico, impedindo o mais leve vestígio da brisa que outrora andava livre.

    Andar pelo centro da cidade na hora do almoço traz essa sensação de ultimato. Andar sem rumo, esperando o tempo passar. Desviar de prédios, de ônibus despejando gente, esbarrando em pedintes, camelôs, executivos, trabalhadores, desempregados, senhoras, crianças, adolescentes – gente despejada.

    Entro no Mercado Central à procura de abrigo, santuário. Almoço um prato feito. Arroz, feijão, bife acebolado, ovo frito, pequena salada.  Três garfadas depois, meu estômago sente o peso da comida. Largo a comida, acabo de tomar a coca cola com gelo e limão. A avó recomendava a todos os netos durante o almoço de domingo, “é pecado deixar comida no prato”. Ela repetia a frase durante todo o almoço, enquanto os primos mastigavam devagar, empurrando sem vontade a comida goela abaixo, temendo um castigo desses que chegam sem aviso.

    Penso em ficar recostado, entregue à tarde sem pretensão não fosse o relógio a lembrar das 14 horas, do cartão de ponto marcando o dia em minutos. Antes de voltar para o trabalho, dou a volta rotineira pelos mesmos corredores, pelas mesmas bancas, encontrando as mesmas pessoas cruzando caminhos já percorridos. É dos mistérios do Mercado Central. Você anda por um corredor, entra em uma encruzilhada para sair poucos passos à frente no lugar que acabara de percorrer e nem percebe que está olhando as mesmas barracas, lojas e quinquilharias que vira há pouco.

    Paro em uma banca, fingindo interesse em um pequeno sino desses que se penduram em porteiras de sítio. Andreia toma uma limonada numa loja em frente, um grande copo de limonada que desaparece quase de um gole. A cabeça estendida para trás, os olhos fechados, o resto de gelo nos lábios. Lábios que trazem, por um momento, gostos passados.

    – Tenho uma surpresa para você. – estávamos estirados na cama molhada de suor. Uma sensação de morte e redenção misturadas à grata irresponsabilidade do prazer vespertino.

    Andreia se levantou, gotas de suor escorriam pelas suas costas, deslizando pelo contorno do corpo até se perderem. Andou nua pelo apartamento sem medo de janelas vizinhas, binóculos, lunetas. Ouvi barulho de geladeira, talheres na cozinha, pequenos estalidos de copos e pratos. Fechei os olhos na tentativa de guardar essas tardes de fuga.

    Quando abri os olhos, Andreia estava ao meu lado com uma grande taça de sorvete coberto com camadas de chantilly. Mergulhados no creme, três morangos de um vermelho inebriante, exagerado como cena de cinema em technicolor dos anos quarenta. As mãos dela se sujaram no chantilly ao levar o morango à boca. Ela deixou metade do morango entre os lábios. Nossas bocas, dentes e línguas se misturaram na doce intimidade

    Só agora reparo em um homem desconhecido ao seu lado. Ele acaba de tomar também seu copo de limonada. Os dois deixam os copos no balcão, se olham despretensiosos, trocam um beijo rápido. Dou graças por ela não se voltar em nenhum momento em minha direção. Assim posso acompanhá-los com o olhar. Caminham pelo estreito corredor do Mercado Central. Andreia com o braço enfiado entre a cintura e o braço do companheiro, como no mais singelo romance de Machado de Assis, até desaparecerem em uma das curvas.

    Recoloco o pequeno sino no balcão. O relógio marca 13h55. Vou chegar atrasado hoje. Não me importa, vou aproveitar um pouco mais esse passar de horas desejando, como brisa que vem das montanhas, outros intervalos.

  • Chuva de setembro

    João Nunes ajoelhou no meio da rua e abriu os braços para o céu, deixando a chuva bater em seu rosto, olhos fechados, agradecendo a dádiva. Depois de três meses de estiagem, a chuva vinha pesada naquela sexta-feira de setembro, pingos grossos formando uma enxurrada densa no canto do meio-fio, a água marrom de tanta poeira das ruas.

    Um carro desviou de João Nunes, desvio tranqüilo, sem buzina, o motorista respeitando aquele gesto solene de agradecimento. Em poucos minutos a notícia espalhou pela rua.

    – O João Nunes tá lá na rua tomando chuva.

    – Vem ver o João Nunes pulando feito menino na enxurrada.

    – Deus do céu! O João Nunes endoidou.

    – Também, com uma mãe daquelas.

    A mãe estranhou quando João entrou esbaforido em casa na noite anterior, pequenas gotas de suor escorrendo pela testa: “Amanhã tem que chover”. Perto dos quarenta e cinco anos, filho único, ele vivia com a velha mãe que insistia em recomendações como: “cuidado com as companhias”, “olha a hora, hein”, “vê se não dorme muito tarde”.

    João foi para o quarto, ligou o computador, passou parte da noite no Google procurando simpatias, magias, promessas, qualquer coisa que fizesse chover na sexta-feira.

    Na sexta-feira de manhã, chegou ao escritório com olhos vermelhos de sono. Olhava da janela o tempo: o céu de um azul desbotado, a paisagem densa de poluição, ar pesado, sequer uma nuvem no céu. Ao sair para o almoço, avisou à secretária que não voltaria à tarde. Em casa, almoçou na frente da TV, esperando a moça da previsão do tempo. “Uma pesada massa de ar quente impede a formação de chuvas no Estado. O tempo deve continuar quente e seco por todo o final de semana.” Ele largou o prato desolado, a mãe colocou a mão na sua testa buscando febre.

    João Nunes foi para o quarto, deitou e adormeceu. O sono durou quase a tarde inteira, como se ele se entregasse de vez à inutilidade (assim ele pensava nesse momento) de sua vida. Acordou com um trovão ensurdecedor.

    Correu para a varanda a tempo de ver as nuvens negras e densas se formando no céu com velocidade de efeitos especiais. Fechou os olhos sem acreditar e, quando os abriu, a chuva repentina já ecoava no telhado da casa. Saiu à rua, ajoelhou e abriu os braços agradecido.

    Alguns meninos se juntaram a ele, pisando festivos nas poças d’água. As velhas donas de casa chegaram à janela, os maridos abriram os portões das garagens, o bêbado no boteco bebeu mais uma em homenagem à chuva. Naquela sexta-feira à tardinha, todos os moradores da rua saíram para ver João Nunes cantando e dançando feito maluco na chuva.

    Todos, menos Sofia.

    Sofia lia tranquilamente O Cão dos Baskerville no sofá quando o mesmo trovão que acordara João Nunes a assustou. Abriu as cortinas, entreabriu a janela o suficiente para sentir o saudoso cheiro de chuva. Respirou fundo, certa do que tinha a fazer. Fechou o livro, foi até o quarto e despiu-se, deixando as roupas caídas no chão, ao lado do espelho.

    Ela enviuvara há cerca de um ano e meio. Seu marido tivera um infarto repentino, caíra morto na garagem a deixando sozinha, os dois filhos já casados.

    Nunca trabalhara, completara o segundo grau pouco antes do casamento. Depois de casada, entregou-se à cuidar da casa e dos filhos. O marido atencioso, amável, vida sem incidentes, atrapalhada apenas pelos cada vez mais longos dias de estiagem. Sofia não suportava o calor, a falta de chuva, passava mal com o tempo seco.

    Quando o marido morreu, continuou sua rotina: a casa, programas vespertinos de TV,  leitura de livros policiais, várias horas passadas na Internet, novela das seis, visitas semanais dos filhos. Vida tranqüila, sem incidentes. Até que João Nunes começou a tocar a campainha.

    No princípio, ele vinha com cortesia saber se ela precisava de alguma coisa, como estava de saúde, “o tempo, deixe o tempo passar minha amiga Sofia.” Depois, pequenos atrevimentos: uma flor colhida no jardim da mãe, uma caixa de bombom, um livro de presente de aniversário. As visitas passaram a ter dia e hora: quinta-feira, às oito da noite. Nada de bebidas, apenas suco e refrigerante, um sentado de frente para o outro no sofá da sala. Amizade tranquila, às vezes perturbada pelo olhar direto,  em silêncio.

    Certa noite, João Nunes falou de sentimentos e atreveu um toque nas mãos. Foi recusado. Insistiu com flores enviadas pelo correio, semanalmente. Versos de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade chegavam ao e-mail de Sofia. Convites para o cinema. Tudo inútil: os nãos de Sofia eram secos e objetivos. Os boatos começaram a circular pela rua, a viúva pensava em dar um basta em tudo. Mas continuava permitindo, sentia prazer naquele jogo e nunca fora mulher de se preocupar com a falação alheia.

    Naquela quinta-feira de setembro, João Nunes chegou pontualmente. Sofia o recebeu com seriedade, estava, naquele dia, atormentada pelo tempo seco. Conversaram sobre pequenas coisas, os olhos dele não conseguindo se esconder do rosto, das pernas, do decote de Sofia.

    – Eu quero fazer amor com você. – Sofia levantou-se ao ouvir essa frase tão cheia de propósitos. Seu marido nunca falara assim, eles eram tão silenciosos.

    Ela chegou à janela. O vento quente de todas as noites, essa primavera sem chuva, esse calor insuportável, esses dias passando como se fossem os mesmos. Sofia voltou-se para João Nunes e prometeu:

    – Se chover amanhã, venha à minha casa neste mesmo horário. Se chover amanhã.

    Enquanto João Nunes sapateava na chuva, Sofia deixava a água morna do chuveiro molhar seu rosto, seus cabelos, seu corpo. Enquanto a rua agradecia feliz o fim da estiagem, contagiada pela alegria incompreensível de João Nunes, Sofia começava o longo e cuidadoso ritual da mulher se preparando para o amor.

  • Noite de lua cheia

    Eduardo acordou e, em poucos segundos, rememorou a noite. Sempre ficava inquieto, cismava, quando ela dizia “é noite de lua cheia”. Com o tempo, descobriu que Marina, em noites destas, anda por outros mundos.

    Ele acorda cedo. Ela, nem tanto. Libertou-se da coberta, notou as manchas de suor no lençol. Lua cheia. Dez minutos de água morna, depois a cozinha, o cheiro de café fresco…

    Ouviu barulho. Foi até o quarto, Marina troca os lençóis, joga a roupa suja de lado. Ela nunca se importou com casa em ordem, coisas jogadas pelo chão. Enquanto ela penteia os cabelos, Eduardo deita na cama apenas para sentir o cheiro de cama e travesseiros novos.

    Sentam-se juntos à mesa da manhã. Café com leite, um bolo de véspera, queijo derretido no pão. Caminham de mãos dadas até a banca. Compram a Folha de São Paulo, uma revista de decoração, outra de cinema.  Jornais e revistas de domingo. Caderno de esportes, cultura, política, rápido olhar pela economia, fotos de casas, de gente bonita do cinema, manhã que passa despretensiosa.

    À tarde, depois do sono leve, um filme. Compram os ingressos, andam pelo shopping, minutos antes da sessão começar, entram. Depois, a praça de alimentação. Eduardo toma chopp, Marina suco de laranja. Percorrem sem rumo algumas ruas da cidade, o carro em marcha lenta, faróis baixos iluminando um ou outro casal de namorados dizendo adeus na porta de casa. Lá pelas nove, estão em casa.

    Ele coloca música, ela prepara algumas bobagens para comer. A pequena cachorra esparramada na sala, jornais desarrumados na mesa, pensamentos indefinidos. Marina está na cadeira de frente para Eduardo. Pega a revista, ajeita os cabelos atrás da orelha, de vez em quando levanta os olhos para o marido com um pequeno sorriso. A paixão pelo cinema invade a casa. Tudo na vida poderia ser como filme: música de fundo, o casal apaixonado trocando olhares, o close demorado, desses que ficam na memória, no belo rosto de Marina.

    Eduardo e Marina ficam se olhando sem saber, o domingo adormecendo, a lua cheia despontando na janela.

  • O primeiro dia da primavera

    É o primeiro dia da primavera. A mãe repousa sob uma paineira. À sua frente, um imenso campo de grama seca, a terra esturricada. Não chove, mas a minha alma está úmida. O declive acentuado do campo termina em um lago artificial, onde casais de patos nadam, sem preocupação, aproveitando a serenidade do lugar, seus movimentos quase nem se notam na água, são patos de cemitério, silenciosos como todos os outros que ali se quietam.

    Em outros campos, a mãe aproveitava o amanhecer, mesmo nesta secura, com enxada na mão, cortando matos que cresceriam à primeira chuva. Não importava. Quando o sol ameaçava, ela se sentava à sombra e, com as mãos, continuava a arrancar as pragas da terra. Vencida pelo sol, a mãe abria um livro à sombra e continuava cuidando do espírito, agora se alimentando de letras e conhecimento. À tardinha, hora de regar, enquanto fazia suas orações. Em suas mãos, plantas vicejavam, flores se mostravam, mesmo a mais reticente muda dava sinais de que despontaria. Mistério, mães carregam mistérios em seus toques.

    É o primeiro dia da primavera. Se ainda pudermos confiar nos desígnios do tempo, chove em poucos dias. Primeiro as torrentes, lavando o pó com violência, provocando correntezas de lama e lixo, acompanhadas de relâmpagos e trovões. A mãe não gosta, desde criança se esconde, não se sabia onde, de relâmpagos e trovões. Depois, a chuva miúda, a molhar a terra de verdade, dias de nuvens, neblina, de almas úmidas. A mãe gosta. Senta-se na varanda, aspira o cheiro bom da terra, deixa seus olhos envoltos pelo verde que toma conta de tudo. Não se importa nem mesmo com o mato, aquele que arrancara dia-a-dia a romper de repente.

    Em pouco tempo, esse campo esturricado estará coberto pela grama verde, as folhas desta paineira vão renascer e cobrir o repouso da mãe. E quando tudo estiver do jeito da mãe, quando uma flor crescer bem ao lado de seu descanso, elevada, serena, ela nos dirá: aquietem seus corações, deixem a alma úmida, pois é bom, mas voltem a sorrir. Vejam como o dia está bonito, voltem a sorrir. Eu amei e fui amada. Nada me falta agora que posso deixar meus olhos na imensidão deste mundo de Deus.

  • O velho na porta do quarto

    Abri os olhos na escuridão da madrugada. Em frente à porta, estas portas de duas bandas dos quartos de casas do interior, estava sentado um velho. Cabelos brancos cortados rentes, roupas cinzas, grossas, sujas, como se acabasse de voltar do trabalho da roça. Estava sentado em um tamborete, baforando seu cachimbo negro, enchendo de fumaça e medo o quarto. A escuridão era total, mas o velho estava ali, na minha frente, como se iluminado por uma luz fraca, recortando-o do negrume do quarto.

    Fechei os olhos, escondi a cabeça debaixo do cobertor. É um sonho, o resto do sonho. Impossível. Era tão real que eu poderia tocá-lo se tivesse coragem para me levantar. Mesmo debaixo do cobertor, que me sufocava cada vez mais, eu podia sentir o cheiro do cachimbo, da fumaça asfixiante entrando pelas frestas da cama. Esperei alguns minutos sem pensar em nada mais a não ser o velho na porta do quarto.

    Coragem. Sou apenas um menino, é hora de mostrar coragem. Para quem? Estou sozinho nesse quarto escuro. Mãe!… Porque esses tios do interior colocam janelas e portas de madeira tão densas, tão perfeitas em seu fechamento que não permitem entrar sequer a luz do poste da rua, tão fechadas em si mesmas que nem a lua cheia dessas noites de inverno consegue deixar um ponto de luz que seja no chão do quarto.

    Coragem. Abaixei devagar o cobertor, tentei acostumar os olhos à densa escuridão olhando primeiro para o teto. Deixei o cobertor na altura do queixo, levantei a cabeça na direção da porta. Respirei fundo, pensei em coisas boas: beijo de mãe, brincar de tico-tico-fuzilado depois da chuva, pegar o boletim na escola com média azul em matemática, dar voltas na praça em sentido contrário à menina que eu tinha certeza amaria por toda a vida. Abri os olhos. A fumaça asfixiante, o velho calmo, bonito, agora vejo, bonito como um avô, continuava sentado na porta do quarto. Imóvel, olhos fixos em mim como se nada mais pudesse fazer. A beleza daquela visão não afastou o medo. Medo cada vez maior. Vontade de gritar, chamar pela mãe dormindo no quarto ao lado, mas só consegui me enrolar debaixo do cobertor.

    Não sei quanto tempo fiquei assim, quanto tempo suportei a falta de ar debaixo daquelas vestes grossas, pesadas, cheirando a guarda-roupa. Não sei se dormi e acordei, dormi e acordei; perdi aos poucos a noção do tempo, das coisas, dos pensamentos, desejava o amanhecer.

    Ouvi o barulho das pesadas janelas de madeira se abrindo. A mãe puxou o cobertor, estranhando aquele exagero todo. “Fez frio essa noite, heim!”. Sim. Frio, medo. Depois o calor debaixo da coberta, o cheiro do fumo, do suor daquele velho, aquele velho sentado ali na porta. As portas do quarto estavam abertas, cada banda encostada em uma parede. A mãe dobrou cuidadosamente a roupa de cama. As janelas deixavam entrar a luz do sol. Toda janela agora tem que estar aberta, entro por ambientes abrindo cortinas, persianas, janelas, abrindo janelas.

    Nunca mais vi o velho da porta do quarto. Às vezes, vejo coisas tenebrosas em meus sonhos e quando abro os olhos o resto me envolve. Fecho os olhos e espero que a imagem desapareça até ficar apenas o medo do que foi, do que pode vir dessas noites incompreensíveis.

  • Natália

    O velho homem acordou com o grito: “Natália”. Abriu os olhos e tentou virar a cabeça para um lado, para o outro, percorrer o quarto em busca de alguém. Alguma coisa prendia seu pescoço, ele podia sentir os tubos enfiados em sua boca e só conseguiu olhar para o alto. Revirou os olhos e vislumbrou as cortinas, mesmo com a visão embaçada pode perceber a cor encardida e gasta do tecido branco.

    – Bom dia Seu Cláudio. Como está passando hoje Seu Tarcísio. É só uma picadinha Seu Antônio… – ouvindo a enfermeira, compreendeu onde estava. De olhos abertos, fitando o teto, esperou ouvir uma voz conhecida, a mão amiga apertar sua mão num gesto de consolo e tristeza. Mas a única presença foi da enfermeira. Ela desembrulhou alguns equipamentos e remédios, disse algumas palavras de carinho enquanto media a pressão, regulava o soro, aplicava injeção, o ritual lento e doloroso de tentar infundir-lhe esperança. Ele voltou a adormecer.

    O frio da tarde do litoral paulista afastou todas as pessoas da orla naquele dia. O dia amanhecera claro, iluminado, depois de três dias de chuva fina e fria. No entanto, o mar estava naquela incompreensível revolta. A ressaca levava as ondas até a parede do calçadão, a água batendo com fúria, espirrando nos poucos curiosos que venciam o medo para ver este espetáculo da natureza, o perigo rondando a explosão de água e espuma, como se mais hora menos hora o mar fosse tomar conta da rua.

    Ele não podia perder. Passou o dia andando pela cidade, indo de uma praia a outra. No fim da praia central, a rua subia por uma colina, local dos apartamentos dos mais ricos. A vista dos últimos andares deve ser esplendorosa, pensou enquanto andava em direção ao topo da colina, onde a rua fazia a curva e começava a descer em direção à outra praia. Na curva, moradores e turistas se reuniam para a vista do mar, quase sempre no final de tarde. Outros armavam suas varas de pescar, equipadas com grandes molinetes capazes de arremessar a linha além das ondas.

    Neste dia, a colina estava vazia. Sozinho, ele esperava o mar bater com violência no penhasco. Chegava então o pescoço sobre a amurada e olhava para baixo a tempo de ver as águas escorregando rochas abaixo, deixando as pedras cor de musgo. Segundos depois, o mar voltava violento, batia no paredão de pedra, respingando em seu rosto assustado que rapidamente recuava.

    No final da tarde, o mar se acalmou, voltou ao seu leito normal, deixando à vista a imensa faixa de areia molhada. O sol frio incentivara alguns poucos moradores e turistas a passear pelo calçadão. Antônio sentou-se no banco da praia central, de frente para o mar.

    Uma menina corria pela areia como se a praia fosse inteiramente dela. A menina sentou-se na praia deserta, pouco se importando com a umidade em sua bunda, em suas pernas. Ela passou a revirar a areia molhada, tentando moldar alguma coisa que ele não conseguia enxergar. Ajoelhada, a menina dava voltas no monte que subia aos poucos, as mãos repetindo o gesto de descer do topo até a base, alisando a areia. Depois, começou a cavar pequenos orifícios dos lados, totalmente curvada, quase beijando o pequeno monumento. Ele imaginou a areia molhada entrando nas unhas da menina, deixando pingos em seu rosto, o vento embaraçando seus longos cabelos.

    A menina ficou uns quinze minutos nessa desajeitada brincadeira. Por fim, se levantou, esticou os braços para o alto, bateu as mãos no peito, nos braços, na bunda, nas pernas, tentando se limpar da areia. Passou a andar por uma pequena extensão da praia, a cabeça baixa, chutando areia com os pés. Às vezes, se abaixava, pegava alguma coisa, olhava atenciosa para a palma da mão, jogava o objeto no chão e voltava a caminhar. Andava até um certo ponto, se virava na direção do mar, caminhava mais alguns metros e voltava na mesma direção, para perto da construção de areia que fizera, percorrendo outra faixa da praia. Assim foi fazendo espécies de retângulos, descendo lentamente em direção ao mar.

    Um casal de idosos parou perto de Antônio. Estavam bem agasalhados, a senhora com o braço enfiado no braço do senhor. Ficaram alguns segundos olhando a menina na praia. A senhora disse alguma coisa bem baixo, ambos sorriram e voltaram a caminhar.

    De repente, a menina começou a correr em direção ao mar. “Natália”, “Natália”. O grito ecoou nos ouvidos de Antônio e só então ele percebeu a jovem mulher sentada em outro banco, poucos metros adiante. Ela se pôs rapidamente de pé, chegou até perto da grade que separava o calçadão da praia, as mãos em concha na boca. “Natália”.

    Antônio fez gesto de se levantar, pensando em correr para a praia, mas a menina parou quase na divisa com as águas e voltou. Ele pode ver, mesmo à distância, a beleza dos olhos infantis procurando a mãe. A menina começou a caminhar lentamente de volta e parou perto da escultura de areia. Começou a chutá-la, espalhando areia para a frente, para os lados, pisou em cima com força, deu alguns pulos, socando a areia. No fim, quase exausta, olhou com um sorriso vitorioso para a mãe. Ela observava preocupada a menina. Os olhos de Antônio ficaram entre a mãe e a menina, que agora estava bem perto da escada do calçadão.

    Antônio levantou-se e começou a andar, um sentimento repentino de solidão. Parou e se voltou a tempo de ver mãe e filha caminhando de mãos dadas, de costas, em sentido contrário a ele. Teve uma vontade incompreensível de gritar “Natália”.

    Esse grito que agora bate em sua mente e o faz despertar na solidão fria e sem vida da enfermaria.

  • O aniversário da menina

    Pensei que era apenas mais um namorado, até que ela anunciou-se grávida. Ela já dissera em conversas reservadas que se chegasse aos trinta solteira partiria para a produção independente.

    A filha nasceu provocando uma revolução naquela mulher. De adolescente rebelde, jovem mais preocupada com festas, bares e noitadas, a mãe caseira, gastando todo o tempo que tinha depois do trabalho com sua pequena.

    O jovem pai era intermitente. Era visto em aniversários, reuniões, depois, sumia. Falavam em casar, juntar, mas não passava disso. Uma noite, na casa da namorada, pediu o carro do futuro sogro emprestado. Saiu, quase madrugada, dizendo que voltaria dali a pouco. Desapareceu durante três dias. Outro pai entrou na história. Ele já conhecia o enredo do filho desde a adolescência e sabia onde encontrá-lo. Partiu para aqueles pontos obscuros que todos temem e muitos insistem em freqüentar. Encontrou o carro depenado, sem rodas, sem ferramentas, sem acessórios. Conseguiu resgatar tudo a custo da experiência em negociações que ganhara nesses casos. Devolveu o carro, pediu desculpas, levou o filho consigo para mais uma temporada em clínicas.

    Revelou-se o segredo daquela luta silenciosa e permanente. O jovem desapareceu durante dois anos. As notícias vinham de seu pai: está no interior de São Paulo. Entre uma clínica e outra, notícias mais desanimadoras: tirou TV, som, até roupas, tirou tudo da casa dos pais. O pai, diziam alguns, entregara os pontos. Nas vezes em que era visto, tinha sempre os olhos tristes, semblante cansado. Logo depois, sabia-se que estava acompanhando o filho, agora em uma fazenda no interior de Minas.

    No aniversário de dois anos da menina, voltei a ver o jovem pai. Contou que estava trabalhando na fazenda e não pretendia voltar para Belo Horizonte. Parecia nervoso, inquieto, andando pela casa atrás da filha. Depois dos parabéns e fotos de costume, ele pediu que todos na festa se reunissem na sala.  Ficou algum tempo calado, depois se levantou  e falou abertamente.

    – Acho que todos sabem do meu problema. Não me arrependo das coisas que fiz, é a minha vida. Arrependo-me do que não fiz, principalmente de não ter visto a minha filha crescer. Tirou as alianças do bolso e fez o pedido de noivado. O pai dele, encolhido no sofá, não tinha os olhos tristes. Pareceu-me muito mais um olhar atento e cuidadoso.

    A menina brincava com sua mais nova boneca no chão da sala, estranhando aquele mundo de gente ao redor. De repente, ela tentou se levantar, tropeçou na boneca quase do seu tamanho e caiu, rosto no chão. Várias mãos acudiram ao mesmo tempo, mas as do jovem pai chegaram primeiro. Levantou a filha, apertou-a contra o peito, embalando-a carinhosamente. A menina ficou ali, no colo do pai, o choro acabando aos poucos.

    Os convidados foram se retirando. O jovem pai foi embora. Foi a última vez que o vi.

  • O bosque das ilusões perdidas

    Quando Luiz Augusto desceu para o escritório, às três horas da madrugada, a casa estava silenciosa, livre da agitada reunião à mesa, cerca de seis horas atrás. Os filhos vieram de visita naquele final de semana. Durante o jantar, os netos corriam em volta da mesa, gritando, trombando uns com os outros, diante dos olhares condescendentes dos pais. A cada grito, Luis Augusto tremia por dentro em uma série de impropérios silenciosos. Respirava e voltava para o prato de massas e o copo de vinho.

    Luiz Augusto cresceu em uma família de oito irmãos, em pequena cidade do interior de Minas Gerais. A família morava em casa de três quartos, os filhos amontoados nos cômodos, a balbúrdia tomando conta da casa até quase meia-noite. Quando todos dormiam, Luiz Augusto abria os olhos e aproveitava o silêncio da noite. Caminhava até o canto da cozinha, atrás da enorme dispensa de madeira, acendia a vela e abria o livro.

    O menino descobrira os livros influenciado pelo tio metido a escritor que o levava à biblioteca e, antes de emprestar um exemplar, discorria sobre as histórias. O Capitão Ahab em sua luta contra a baleia branca. Luis Augusto não entendia o que fazia um homem vagar pelos mares à procura de um peixe. “Baleia é mamífero.” – corrigia o tio. “Bem, se vive no mar, deve ser peixe. E o Capitão é um idiota em perder seu tempo olhando para o mar durante dias e dias à espera de Moby Dick. Afinal, já tinha perdido a perna…” – refletia o jovem leitor.

    De quem Luiz Augusto gostava mesmo era de Sancho Pança. Lendo as histórias do desventurado Quixote e seu fiel criado, o menino gargalhava sem parar. Foi desvendando moinhos de vento que Luiz Augusto descobriu que letras são as verdadeiras asas da imaginação. Pegou gosto e nunca mais largou dos livros.

    No final da adolescência, se mudou para a capital. Na faculdade de direito, lia tudo o exigido e muito mais. Filosofia, sociologia, compêndios legais, história, literatura, poesia. Sozinho, no quarto da pensão onde morava, no centro de Belo Horizonte, devorava todos os livros que precisava para sua formação acadêmica. Terminava a noite com um clássico da literatura jogado no peito, vencido pelo cansaço. Zola, Balzac, Tolstói, Dostoievski, Dickens, Flaubert, Proust, todos passavam pela sua cabeceira e depois eram devolvidos à biblioteca.

    Luiz Augusto se formou primeiro da classe. O esforço rendeu ao advogado brilhante carreira na área criminalista. Trabalhava entre doze e quatorze horas por dia, acumulou considerável fortuna com os casos famosos que defendeu, se casou com a filha de um médico famoso.

    A carreira cobrou um preço caro: júris abarrotados de gente, profusão de microfones nas saídas dos tribunais, salões apinhados de signatários da alta sociedade se empanturrando de conversa fiada, vinho e quitutes. A cada tormento diário, o advogado só pensava em chegar em casa, se trancar no seu escritório, acender a luz do abajur da mesa, abrir um romance e se deixar, à meia-luz, em seu frágil momento de solidão.

    Vieram os filhos, quatro, com eles a algazarra, a irritante necessidade de gritar enquanto correm no quintal, ao redor de mesa ou em qualquer outro cômodo da casa, até mesmo no escritório do pai. Luis Augusto já não podia mais trancar a porta, pois vez por outra bateria uma bola, uma boneca, um pedaço de pau, a cabeça de um dos filhos arremessada pelo irmão, e, pior de tudo, os punhos da mulher exigindo que o pai tomasse uma atitude contra aqueles delinquentes infantis. O jeito então foi passar a ler de madrugada. Acordava às três horas e caminhava na surdina para seu escritório.

    O custo novamente foi alto: um enfarte aos 55 anos. Como não podia diminuir o trabalho e as altas rodas da sociedade, que, no caso, estão relacionados, eliminou o restante que preenchia sua vida. O escritório passou a ficar fechado por fora.

    Até que um dia, visitando um cliente em um condomínio na Serra do Cipó, se encantou pela solidão da vista das montanhas. O advogado tinha 60 anos quando comprou a casa na Serra, escondido de todos, até mesma da mulher. Adotou a casa como seu refúgio. Durante um dia no meio da semana, acordava cedo e dirigia por quase cem quilômetros até sua casa na montanha. Passava o dia entre seus livros.

    Quando se aposentou, saiu de casa em uma madrugada de segunda-feira. Deixou bilhete de despedida para a mulher. Na subida da serra, em uma das curvas da estrada, parou o carro, desceu para olhar a vista. O sol amarelo nascia atrás das montanhas. Nuvens esparsas recortavam o céu. Teve um desejo repentino de explodir a estrada, fechar a passagem do desfiladeiro, se houvesse. Diante da impossibilidade, se sentou à sombra da árvore e abriu o livro. O dia já ia pelo meio quando Luiz Augusto terminou de ler O bosque das ilusões perdidas.

  • O cavalo malhado

    Naquele dia, as mãos do velho Antônio tremeram um pouco mais ao colocar a fita cassete no aparelho de som. Ele levou as mãos ao coração, respirou fundo. A tremedeira vinha aumentando, mas o médico o confortara: “idade, esforço de um ou outro dia mais agitado, você não pode mais trabalhar tanto no sítio”.

    Antônio sentou-se na varanda como fazia todo final de tarde. Levantou a mão esquerda até a altura dos olhos. Ainda tremia. Culpou a emoção da hora, a voz de Frank Sinatra, talvez.

    Aquela hora merecia trilha sonora. Elvis Presley, Nat King Cole, Frank Sinatra, Billie Holiday, vozes do entardecer. Antônio ficava na varanda sozinho com a música até o sol se esconder no morro em frente. Às vezes, um passante, morador como ele daquela pequena vila, o cumprimentava da estrada. “Boa tarde, seu Antônio.”. Ele respondia com aceno de mão, balançar da cabeça, sem dar muita conversa, temia que o vizinho se achegasse e perturbasse seu momento. Gostava de ficar sozinho com a música, olhando o entardecer.

    No morro em frente, cerca de quatrocentos metros distantes da casa, ficavam as cocheiras dos cavalos da fazenda-laboratório especializada na produção de soro antiofídico. Da varanda de sua casa, Antônio podia ver os cochos onde os cavalos se reuniam no final da tarde para comer. Ele lamentava animais tão belos servindo como cobaias para veneno de cobra. Maldizia os cientistas, pensava no veneno circulando nos animais, depois a sangria, outra sangria, mais e mais sangue sendo retirado até o cavalo se extinguir. Ele imaginava o cavalo deitado na grama, as patas esticadas, a cara de lado na terra, a imensa força daquela vida deixando de existir.

    “Old man river, that old man river …”. Antônio deixou a canção tomar conta, os olhos fixos no morro. Alguns cavalos pastavam, outros afundavam as cabeças nos cochos. De repente, um dos cavalos empinou, as patas dianteiras cortaram o ar, a cabeça fazendo movimentos circulares. O cavalo malhado ficou por alguns segundos suspenso no ar, as patas traseiras suportando todo o peso enquanto o relincho estridente ecoava no morro. Os cavalos pararam de comer, todas as cabeças se levantaram ao mesmo tempo, os que descansavam ficaram alertas, detrás das árvores surgiram dezenas de animais, a agitação tomou conta do morro. Em instantes, a tropa fez um círculo em volta do malhado que continuava no seu ritual de patas, cabeça e relincho.

    Antônio não tirava os olhos da fazenda. O malhado saiu em disparada na direção do topo do morro. O que se viu foi quase um balé. Os cavalos abriram passagem para o malhado e saíram em sincronia perfeita atrás do líder, sem atropelos, sem confusão, primeiros os da frente, à medida que se abria espaço os outros seguiam até que todos estavam correndo na mesma direção, formando fila de três, quatro cavalos correndo lado a lado.

    O velho Antônio não podia acreditar. Tentou imaginar quantos cavalos, cinquenta, cem, talvez mais, seguindo o malhado. Eles correram por cerca de dois quilômetros até o alto do morro, o barulho das patas batendo na terra, ecoando como um trovejar, o estouro de uma manada. No alto do morro, o malhado fez um movimento circular, inclinando bastante o corpo para não diminuir a velocidade, e desceu, a tropa seguindo seus passos, marcando uma trilha no meio do mato. Os cavalos desceram até perto das cocheiras, contornaram as edificações, cada um pisando na pegada do outro, sequer um atropelo, o malhado à frente. Numa carreira desabalada subiram novamente o morro até o ponto exato onde fizeram a primeira volta e refizeram todo o caminho.

    Os cavalos repetiram o galope, subindo e descendo o morro três vezes. Em alguns momentos, quando passavam pela terra batida sem grama ou mato, a poeira cobria grande parte da tropa. Logo à frente, os cavalos emergiam da fumaça marrom como se tudo aquilo fosse meticulosamente planejado pelo mais talentoso dos coreógrafos.

    Depois da terceira volta, o líder diminuiu as passadas perto dos cochos. O malhado resfolegava, trotando em passos largos, ditando o tom de descanso para a tropa. Ele parou no meio de uma clareira, as cocheiras ao fundo, uma fileira de árvores à sua frente. Os animais começaram a se dispersar. O sol desaparecera deixando a tarde com uma luz difusa. Antônio pode ver ainda o malhado com a cabeça erguida, contemplando sua tropa, imponente, orgulhoso.

    Antônio não tirava os olhos do morro na esperança de ver uma vez mais o longo tropel dos cavalos, ver pela última vez aquela cena que nunca mais se repetiria em sua vida. Aquela cena que contou a filhos, netos, amigos e muitos, claro, duvidaram. Na confusão de luzes entre o entardecer e a noite, Antônio divisou poeira levantando na estrada logo abaixo do morro. Acompanhou com os olhos a poeira até enxergar o carro fazendo o contorno na estrada e se dirigindo em direção à sua casa.

    Quando o carro do filho passou bem em frente à varanda, Antônio enxergou com toda clareza sua companheira há quase cinquenta anos sentada no banco de trás, brincando com os netos. Antônio levantou a mão esquerda, um aceno trêmulo, mais trêmulo agora. O tremor do velho homem diante do inesperado da vida.

  • O fantasma da estrada

    Prontos para ouvir uma história de fantasma? – meu irmão levantou as sobrancelhas, eu me recostei na cabeceira da cama, puxei a coberta até perto do queixo, deixando apenas o rosto e os olhos arregalados de fora.

    O pai sentou-se no pé da cama. O quarto era pequeno. O espaço entre as duas camas era a conta da mesa de cabeceira onde meu irmão deixava o velho radinho de pilha ligado bem baixo. Era um quarto apertado de uma casa pequena, situada naqueles conjuntos populares que realizavam o sonho-casa-própria da classe média no milagre econômico dos anos 70..

    – O pai tinha um sítio, distante cerca de três quilômetros da cidade. Lá para os lados de São Vicente do Grama. Era noite de lua cheia, dessas luas que deixam a gente com vontade de ficar deitado na grama olhando o céu. Era sábado, tinha festa na cidade. Com barraquinha, fogueira de São João e muita gente dando voltas na praça. Já contei pra vocês que na minha cidade os homens davam voltas na praça em sentido contrário às mulheres? – Meu irmão fez sim com a cabeça três vezes.

    – Fazia muito frio. Vesti a minha calça Lee novinha em folha, camisa listrada e jaqueta jeans. Eu tinha uns 15 anos e costumava fazer o caminho da estrada no sábado à noite. Nessa noite, prestem bem atenção, a lua estava cheia, tomando conta do céu. O vento passava pelos bambuzais da beira da estrada num chiado sem fim, indo e voltando. Uhhhh… Uhhhh…. mais ou menos assim. Eu conhecia cada buraco, cada curva da estrada. Se fosse durante o dia, eu daria uns galopes para encurtar o tempo, mas, à noite, todo arrumado pra festa, não podia ficar suado, não é mesmo?

    – Comecei a andar devagar, o pensamento solto… De repente, logo depois da primeira curva, quando a mata na beira da estrada ficou mais fechada, ouvi um barulho bem leve. Uma espécie de toc, toc. “Deve ser algum bicho na mata”, não me preocupei. Continuei andando, ainda ouvindo o barulho. Toc, toc, bem baixinho. Toc, toc. Parei durante alguns segundos, olhei para os lados, estiquei os ouvidos. Nada. Nem um pio, apenas o barulho do vento. – Eu me inquietei na cama. O pai fez uma pausa, respirou fundo.

    – Voltei a andar. Toc, toc. Parei de novo e nada. Olhei para o céu, nuvens passavam na frente da lua. Comecei a andar mais rápido, não que eu estivesse com medo, vocês sabem, não tenho medo de fantasmas, bichos, essas coisas. O barulho aumentava junto com minhas passadas. Outra curva da estrada. Parei. O barulho também.

    – “Tem alguém aí?” Gritei e só ouvi o eco da minha voz. Senti um calafrio de cima em baixo com aquela voz estranha batendo nos meus ouvidos. Olhei para os lados, pra frente, pra trás. Procurei no chão alguma pedra, achei um pedaço de pau. Voltei a andar segurando o porrete na mão. Os passos cada vez mais rápidos e o barulho perto de mim. – Meu irmão se mostrou mais interessado, chegou  a ensaiar uma pergunta, mas o pai fez um gesto com a mão como a dizer: espere.

    – Pensem bem. A estrada deserta, mata fechada de um lado, do outro um grande descampado. A lua de vez em quando sumia atrás das nuvens e o escuro tomava conta. E aquele barulho. Não era um barulho distante, era ali, ao meu redor. De passos rápidos, passei a pequenos galopes. Toc, toc, toc, toc, toc….. O suor escorria pelo meu rosto. Parei em uma grande reta. Olhei de novo pra tudo quanto é lado. Nada. Ninguém. Nem uma vivalma. Barulho nenhum, até o vento agora se fora.

    – Voltei a correr, agora uma corrida destrambelhada. Toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc. Tropecei, caí de bruços na terra. Fiquei alguns segundos com a cara encostada no chão pensando, é agora. Mas nada, só o silêncio. Respirei fundo, sentindo uma leve dor na mão. Tentei me levantar, minhas pernas não responderam.

    – Contei até três e me levantei de supetão, saindo numa correria pela estrada. Toc, toc, toc, toc. Passei pela ponte que marca a entrada da cidade. Eu não aguentava mais, minhas pernas pareciam nem existir de tanto cansaço. O ar entrava e saía pela minha boca, pelo meu nariz.. – O pai parecia cansado mesmo. Ele respirou pausadamente e esperou um tempo antes de voltar à história, aumentando a nossa ansiedade.

    – Atravessei a ponte e entrei em desabalada carreira pela rua principal. As luzes fraquinhas dos postes me tranquilizaram um pouco. Parei curvado debaixo de um poste, as mãos sobre os joelhos. Prestei atenção, não ouvi mais o barulho. Sentei-me na escada da porta de uma das casas. Aos poucos fui recuperando o fôlego, o cansaço diminuindo, só as gotas de suor não paravam de escorrer pelo meu rosto. Eu sentia as costas também empapadas de suor. Tirei a jaqueta jeans. Minhas mãos ardiam, esfoladas da queda na estrada. Olhei para minha calça Lee novinha. Estava suja de terra. Comecei a bater as mãos no tecido, tentando tirar a poeira. Comecei pelas coxas, as duas mãos espanando a poeira. Fui descendo até chegar nas canelas. A calça tinha bocas largas, quase cobrindo os sapatos. Comecei a bater nas barras. Toc, toc. Parei de bater. Voltei a bater. Toc, toc. Bati com mais força. Toc, toc, toc, toc. – O pai viu um sorriso no rosto do meu irmão.

    – Levantei-me maldizendo a minha ignorância e voltei a caminhar em direção à praça da cidade. A jaqueta jogada no ombro. Toc, toc. Olhei para as pernas. As barras das calças batendo uma na outra. Toc, toc, toc…

    Permaneci em silêncio, meu irmão comentava a história animado. Eu pensava naquela estrada longa, deserta e enluarada. Pensava no pai correndo, perseguido pelo fantasma. O pai parecia na dúvida, perguntou se eu entendera o final. Talvez tenha pensado: “quando ele crescer um pouco mais…”

    Pouco importava. Era apenas mais um conto do meu pai. Com o tempo, aprendi que estas noites que o pai passava sentado ao pé da cama dos filhos ajudaram a definir a minha própria história.

  • Cadeira cativa

    Beto. Você já viu Cinema Paradiso?” Demorei a identificar quem era ao telefone. A voz do pai estava diferente, emocionada, como raras vezes eu ouvira.

    “Ainda não pai. É bom?”

    “Depois que você assistir a gente conversa.”

    Pais costumam contar as mesmas histórias aos filhos. A pergunta “já te contei a história ….” é a deixa para repeti-la, sempre com um toque a mais. Das memórias do meu pai, a cadeira de cinema com corrente e cadeado é quase surrealista.

    Ele nasceu em Jequeri, pequena cidade da Zona da Mata. “Com exceção de certos usos, todas as cidadezinhas se parecem”, escreveu Balzac em A mulher Abandonada. Na cidade do pai, a igreja fica na Praça Central, imponente, é vista de qualquer ponto. Nas noites de sábado, depois da missa, os mais velhos tomavam o rumo de casa, os jovens iam dar voltas na praça até cansar. Homens andando em um sentido da rua, mulheres em sentido contrário. As mais recatadas faziam o sinal da cruz ao passar pela porta da igreja. Mas nem a ameaçadora cruz da igreja tomando conta do céu era capaz de impedi-las de se entregar ao doce pecado do flerte.

    “Ali ficava o cinema.” Disse o pai certa vez, apontando a casa do padre, na praça, do outro lado da rua. Meu pai era o caçula de uma família de oito irmãos. Desde cedo, os filhos homens de Oséias dominaram duas instituições da cidade: tocavam na banda e trabalhavam no cinema. Meu pai, pequeno ainda, acompanhava admirado os irmãos tocando trompete, trombone e clarinete pelas ruas.

    “Mas eu gostava mesmo era do cinema. Eu era o único menino da cidade que não pagava ingresso e tinha cadeira cativa. Seu Tio Zezé era o projecionista. Seu Tio Nadir, porteiro. Eu contava nos dedos os dias para ver os seriados de Flash Gordon e Buck Rogers na sessão de sábado. Chegava sempre em cima da hora. Seu tio me deixava passar pelo lado da roleta. A sessão já estava lotada, os meninos gritando, pulando, jogando papéis nos outros. Eu andava calmamente no meio de todos até a primeira fila, às vezes tropeçando em um ou outro sentado no chão. Na frente de todos, tirava a chave do bolso, abria o cadeado e desenrolava a corrente dos braços da cadeira. O Tio Zezé só começava a sessão quando eu me sentava. No dia em que eu chegava atrasado, o filme demorava a começar. Enquanto morei na cidade, ninguém mais sentou naquela cadeira, na primeira fila. Se eu não fosse ao cinema, a cadeira ficava vazia, fechada a corrente e cadeado…”

    Saí tarde da sessão de Cinema Paradiso. Era noite de inverno, fiquei parado alguns minutos em frente ao cinema, as mãos cruzadas apertando a blusa no peito. Depois de assistir à Cinema Paradiso é quase impossível não pensar na cena do cineasta Salvatori vendo a edição das cenas cortadas de beijos. Mas outras cenas se confundiam na minha cabeça: meu pai menino chegando na porta do cinema, Tio Nadir passando a mão em sua cabeça e deixando-o entrar sem pagar; Tio Zezé na cabine espiando pela abertura o irmãozinho tirar a corrente e sentar-se; um bando de meninos gritando e pulando de emoção a cada cena do filme naquela cidadezinha do interior.

    No outro dia, passei na casa do pai.

    “Pai, fui assistir Cinema Paradiso ontem.” Ele esperou alguns segundos, os olhos brilhando.

    “Já te contei a história da minha cadeira com corrente e cadeado no cinema?”

  • O cinema e o silêncio

    A máscara negra desceu sobre o rosto deformado de Anakin Skywalker. Certos closes tomam conta dos nossos olhos e do que eles escondem. No final de A Vingança dos Sith, a máscara de Darth Vader dominou o cinema através do mais completo silêncio.

    Em 1980, entrei no cinema tentando dominar a ansiedade que me persegue desde a década de 70, antes de cada filme da série Star wars. Naquele ano, o filme ainda era chamado de Guerra nas estrelas e parecia a história de Luke Skywalker, guerreiro estelar, samurai, pistoleiro e piloto de combate. Dentro do cinema lotado, os adolescentes gritam e assobiam a cada batalha de O império contra-ataca. Impossível ficar indiferente diante do idealismo místico de Luke e do romantismo cínico de Hans Solo.

    Luke Skywalker finalmente se encontra com Darth Vader. Eles duelam pelos corredores da Cidade das Nuvens. A cena é famosa. Um dos vilões mais lembrados do cinema decepa a mão do herói, o jovem cavaleiro jedi procura fugir mas tem abaixo o abismo. Luke agarra-se como pode, a dor estampada no rosto. Darth Vader estende a mão para ele e numa frase revela o segredo da saga.

    Não sei quantas pessoas cabiam naquele velho e grandioso cinema que guardava o glamour da sétima arte: tapetes vermelhos, dois andares, escada em caracol, tela de 70 mm. Quando a câmara deu close em Darth Vader e a voz impiedosa de James Earl Jones invadiu o cinema, nada mais se ouviu. Nem um som, nem um suspiro. O fascínio da revelação se traduziu em completo silêncio.

    A vingança dos Sith encerra uma história de seis filmes. História que perdeu muito da magia e ganhou efeitos visuais espetaculares, que trocou o glamour por uma franquia milionária, a marca Star warsA vingança dos Sith invadiu metade dos cinemas no mundo inteiro, domina jornais, revistas, programas de TV e a sempre inquietante Internet, que acabou com a sensação de ser surpreendido por uma frase tão banal quanto “Eu sou seu pai”.

    Mas dentro do cinema, quando a máscara de Darth Vader tomou conta da tela, o silêncio era o mesmo de 1980.

  • Os filmes do meu pai

    Lembro-me de minha mãe perguntando quando eu era criança, “quando você crescer, vai ser o que?” Eu respondia seco e direto, “escritor”. A mãe sorria. Lembro-me de meu pai perguntando, “o que você mais gosta de fazer?” Meus pensamentos conflitavam durante alguns segundos antes da resposta, “futebol e cinema”. O pai sorria.

    Quem acompanha com paciência esse blog intermitente percebe que aqui se juntou escrever com cinema. Escrever sobre cinema acabou se tornando um reencontro. Um reencontro com domingos de manhã, quando o pai me deixava na porta do Cine Progresso para uma sessão da Disney. Um reencontro com noites de sábado quando, já adulto e casado, eu passava na casa do pai e nossas conversas terminavam no cinema – geralmente depois de esgotar todos os comentários sobre o Atlético.

    – Pai, esse final de semana assisti a Viva Zapata!

    – Com Marlon Brando e Anthony Quinn.

    – E o diretor?

    – Elia Kazan. – respondia o pai, sorriso no rosto, orgulho de cinéfilo que lembra nomes de atores, atrizes, diretores, filmes com a exatidão de uma prece.

    Meu pai falava do Cine Brasil como um templo. Os fiéis de terno e gravata enfileirados na porta, esperando para ver deuses como Ava Gardner, Ingrid Bergman, James Stewart, John Wayne, Greta Garbo, Burt Lancaster, Humphrey Bogart, Marlon Brando, Montgomery Clift, Sofia Loren ….

    Meu pai amava Os brutos também amam e Casablanca. Meu pai amava o Atlético Mineiro. Meu pai nadava com a elegância de Johnny Weissmuller. Meu pai era um homem quieto e silencioso. Meu pai foi confundido há muitos e muitos anos com um ator de cinema americano, pois estava de chapéu e capote debaixo de uma marquise numa noite de chuva e foi assim que minha mãe se apaixonou. Meu pai sentava-se a meu lado todas as noites de segunda-feira na distante década de 70 para ver Jornada nas Estrelas. Meu pai amava filmes de faroeste, John Ford e Alfred Hitchcock. Meu pai adorava Frank Sinatra, Elvis Presley e Nat King Cole.

    Escrevo sobre meu pai agora no passado. Mas sei que tudo dele está em mim. Daqui a alguns dias, quando a dor se acomodar em algum lugar do coração, vou voltar a assistir os filmes que tanto amávamos. E com saudade vou sentir vontade de dizer.

    – Pai, vi Johnny Guitar. Com Joan Crawford, Sterling Hayden e Mercedes McCambridge. O diretor é Nicholas Ray.

  • Livrinhos de faroeste

    Era sábado, pouco depois do meio-dia. Peguei os chumbinhos, fui até o quintal, encostei no muro uma latinha, voltei para o lado oposto e armei a espingarda. Mirei devagar e aproveitei, por instantes, a sensação do pequeno Joe na clássica primeira seqüência deShane (1953). Puxei o gatilho. O estampido seco ecoou na cozinha, nos ouvidos de minha mãe.

    Ouvi o grito às minhas costas: “Menino, onde você arrumou essa coisa?”. “Presente do pai.” Ela olhava sem entender. O que se seguiu foi uma discussão entre pais que varou a tarde e me impediu de dar outros tiros. O pai dizia que avisou a ela sobre a tal espingarda de aniversário. A mãe jurava que  quando ouviu “espingardinha de chumbo” acreditou se tratar de um brinquedo, nunca imaginou que aquilo atirava de verdade.

    Mas foi a própria mãe quem me apresentou ao fascinante mundo do western, inclusive me presenteando com revólveres de espoleta. Minha mãe amava filmes de faroeste. Spaghettis italianos então, nem se fala. “Gosto mesmo é quando o mocinho mata três ou quatro de uma vez num duelo”. E emendava dizendo da paixão por Burt Lancaster e Kirk Douglas, notórios galãs de fitas de mocinhos e bandidos.

    Ela me passou essa paixão associada a outra grande herança: o gosto pela leitura. Pelo menos uma vez por semana, íamos a casa de seu irmão buscar livrinhos de faroeste para ler. O tio abria o guarda-roupa onde guardava pilhas e pilhas daquela literatura descartável, escrita em série por autores desconhecidos, a maioria assinando com pseudônimo. As tramas giram em torno do mesmo assunto: ladrões de gado, tenentes do exército e índios, vinganças familiares, assalto a bancos, cidades assoladas por bandoleiros e o pistoleiro solitário com sentimentos nobres para salvar a cidade.

    Eu e a mãe líamos pelo menos uns dois por semana e voltávamos para buscar mais na casa do tio. Daí para as sessões da tarde que não se cansavam de reprisar sempre os mesmos westerns foi um salto. Assistíamos juntos, fascinados.

    Com o tempo, a mãe se acostumou aos meus tiros em latinhas de conserva e tudo o mais inanimado que pudesse servir de tiro ao alvo. Às vezes, após um estrondo maior, eu ouvia um suspiro vindo de dentro da casa e a imaginava no gesto solene do sinal da cruz.

  • Cena de cinema

    “Ele é igualzinho aquele ator de cinema.” A irmã deu um pulo da cama assim que Alice entrou aos gritos pela janela.” “Quem?”  “Aquele ator de cinema… do filme que assistimos na semana passada. Vem, vem ver.”

    As irmãs dormiam no quarto voltado para a rua, bastava abrir a janela e o movimento estava bem ali. Vez por outra elas se assustavam quando, deitadas na cama, a modorra quente da tarde, abas da janela de madeira abertas, um amigo assobiava, outra amiga pulava de repente no meio do quarto às risadas.

    Era assim a vida das meninas: debruçadas na janela, esperando um rosto novo, diferente dos rapazes que passavam três, quatro vezes por dia em frente a casa. No sábado à noite, davam voltas na pracinha da igreja, moças em sentido contrário aos rapazes, olhares se cruzando até enjoarem um do outro.

    Alice, mal completados 16 anos, era dois anos mais velha do que a irmã. Há algum tempo elas ludibriavam o horário das nove da noite, estipulado pelo pai, de entrar em casa e se recolherem. Pouco depois das dez, quando a noite encobria com o silêncio aquela casa austera, as meninas destrancavam a taramela da janela e pulavam de volta para a praça.

    Naquele sábado chovia como se o céu se desprendesse. Quando Alice entrou esbaforida, encharcando o chão do quarto, repetindo “igualzinho aquele ator de cinema”, a irmã pensou em chamar a mãe para detectar febre na filha. Dedos benignos de mãe, bastava um toque na testa e, pouco depois, compressas de água refrescavam.

    Alice juntou a irmã pelas mãos e, quase sem perceber, as duas estavam no passeio da rua, a chuva caindo pesada nos cabelos, nos ombros. “Corre, senão ele vai embora. Olha lá, olha lá…”

    Do outro lado da rua, debaixo da pequena marquise de uma das entradas da igreja, um rapaz se escondia da chuva. Apesar do cedo da hora para sábado à noite, a praça estava deserta. A irmã forçou a vista: o estranho vestia um sobretudo cinza, caindo até abaixo dos joelhos. Uma das mãos estava no bolso, a outra, pendente ao longo do corpo, deixava ver brasa entre os dedos. Ela acompanhou o estranho erguer o cigarro até os lábios. A luz fraca do poste impedia que as meninas vissem os traços do rosto. No breve instante em que o cigarro tocou os lábios e a brasa refletiu com um pouco mais de intensidade, o clarão de um relâmpago iluminou a noite, ajudando as meninas a vislumbrarem um rosto moço, moreno, o chapéu escuro encobrindo a cabeça.

    “É ou não é igualzinho… o moço que falou tanto coisa bonita no aeroporto.”

    Quando viu as irmãs, o estranho tirou lentamente o cigarro dos lábios, soltou uma longa baforada e arredou pé de debaixo da marquise, sentindo a água da chuva bater com força na aba do chapéu. Deixou o cigarro cair no chão e, agora com as duas mãos nos bolsos, atravessou lentamente a rua, provocando sobressaltos nos seios da adolescente Alice, como naquelas noites em frente à tela grande do cinema.

  • Minha bela Jimena

    Quando chego em casa à noite, Jimena me espera no portão. Ela ouve o barulho do carro de longe e começa a latir. Abro o portão da garagem e a encontro dando voltas no jardim, feliz, saudosa de afagos, chorando mansamente de ansiedade, pedindo atenção na noite.

    Ela chegou onze anos atrás, da raça pastor-alemão, inquieta, andando pelos cantos da casa, reconhecendo o lugar, marcando espaço. Deitou-se, o focinho entre as patas, esperando o nome. Carlos Heitor Cony tinha uma setter chamada Mila, homenagem à rua onde o escritor Franz Kafka morou em Praga. Como minhas maiores viagens são através dos livros e filmes, minha homenagem foi para uma das lembranças visuais mais arrebatadoras da minha infância: Sophia Loren no filme El Cid (1961), de Anthony Mann.

    Quando a mãe permitia, eu ficava assistindo a filmes de madrugada. Ainda sem vídeos e DVDs, minha única opção era a famosa Sessão Coruja da Rede Globo. Eram noites de sono perdidas para conhecer alguns clássicos do cinema, exibidos sempre depois da meia-noite. Em uma dessas madrugadas da década de 70, conheci a história do lendário herói espanhol Rodrigo de Bivar (Charlton Heston), apelidado El Cid pelos muçulmanos.

    O filme El Cid é o típico representante do gênero épico que fez muito sucesso até a década de 60 no cinema americano. Fotografia em technicolor, cenas de batalhas grandiosas, astros hollywoodianos interpretando personagens mitológicos (o próprio Charlton Heston fizera, dois anos antes, Ben-Hur), uma bela história de amor como pano de fundo. Era a época dos grandes espetáculos, dos grandes filmes, do grande cinema.

    Época das grandes atrizes, daquelas que tomavam conta da tela e de quem estava fora dela. Basta o primeiro fotograma de Sophia Loren em El Cid para entender a beleza do filme. Ela é Jimena, uma nobre da corte espanhola, noiva de Rodrigo de Bivar, antes dele se transformar no herói que vai libertar a Espanha dos muçulmanos.

    No auge da fama, a italiana Sophia Loren carregava vários adjetivos: esplendorosa, sedutora, radiante, para muitos representava a exuberância devastadora da mulher latina (basta um close em seus seios e lábios para entender o que estou dizendo).

    Nunca mais esqueci Jimena e ficava ano a ano esperando as reprises de El Cid. Assisti a cada uma delas na TV, em vídeo, em DVD, sempre com o mesmo fascínio em cada cena de Sophia Loren. Revi o filme nestes dias, motivado por semanas cuidando de minha Jimena, devido a uma doença. Com todo o carinho que ela exige, necessita e merece.

  • Herói da infância

    Aprendi a nadar antes dos cinco anos de idade. Entrava em rios, piscinas, lagoas. Atravessava correnteza e distâncias com o pai atrás – ele era a segurança da chegada. Meu pai era pequeno, magro e deslizava na água. Cortava a piscina com elegância de causar inveja. Um de seus amigos da juventude, companheiro de cinema, sempre dizia quando o via nadando: “Lá vai o Johnny Weissmuller”. Os outros amigos não sabiam pronunciar o nome e passaram a chamá-lo de Tarzan.

    Johnny Weissmuller (1904-1984), nascido na Romênia, ganhou cinco medalhas de ouro de natação nas olimpíadas de Paris – 1924 e Amsterdã – 1928. Foi o primeiro atleta a nadar 100 metros rasos em menos de um minuto. Durante a carreira, estabeleceu 67 recordes mundiais.

    Forte e bonito, foi seduzido primeiro pela publicidade, posando como modelo para uma campanha de maiôs, e logo depois pelo cinema. Em 1932, vestiu a tanga de Tarzan,  personagem que o acompanharia pelo resto da vida. “Quando cheguei a Hollywood, o produtor disse que meu nome era longo demais para caber no letreiro.” – relata Weissmuller. O diretor W. S. Van Dyke (1889-1943) explicou ao produtor. “Você não sabe quem ele é? O maior nadador do mundo. – o produtor concordou em não mudar o nome e ainda sugeriu incluir algumas cenas de natação no filme.”

    Tarzan, o Homem Macaco foi lançado em 1932. Além das cenas de natação, Johnny Weissmuller personificou o grito mais famoso da história do cinema. Ele interpretou Tarzan em 11 filmes. A partir de 1948, incorporou outro personagem, Jim da Selvas, em mais 16 filmes. Morreu pobre e esquecido no México, num hotel em Acapulco, em 1984.

    Quanto ao outro Johnny Weissmuller, herói da minha infância, dividiu comigo algumas braçadas e muitas, muitas conversas sobre cinema. Meu pai me apresentou às pequenas felicidades do dia-a-dia: uma piscina, um jogo do Atlético Mineiro, uma sessão de cinema.

  • Pedras de Acapulco

    Meu pai era um homem magro, leve. Nadava com elegância, como se flutuasse milímetros acima da superfície, a cabeça submersa, os braços entrando e saindo ritmados da água sem fazer barulho, sem espirrar água para os lados.

    Lembrança da infância: meu pai no alto do trampolim do clube, altura de cerca de 10, 12 metros. Ele olha a última vez para baixo, abre os braços, se deixa cair do trampolim com os braços esticados acima da cabeça, salto na diagonal, como se deixasse o peito resistir ao ar para se preservar no voo durante um tempo maior. O pai entra na água com a elegância de sempre, sem muito barulho, sem muita água espirrando, e emerge menos de dois segundos depois. Salto bonito. Imagem que mais parece recriação fantástica de menino  – lembranças da primeira infância sempre se confundem com fantasia.

    Muito tempo depois, o filho já adolescente repete o ritual em uma cachoeira na Serra do Cipó, do alto de uma pedra. Subo atrás do pai pela encosta rochosa até o patamar, espécie de plataforma lapidada por milênios. Grande poço de águas turvas se forma debaixo da queda d’água. Chego à beira da pedra e sinto medo. Recuo.

    – Você não vai pular? – pergunta o pai.

    – Só se você pular primeiro.

    Ele posiciona-se na ponta da plataforma, abre os braços e pouco depois aparece na água escura, pequeno lá embaixo. O pai acena para mim como a dizer “não tenha medo”.

    Eu já saltara de vários lugares, de trampolins, de pedras. Domingos da minha infância e adolescência eram frequentemente domingos em piscinas, rios. O pai saltando e nadando com os filhos, presença segura apesar da inconsequência que hoje sinto nessas disputas entre pais e filhos. A mãe rezava, dava para ver pela sua expressão que ela rezava e maldizia o marido por instigar os filhos a essas loucuras. No fim do dia, voltávamos para casa, o pai calado ao volante do carro ouvindo a mãe bradar que nunca mais sairíamos a passeio em busca de rios e cachoeiras. Mas no outro fim de semana lá estava ela, cedo cedo preparando o almoço, o pão com salame, apressando todo mundo.

    Hesito novamente no alto da pedra. Eu nunca saltara de altura assim. O pai, ainda na água, acena, como a mostrar que é seguro. Naquela hora, os pés quase tocando o vazio, as pedras, a água, o medo,  finalmente entendi o fascínio que o pai sentia por alguns filmes.

    – Você já assistiu O Seresteiro de Acapulco? – o pai acaba de encher o copo de cerveja, bebe mais um gole e continua  – O filme é passado em Acapulco, no México. Quase no final, Elvis Presley sobe no penhasco, o mar embaixo, garganta d´água entre as rochas. Ele tinha que vencer o medo da altura. Chega na beirada e salta, os braços abertos. É uma cena maravilhosa. – ouvi essa narração repetidas vezes e mesmo já tendo assistido ao filme, deixava que ele a contasse novamente.

    Deixo o corpo despencar no vazio. Os braços abertos buscam equilíbrio, o corpo ligeiramente na diagonal vence a resistência do ar até bater na água e submergir rapidamente. O medo dá lugar à sensação de juventude. Olho para os lados tentando decifrar olhares de admiração. O primeiro olhar que vejo é do rosto de meu pai bem perto de mim, sorrindo.