O espelho

O espelho (Ayneh, Irã, 1997), de Jafar Panahi. 

Na segunda metade do filme, a criança Mina está na parte da frente, próxima ao para-brisa do ônibus. Ela olha para a câmera, tira o gesso de seu braço e diz: “Não vou mais atuar.” Abre o plano e mostra a equipe de cinema atônita, incluindo o diretor Jafar Panahi. A menina desce do ônibus disposta a abandonar as filmagens. 

O espelho é uma fascinante experiência de Jafar Panahi pelo universo neorrealista, confirmando seu estilo de trabalhar entre a narrativa ficcional e o documentário. No início do filme, Mina sai da escola e não encontra sua mãe. Ela resolve então ir sozinha para casa e começa uma jornada pelas ruas movimentadas e caóticas de Teerã, a pé ou utilizando o transporte público. A câmera segue Mina pelas ruas em longos planos, se permitindo ao improviso necessário em filmagens externas. 

Na segunda parte, o já consagrado diretor iraniano faz uma escolha ousada: quando Mina abandona o ônibus, não tira o microfone. A equipe passa a filmar a tentativa real da menina de chegar em casa. 

A atuação, ou não atuação, da amadora atriz mirim Mina Mohammadkhani é fascinante, encantadora. Seu périplo pelas ruas de Teerã é um espelho da sociedade iraniana, demarcada pelo caos das ruas, a precariedade do transporte público, a luta dos cidadãos, incluindo trabalhadores, mães, idosos, crianças, para transitar e sobreviver em meio ao caos de Teerã. Cada um enfrenta sua lida diária, sem tempo para sequer ajudar uma criança a chegar em casa.