Nós que nos amávamos tanto
fomos vencidos pelo
pronome definido
que começa e termina toda frase
forma inalterável de dizer
Eu.
Arquivo mensal: abril 2022
Cuidado com o que fazes
pois em cada esquina, vigilante
te espreita um impostor
soturno, registra seus atos.
Silêncio, resguarda seus sonhos
alimenta-os apenas na dormência
pois podem roubá-los
ou simplesmente matá-los.
Seu perfume ficou em mim
como uma marca, a lembrança
do momento em que seu cheiro
confundiu-se com o suor da tarde
é o que resta
buscar seu perfume
em tardes indistintas da memória.
Dê-nos uma longa e bela madrugada e seremos felizes
dê-nos uma calça desbotada e uma camisa surrada
para que possamos sentir nossos corpos
dê-nos um solo e nós plantaremos
dê-nos uma árvore e nós colheremos
não nos dê amigos, deixe-nos conquistá-los
dê-nos um coração mas não com sentimentos
deixe que eles nasçam com os dias
dê-nos um sonho e nós faremos dele outro sonho
dê-nos asas mas não nos dê liberdade
deixe-nos lutar por ela
dê-nos um corpo mas não nos mostre o caminho
deixe que nossos olhos o apontem
dê-nos um sol nascendo e faremos dele uma esperança
deixe-nos ter esperança para brilharmos como o sol
dê-nos a noite e as estrelas seremos todos
deixe-nos viver e amaremos como um só.
Paixão
se tivesse forma
seria mar
inquieta
inconstante
ruidosa.
Se tivesse nome
paixão rimaria
com tarde insana
de praias
febril, excitante
até se resignar serena
saudosa.
Assim a paixão engana
um jogo de formas e nomes
desordenada, envolvente
perigosa
mistura de desejos
traidora
nos joga na aventura
sem hora
do corpo e da alma.
Cine Amazonas
Foi meu primeiro gesto de liberdade. Andei cerca de cem metros da minha casa até o ponto. Peguei o ônibus, paguei o trocador com o dinheiro contado, sentei-me quieto na janela, diminuto no banco, os olhos na altura do começo do vidro. Esticava vez por outra o pescoço para ver o caminho, certeza de não me perder. Desci na Avenida Amazonas, andei menos de um quarteirão, as mãos nos bolsos da bermuda (um hábito que ficou, mãos nos bolsos) tocando o dinheiro, certeza de não perdê-lo, e entrei no Cine Amazonas. Comprei o ingresso, escolhi uma cadeira mais ao fundo, esperei o início do filme.
Passou a ser meu programa de domingo, abençoado pela mãe “vai com Deus!, meu filho”. Ir ao Cine Amazonas, sozinho ou em turma de meninos, sessões vespertinas, filmes de censura livre que saíam de cartaz direto para as sessões da tarde da Rede Globo. Era só um programa de menino que descobria as desamarras da vida.
Com o tempo descobri outros caminhos, outros cinemas. O Alvorada, Guarani, aprendi a andar pelo centro da cidade decorando as ruas do Metrópole, Acaiaca, Brasil, Royal, Jacques, Palladium. Quando eu chegava em casa, minha mãe perguntava simplesmente “gostou do filme?”. Sabia que eu não tinha me desviado porque sabia que para mim era impossível não ir ao cinema.
Em cada um desses cinemas, guardo lembranças de filmes. Os Dez mandamentos no Cine Guarani, Nasce uma estrela no Acaiaca, 2001 Uma odisséia no espaço no Pathé, King Kong (ou melhor, Jessica Lange), no Brasil, Guerra nas estrelas no Palladium.
Do Cine Amazonas, ficaram dois filmes, duas músicas. O primeiro, do fim da infância. Judy Garland cantando Over the rainbow, sonhando em sair da pobreza para uma terra encantada, andando por uma estrada de tijolos amarelos ao lado de amigos, o espantalho sem cérebro, o homem de lata sem coração e o leão sem coragem. Destino, a fantasia do Mágico de Oz. Na verdade, um encontro com eles mesmos, na difícil encruzilhada do medo e desejo de cada um.
O outro filme, do início da adolescência. Katie está num bar e vê Hubbell, um soldado da marinha americana, dormindo na cadeira, bêbado. As lembranças de Katie tomam conta da tela, junto com os créditos do filme e a música The way we were. Hubbell corre pelo campus da universidade e Katie distribui panfletos políticos. Dois jovens, ela uma ativista ambiental e política, radical, não se rende a uma discussão. Ele, despretensioso e sedutor, se deixa levar pelas festas e garotas enquanto cresce o sonho de ser escritor.
Anos mais tarde, depois da guerra, no bar, seus caminhos voltam a se cruzar. Vão se amar, se casam, têm uma filha. É um filme de quem sonha e luta pela liberdade individual. No final, eles estão separados por uma rua: Hubbell, saindo de um restaurante que o seu sucesso pode pagar; Katie do outro lado distribuindo panfletos políticos. The way we were, minha adolescente lembrança do Cine Amazonas, filme com um dos títulos mais bonitos em português: Nosso amor de ontem.
Amanhã estarei só
num dia sóbrio
sem amantes
sem estrelas
sem o absinto
de Oscar Wilde.
Estarei só
eu só queria amar
mas os sonhos
sempre morrem
ao entorpecer
Duas irmãs tomam sol na praia
uma tem o olhar longe
para o namorado distante
a outra procura pela praia
vê jovens tem sede.
Guarde por um momento
esses olhos adolescentes
num piscar serão lembranças
do tempo que desejavam.
Voltemos anos depois
lá estão as duas irmãs
aquela com seu marido ao lado
na sombra cuida dos filhos
e tem o mesmo olhar distante.
A outra toma sol
o marido se levanta
e os olhos da mulher
olhos com sede adormecida
se voltam para a quietude
do mar sem ondas.
Os olhos de um poeta
são olhos
vida
admiração
beleza e orgulho
rebeldia contida
e constante amor incontido.
Os olhos de um poeta
são olhos
choram
temem
adoram e cantam
a lua
o sol
o mar e as estrelas.
Seus olhos amam
uma criança ou um cão
um pobre e um velho
que sofrem por viver.
Os olhos de um poeta
brilham
de noite sob a lua
no céu de mil estrelas.
Os olhos de um poeta
que olhos
ardem
cantam
choram
sofrem
amam demais.
Parece que vou adormecer
embalando a tristeza em seu colo
parece mentira
ando perdido em seus seios
na verdade, estou de novo apaixonado.
Por onde andam aqueles olhos
que na adolescência das paixões
penetravam na puberdade de nossa cama?
O vento a trouxe de volta
e agora ando sonâmbulo na noite
por favor, não me torture
me beija, me dispa, me ame
ou então me faça esquecer.
Já vai? adeus. Quando voltar
me procura na ilusão
verá doces lembranças
de quando andávamos pelos sonhos
procurando por estrelas
em cada olhar apaixonado.