Tag: Polônia

  • Uma mulher solteira

    Uma mulher solteira (Kobieta samotna, Polônia, 1981), de Agnieszka Holland. 

    Irena (Maria Chwalibóg) trabalha como carteira em Varsóvia. Ela cria sozinha o filho e mora em um cômodo paupérrimo, integrante de um conjunto de casas, na periferia, em frente a linha férrea. 

    Devido ao baixo salário, ela empreende jornadas extenuantes de trabalho. Em um desses dias cansativos, Irena desmaia logo após entregar a correspondência a Jacek (Boguslaw Linda), jovem aposentado por invalidez.

    Os dois começam um relacionamento, a princípio amoroso e delicado, mas que caminha para a tragédia, motivada pelas fortes pressões psicológicas impostas pelas condições de vida e pelo próprio relacionamento: Jacek é bem mais novo do que Irena e se mostra cada vez mais imprevisível em seus atos. 

    O filme de Agnieszka Holland é uma das mais contundentes críticas ao regime comunista polonês, realizado durante o movimento conhecido como Cinema de Inquietação Moral. As condições precárias de sobrevivência dos trabalhadores está expressa no cotidiano de Irena, contrariando a propaganda oficial do regime que difunde um clima de bem estar social na Polônia. 

    Irena e Jacek sonham com uma vida melhor, mas todos os dias se defrontam com a miséria e a falta de esperança. A tragédia anunciada é um dos assassinatos mais impactantes do cinema. 

    Uma mulher solteira foi banido pelo governo polonês, sendo liberado para exibição nos cinemas seis anos depois, quando a Polônia iniciou o processo de redemocratização, consolidado pelas eleições de parlamentares de 1989. O Solidariedade dominou as eleições e o parlamento nomeou o jornalista Tadeusz Mazowiecki como primeiro-ministro. Foi o primeiro governo não-comunista do leste europeu após a segunda guerra mundial. 

  • Atores provincianos

    O Cinema de Inquietação Moral (Kino Niepokoju Moralnego) reuniu, na Polônia, uma geração de jovens cineastas, influenciados pelo mestre Andrzej Wajda. O movimento começou na metade dos anos 70 e contou com a participação direta, e, em alguns casos, como projetos colaborativos, de cineastas do porte de Agnieszka Holland, Krzysztof Kieślowski, Krzysztof Zanussi e o próprio Andrzej Wajda. 

    Os filmes combatiam o caos político e social presente na realidade polonesa, consequentemente, enfrentaram forte censura do governo comunista. Com a instauração da Lei Marcial em 1981, filmes foram banidos e cineastas partiram para o exílio, resultando no fim do movimento.  

    Atores provincianos (Aktorzy prowincjonalni, Polônia, 1979) é o primeiro longa-metragem de Agnieszka Holland. A narrativa acompanha Krzysztof (Tadeusz Huk), um jovem e idealista ator de teatro, morador de uma pequena cidade do interior da Polônia. Ele participa dos ensaios da peça clássica Libertação, cuja direção está a cargo de um renomado diretor teatral de Varsóvia. 

    O grupo de teatro amador entra em conflito, começando um jogo movido a vaidades pessoais e luta por ascensão artística, em detrimento do companheirismo. Krzysztof se rebela contra as atitudes, enxergando no diretor e no produtor da peça meros burocratas da arte estatal. 

    O casamento do ator afunda junto com sua crise profissional. Sua esposa Anka (Halina Lobonarska), que também sonhara em ser atriz profissional, trabalha na montagem de espetáculos infantis. Anka acompanha o declínio do marido com uma resignada melancolia, entregando-se à rotina depressiva – assim como a sociedade polonesa (o cinema da inquietação moral). 

    A diretora Agnieszka Holland enfrentou seguidos problemas com a censura polonesa. Seus filmes seguintes, Febre (1980) e Uma mulher sozinha (1981), foram praticamente banidos. Após a implantação da Lei Marcial pelo governo Polonês, em 1981, Agnieszka Holland deixou o país, prosseguindo com sua carreira na França e nos Estados Unidos.

  • Pussy

    Pussy (Cipka, Polônia, 2016), de Renata Gasiorowska. 

    Uma jovem está em sua casa sozinha, à noite. Ela começa a se acariciar, entra na banheira e continua se entregando ao prazer. Uma reviravolta surreal, à princípio assustadora para a jovem, transforma sua busca em um auto conhecimento dos seus desejos e de seu corpo de forma livre, selvagem, rebelde. 

    Os trabalhos de animação da diretora polonesa Renata Gasiorowska, incluindo filmes e clipes, são sempre muito bem recebidos pela crítica em diversos festivais de cinema. Pussy foi premiado no Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand. A narrativa é ousada, com cenas e insinuações provocativas em relação ao prazer feminino. A passagem da personagem do mundo real para o imaginário, o surrealismo, é um convite à plena libertação. 

  • O-Bi, O-Ba – O fim da civilização

    O-Bi, O-Ba – O fim da civilização (O-Bi, O Ba. Koniec cywilizacji, Polônia, 1984), de Piotr Szulkin.

    O filme apocalíptico de Piotr Szulkin se passa em uma terra destruída pela explosões nucleares. Cerca de oitocentos sobreviventes vivem em um abrigo chamado de A Cúpula, que ameaça desmoronar a qualquer momento. Resta apenas uma esperança: a chegada da Arca para levar os sobreviventes para um lugar que possivelmente ainda é seguro. 

    A lenda da Arca é mantida por meio de um rigoroso sistema de doutrinação, cujos responsáveis, entre eles Soft (Jerzy Stuhr), controlam de forma até mesmo violenta. A fome, doenças, revoltas, sabotagens, frio extremo, fazem parte do cotidiano dos habitantes da Cúpula. Piotr Szulkin continua com seu olhar crítico e severo sobre a Polônia dominada pelos regimes autoritários, compondo um ambiente opressivo, com tons fortes dos estilos expressionistas e cyberpunk.

    O diretor polonês se consagrou com uma espécie de tetralogia futurista com claras alusões ao regime político de seu país: Golem (1979), A guerra dos mundos: próximo século (1981), O-Bi, O-Ba: o fim da civilização (1985) e Ga-ga: glória aos herois (1986).

  • A guerra dos mundos: próximo século

    O diretor polonês Piotr Szulkin dedicou A guerra dos mundos: próximo século (Wojna światów – Następne stulecie, Polônia, 1981) a H. G. Wells e Orson Welles. O motivo é uma homenagem à célebre narração que Orson Welles realizou em uma emissora de rádio em 1938 (30 de outubro, noite de Halloween) interpretando trechos do livro de Wells. O estilo de interpretação de Orson Welles provocou pânico em milhares de ouvintes que acreditaram que a terra estava sendo invadida pelos marcianos. 

    A narrativa de A guerra dos mundos: próximo século acontece na Polônia, véspera do ano novo. Um grupo de marcianos domina o país, necessitando de sangue dos terráqueos para viver. O protagonista Iron Ide (Roman Wilhelmi), um locutor de TV de programa sensacionalista, se vê envolvido em uma trama que envolve os marcianos e o poder do estado. As consequências envolvem censura, delação de colegas de trabalho, acirramento do controle do estado por meio do controle midiático, violência praticada pelos marcianos, sequestro e desaparecimento de pessoas. 

    O filme, claramente uma alegoria do poder do estado comunista na Polônia, segue a prática consagrada durante a guerra fria de inserir fortes questões ideológicas em filmes do gênero ficção científica. A fotografia noir acentura o estado de opressão e terrorismo que acompanha a narrativa, com um final que deixa em aberto essas obscuras tramas políticas. 

  • Golem

    Golem (Polônia, 1979), de Piotr Szulkin, abre com uma narração, sustentada por imagens de explosões nucleares: “Em 1941, após a catástrofe nuclear, numa sociedade cuja existência estava seriamente ameaçada, surgiram rumores de pessoas produzidas artificialmente. Uma das fontes desses rumores talvez fosse uma lenda arcaica do homem feito de barro, trazido à vida ao colocarem um papel com uma fórmula mágica em sua boca. As crenças populares até hoje de que tais experimentos fizeram parte do programa de reconstrução da humanidade são só superstições.”

    Corta para plano fechado de médicos em um processo cirúrgico, comentando sobre o ser que estão criando/modificando geneticamente. Pernat (Marek Walczewski), o experimento, foge aos padrões definidos: na sociedade, ele apresenta uma personalidade marcada pela compreensão e pela bondade. Monitorado, ele é considerado um espécie defeituoso e deve ser eliminado. 

    O primeiro filme do diretor polonês Piotr Szulkin apresenta um mundo distópico que teria sido criado por explosões nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. A narrativa se passa em uma cidade escura e decrépita, prédios destruídos, becos sujos, apartamentos deformados, seguindo a estética expressionista/noir. O olhar gótico e pessimista do diretor sobre essa sociedade (a Polônia controlada pelo regime comunsta?) não deixa margem para esperanças. 

  • EO

    EO (Polônia, 2022), de Jerzy Skolimowski, acompanha a jornada de um burro cujo olhar triste enternece os espectadores. O veterano diretor polonês se inspirou abertamente no clássico A grande testemunha (1966), de Robert Bresson. 

    EO começa a trama como animal de um circo, amado e cuidado com carinho por sua jovem treinadora. Quando  o burro é confiscador por agentes da lei, devido à proibições sobre o uso de animais em circo, começa a sua peregrinação pelo interior da Polônia e pela Itália. Essa jornada é pontuada por gestos de carinho, tentativas de resgate, brutalidade, retratando as diversas facetas do relacionamento dos humanos com seus animais. EO é um burro de carga que deve suportar os sofrimentos físicos inerentes ao trabalho a que é destinado. 

    O destaque é a narrativa visual, quase desprovida de diálogos, com um trabalho sonoro, incluindo a trilha, marcante. O mundo passa diante dos olhos tristes de EO, testemunha silenciosa e sensível. De cortar o coração.

  • Sinais de identificação: nenhum

    Sinais de identificação: nenhum (Identification marks: none, Polônia, 1965), de Jerzy Skolimowski.

    O filme de estreia do diretor polonês Jerzy Skolimowski é exemplar como referência ao novo cinema dos anos 60 que dominou a cinematografia mundial, na Polônia, conhecido como Nova Onda Polonesa. Andrzej (interpretado pelo próprio Skolimowski) é um estudante em crise que vaga durante um dia (tempo da narrativa) pela cidade. Nesse curto espaço de tempo, ele termina seu relacionamento com a namorada, desiste dos estudos, decide entrar para o exército e encontra uma mulher que considera ser o amor de sua vida. 

    A narrativa segue o formato não-linear, fragmentado, filmado com uso de câmera portátil, inovando no aspecto intimista. A fragmentação e a montagem repercutem o momento confuso e ansioso pelo qual o protagonista passa nesse dia. Sinais de identificação…  lançou o diretor polonês como um nome promissor no mercado internacional, promessa que se concretizou com seus aclamados filmes posteriores. 

  • Constans

    Após dar baixa em seu treinamento no exército, o jovem Witold consegue emprego como eletricista. No primeiro dia de trabalho, ele revela à Marius, seu chefe imediato, que tem pouca experiência na função. Marius responde que “basta ele ser honesto.” É o tema do mais famoso filme de Zanussi, ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Cannes. 

    A honestidade de Witold passa a ser confrontada por seus próprios colegas de trabalho, incluindo Marius, que exigem que o jovem faça pequenas negociações escusas no ambiente de trabalho, proporcionando lucro extra aos trabalhadores.

    Em outro ambiente, um hospital, Witold também se depara com a corrupção. Sua mãe é internada devido a um câncer terminal e conseguir vaga em um quarto, assim como medicamentos, depende de “contribuições” para os funcionários do hospital. 

    Constans é o retrato frio e cruel do fim do sonho comunista na Polônia. Em determinado momento, Marius pergunta a Witold: “Qual o seu preço?”, afirmando que mais dia menos dia o jovem idealista também será corrompido. Witold resiste, sua moral e ética prevalecem, talvez um ingênuo como Cândido, que infelizmente só existam na literatura e no cinema.  

    Constans (Polônia, 1980), de Krzysztof Zanussi. Com Tadeusz Bradecki (Witold), Zofia Mrozowska (Mãe de Witold), Małgorzata Zajączkowska (Grażyna), Witold Pyrkosz (Marius)

  • O monastério

    O filme abre com uma sequência cruel: no altar de uma igreja, um padre está prestes a executar um bebê recém-nascido. Ele é impedido por policiais que entram na igreja e matam o padre. Corta para trinta anos depois. 

    Marek, um policial disfarçado de padre, chega a um monastério, famoso por seus casos de exorcismo. Marek precisa investigar o desaparecimento de jovens mulheres da região que, possivelmente, são as vítimas dos casos de exorcismo. 

    A sequência inicial aponta a possível ligação entre Marek e uma seita maligna, formada pelos padres do monastério. A narrativa é recheada de cenas brutais, até mesmo repulsivas (atenção para o alimento impingido ao falso padre). A virada de roteiro perto do final do filme provoca o tradicional banho de sangue dos filmes de terror contemporâneos. 

    O monastério  (Hellhole, Polônia, 2022), de Bartosz M. Kowalski. Com Piotr Zurawski (Marek), Olaf Lubaszenko (Padre Andrzej), Sebastian Stankiewicz (Padre Monk).

  • Mimetismo

    A trama se passa em uma grande casa de campo, durante um congresso universitário de apresentação de artigos científicos. O jovem professor Jakub é o responsável pela organização do evento, tendo que prestar contas sempre a Jaroslaw, seu antigo professor. 

    Os longos embates entre os dois professores, de posições intelectuais conflitantes, dominam a narrativa. Outro conflito acontece entre um grupo de alunos, insatisfeitos com os rumos das apresentações, e os organizadores. 

    O diretor Krzysztof Zanussi retrata neste pequeno microcosmo burguês intelectual a situação da Polônia durante o regime comunista, marcada por conflitos de classes, por embates entre os velhos representantes do partido e os jovens ansiosos por mudanças. É o eterno conflito de gerações, radicalizado em uma sociedade que insiste em preservar os valores sociais, políticos e culturais do regime dominante. 

    Mimetismo (Barway ochronne, Polônia, 1977), de Krzysztof Zanussi. Com Piotr Garlicki (Jaroslaw Kruszyński), Zbigniew Zapasiewicz (Jakub Szelestowski), Christine Paul (Nelly). 

  • Madre Joana dos Anjos

    A partir dos anos 60, vários filmes se debruçaram sobre a vida enclausurada de freiras em conventos, abordando, principalmente, questões sexuais. O gênero ficou conhecido como nunsploitation, revelando obras audaciosas como Os demônios (1971, Ken Russell), A religiosa (1966, Jacques Rivette) e Viridiana (1961, Luis Bunuel).

    Madre Joana dos Anjos transita pelo gênero, incluindo como princípio narrativo a possessão demoníaca. O Padre Suyrn chega a um convento para investigar um possível caso de possessão: Madre Joana dos Anjos diz estar possuída por oito demônios, nominados um a um por ela. As sessões de exorcismo são assustadoras, principalmente pelo fato da Madre se dizer feliz em estar possuída pois, assim, pode dar vazão aos seus desejos carnais. As outras freiras também celebram, dançando livremente no pátio do convento, em uma espécie de orgia.

    A obra adapta o livro de Jaroslaw Iwaszkiewicz, por sua vez livremente inspirado em um caso real. Em 1634, num convento na França, um padre foi condenado à fogueira, acusado de bruxaria por freiras que estariam possuídas pelo demônio. Foram revelados várias ocorrências sexuais dentro do convento e o caso ficou conhecido como As possessões das Freiras de Loudun. 

    Antecipando o clássico O exorcista (1973, William Friedkin), acontece a inversão, com o Padre abrigando os demônios. As sequências finais, Suryn com um machado nas mãos e confrontando a si mesmo são de estremecer até os mais incrédulos. 

    Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna Od Aniolów, Polônia, 1961), de Jerzy Kawalerowicz. Com Lucyna Winnicka (Madre Joana dos Anjos), Mieczyslaw Voit (Padre Josef Suryn), Anna Ciepielewska (Irmã Malgorzata).

  • Iluminação

    O filme abre com o Professor Wladyslaw Tatarkiewicz discursando para o espectador sobre o conceito de iluminação, definido por Santo Agostinho. A seguir, uma série de cenas do jovem Franciszek Reitman passando por provas físicas e psicológicas, visando sua aprovação em uma conceituada universidade polonesa para estudar física. 

    A narrativa acompanha os conflitos psicológicos de Franciszek durante seus estudos e sua convivência social. É um embate entre a razão e a fé, entre o racionalismo e a emotividade. Tudo se transforma para o jovem estudante quando ele se apaixona, casa e tem um filho. 

    Ao acompanhar dez anos na vida de Franciszek, o diretor Krzysztof Zanussi tece uma profunda reflexão sobre a juventude polonesa do pós-guerra que busca sentido para a vida na sociedade regida pelo comunismo. Promessas que não se cumprem, amores que devem sobreviver ou não às dificuldades cotidianas, a busca pelo trabalho, pelos estudos, o essencial contraponto entre a fé e a razão, é a Polônia refletida em um cinema poderoso e poético. 

    Iluminação (Iluminacja, Polônia, 1973), de Krzysztof Zanussi. Com Stanislaw Latallo (Franciszek Retman), Monika Dzienisiewicz (Agnieszka), Małgorzata Pritulak (Małgorzata). 

  • Torre. Um dia brilhante

    O filme abre com uma referência a um clássico do gênero terror: O iluminado (1980), de Stanley Kubrick. Visão aérea mostra um carro trafegando por uma bela estrada campestre. No carro estão um casal e Kaja, no banco de trás. 

    Eles chegam a uma casa no interior para uma reunião familiar. Mula, a proprietária, é irmã de Kaja e do motorista. A mãe deles sofre de alzheimer e está sob os cuidados de Mula. O centro da trama é a criança Nina, filha de Kaja, mas que foi entregue aos cuidados de Mula seis anos atrás. 

    Mistérios do passado rondam a reunião familiar, marcada por situações surpreendentes, como a cura repentina da mãe. A trama trabalha com insinuações ao gênero sobrenatural, que não se concretizam, são muito mais imagens encobertas por mistério, sombras que se dissipam deixando a sensação de paranóia e medo que ronda os segredos da família. O filme de estreia da diretora polonesa Jagoda Szelc é completamente aberto aos caminhos que o passado remete, como na lenta caminhada coletiva no final do filme. 

    Torre. Um dia brilhante (Wieża. Jasny Dzień, Polônia, 2017), de Jagoda Szelc. Com Anna Krotoska (Mula), Małgorzata Szczerbowska (Kaja), Anna Zubrzycki (Ada), Dorota Łukasiewicz-Kwietniewska (Anna), Rafał Kwietniewski (Andrzej), Michał Rafal Cieluch (Michał), Laila Hennessy (Nina).

  • Não amarás

    A cena de Magda vendo e se emocionando com sua própria solidão através da luneta de Tomek é das mais poéticas do cinema. Tomek é um jovem de 19 anos que todas as noites espiona Magda, vizinha mais velha e solitária que vive de relacionamentos frugais. Após Tomek se denunciar, uma estranha relação permeia os dois, marcada pela dificuldade de comunicação e impossibilidade física. Quando descobre a paixão de Tomek, Magda provoca o jovem e acaba revelando sua incapacidade de amar. Tomek, por sua vez, sofre silenciosamente, como todo voyeur, tentando, à distância penetrar no âmago de seu objeto de desejo.

    “Magda possui uma vida independente, além do que o rapaz pode espionar. Parte do apartamento dela não é visível pela luneta e o som direto não alcança a janela dele (para conhecer a voz dela, por exemplo, é preciso recorrer ao telefone). Em dado momento, Magda chega em casa e começa a chorar. Ela senta-se à mesa da cozinha, de costas para a janela (que é a câmera subjetiva de Tomek), ocultando ao voyer o rosto. Na tentativa de compreender o que não pode ver, Tomek pergunta para a senhora que o hospeda o porquê de as pessoas chorarem. Magda absolutamente não lhe é transparente. A Magda que o espectador constrói é uma personagem criada por Tomek, mas que possui uma vida autônoma, escapando-lhe ao controle. Ele pode apreender-lhe a imagem, mas não lhe é possível conhecer suas motivações mais internas – isso ele só pode deduzir a partir da sua própria experiência, do que viu e do que acredita saber sobre as pessoas, sobre a vida, sobre o mundo. A narrativa estimula também a subjetividade do espectador que procura atualizar tanto os dados que lhe foram narrados quanto seu inventário imagético-cinematográfico e seu repertório cultural.” – Erika Savernini.

    Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

    Não amarás (Thou shalt not commit adultery, Polônia, 1988), de Krzysztof Kieślowski. Com Olaf Lubaszenko (Tomek), Grażyna Szapołowska (Magda), Stefania Iwinska (senhora que hospeda Tomek).

  • Não matarás

    O filme tem uma das sequências mais impressionantes de morte da história do cinema. Jacek tenta estrangular o taxista, que insiste em não morrer, fazendo com que o assassino seja mais e mais violento. No início da película, o jovem Jacek caminha pelas ruas da cidade. Montagem alternada coloca em cena um taxista que despreza seus clientes e Piotr, um advogado em sua prova final, respondendo questões para a banca formada por outros advogados. O caminho dos três se cruza em uma lanchonete e, na saída, Jacek entra no táxi. Após o assassinato, corte brusco mostra a condenação do jovem, cujo defensor é Piotr.

    Não matarás é o capítulo 5 da série Decálogo e, assim como Não amarás, foi adaptado para o cinema. A narrativa apresenta um protesto contra a pena de morte. Mesmo diante do ato cruel, inexplicavelmente gratuito de Jacek, Piotr mantém sua convicção contra a pena capital.

    “O discurso que Kieslowski coloca na boca da personagem é o seu próprio julgamento da questão. A história de um assassinato e da punição deste criminoso torna-se um questionamento sobre a sociedade, na forma da pena capital. Dois assassinatos são cometidos, igualmente brutais. Um individual e outro coletivo. Significativamente, as duas mortes são similares. Jacek estrangula o taxista e é enforcado. Também narrativamente essas sequências são tratadas de forma análoga: acompanham-se os preparativos e seus detalhes. Assim como se vê Jacek escolher uma vítima e preparar o ataque, se vê o carrasco preparar cuidadosamente o local de execução. São dois ‘crimes’ premeditados, com o diferencial único de que o crime coletivo cometido contra Jacek é considerado preciso e justo.” – Erika Savernini.

    Não matarás (Thou shall not kill, Polônia,1988), de Krzysztof Kieślowski. Com Miroslaw Baka (Jacek), Krzysztof Globisz (Piotr), Jan Tesarz (taxista).

    Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieślowski. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

  • Guerra fria

    Zula chega a uma casa no interior da Polônia para participar de concurso de canto. A casa abriga uma espécie de conservatório mantido pelo governo comunista, cuja intenção é montar grupos para difundir a música polonesa tradicional, reforçando os valores patrióticos. O maestro e compositor Wictor é responsável pela seleção e ensaios dos candidatos. 

    Guerra fria tem espetacular fotografia em preto e branco, acentuando o tom dramático do país envolto nas questões políticas que negam a liberdade individual. Wictor e Zula se apaixonam e percorrem o país em apresentações musicais. Zula se torna cantora de sucesso, mas Wictor acalenta o sonho de fugir da Polônia e seguir sua carreira em Paris. A bela e melancólica trilha sonora pontua a história marcada pela tentativa de permanência do amor confrontado com as escolhas de Zula e Wictor. A tristeza recorrente da incapacidade de adaptação dos expatriados é outra forte presença na película que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro.

    Guerra fria (Zimna Wojna, Polônia, 2018), de Pawel Pawlikowski. Com Joanna Kulig (Zula), Tomasz Kot (Wictor).