O caso dos irmãos Naves

O caso dos Irmãos Naves (Brasil, 1967), de Luis Sérgio Person, é baseado em um caso verídico que aconteceu em 1937, durante o Estado Novo, ditadura implantada no Brasil por Getúlio Vargas. Em Araguari, interior de Minas Gerais, Benedito Pereira Caetano, um comerciante endividado, foge da cidade com 90 contos de réis. Joaquim Rosa (Raul Cortez) e Sebastião (Juca de Oliveira), os irmãos Naves, procuram a polícia para denunciar o desaparecimento do comerciante. Durante a precária investigação, eles são acusados de assassinar Benedito.  Esse caso é considerado um dos maiores erros judiciais da história do Brasil. Após a prisão, os irmãos são torturados a mando do delegado da cidade (Anselmo Duarte) para que confessem o crime que não cometeram. 

Dois anos antes, Luís Sérgio Person realizou São Paulo Sociedade Anônima, com uma narrativa e estilo mais próximos do Cinema Novo. Em O caso dos Irmãos Naves, o diretor adota um estilo clássico, pois queria fazer um filme denúncia que dialogasse com o grande público. 

“Person mexeu com a arquitetura de seu filme, criando sequências poderosas e incrivelmente bem montadas e fotografadas, como aquela em que o espectador descobre ao longo de um depoimentos forçado que os irmãos já vinham sendo torturados. À medida em que o delegado obriga que a testemunha concorde com a versão que criou para a história, takes rápidos e sem trilha sonora ou áudio ambiente em que os Naves são espancados pela polícia invadem a cena para mostrar para o público o que acontece nos bastidores. Sem fazer juízo de valor, apenas fornecendo a informação, Person traz o espectador para a condição de testemunha da injustiça, permitindo que ele mesmo desenvolva seu sentimentos para com o caso.” – Chico Fireman. 

Referência: 100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 

Cassi Jones, o magnífico sedutor

Luis Sergio Person é responsável por dois grandes filmes do cinema novo: São Paulo Sociedade Anônima (1965) e O caso dos Irmãos Naves (1967). Nos anos 70, sem condições de filmar por falta de incentivo, fato comum na história do cinema brasileiro, que despreza seus grandes diretores, Person trabalhou com publicidade e voltou à tela grande com um filme relacionado à pornochanchada.

Cassi Jones, o magnífico sedutor (1972) traz Paulo José em grande interpretação no papel do conquistador incorrigível, capaz das maiores trapalhadas para levar as mulheres para a cama. Tudo muda quando Cassi Jones conhece e se apaixona por Clara, jovem reprimida pelos valores da classe média puritana.

Person faz uma sátira ao próprio cinema, citando vários gêneros: o cinema noir dos gângsteres, o filme policial, os musicais, a comédia pastelão, as fitas de aventuras despretensiosas, sequências homenageiam o estilo de filmagem do cinema mudo e, claro, o cinema erótico. Person não dispensa o nu das belas atrizes, marca registrada da pornochanchada.

No trecho abaixo, Fernão Ramos reflete sobre esta fase rica em produções e participação de público do cinema brasileiro, abordando o olhar enviesado da crítica e da intelectualidade sobre os filmes deste movimento.

“A comédia erótica sempre estabeleceu relações cheias de atritos no interior do campo cultural da década de 1970. Criticada pelos cinemanovistas, repreendida pela censura e por políticos moralistas, vista com reservas pelos órgãos estatais (pois conseguia a almejada conquista do mercado, mas com modos mal-educados para o gosto oficial), foi uma presença incômoda naqueles tempos de repressão e indefinições. Em consequência, pouco se refletiu e debateu sobre o indesejado estranho que invadia o cinema. Todas as atenções permaneciam voltadas para os remanescentes dos movimentos culturais legitimados como Cinema Novo e, em menor grau, o Cinema Marginal.”

Cassi Jones, o magnífico sedutor (Brasil, 1972), de Luis Sergio Person. Com Paulo José (Cassi Jones), Sandra Bréa (Clara).

Referência: História do cinema brasileiro. Fernão Ramos  (org.). São Paulo: Círculo do Livro, 1987