Belíssima

Belíssima (Itália, 1951), de Luchino Visconti.

Estúdios da Cinecittá, em Roma. Um grupo de cineastas assisti aos testes de crianças. Uma delas será a escolhida para participar do filme em processo de produção. Madalena (Anna Magnani) consegue se infiltrar na produtora e, de uma janelinha no fundo, assiste ao teste de sua filha, Maria Cecconi (Tina Apicella). A menina está com ela, com um olhar ingênuo fixo na tela ao fundo. No teste, Maria tenta apagar as velas do bolo, sem sucesso. Os cineastas passam a ironizar a atuação da menina, imitando as tentativas, rindo. Blasetti, o diretor do filme, pede silêncio, “assim não consigo trabalhar.” Maria começa a chorar no teste, Blasetti tem o olhar enternecido, mas os outros começam a gargalhar. Madalena afasta Maria da janela e, com olhos umedecidos, pergunta para ela mesma? “Do que estão rindo? Porque estão se divertindo?”

Belíssima surgiu de uma ideia do roteirista Cesare Zavattini. O roteiro foi escrito por Suso Cecchi d’Amico  e por Luchino Visconti. Madalena é casada com o operário Spartaco (Gastone Renzelli). Vivem em um conjunto habitacional da periferia de Roma. Madalena cuida da casa, da filha e aplica injeções em adoentados para completar a renda da família. Ela fica sabendo que estão abertos testes com crianças entre seis e sete anos para participar de um filme. Madalena inscreve sua filha e passa a se dedicar de corpo e alma para que a menina vença o concurso. 

Segundo Francesco Rossi, na época um jovem assistente de direção, Visconti queria que o filme refletisse a vida real e o cotidiano dos bairros romanos, formado por pessoas que lutavam para sobreviver com dignidade. A jornada de Madalena representa a possibilidade de ascensão por meio do cinema. 

Para trazer realidade a essa fábrica de sonhos, Visconti contou no elenco com profissionais do cinema italiano interpretando a si próprios. “São muito belas as cenas com a  participação de Blasetti, Mario Chiari, Luigi Filippo d’Amico, Geo Taparelli. Eles representavam o mundo do cinema. Blasetti era o cinema. Ele era muito famoso e agia exatamente como se esperava que um diretor agisse. Ao representar aquele personagem, não era intenção de Visconti retratá-lo de forma negativa. Ele queria enfatizar a vaidade, a falsidade do cinema. Na verdade, Visconti se concentrou mais na personagem de Magnani, na relação entre mãe e filha e na decepção que ela sente quando entende que aquele é um mundo de ilusão.” – Francesco Rossi. 

Visconti já fizera dois filmes importantes do neorrealismo italiano: Obsessão (1942) e A terra treme (1948). Em Belíssima, o diretor preserva marcas importantes do movimento como a filmagem em locações, escolha do elenco entre pessoas comuns e trabalhar com equipe reduzida, oferecendo oportunidade a jovens profissionais. Assim como Francesco Rossi, outro jovem assistente de direção trabalhou no filme: Franco Zefirelli. Os dois Francos se consagraram nos anos seguintes como importantes diretores. 

“Procurávamos atores em toda parte, entre condutores de bonde, ferroviários, garis e outros. No fim, fomos até o abatedouro de Roma. Era dia de abate, pessoalmente, aquela experiência foi tão ruim quando o Massacre das Fossas Ardeatinas, sem exagero. Tantas vidas inocentes jogadas ali. Alguns ainda estavam conscientes, embora bezerros e cordeiros não saibam o que está acontecendo, porcos e cavalos sabem. Foi uma experiência terrível, nós desmaiamos. Havia uma montanha, uma grande pilha de ossos, onde havia um monte de toupeiras e ratos enormes. Os chamados ‘ossaroli’ eram homens que trabalhavam nessas pilhas de ossos fedidos, cheias de ratos. Foi lá que encontramos Renzelli” – Franco Zefirelli

Gastone Renzelli foi contratado para interpretar Spartaco Cecconi sem nem mesmo precisar de um teste. Renzelli comenta que as únicas orientações que recebia do diretor durante as filmagens eram: “Seja você mesmo. Faça o que faz normalmente. Não olhe para a câmera.”

No entanto, Belíssima contou com importantes investidores, tinha Anna Magnani, a maior atriz italiana da época. A roteirista Suso Cecchi d’Amico descreve uma das concessões que Visconti teve que fazer aos produtores. 

“Pouco antes do início das filmagens, D’Angelo apareceu no set e, muito sem jeito, pediu um favor a Visconti. Ele estava com dificuldade para financiar o filme. Então, veio perguntar se poderia usar Walter Chiari. Hoje em dia, ninguém se lembra que naquela época, Chiari era um ator muito cobiçado. Chiari traria mais dinheiro para o filme. Então me pediram para ter ideias de como transformar um personagem modesto em um grande personagem.”

Walter Chiari ficou com o personagem Alberto, assistente de produção do filme em andamento. Susie Cecchi d’Amico reconstruiu o personagem e o transformou em um jovem aproveitador, que tenta extorquir dinheiro de Madalena, se colocando diante dela como um importante profissional da equipe. Em uma sequência escrita especialmente para o ator, Alberto tenta seduzir Madalena à beira do rio. As cenas comprovam aquilo que transparece em toda a narrativa: o filme é de Anna Magnani. 

Sua personagem é a típica matrona italiana, estridente e carinhosa, conversa aos gritos, se impõe ao marido em momentos, cede a ele em outros, trabalha sem parar, confronta todos sem pudor e despeja ternura, às vezes com rigidez, no trato com a filha. 

Anna Magnani praticamente adotou a criança Tina Apicella durante as filmagens, ajudando-a, cuidando dela, colaborando para que sua interpretação acontecesse de forma natural. Ela chegou a afirmar em determinado momento para a equipe: “Essa menina não erra nunca. Até eu erro de vez em quando.” Segundo Cecchi d’Amico, uma das cenas mais comoventes do filme não estava no roteiro, foi improvisada por Anna Magnani. 

No caminho de volta para casa, após assistir ao teste da filha, Madalena se senta em um banco, em frente ao conjunto habitacional onde mora. A menina está cansada e se aconchega no peito da mãe. Madalena tem o olhar triste, olha para a filha e acaricia seus cabelos. Lágrimas começam a escorrer por seu rosto, o choro irrompe em um lamento doloroso. Madalena grita: “Me ajudem.” Por fim, ela aperta a filha e a beija perto dos lábios, misturando suas lágrimas com o rosto de Maria. 

Referência: Extras do DVD Neorrealismo italiano. Seis clássicos do movimento. Versátil Home Vídeo.

Gaviões e passarinhos

Gaviões e passarinhos (Uccellacci e uccellini, Itália, 1966), de Pier Paolo Pasolini.

Dois andarilhos percorrem a cidade e suas imediações, cenários marcados pela pobreza dos casebres, construções inacabadas, estradas desertas. Totó Innocenti (Totó) e seu filho Nino (Ninetto Innocenti) interagem com as pessoas, muitas vezes de forma irônica e sarcástica, se divertindo com situações criadas pela pobreza. Em determinado momento do caminho ouvem a voz de um corvo, que passa a segui-los. O corvo, cujas digressões demonstram sua ideologia marxista, pede que pai e filho ouçam uma fábula. 

O polêmico diretor Pasolini contestava abertamente, em seus textos e filmes, o processo de ascensão capitalista da Itália a partir dos anos 60. A sociedade de consumo, impulsionada pelo discurso publicitário, era um dos principais motivadores da decadência ideológica esquerdista, principalmente entre a juventude que aderiu à prática do consumo de produtos desnecessários. “Pasolini passou a observar na Itália o nascimento de uma única língua, uma espécie de ‘italiano oficial’, consequência de um processo de padronização destruidora da população através dos meios de comunicação em massa e da consolidação da cultura do capital.” Vinicius Lins Magno. 

A parábola Gaviões e passarinhos se enquadra na busca de Pasolini pelo “cinema de poesia”, avesso ao cinema de prosa. Totó e Nino empreendem uma jornada curta, de um dia, por esse mundo em degradação. São pobres como todos os outros, mas cobram o aluguel de uma família miserável, cuja mãe diz aos filhos o tempo todo que é noite para que eles durmam e não reclamem da fome. 

A fábula dos dois santos narrada pelo corvo, os mesmos Totó e Nino, que, a pedido de São Francisco, evangelizem os gaviões e os passarinhos, é uma metáfora poderosa sobre a cruel luta de classes que acontece sob o olhar indiferente das instituições dominantes, como a igreja. Depois de evangelizados, declarando aceitar a palavra de Deus, um gavião não resiste a seus instintos e mata e devora um passarinho. No final do filme, o próprio corvo marxista também é morto e devorado pelos dois miseráveis pequenos burgueses. 

É irônico que Totó, vestido ao estilo Charles Chaplin, intérprete em alguns momentos o andar de Carlitos, outra referência ao cinema de poesia, representado por aquele que, através de olhares, gestos e expressões trouxe sensibilidade à miséria social na qual vivia. Carlitos foi um dos maiores representantes da luta de classes no cinema, seu personagem estava em conflito permanente com a elite burguesa, adepta da industrialização e do consumo extravagante de itens de luxo. Os inimigos do vagabundo eram sempre a polícia, o poder, que mantinha o status quo do capitalismo selvagem. 

“Gaviões e passarinhos trata-se de uma fábula sobre o fim da luta de classes e das grandes esperanças comunistas ao sabor das transformações na mentalidade e nos costumes de um subproletariado agora crítico e perverso, que tem como um dos protagonistas um corvo intelectual marxista, espécie de alterego do diretor, que termina devorado. Com ele, Pasolini se aproxima de um cinema mais aristocrático, pois acreditava que os filmes mais populares poderiam ser facilmente manipulados, mercantilizados e desfrutados pela civilização de massa.” – Vinicius Lins Magno.

Referência: 100 anos de Pier Paolo Pasolini. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil, 2022. 

O que são as nuvens?

O que são as nuvens (Che cosa sono le nuvole?, Itália, 1968), de Pier Paolo Pasolini. 

Um homem recolhe o lixo na casa onde um artesão constrói marionetes em tamanho natural. Ele canta: “Que eu possa me danar se não a amar. E se assim não fosse, eu não entenderia mais nada, todo o meu louco amor é um sopro do céu, é um sopro do céu. Ah, a erva suavemente delicada de um perfume que dá espasmo…” Durante a canção, os marionetes são apoiados em uma parede e conversam entre eles. Vão participar de uma peça de teatro de marionetes, adaptação de Otelo, de Shakespeare. 

O curta-metragem de Pasolini é a última interpretação do maior comediante italiano: Totó. Ele interpreta Iago, Otelo fica por conta de Ninetto Davoli e Laura Betti é Desdêmona.  O surrealismo poético é a grande marca desta alegoria que, através do texto shakespeariano, leva os bonecos a questionarem a existência, a beleza da vida e a morte. 

Os bonecos seguem o enredo da tragédia, mas, em alguns momentos se mostram contra os rumos que devem tomar por meio dos atos de traição e assassínio. No final do filme acontece uma inversão fascinante: a plateia que assiste à peca invade o teatro e mata Otelo e Iago antes do assassinato de Desdêmona. 

Os dois bonecos são descartados, carregados pelo lixeiro que continua a canção melancólica – composta e interpretada por Domenico Modugno. No lixão, Otelo e Iago, olhando para o céu, conversam: 

Othelo: O que é isso? 

Iago: “sso são nuvens.

Othelo: E o que são nuvens?

Iago: Quem sabe?

Othelo: Como são lindas. Lindas. Como são lindas. 

Iago: Dilacerante e maravilhosa beleza da criação. 

Pasolini. Filósofo e poeta, dos textos e das imagens. 

Elenco: Totó (Iago), Ninetto Davoli (Otello), Franco Franchi (Cássio), Laura Betti (Desdemona). 

La chimera

La chimera (Itália, 2023), de Alice Rohrwacher.

Toscana, anos 1980. Arthur (Josh O”Connor), um arqueólogo inglês, volta para reencontrar seus amigos, após um período na prisão. A princípio ele recusa o grupo, mas retorna à sua atividade: descobrir e saquear túmulos etruscos, vendendo os objetos a contrabandistas. 

La chimera faz parte da trilogia de Alice Rohrwacher sobre a relação do ser humano com a terra, com a cultura da Itália rural, com as tradições seculares. Os outros são As maravilhas (2014) e Lazzaro Felice (2018). 

Arthur vive ligado ao passado, fascinado pelos objetos que descobre e preso a seu amor perdido, a jovem Beniamina, recém falecida. Seu dom de descobrir túmulos antigos é também uma espécie de relação entre a vida e a morte que vai selar o seu destino.

A interpretação de Josh O’Connor, compondo um personagem sujo, triste e amargurado, é um dos destaques da película. Vale ainda a participação de Isabella Rossellini, como Fiora, a matrona italiana, que administra uma mansão em ruínas. 

The protagonists

The protagonists (Itália, 1999), de Luca Guadagnino.

Em 1994, dois adolescentes chegam a Londres dispostos a cometer um assassinato. Eles andam pela cidade procurando um travesti, mas mudam de ideia e invadem o carro de Mohammed El-Sayed e o matam a facadas. O crime é rapidamente desvendado pela polícia e atinge repercussão na mídia, pois os jovens, de classe média alta, demonstram frieza pelo ato cometido sem nenhum motivo, a não ser experimentar o “prazer de matar”. 

O primeiro filme de Luca Guadagnino mistura documentário e ficção na investigação e reconstituição do crime. Tilda Swinton, no papel de uma atriz/jornalista, lidera uma equipe de filmagem italiana que percorre os cenários da tragédia, o tribunal onde ocorreu o julgamento, entrevista especialistas, a esposa da vítima e pessoas próximas ao crime.  

O diretor italiano compôs um suposto documentário encenando as cenas e não definindo se os entrevistados são atores ou as pessoas reais que vivenciaram o assassinato. Mesmo percorrendo diversos festivais, The protagonists passou despercebido pelo público e crítica (sequer foi exibido nos cinemas), mas depois da consagração de Luca Gudagnino passou a ser revisto como um filme experimental, já com as marcas do diretor.

Mimi – O metalúrgico

Mimi – O metalúrgico (Mimi metallurgico, ferito nell’ onore, Itália, 1972), de Lina Wertmuller.

Perto do final do filme, Mimi (Giancarlo Giannini) tenta justificar os atos que cometeu forçado pela máfia siciliana. Ele grita para Fiorenna: “Eles são todos primos.”

Com esse filme, indicado ao prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, Lina Wertmuller ganhou o reconhecimento internacional, demarcando seu estilo de críticas políticas e sociais, ancoradas em narrativas de um humor agressivo, feito para chocar a sociedade. 

Mimi é um operário, recém-casado, que é ameaçado por integrantes da máfia ao se recusar a votar no candidato apoiado por eles. Perde o emprego e vai para Turim, onde conhece Fiorella (Mariangela Melato), uma ativista política. Os dois se apaixonam, passam a viver juntos, têm um filho, Mimi consegue emprego como metalúrgico e adere ao comunismo. No entanto, seu caminho se cruza novamente com os mafiosos e é obrigado a voltar para a Sicília, onde se defronta com sua esposa, que também tem um amante.

A virada da narrativa após a volta para casa tece uma contundente crítica, com desfecho trágico, sobre as tradições italianas que insistem em colocar a família sob a custódia do patriarcado, do machismo exacerbado e agressivo. O protagonista, mesmo com ideais políticos avançados, capaz até mesmo de enfrentar a máfia, sucumbe diante de si  mesmo, incapaz de vencer sua vaidade masculina, colocando, como é típico, a honra do homem acima de tudo.

Amor e anarquia

A italiana Lina Wertmuller, discípula de Fellini, foi a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de Direção pelo filme Pasqualino Sete Belezas (1977).  O cinema anárquico da diretora demarca Amor e anarquia, cujo extenso título original resume a obra: Filme de amor e anarquia, ou: esta manhã às 10, na Via dei Fiori, no famoso bordel.

Tunin (Giancarlo Giannini), um jovem ingênuo da região campestre, chega a esse bordel com uma ideia fixa: assassinar Benito Mussolini. A história é ambientada na Itália dos anos 30, o governo fascista caça e executa anarquistas, o que aconteceu com um grande amigo de Tunin. No bordel, seu contato com o grupo que planeja o assassinato é com a prostituta Salomê (Mariangela Melato). No entanto, Tunin se apaixona por Tripolina (Lina Polito), jovem prostituta que pode mudar o destino da trama. 

O grande trunfo da película é a mistura de gêneros, uma das marcas do cinema dos anos 70. A curta odisseia de Tunin em Roma alterna momentos de drama, comédia, um belo e sensível romance, crítica política e social, cujo clímax é uma tragédia anunciada. O idílio amoroso de dois jovens ingênuos e sonhadores termina de forma brutal, nada surpreendente, afinal são os anos fascistas na Europa. 

De crápula a heroi

De crápula a heroi (General Della Rovere, Itália, 1959), de Roberto Rossellini. 

No último ano do movimento neorrealista italiano, Roberto Rossellini retoma o tema que lançou o movimento e consagrou o diretor italiano internacionalmente. A trilogia da guerra de Rossellini, composta por Roma, cidade aberta (1945), Paisà (1946 e Alemanha ano zero (1948) revelou ao mundo a tragédia provocada pelo conflito, os três filmes foram realizados misturando cenas documentais – cidades destruídas, famintos pelas ruas, a luta da resistência – com inserções de histórias ficcionais.

De crápula a heroi utiliza dos mesmos princípios. Rossellini usa cenas documentais da ocupação nazista na Itália para contar a história de Emanuele Barcone (Vittório De Sica). Viciado em jogatinas, Bardone se faz passar por pessoa influente no círculo nazista, estorquindo dinheiro de pais e mulheres que desejam saber notícias dos entes presos. Alguns já estão até mesmo mortos, mas Grimaldi lhes dá esperança de uma libertação próxima, dizendo que precisa de dinheiro para convencer as autoridades. 

Bardone vai se confrontar com sua própria consciência, sua moralidade e seus princípios éticos quando é obrigado pelos nazistas a se passar por um importante líder militar italiano, General Della Rovere. Ele é infiltrado em uma prisão onde estão líderes da resistência. Sua tarefa é descobrir e delatar aos nazistas a identidade dos líderes.

O filme traz uma interpretação primorosa de Vittorio De Sica, outro mestre do neorrealismo italiano e sagrou-se vencedor do Leão de Ouro em Veneza. Em seu filme testamento sobre o movimento, Roberto Rossellini compôs uma obra que debate as formas de sobrevivência em um mundo à beira da destruição. Bardone caminha passo a passo para o entendimento de seus atos e, quando encarna quase como uma fuga de si mesmo a identidade do General Della Rovere, heroi de guerra adorado pelos italianos, tenta se redimir através de um ato heroico, nobre. 

Elenco: Vittorio De Sica, Hannes Messemer, Sandra Milo, Giovanna Rali, Vittorio Caprioli, Nando Angelini, Herbert Fischer.

Em nome da lei

Em nome da lei (Itália, 1949), de Pietro Germi.

O diretor Pietro Germi, nome menos referenciado do aclamado cinema neorrealista italiano, faz uma incursão pelo gênero do faroeste (as influências de John Ford estão presentes na obra), ambientando a trama na Sicília do início do século XX. O juiz Guido Schiavi chega a uma pequena cidade controlada pelo Barão Vasto e pela máfia. Os mafiosos substituem a justiça, cobrando para proteger os nobres da cidade. O juiz, de apenas 26 anos, tem ideais humanistas e justos e tenta impor a lei, se defrontando de forma perigosa com os poderosos que controlam a região com violência, praticando assassinatos impiedosos.  

O estilo neorrealista de Em nome da lei é demarcado por algumas características comuns ao movimento: a forte crítica social, retratando uma população miserável e faminta subjugada de forma violenta pelo barão e pela máfia; a narrativa linear, demarcada pela bela fotografia em preto e branco que destaca a aridez e a miséria da ilha; o sentimentalismo, quase melodramático do drama social, com direito a uma história de amor entre os protagonistas Guido e Teresa. O final, após um assassinato triste e doloroso, imprime uma certa esperança pela continuidade da luta por justiça social. 

Elenco: Massimo Girotti (Guido Schiavi), Charles Vanel (Massaro Turi), Jone Salinas (Baronesa Teresa), Camillo Mastrocinque (Barão Vasto), Bernardo Indelicato (Paolino). 

Mamma Roma

Mamma Roma (Itália, 1962), de Pier Paolo Pasolini.

Mamma Roma (Anna Magnani) é uma prostituta de meia idade que luta para criar seu filho Ettore (Ettore Garofalo) de forma digna, tentando afastá-lo da má influência da marginalidade adolescente. Os dois se mudam para a periferia de Roma, bairro marcado por construções populares modernistas em meio às ruínas da Roma antiga, onde Mamma monta uma barraca de frutas na feira. Ettore, no entanto, insiste em vadiar, sem trabalhar ou estudar, aventurando-se cada vez mais no caminho da criminalidade. 

O segundo filme de Pier Paolo Pasolini preserva o estilo neorrealista de seu filme anterior, Accattone e mostra a evolução do diretor em direção ao cinema de poesia que defendia. “No cinema de poesia, a história tende a desaparecer, o autor escreve poemas cinematográficos e não mais histórias cinematográficas. No cinema de poesia, o protagonista é o estilo, mais do que as coisas ou os fatos. Meus filmes pertencem a essa categoria.” – Pasolini

A história de Mamma Roma é pontuada por simbologias pictóricas e a busca da forma cinematográfica como representação dos desejos, anseios e frustrações da protagonista. Na abertura do filme, o diretor de fotografia dispõe os personagens, durante o casamento do antigo cafetão de Mamma, de forma similar ao quadro Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. No final, retratando o martírio de Ettore na prisão, a imagem evoca o quadro Lamentação sobre o Cristo morto, de Andrea Mantegna. 

Pasolini: “Meu gosto cinematográfico não é de origem cinematográfica e sim pictórica. As imagens, os campos visuais que eu tenho na cabeça, são os afrescos de Masaccio, de Giotto, de Pontormo. Não consigo imaginar imagens, paisagens e composições de figuras fora da minha paixão fundamental por essa pintura do século 14, que coloca o homem no centro de toda perspectiva.” 

Anna Magnani, uma das grandes atrizes e divas do cinema italiano, destila seu talento no papel da prostituta e da grande mãe – seu nome no filme simboliza outra marca do cinema intelectual de Pasolini: a cidade como definidor de personalidades e comportamentos de seus moradores (a Roma que prostitui seus cidadãos nas beiras boêmias de avenidas e pontos turísticos, durante a escuridão da noite). 

Dois planos sequências de cinco minutos de duração cada são exemplos dessa simbologia, aliados à técnica cinematográfica como representante da poesia do cinema de Pasolini. Nos dois planos, Mamma Roma caminha pelo local onde convive esse universo marginal da cidade. É noite, as luzes ao lado e ao fundo são apenas pontos na escuridão. Durante a caminhada, Mamma reflete sobre sua posição na sociedade, sobre sua vida, sobre a esperança, em diálogos, que mais parecem um monólogo, com outras prostitutas, clientes, que entram e saem de quadro durante a jornada da prostituta. Anna Magnani em seu esplendor visual e artístico domina não só esses planos sequências, mas o filme inteiro. 

Referência: Coleção Folha Cine Europeu. Pier Paolo Pasolini: Mamma Roma. Carlos Cássio Starling, Pedro Maciel Guimarães e Marcus Mello. São Paulo: Moderna, 2011