Abro os olhos de manhã
mas para alguém não houve amanhã
já não há sol, seus olhos
abrem-se eternamente.
No caminho, pessoas sorriem
nem sabem do sorriso desfeito
de alguém que não sofre mais
mas que gostaria de chorar
por um amigo perdido.
Já não é de manhã
a noite o levou
afogado, perdido nas águas
corpo sem alma.
Seus olhos saíram
para buscar a manhã
agora, nem flores brotam
onde a morte o encontrou.
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Tem um casal morto na praça
tão longe, a gente nem sente
se estão mortos ou abraçados
mas pela tevê a gente pressente
que o homem, dos animais,
é o que mata por prazer.
O tempo ruge
clareia
incenso de almas
fecha-te tempo
enegrece, troveja
enraidece
mata aos poucos
esse desejo enfado
de desfalecer em gotas
de tempestade d’alma.
Recebi um telegrama
de mulher desconhecida
dizia em uma palavra
o que ouvimos
dos inimigos mais sutis
ou dos amigos indiferentes
– felizaniversário.
Dói conhecer agora
essa outra mulher
a que ainda em mim vive
se revelava num silêncio
quase obsceno.
Fui sócio de um sonho
mas o vendi
para poder sonhar de novo.
Tentei fazer da ilusão
uma porta entreaberta
mas me perdi de medo
em um cofre de sete mil trancas.
Quis apenas sonhar
mas é daí?
nada pode contra a realidade
há não ser encontrar
uma das sete mil chaves
e sonhar outra vez.
Eu tenho um castelo encantado
e uma princesa
eu tenho um sol para brilhar meu castelo
e uma lua para encantar
as noites de meu castelo encantado
eu tenho um corpo
que nada no lago que eu tenho
eu tenho o azul e o verde
tenho uma árvore, um passarinho que canta
tenho um grilo de canções entristecidas
não tenho relógio e nem dinheiro
e meu castelo é em nuvens de algodão
onde mora minha querida Shirley
cristalina, encantada
como todos que morrem cedo
ela me chamava de poeta
porque naquele tempo
já lia com olhos de anjo.
Basta
estou cansado de ser responsável
defendendo um salário miserável
vocês sabem o que é frustração?
então sentem-se atrás de uma mesa de escritório
e batam máquina o dia inteiro
enquanto martelam em sua cabeça
que no sistema capitalista só existem duas opções
explorar ou ser explorado.
Chega
cortem-me a carne
mas levem também os meus deuses
não estou mais a fim
de ser respeitado apenas
pelo relógio de ponto.
Acabou
já sem braços
feito corpo a sangrar
vou sair por aquela porta
e quando eu atravessar a rua
dirão com certeza
“lá se vai um homem comum
perdido, como todo mundo foi um dia”.
É apenas uma mensagem
uma voz eletrônica, longe
dos lábios que ardiam
em tempos de loucura.
Creio que o tempo
vai aos poucos apagando
a maravilhosa sensação
do reencontro.
Onde andas?
Ah, porque me deixaste
triste assim
já não suporto mais
caminhar por ruas
plenas de recordações
contemplar a lua
com olhos de saudade
é como morrer aos poucos
sonhando em te encontrar
vezes sem conta.
Qualquer dia a gente se vê por aí
em algum canto de rua
sob a chuva de março
quem sabe
na manhã de frio repentino
qualquer dia
talvez na tarde sufocante
não importa
que seja um dia apenas
pra gente se lembrar
e se amar pela segunda vez.