Pedro, o negro

Pedro, o negro (Cerny Petr, Thecolosváquia, 1964), de Milos Forman.

Os primeiros filmes de Milos Forman, realizados na antiga Tchecoslováquia, trouxeram à tona o cotidiano inquietante e, por vezes subversivo, da juventude durante o regime comunista. O diretor comentou certa vez que gostava de retratar os jovens porque os homens e mulheres de sua geração, entre 0s 30 e 40 anos, só pensavam em suas carreiras profissionais. Essa forma de retratar os jovens arrebatou críticos do mundo inteiro, principalmente os já deslumbrados com o novo cinema dos anos 60, logo nos dois primeiros filmes: Pedro, o negro e Os amores de uma loira. 

Pedro (Ladislav Jakim) é um adolescente submisso aos desejos do pai controlador. Ele consegue emprego em uma mercearia e sua função é vigiar os clientes que possivelmente possam furtar mercadorias (a vigia do regime comunista em seus cidadãos?). Quando tem que abordar um cliente, Pedro o faz tão timidamente, com tanta reserva, que parece pedir perdão pelo que está fazendo. A sequência em que ele persegue um homem pelas ruas da cidade, quase colado nele, sem disfarçar, mas também sem abordar, é de um humor ácido (todos sabem que estão sendo vigiados). 

Momentos fortes e dramáticos da narrativa singela se concentram na relação entre Pedro e o pai (Petruv Otec), figura forte, paternalista, disposto a preparar o filho para o mundo cruel. Suas orientações e advertências são agressivas, mas não cruéis, o pai não demonstra carinho pois se guia por frases cortantes como “suporte isso por um dois anos e será um homem.”

Com esse olhar peculiar e inquisidor sobre a juventude sem rumo em seus três primeiros filmes na fase tcheca, Milos Forman incomodou demais o regime. Após O baile dos bombeiros (1967), foi forçado a emigrar para os EUA, onde chegou já com o prestígio necessário para se envolver em grandes e premiados filmes, como Procura insaciável, Um estranho no ninho, Hair, Amadeus e Valmont. 

Outside noise

Em Outside noise o cineasta independente Ted Fendt reflete, de certa fora,  sobre os isolamentos sociais provocados pela pandemia. Daniela (as personagens usam seus próprios nomes no filme) sofre de insônia. Vive sozinha em um apartamento em Viena, sua única diversão é caminhar sozinha pelos bairros e vielas da cidade. Recebe a visita de suas duas amigas Mia e Natascha, vindas de Berlim, e as três passam o tempo deitadas, lendo, conversando, no pequeno apartamento. Dias depois, as três embarcam para Berlim, onde continuam essa troca de relacionamentos movida ao cotidiano de jovens sem muito há fazer, apenas deixar o tempo passar. 

Ted Fendt realizou esse filme curto, cerca de 60 minutos de duração, como uma câmera em 16 mm, raridade no cinema contemporâneo já completamente entregue à tecnologia digital. O foco está nas três personagens e em suas interações com os ambientes, cuja estética sonora e visual é minimalista: alguns ruídos ambientais, a luz fria nas cenas externas, imagens simples e bonitas dos ambientes fechados, quase como se tudo acompanhasse as amigas sem interferir, sem chamar a atenção. Uma bela e reflexiva obra sobre amizades simples e rotineiras. 

Outside noise (Alemanha, 2021), de Ted Fendt. Com Daniela Zahlner, Mia Sellmann e Natascha Manthe.