Cartaz de filme

Eram os primeiros anos da década perdida. Eu saía do emprego na Rua Rio de Janeiro e caminhava pelo centro da cidade até o ponto de ônibus. O centro ainda não tinha todo esse emaranhado de pernas e carros, mas as pessoas já iam para casa com ansiedade. Na Avenida Paraná, trabalhadores, donas de casa, adolescentes se amontovam no final da tarde debaixo das placas azuis: 1505 – 1504 – 1503. Números marcando o destino.

Quando o ônibus parava, pouco importava sexo ou fragilidade, a pequena multidão disputava a porta do ônibus. O coletivo demorava a arrancar, o motorista insistia em fechar a porta travada pelos passageiros, a vontade de chegar em casa se sobrepondo ao instinto de sobrevivência. Quando a porta fechava, sobrava nos rostos das pessoas a sensação de vitória e desalento. Vitória pelo embarque; desalento pelos cerca de 30, 40 minutos que passariam espremidos, com a sensação de sardinha em lata, expressão comum na época para designar coletivos em horário de pico.

Várias vezes eu deixava passar um, dois, três ônibus, esperando inutilmente o desafogo da multidão. Passei a adiar minha chegada ao ponto, dando volta pelos cinemas da cidade. Primeiro no Palladium; descia a Goytacazes até o Metrópole; dali pela Afonso Pena, parava no Acaiaca; subia a Tupis com destino ao Jacques; passava em frente ao Tamoios; gastando tempo no fascinante hábito de olhar cartazes de filmes.

Eu ficava alguns momentos parado no saguão de entrada de cada cinema, olhando as fotos dos cartazes, nomes de atores, atrizes, diretor. Às vezes, anotava a data de estreia à lápis num pequeno bloco. Outras vezes, apenas antecipava na mente o filme, especulando, a partir do gênero, personagens, tramas, desfechos. Bons tempos. Ainda não existia a Internet com trailers, resenhas, críticas e tudo que infesta a rede nessa poderosa estratégia de marketing, acabando com o glamour e a surpresa do cartaz do filme.

Em um início dessas noites, a cidade se mostrou mais confusa, as pessoas mais ansiosas, o coração me pesou, o futuro pareceu incerto. Parei na porta do Cine Palladium. Em cartaz: Blade Runner – O Caçador de Andróides, de Ridley Scott.

Comprei ingresso e entrei, sessão quase vazia. Cerca de duas horas depois, quando os créditos começaram a subir pela tela, continuei sentado. As poucas pessoas apressadas tomaram seu rumo. Esperei os nomes sumirem na tela, a música cessar.

Não me levantei. Aos poucos, foi entrando gente para a próxima sessão. O filme começou novamente. Pensei, posso ficar, mais à noite os ônibus passam vazios. Pensei, posso ficar dentro do cinema um pouco mais.

Eu tenho um castelo encantado
e uma princesa
eu tenho um sol para brilhar meu castelo
e uma lua para encantar
as noites de meu castelo encantado
eu tenho um corpo
que nada no lago que eu tenho
eu tenho o azul e o verde
tenho uma árvore, um passarinho que canta
tenho um grilo de canções entristecidas
não tenho relógio e nem dinheiro
e meu castelo é em nuvens de algodão
onde mora minha querida Shirley
cristalina, encantada
como todos que morrem cedo
ela me chamava de poeta
porque naquele tempo
já lia com olhos de anjo. 

Basta
estou cansado de ser responsável
defendendo um salário miserável
vocês sabem o que é frustração?
então sentem-se atrás de uma mesa de escritório
e batam máquina o dia inteiro
enquanto martelam em sua cabeça
que no sistema capitalista só existem duas opções
explorar ou ser explorado.

Chega
cortem-me a carne
mas levem também os meus deuses
não estou mais a fim
de ser respeitado apenas
pelo relógio de ponto.

Acabou
já sem braços
feito corpo a sangrar
vou sair por aquela porta
e quando eu atravessar a rua
dirão com certeza
“lá se vai um homem comum
perdido, como todo mundo foi um dia”.