Acabe com eles

Acabe com eles (Bring them down, Irlanda, 2024), de Christopher Andrews.

O solitário e enigmático Michael trabalha como pastor de ovelhas, na propriedade rural da família. Ray, seu pai, adoentado em uma cadeira de rodas, lida com o filho de forma severa e autoritária, administrando a propriedade com mão de ferro. Quando duas ovelhas desaparecem, o conflito se instaura com a família vizinha, também cuidadores de ovelhas, formada por Gary, sua esposa Caroline, e o filho adolescente Jack. 

Acabe com eles é o filme de estreia do diretor Christopher Andrews e tem na estrutura invertida e na mudança de pontos de vista os grandes trunfos. A primeira parte começa com um acidente de carro que só vai fazer sentido no final da trama. A partir daí, o espectador acompanha a difícil e cruel relação de Michael com o pai até uma noite violenta, quando cerca de duas dezenas de ovelhas têm as patas traseiras arrancadas e Michael precisa sacrificar uma a uma pessoalmente. 

A segunda parte conta a história até esse momento sob o ponto de vista de Jack, também em conflito com o pai, que está falido e deseja vender a propriedade para um empreendimento imobiliário. Para concretizar o negócio,  Gary precisa que Ray também entre no negócio, pois as terras dele serviriam de passagem para as “casas de férias”.  

Cabe ao espectador montar este intrincado quebra cabeça que se estrutura em torno das relações entre as duas famílias para retratar a cruel face do sistema capitalista. A necessidade de dinheiro corrói dia-a-dia os sentimentos fraternos e amorosos até tudo explodir em vingança e violência. A sequência da dilaceração e sacrifício das ovelhas, mostradas pelos dois pontos de vista, é de uma tristeza avassaladora. 

Elenco: Christopher Abbott (Michael), Barry Keoghan (Jack), Colm Meaney (Ray), Nora-Jane Noone (Caroline), Paul Ready (Gary), Aaron Heffernan (Lee).

A ganha pão

Kabul, 2001. O Talibã tomou o poder no Afeganistão e implantou suas extremistas formas de controle. A pré-adolescente Parvana é filha de um professor e de uma escritora, ambos impedidos de trabalhar. Ela acompanha seu pai à feira, onde vendem produtos caseiros. Idress, um jovem que foi aluno do professor, impõe violentamente que Parvana vá para casa e, depois, denuncie o professor. Ele é preso arbitrariamente e sua família, composta pela mulher, outra filha e um menino ainda bebê, não tem mais condições de sequer se alimentar: no regime Talibã, mulheres não podem sair às ruas sem a companhia de um homem, mesmo para comprar comida. 

A narrativa de A ganha pão (a animação foi produzida por Angelina Jolie) mescla realismo e fantasia. A alternativa de sobrevivência da família vem de Parvana: ela corta seus longos cabelos, se veste de menino e sai todos os dias para trabalhar, junto com uma amiga da escola, que também se finge de menino. Diante da violência, da inacreditável crueldade dos membros do regime – praticadas até mesmo por jovens como elas -, Parvana conta histórias de um mundo de fantasia, onde um jovem, Suleyman, luta contra seres endiabrados. 

A triste sequência final, quando as mulheres da família de Parvana enfrentam seus piores pesadelos nas estradas tomadas pela guerra, aponta uma esperança. Sentimento ilusório como demonstrou a recente retomada do poder pelo regime Talibã no Afeganistão. 

A ganha pão (The breadwinner, Irlanda/Canadá, 2017), de Nora Twomey.