Magic farm

Magic farm (Argentina/Estados Unidos, 2025), de Amalia Ulman.  

Edna é uma digital influencer de Nova York que descobre um filão para a produção de vídeos virais: pessoas que fazem intervenções dançantes na internet usando peças de vestuário extravagantes, como um grupo de adolescentes mexicanos dançando “tribal” com botas de couro com bicos longos e curtos.  

O próximo episódio da série “subculturas malucas do mundo” vai ser gravado em San Cristóbal, na Argentina, com o Super Carlitos, fenômeno da internet que dança vestido com orelhas de um coelho de pelúcia. No entanto, a equipe desembarca na cidade errada (existem várias San Cristóbal na América do Sul). Para não perder a viagem, improvisam um programa, forjando uma nova tendência musical, com equipes de dançarinos locais.

Magic farm é o segundo filme da diretora e atriz argentina Amalia Ullman, que se baseou em experiências pessoais: sua família sofreu com efeitos tóxicos de herbicidas  em uma cidade agrícola no norte da Argentina. Personagens do filme apresentam sintomas agressivos de doenças de pele; uma das gravações é interrompida após um avião despejar produtos químicos sobre as plantações. 

Com um tom de comédia quase surrealista, a narrativa tece fortes críticas às mídias criadas e sustentadas pela superficialidade da internet. O destaque da película é a estética hiper colorida, quase como se criasse um mundo à parte dentro do caótico universo das redes sociais. 

Elenco: Chloe Sevigny (Edna), Joe Apollonio (Justin), Simon Rex (Dave), Alex Wolff (Jeff), Amalia Ulma (Elena), Abuela Marita (Marita), Guillermo Jacubowicz (o recepcionista), Vleria Lois (Popa), Camila del Campo (Manchi). 

Hot milk

Hot milk (Inglaterra, 2025), de Rebecca Lenkiewicz.

O primeiro longa-metragem da roteirista e diretora Rebecca Lenkiewicz é um convite à sensualidade. A jovem Sofia (Emma Mackey) acompanha Rosi (Fiona Shaw), sua mãe, em uma temporada em Almería, Espanha. Rosi sofre com uma doença que a impede de caminhar e depende da filha. Elas estão na cidade para um tratamento com o Dr. Gómez (Vincent Perez), espécie de curandeiro místico que tenta descobrir as causas psicossomáticas para a doença de Rosi. 

O tema central do filme, baseado no romance de Deborah Levy , é a dependência, principalmente psicológica, entre mãe e filha: para cuidar da mãe, Sofia desiste de cursar seu doutorado em Antropologia. Tudo muda para Sofia quando ela conhece Ingrid (Vicky Krieps), mulher que se relaciona livremente com homens e mulheres.

Traumas obscuros do passado podem ser determinantes no relacionamento entre as três mulheres. Enquanto Sofia e Ingrid se entregam à paixão no sol da Almería, Rosi afunda cada vez mais em sua entrega psicológica e física. A cena final, determinada por uma instigante elipse de enquadramento, deixa tudo em aberto, como nos meandros da mente.

Grand tour

Grand tour (Portugal, 2025), de Miguel Gomes.

Edward (Gonçalo Waddington), um funcionário público do Império Britânico, empreende uma jornada de fuga pela Birmânia, em 1917. Às vésperas de se casar com Molly (Crista Alfaiate), sua noiva há sete anos, Edward deixa a Inglaterra sem explicações.

A narrativa se desenvolve em dois pontos de vista. A primeira parte concentra-se na jornada de Edward, sem rumo, fugindo de seu destino. A segunda parte adota o ponto de vista de Molly, que persegue seu noivo, chegando sempre um ou dois dias atrasada na cidade onde ele esteve.

Miguel Gomes venceu o prêmio de Melhor Direção em Cannes por este filme. A narrativa fragmente alterna o passado do início do século XX, com imagens em preto e branco, e cenas contemporâneas em cores. A narração em off, feita por pessoas das localidades por onde os protagonistas transitam, confunde o espectador sobre o tempo, pois aparentemente são pessoas contemporâneas contando a história desse amor em fuga. A mescla de idiomas permeia a narrativa: português, francês, inglês, as narrações nas línguas nativas. Esteticamente deslumbrante, Grand Tour é um poema de liberdade e amor.