Calafrios

O filme abre com um comercial de TV apresentando as maravilhas do Condomínio Starline, divulgado como uma ilha paradisíaca, prédio residencial de apartamentos com toda a infra-estrutura para que os moradores nem pensem em sair dali para nada, inclusive com modernas instalações de saúde. Corta para um casal conversando com o corretor, fascinados pelo empreendimento, dispostos a adquirir um apartamento já mobiliado. 

Mas é um filme de David Cronenberg: a próxima sequência leva o espectador para dentro de um apartamento, onde um homem mais velho persegue uma jovem, a deita em uma mesa e, depois de matá-la, abre sua barriga em busca de suas vísceras. Pouco depois, o homem corta o próprio pescoço. 

O tema do filme é um vírus criado em laboratório por um médico, o assassino, e implantado no corpo de uma garota de programa, a vítima. Como a garota atendia a homens e mulheres do condomínio, o vírus se espalha e a narrativa apresenta uma sucessão de cenas escabrosas, misto de violência e sexo. O Dr. Roger St Luc passa a investigar os acontecimentos, motivado pelos relatos de pacientes, e se confronta com a inevitável proliferação da doença que provoca desejos sexuais incontroláveis. David Cronenberg, claro, não poupa o espectador e muito menos a humanidade que se vê diante de seus desejos carnais mais perversos. Atenção para a sequência do elevador, as portas se fecham, quando se abrem, uma garotinha já contaminada se debruça, junto com a mãe, sobre o homem que as infectou.

Calafrios (Canadá, 1975), de David Cronenberg. Com Paul Hampton, Joe Silver, Lynn Lowry, Allan Kolman, Susan Petrie, Barbara Steele, Ronald Mlodzik, Barry Baldaro, Camil Ducharme, Hanka Poznanska, Wally Martin, Vlasta Vrana.

A casa lobo

Sombras e pinturas que se formam nas paredes de uma casa. Porquinhos que viram crianças. Uma jovem que transita pelos meandros da escuridão, ouvindo a voz do lobo do lado de fora. Ecos de um passado aterrorizante, referências ao horror nazista e ao terror do regime de Pinochet. 

A casa lobo, dos chilenos Cristóbal León e Joaquín Cociña, é essa adorável e assustadora animação, misturando técnicas de stop motion e jatos nas paredes. É a história de Maria, uma jovem que foge de uma colônia alemã e se refugia em uma casa abandonada. Seus companheiros são dois porquinhos e a ameaçadora voz do lobo. A releitura dos contos de fada ganha uma estética gótica, trazendo à vida os espectros mais sombrios de nossa imaginação. 

A casa lobo (La casa lobo, Chile, 2018), de Cristóbal León e Joaquín Cociña.