Arreda esses olhos
resistência tem limite
cansei de agarrar seu olhar
naquele instante gostoso.
Da próxima vez
não vai ter vai e vem
afinal para que palavras?
é hora dos lábios dizerem tudo.
Arreda esses olhos
resistência tem limite
cansei de agarrar seu olhar
naquele instante gostoso.
Da próxima vez
não vai ter vai e vem
afinal para que palavras?
é hora dos lábios dizerem tudo.
Deita e espera
de cabelos soltos
e roupas de dormir
com uma revista
qualquer daquelas
de que gosto
só para fingir surpresa
e dizer que pensava em mim.
Vou chegar cansado
com vontade de morrer
e me esconder onde o dia
se desfaz em esquecimento.
Será que vale a pena
amar, sonhar
crescer e ficar adulto?
a vida se resume no tédio
na terna resignação dos dias.
O ovo estourou
já não há mais nada a fazer
apenas esperar
pela mansidão dos dias
a morte
insignificante morte.
Desculpe o atraso.
– Não tem problema. Já comprei os ingressos, o filme ainda não deve ter começado. Tem sempre comercial, um curta-metragem antes, é melhor entrar mais tarde.
A sessão de domingo do Cine Roxy era tranquila. O cinema tinha a fama de passar “filmes de arte”, difícil se formar grandes filas. Nem mesmo a pequena bilheteria, uma abertura na parede, com barras de ferro transversais, apresentava problemas. Além de tudo, adquiri desde os meus primeiros encontros o hábito de chegar cedo, cerca de trinta minutos antes das meninas. Eu marcava os encontros para a porta do cinema, ruim só o desconforto de ficar esperando em pé, na rua, às vezes conversando banalidades com o pipoqueiro.
– Vamos entrar? – Marisa tinha a beleza incerta da adolescente em formação. Não sabia ainda o que fazer com os cabelos, cortados em linha reta pouco abaixo dos ombros, enchendo de volume a cabeça a partir do lado direito, caindo ondulados, sem preparo algum. O rosto ovalado não combinava com cabelos assim, as bochechas cheias, levemente rosadas, boca pequena, nariz fino. Também não sabia ainda como se vestir para este ou aquele encontro, estava de tênis, calça jeans e camiseta, roupa mal ajustada … bem, era um encontro. Eu a conhecera duas semanas antes, nestas festas de finais de semana em casa de amigos.
Buscamos cadeiras no meio do cinema. No Roxy não era bom sentar atrás, pois dava para ouvir o barulho de carros da Avenida Augusto de Lima. Assim que o filme começou, Marisa deitou a cabeça em meu ombro, a mão em minha coxa. A sessão estava vazia naquele início de noite do domingo e logo percebi que não estávamos interessados no filme. Era a quinta vez em menos de um mês que eu assistia a Hair.
Na primeira sessão, no Palladium, não consegui me levantar ao final. À medida que os hippies invadiam o gramado à frente do Capitólio, em Washington, cantando Let the sunshine in, sensação indefinida tomou conta. Fiquei sentado olhando para a tela, sem prestar atenção nos créditos, esperando a sessão seguinte. Voltei na outra semana e na outra com o fascínio de quem está assistindo ao filme pela primeira vez.
Quando o filme acabou, Marisa se endireitou na cadeira. No caminho para o ponto de ônibus, no centro da cidade, tive a prudência de não perguntar se ela gostara do filme, pouco assistimos, afinal.
– Você pode me deixar aqui no ponto mesmo. Meu bairro é longe…
– Não. Vou com você até em casa.
– Já são quase onze horas…
– Não tem problema, estou acostumado a andar de noite pela cidade.
O Bairro Santa Inês fica perto de Sabará, mas naquela noite não me pareceu tão longe assim. O ônibus vazio permitiu ainda um ou outro arroubo, importunado apenas pelo olhar displicente do trocador. Andamos cerca de quatro quarteirões da avenida principal até a casa de Marisa. A rua mal iluminada e uma grande árvore na porta da casa colaboraram para uma despedida mais longa do que eu imaginava e podia.
– Será que ainda tem ônibus? – ela perguntou olhando o relógio.
– Não sei, deve passar um noturno naquela avenida. – ela ficou calada por alguns instantes, seus olhos procurando alguma coisa.
– Não quer entrar um pouco?
– É tarde, seus pais….
– Estão viajando. Foram ontem para a praia.
– E você?
– Tenho cursinho, o vestibular já é no início do mês. Amanhã vou para a casa da minha tia. Vem, entra um pouco.
O ponto de ônibus já estava cheio. Decerto, gente que pegava trabalho cedo, homens e mulheres com bolsas a tiracolo, as marmitas quadradas de alumínio bem ajeitadas no fundo, apoiadas dos lados para não virarem.
Preocupada com os vizinhas, Marisa me fizera sair da casa ainda de madrugada. Agora, no ponto de ônibus, fiquei com aquela emoção indefinida, deixando de pegar um ônibus, o outro, mais um, como créditos passando no final da sessão.
Sonhei com você
sonho de paixão
acordei atormentado
com vontade de vê-la
será que posso?
de longe apenas,
prometo
não chego perto
pois de perto
eu não resisto.
Adeus, Paris
fico com Maria,
Roberto
ouvindo tiros
e o bater do coração.
Adeus, Rússia
seus dias
abalaram-me
antes mesmo
de conhecer
Ana.
Adeus, Grécia
Itália, Egito
guardo-a
na estante
Elizabeth Taylor.
(despeço-me dos
filmes da minha
aldeia universal.)
Adeus, Áustria
goodbye, so long
farewell
triste, triste
mil vezes triste
quem não gosta
de musical.
Adeus, Casablanca
vai-te avião
mas deixa
Ingrid comigo
para sempre.
Adeus, Shane
é hora de dizer
adeus àquela
criança que
madrugava
em frente à TV.
Saudade de amor
é bonita de doer
porque machuca
fere sangra mata
até a vítima
se levantar da
saudade e correr
correr com música
de fundo e tudo
para se curar de vez
com um único
demorado beijo
aqueles beijos
do cinema americano.
Se eu pudesse escolher
seria agricultor pequeno
sem pretensões, sonhos?
só da minha terra
e o que dela restar.
Viveria o sol
dormiria com a lua
depois de amar
a doce camponesa.
Seria assim minha vida
todo o tempo do mundo
para amar sem fim
porque a camponesa
precisa ser amada
todo o tempo do mundo.
Caminhamos para distante
como se fosse tão longe
mas tão longe é o caminho do real
que sempre caminhamos nas nuvens
acima do mal.
E tão longe é o caminho do mal
que quase não nos perdemos
apenas nos descobrimos como amantes
nada mais do que humanos
mas algo acima do que homem e mulher
algo além do que além de tudo sonhamos
algo além do notável, procurando o irreal
em uma noite longa
onde vivemos sonhos de poeta
através da lenta progressão do encontro.