Autor: Robertson B. Mayrink

  • A grande testemunha

    Na infância, Jacques e Marie ganham um burro de presente, que passam a chamar de Baltazar. Jacques é filho do proprietário das terras onde vive o pai de Marie, um professor do interior adepto a novas práticas de cultivo. Quando termina as férias de verão, Jacques volta para Paris, após trocar juras de amor eterno com a pequena Marie.  

    A grande testemunha é um melancólico estudo sobre as transformações da personalidade, motivadas pela passagem do tempo, principalmente a ruptura entre a infância e adolescência. Muitos anos depois, a adolescente Marie se apaixona por Gérard, cruel líder de uma gangue de jovens. A relação entre os dois oscila entre entregas carinhosas e atitudes completamente abusivas por parte de Gérard.

    É um filme triste, refletido de forma intensa no olhar puro de Baltazar, que tem também uma infância alegre ao lado das duas crianças e, na vida adulta, sofre inacreditáveis violências físicas e psicológicas devido à sua condição de burro de carga. 

    “O penúltimo filme em preto-e-branco de Robert Bresson – que faz par com Mouchette, de 1967 – é um estudo sobre a santidade, um conto poderoso e tocante sobre perversidade e sofrimento, e um olhar impiedoso sobre a crueldade inata e os impulsos destrutivos do homem. Ao tratar o burrinho do título como símbolo de pureza, virtude e salvação e escolher uma estrutura episódica para sua obra, Bresson confere a A grande testemunha uma intensidade notável, que ainda é acentuada pelo estilo visual despojado.”

    Toda essa pureza e sofrimento é marcada por uma sequência tocante: após ser açoitado pelo seu dono, Balthazar consegue fugir e se esconde na casa abandonada onde viveu seus dias felizes com as crianças. Seu grito lancinante ao percorrer os ambientes decrépitos e solitários da propriedade é de destruir o coração. 

    A grande testemunha (Au hasard Balthazar, França, 1966), de Robert Bresson. Com Anne Wiazemsky (Marie), Walter Green (Jacques), François Lafange (Gérard), Jean-Claude Guilbert (Arnold). 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Cortejo de amigos

    Foi a madrugada mais fria do ano. Perto de 15 graus, edredons e cobertores saíram dos armários. A cama ficou mais aconchegante pela manhã. Cai uma chuva fina, o tempo incerto entre o outono e o inverno.

    Gosto de lentidão pela manhã. Tomar banho quente pensando em coisas por fazer, outras já feitas. Nos meus tempos de agência de propaganda, gastava água e conta de luz em busca de ideias debaixo do chuveiro – cantores de terceira, poetas e redatores publicitários são ameaça ecológica. É bom preparar o café, me sentar à mesa com a xícara fumegante, sem pressa, tomando goles folheando uma revista, o jornal do dia. Às vezes, essa lentidão da manhã fria traz lembranças.

    No rádio toca O rancho da goiabada, de Aldir Blanc e João Bosco. Pela segunda vez, presto atenção quase religiosa nesta música. A primeira foi no final da década de 70, no enterro de Zé Carlos, amigo de infância.

    Ele morreu afogado em Guarapari, antes de completar 20 anos. As lembranças dele são esparsas: moreno, pequeno bigode teimando em não crescer, cabelos curtos, gosto refinado por samba. Era daqueles que puxavam a canção em rodas de violão, de bem com a vida, a voz desafinada sobressaindo.

    Nossa turma ia chegando aos poucos no começo da noite, saindo do trabalho, da escola.  O ponto era o bar da rua, mesas na calçada. As conversas, comuns: futebol, estudos, trabalho, política, até a bebida começar os efeitos e alguém aparecer com o violão. Zé Carlos sempre dava jeito de puxar a música do João Bosco e Aldir Blanc. Ele começava cantando baixinho, acompanhando o ritmo do violão, olhos baixos, bebericando a cerveja nos intervalos, esperando a hora para soltar a voz: “e a sobremesa é goiabada cascão, com muito queijo depois café, cigarro e um beijo de uma mulata chamada Leonor ou DAGMAR….” Pelo tom de voz, a alegria represada, quase um grito, fiquei com a impressão de alguma Dagmar na vida do amigo. Talvez mulher casada, sonho de muito adolescente.

    No enterro de Zé Carlos, enquanto acompanhamos o caixão pelas alamedas do cemitério, uma voz tímida começou a cantar O rancho da goiabada. Os amigos foram aderindo até se transformar em coro alto, triste, ecoando no vazio do Cemitério da Colina.

    A música e o cortejo ficaram gravados na minha memória. Indissociáveis. A primeira lembrança triste da adolescência, como uma despedida daqueles dias felizes.

    Hoje, nessa manhã fria de outono, acho a música mais bonita. Aumento um pouco o rádio, presto atenção, guardo trechos da letra na bela interpretação do Quarteto em Cy. Acabo de tomar o café, me preparo para sair, penso no trabalho que tenho pela frente. Aos poucos esqueço a música, me concentro em coisas mais presentes. Como tantas e tantas lembranças, O rancho da goiabada está guardada em uma pequena rua de bairro.

  • Conversa de adultos

    Gabriela saiu da piscina e sentou-se no chão, de frente para a mãe.

    – Você está triste, mãe. – a mãe tirou os óculos escuros.

    – Por que você diz isso?

    – Dá para notar. Não precisa nem prestar muita atenção.

    – Deve ser o dia. Domingo costuma ser monótono, sem nada para fazer, todo final de semana neste sítio. A mesma vista, as mesmas pessoas, tanta gente aqui sem ter o que fazer, com vontade de fazer coisas que não pode. Acho que estou um pouco cheia, só isso.  – ela surpreendeu-se de desabafar com a filha assim.

    – Não estou falando só de hoje. Estou falando de todos os dias. – a mãe ficou alguns segundos sem saber, levantou-se, caminhou até perto da grade do deck. O sol começava a se aproximar da montanha, batendo quase de frente em seus olhos, derramando uma luz clara na paisagem verde, deixando árvores, matas e caminhos com uma cor estourada, quase indistinguível.  Debruçou-se na sacada e ouviu a voz de Gabriela, bem perto de seu ouvido. Voz baixa, tranqüila e segura, como se falasse de um segredo, mas sem medo de revelar segredos.

    – Papai já sabe que você está apaixonada por outro homem?

    – Enlouqueceu, menina.

    – Deixa disso, mãe. Escutei você no telefone outro dia. – ela pensou em negar, um jeito de virar o jogo. Olhou por alguns segundos para a filha, ela permanecia tranquila, os olhos esperando. – E então. Papai já sabe?

    – Não. Acho que ele não percebeu nada. Ele fica dia e noite no trabalho, eu também, a gente nem tem tempo para desconfiar dessas coisas. – não sentiu medo nem pesar por ter se revelado tão naturalmente para a filha, apenas surpresa consigo mesma. Pegou-a pela mão e levou-a de volta para as cadeiras ao lado da piscina. Por fim, sentou-se e afundou a cabeça entre os joelhos, como se desse conta do que acontecera. Sentiu a mão de Gabriela em seus cabelos. Levantou o rosto.  – Coisa feia, escutar conversa dos outros.

    – Eu sei. Desculpa mãe, foi sem querer. É sério? vocês estão juntos há muito tempo? ouvi você dizer te amo.

    – É. É sério. Acho que pela primeira vez na vida estou amando de verdade. Não que eu não tenha amado seu pai. É um amor diferente, com paixão. Como se, como se…. ah, não sei.

    – E você quer ficar com ele.

    – Quero. É a coisa que eu mais quero na vida.

    – Porque você não conversa com o papai. Talvez ele entenda. – a mãe olhou com carinho a filha, os cabelos loiros, olhos azuis, “Deus, como ela cresceu”.

    – Não posso. Nós temos você, eu não posso fazer isso com você.

    – Pera aí, mãe. Eu não tenho nada a ver com isso. É uma história entre você, papai e o seu …. o seu….o seu namorado.

    – Mas Gabriela, você não entende.

    – Acho que quem não está entendendo é você. Daqui a pouco eu saio de casa, vou viver a minha vida e você vai ficar aqui. Você e o papai. Pelo jeito, infelizes.

    – Não é tão simples ….

    – Na verdade é simples. Você não ama o papai. Acho que o papai também não ama você mais. Ficam aí, apegados a essas coisas materiais, dizendo com orgulho de tudo que construíram juntos. Agora você está apaixonada, está tendo um caso. Se fosse um caso passageiro, vá lá. Mas não. Parece que não. Você acabou de dizer que quer ficar com ele mais do que tudo na vida. Está triste, deprimida, sofrendo. E diz que vai sacrificar a sua vida por mim. Eu não peço isto. Filho nenhum pede isto. Vocês é que decidem assim. Vivem dizendo, “vocês são a minha vida”, e tem aquela conversa fiada, aquela chantagem barata: “dediquei a minha vida por você, fiquei noites sem dormir, deixei de fazer tudo que queria”. Não vem com essa que eu não quero carregar este peso. Se você sacrificar alguma coisa é problema seu. Convenhamos, né mãe. Vocês complicam tanto a vida.

    – Mas eu vou separar você e seu pai ….

    – Ah, não vai. Mas não vai mesmo. Eu adoro o papai. Vou continuar convivendo com ele. Eu tenho amigos de pais separados, você sabe. Eles vivem do mesmo jeito. Ninguém morre, ninguém mata. Uns carregam lá os seus problemas, mas… os pais tão aí, cuidando da vida, dos filhos, trabalhando, vivendo. Acho que vai ser até legal ter duas casas, conhecer seu namorado, a namorada do papai. É a vida, mãe.

    Um estremecimento tomou conta do corpo de Gabriela. Ela encolheu os braços. O sol acabara de se esconder atrás da montanha.

    – Você vai se resfriar minha filha. Vem cá, deixa eu enxugar você. – ela pegou a toalha e envolveu-a toda, passando a toalha pelos cabelos molhados da filha. – Tem certeza que você vai ficar bem?

    – Mãe, eu já estou crescidinha. Por falar nisto. Mês que vem é meu aniversário. Já comprou o meu presente?

    – Não sei, o que você quer?

    – Humm. Tava pensando numa mobilete.

    – Mobilete?

    – É. Aquela moto pequena que o Arthurzinho tem.

    – Ah, não. É muito perigoso. Você ainda não tem idade.

    – Mãe. Eu já vou fazer doze anos. Dá para deixar esse negócio de menininha de lado?

  • Velhos discos de vinil

    Ângela levou o copo de vinho aos lábios sem tirar os olhos dos meus. Três horas depois, o corpo dela repousava no meu. Naquela tarde, uma chuva serena esfriara de vez o tempo em Maringá. A neblina encobrira a serra, da janela da casa se viam nuvens baixas passando como fumaça entre as araucárias da serra. Na pousada em frente, um ou outro casal aparecia na varanda por alguns minutos, como a maldizer o tempo que acaba com finais de semana românticos, casos eventuais, passeios aventureiros ou coisa parecida que a paisagem inspira. Aventuras na serra e amores selvagens não combinam com este frio impiedoso.

    Há mais de dez minutos eu estava na janela, pensando no telefonema de poucos minutos atrás.

    – Meu amor, não posso subir hoje. Dois médicos adoeceram ao mesmo tempo e me escalaram de última hora para o plantão desta noite. Você sabe… início de feriado, estes idiotas morrendo sem parar nas estradas…

    Há cerca de dois meses, Cláudia e eu alugamos uma casa na serra para finais de semana. Todos os amigos alertaram da praticidade de ficar em pousadas, ao invés de pagar aluguel, além dos consertos que todas as casas necessitam.

    – Vamos ter trabalho, tem certeza que a gente tem disposição para pegar a Dutra todo final de semana? –  Cláudia respondeu que seria como uma aventura, um desafio. Só não teve coragem de completar que talvez fosse a última tentativa para aquele casamento que insistia em sobreviver sem romantismo, o sexo se limitando aos domingos de manhã.

    Ela prometera descansar um pouco após o plantão e subir logo depois do almoço.

    – Juízo, heim!!! – alerta desnecessário para um homem que não entendia mais o significado de determinados olhares que trocava com uma ou outra mulher.

    À tardinha, tomei a decisão sem sentido, com aquela chuva fina, de caminhar pelas ruas da vila. Desisti logo que desci do carro e o vento jogou a garoa fria no meu rosto. Estava em frente a um bar que sempre me atraíra. O proprietário decorara a fachada com discos de vinil, dentro, só tocavam velhos LPs, aquele som chiado tomando conta do ambiente.

    Pedi um vinho. O bar estava vazio, com apenas três ou quatro casais mais velhos. Ouvi uma risada alta às minhas costas. Os casais à minha frente olharam em direção à mesa, reprovadores, revelando a imperdoável interrupção do ensimesmar. Despejei um pouco mais de vinho no copo, a vontade incontrolável de me virar e também acusar, dizer do absurdo de naquela noite fria, solitária e sem esperança, alguém rir daquela maneira.

    Na segunda risada, ainda mais alta, me voltei em um impulso para a mesa imediatamente atrás da minha, onde três mulheres conversavam. Ângela sentiu de imediato a ferocidade do meu gesto e abaixou os olhos. Por poucos segundos. Passou os dedos pela borda do copo, os lábios se contraíram em um leve sorriso e voltou a levantar os olhos em direção aos meus. Ficamos assim um tempo. Ela se levantou, caminhou até a minha mesa e se sentou à minha frente, sem sequer pedir licença. Um gesto impulsivo, instinto natural de quem sabe que estes olhares não podem se transformar, na manhã seguinte, no arrependimento do que não aconteceu.

    Ângela, de rosto anguloso, emoldurado por cabelos castanhos levemente cacheados que caíam até os ombros. Seus olhos amendoados deixavam a sensação de chuva mais evidente, seus dedos finos e longos envolviam o copo de vinho com delicadeza, com a suavidade de alguém que trabalha com carinho nas mãos, talvez uma paisagista, arquiteta, quem sabe artista plástica. Conversamos pouco, Ângela fez a proposta sem rodeios.

    Não sei. Hoje, tantos anos depois, envelhecendo ao lado de Cláudia, minhas lembranças daquela noite são as lembranças do olhar. Ângela debruçada em meu peito após o amor, lembrança indelével, como as araucárias embranquecidas pelo inverno rigoroso da serra.

  • Tiros na noite

    A mãe deixou a panela cair. O coração disparou, barulho de metal repicando no piso da cozinha sempre a irritava. Conseguiu prender a panela com o pé, parando aquele som que entrava fundo em seus ouvidos. Respirou fundo, abaixou-se lentamente, uma das mãos nas costas, pouco acima das nádegas, a outra recolhendo o utensílio barulhento. Jogou a panela na pia. Meu Deus! mais barulho. Viúva, morava sozinha, na sua rotina, uma cachorra poodle, conversa matinal com as vizinhas, caminhada pelo quarteirão, cochilo depois do almoço, a novela das seis… das sete. Até que a filha e a neta vieram morar junto. Ih, ela acordou! Foi ao quarto da neta, encostou o ouvido na porta. Abriu devagar, descalçou os chinelos, andou lentamente até perto da cama. Dormia. Juro que ouvi um choro. Esses barulhos, sei não, essas coisas da noite. Denise na rua até essa hora. Fechou a porta do quarto, caminhou até a sala. Conferiu se as janelas estavam fechadas, a porta. Foi quando a mãe ouviu o tiro.

    Roberto, o ex-marido, contou à polícia que naquela noite ele e Denise tinham finalmente feito as pazes. Comeram pizza se lembrando de velhos tempos. Ele não bebera. Nunca bebo quando estou dirigindo. Na saída, chamei Denise para um motel. É tarde, me leve para casa. A nossa? Não. A casa da mamãe, Dani pode acordar, a mãe não tem mais idade para levantar de noite. No carro, ela deitou o rosto em meu ombro, apertou a minha mão. Foi o que disse.

    Paramos no portão da casa da sogra. Uma hora da manhã, a rua deserta. A luz do poste estava queimada. Denise me abraçou, beijou minha boca, assim, beijo mesmo, com saudade, com… Isso entra no depoimento? Ouvi uma batida no vidro do carro, na janela do lado de Denise. Um rapaz com revólver. Apontou a arma. Ele bateu de novo, pensei que fosse quebrar o vidro. Fez sinal para abaixar a janela. Obedeci,  você sabe, a arma na nossa cara. Ele me mandou descer. Eu não sabia o que fazer, fiz gesto de abrir a porta, Denise gritou assustada, fez um movimento descontrolado em minha direção. Foi quando escutei o tiro.

    Denise casara-se cedo, aos dezenove. Levava vida de dona-de-casa: filha, casa, marido bem de vida. Com o tempo, perdeu o encanto, o desejo. Quando soube das noitadas do marido, não se importou. Deixou o tempo passar, a filha crescendo. Um dia, como acontece com poucas mulheres que vivem para o lar, acordou. Mudou-se para a casa da mãe, arrumou emprego. Entusiasmou-se. Roberto não. Passou a persegui-la, exigindo a volta. Ele  freqüentava a casa para ver a filha. Ficava até mais tarde, a mãe ressabiada, esse volta não volta, minha liberdade foi embora, nessa idade tomando conta de menina.

    O advogado entrou com os papéis. Agora não tem volta. Roberto: tem. Ou você não fica com nada, não põe a mão em um centavo meu. E tem mais, se te pego com outro, é tiro. Denise não levou a sério, conversa fiada, pensou.

    Na noite em que voltavam para casa – ideia dele sair para conversar, só comer uma pizza e conversar – Roberto tinha semblante calmo, feliz. Na saída da pizzaria, tentou beijá-la. Ela recusou. Vamos para um motel. Ela recusou. No caminho de casa, pensava na filha, fazia planos, os olhos vendo as ruas, as luzes da cidade. Na porta da casa da mãe, ele parou o carro debaixo do poste. Denise observou a luz queimada, a rua na penumbra. Sem lua, sem luz, o farol do carro apagado.

    Assustou-se com barulho no vidro. Um rapaz com arma na mão. Antes dele bater de novo, o vidro desceu lentamente. Ela olhou assustada para Roberto. Ele já estava com a perna para fora do carro. Roberto afastou-se lentamente do carro. Foi quando Denise escutou o tiro.

  • O covarde

    O carro do roteirista Amitabh Roy estraga em uma pequena cidade do interior da Índia. Sem condições de seguir viagem, Bimal Gupta, um rico plantador de chá da região, oferece hospedagem a Roy. Quando chegam em casa, já à noite, Roy se surpreende ao encontrar Karuma, esposa de Bimal, sua paixão dos tempos da faculdade.

    O diretor indiano Satyajit Ray tece uma narrativa marcada pelo silêncio entre os apaixonados, que relembram sua paixão através de olhares, gestos, tentativas de diálogos que não se realizam. Flashbacks reconstituem o relacionamento e o motivo da separação, motivada pelo receio – expresso no título do filme – de Roy em assumir um relacionamento mais sério. A narrativa curta, com apenas três personagens em cena, expressa um dos belos versos da música brasileira: “é desconcertante rever o grande amor.”  – Chico Buarque e Tom Jobim. 

    O covarde (Kapurush, Índia, 1965), de Satyajit Ray. Com Soumitra Chatterjee (Amitabha Roy), Madhabi Mukherjee (Karuna Gupta), Haradhan Banerjee (Bimal Gupta).

  • As praias de Agnês

    O documentário pode ser visto como uma espécie de testamento fílmico de Agnès Varda. A narrativa começa com a montagem de um cenário em uma das praias frequentadas pela fotógrafa/cineasta na infância. Encenações na praia se fundem a trechos de seus filmes, amparados por uma sensível e sincera narração em primeira pessoa. 

    Parte da história do cinema francês, pouco antes e a partir da nouvelle-vague francesa, está registrado em As praias de Agnès. Os relatos e os filmes se imbricam com a vida pessoal de Varda, em momentos de emocionar, como no momento em que ela vê fotos de amigos mortos e, principalmente, ao comentar seu relacionamento com o também cineasta Jacques Demy. A rua onde ela viveu, em Paris, serve como cenário para a simulação de uma praia em plena capital francesa, com areia, sombrinhas, mesas de trabalho como se fosse uma produtora de cinema ao ar livre. Em um trecho, a cineasta tenta definir cinema: “O que é o cinema? É luz que chega de algum lado e que é retida pelas imagens mais ou menos escuras ou coloridas.” Filme a filme, memória a memória, Agnès Varda revela toda a sua paixão por essas imagens escuras ou coloridas e pela vida.  

    As praias de Agnès (Le plages D’Agnès, França, 2008), de Agnès Varda.

  • Pororoca

    Para entender a força da linguagem cinematográfica em determinadas narrativas, basta se entregar ao longo plano sequência no parque, quando a filha do casal Tudor e Cristina desaparece. É uma espera angustiante para o espectador, acompanhar sem cortes uma bela manhã ensolarada no parque, onde crianças se divertem, pais relaxam com livros e conversas banais, sorvetes aliviam o calor das crianças e dos adultos. Angustiante, pois o espectador sabe o que vai acontecer com a pequena e doce Maria. 

    A partir do desaparecimento da criança, a narrativa se concentra na luta diária dos pais para encontrar a filha. Ao mesmo tempo, o casal tem que enfrentar a degradação do relacionamento, motivada principalmente pelo sentimento de culpa.  Pororoca é um filme difícil de assistir, repleto de sequências que fazem o espectador entrar na tristeza e desespero do casal. A reviravolta na sequência final, claramente uma citação à Taxi Driver, de Martin Scorsese, é impactante, pode-se dizer aterradora ao expor os limites da insanidade. 

    Pororoca (Romênia, 2017), de Constantin Popescu. Com Bogdan Dumitrache (Tudor Iunesco), Iulia Lumânare (Cristina), Constantin Dogioiu (Pricop). 

  • O evangelho segundo São Mateus

    Pier Paolo Pasolini era declaradamente ateu. No entanto, isso não foi empecilho para que o diretor realizasse sua leitura da bíblia para reconstituir o martírio de Jesus Cristo.  “Não é difícil prever que este meu relato pode provocar reações interesseiras, ambíguas ou escandalizadas. Seja qual for a reação que receba, quero deixar claro que a história da Paixão que eu evoco indiretamente é para mim a maior que jamais houve, e os textos que a registram, os mais sublimes já escritos.” – Pier Paolo Pasolini. 

    Pasolini retrata um Cristo vivendo em uma região desértica e miserável, cujos monólogos, diálogos e sermões são extraídos diretamente do texto do Evangelho. O filme se aproxima de uma das maiores influências do cinema do diretor: o neorrealismo italiano. O filme é gravado em locações, com um grupo de atores que faziam parte do círculo intelectual de Pasolini. O resultado é uma narrativa próxima à realidade vivida por Cristo e seus seguidores. “O Cristo de Pasolini, foge dos parâmetros de iconografia católica tradicional: barba curta e rala, rosto cheio, sobrancelhas unidas. Do mesmo modo, os atores que vivem os apóstolos poderiam ter saído de qualquer praça de Roma.” – Pedro Maciel Guimarães

    Esse olhar realista, próximo do que poderia ter sido a vida naqueles tempos, coloca Jesus Cristo no lugar de um revolucionário que angariou seguidores em busca de justiça social e fraternidade entre os irmãos. Com a poesia bela e emocionante dos textos bíblicos sob o olhar também belo e poético de Pasolini. 

    O evangelho segundo São Mateus (Il vangelo secondo Matteo, Itália, 1964), de Pier Paolo Pasolini. Com Enrique Irazoqui (Jesus Cristo), Margherita Caruso (Maria Jovem), Susanna Pasolini (Maria Adulta), Marcello Morante (José), Mario Socrate (João Batista), Otello Sestili (Judas). 

    Referência: O evangelho segundo São Mateus – um filme inspirado na vida de Jesus Cristo. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Reinaldo José Lopes. São Paulo: Folha de S. Paulo 2016. Coleção Folha Grandes Biografias no Cinema.

  • A menina dos olhos distantes

    O vento entrou pela janela aliviando por segundos a temperatura deste setembro quente como há muito não se vê. A sensação térmica parece grudar o ar da noite em minha pele para sempre, como manchas de sol que não se vão. Há um segundo motivo que me prende agora em frente à janela, tentando sentir uma brisa sequer. Ontem à noite, voltando da farmácia do bairro, a lua cheia surpreendeu, despontando acima dos prédios. Imaginei esta vista da sala de jantar de meu apartamento, onde tenho o hábito de me sentar para escrever ou navegar pela internet.

    “Tem certeza que teremos lua cheia novamente? Este vento está congelando.”, disse Anne.

    Há quase uma hora estávamos sentados em frente ao mar, um pequeno grupo de adolescentes espalhados pela areia, olhos presos na escuridão e na espuma branca das ondas. Eu tinha visto a lua nascer atrás das dunas na noite anterior e chamei o pequeno grupo de amigos para assistir ao espetáculo na praia. Caminhamos cerca de vinte minutos e, quase aos pés das ondas, esperamos. Ficamos cerca de uma hora ali, o vento frio de julho cortando, levantando com agressividade os cabelos de Anne. Ela debruçou o corpo sobre os joelhos, tentando frear o movimento do vento. Seus olhos parados na areia, o dedo riscando imagens sem sentido.

    Foi nesta mesma posição que a vi pela primeira vez, sentada à minha frente na praia quase deserta de Tucuns, três dias antes, naquela manhã de 1981. Um cachorro pequinês correu em direção a ela. Anne se levantou, jogou os longos cabelos pretos para trás, chegavam quase à cintura de um corpo magro, sem contornos definidos. Era ainda uma menina em formação, a ingenuidade transparecendo no seu jeito de correr em direção à água, nos seus olhos sempre distantes.

    Não lembro mais se paixões adolescentes nascem assim, de imediato. Podem ser questões científicas de hormônios, mas prefiro pensar em manhãs à beira-mar, em uma linda menina brincando com seu cachorro, na lua surgindo vermelha, o rastro iluminando o mar, dedos se entrelaçando, roçar de braços, a cabeça caída em meu ombro à medida que a lua deixava às águas e ocupava seu espaço imponente.

    Escrevo hoje, contemplando outra lua cheia, pensando em Anne. A menina que brincava com dedos na areia e trocou seu primeiro beijo ao luar, como deveriam ser todos os primeiros beijos.

  • Janelas distantes

    Eu tenho que deixar o hotel depois das 12 horas. Meu voo só sai às quatro da tarde. Tenho tempo ainda para a última visita: a Torre de TV. O folheto anuncia, “Tem 224 metros e pesa 378 toneladas. Está assentada numa base em forma de pirâmide deitada. Estão representados ali o triângulo das comunicações e o tríplice do poder.” Tudo em Brasília recende a poder. Penso, folheto nas mãos, subindo o elevador abarrotado de turistas. Nesse momento, só me interessa a vista lá de cima.

    Desde criança, tenho fascínio por mirantes. Quando chegava à terra dos meus pais, pequena cidade do interior, nas férias de dezembro e janeiro, corria para o quintal da casa da tia, de onde avistava o Cruzeiro, imponente no alto do morro. No dia seguinte, eu estava subindo as escadas de terra, ofegante, até me postar ao pé da cruz e avistar a cidade. Como os primos não tinham a menor predileção por estas escaladas matutinas – a bem da verdade, monótonas – ia sozinho. Demorava-me olhando a paisagem seca e ensolarada, talvez a mesma de todas essas cidades do interior que morrem aos poucos. Com o tempo, sobrevivem apenas nas lembranças dos que vão embora para nunca mais. Minhas lembranças têm nome: Ana Maria.

    Lá do alto, eu sempre procurava a casa onde ela morava, um sobrado na praça, em frente à igreja matriz da cidade. Eu não tinha binóculo nem luneta, mas a imaginava abrindo a janela para deixar o sol da manhã entrar. Via os olhos ainda adormecidos de Ana Maria ofuscados pela luz da manhã, as faces coradas pelo calor das cobertas, as delicadas mãos se protegendo do agressivo ataque de fechaduras corroídas pelo tempo. Ela ficava alguns segundos na janela, o suficiente para deixar o vento afugentar o calor das faces, dar a volta em seus cabelos até o arrepio da nuca e levantar levemente a única peça de roupa que a cobria – a camisola branca de meus sonhos.

    Do alto do Cruzeiro, aos pés de Deus, minha imaginação ganhava força e ritmo, ao sabor da estonteante passagem entre a infância e a adolescência. Um ritmo alucinado que nos joga despreparados no mundo separado pelo visível e o invisível. Apenas um sufixo entre os indescritíveis tormentos da puberdade.

    Certa manhã, no calor do verão dentro e fora de mim, Ana Maria subiu comigo ao Cruzeiro. Eu a amparava, oferecia a mão nos degraus mais perigosos, esperava com a paciência dos enamorados que ela recuperasse o fôlego, que a respiração em seus seios voltasse ao normal. Sentada ao meu lado no alto do morro, o queixo apoiado nos joelhos, ela disse, “olha a minha casa”. Apontou com o dedo um ponto perto da igreja. “Se você tivesse binóculo, podia ver o meu quarto, me ver abrindo as janelas de manhã”.

    Fiquei um tempo parado no alto da Torre de TV, contemplando a imensidão vazia de Brasília, entrecortada pelos frios monumentos de concreto. Ao meu lado, uma jovem ajeita a pequena luneta. Talvez procure bem ao fundo, além do Lago Paranoá, alguma janela se abrindo para o sol da manhã.

  • Pocilga

    São duas histórias cujas narrativas não têm relação direta uma com a outra. Um jovem perambula sozinho pelas montanhas agrestes, se alimentando primeiro de pequenos insetos e outros animais. Passo a passo, se transforma em um canibal. Mata e come outros peregrinos das montanhas como ele. Aos poucos, outras pessoas o seguem, como uma espécie de legião de canibais. Julian Klotz, filho de um rico industrial que mantém relações comerciais escusas com a Alemanha desde o período nazista, vive em uma suntuosa mansão, um castelo repleto de ambientes, obras de arte e jardins exuberantes. Desde criança, tem como diversão misteriosas visitas à pocilga da propriedade. Ida, sua namorada, anuncia logo no início do filme: “Somos dois ricos burgueses, Julian. O destino que nos uniu não é qualquer um. É natural que nos orgulhemos. Na verdade, só estamos aqui nos analisando porque é nosso privilégio.”

    Pocilga é uma incursão surrealista de Pasolini a temas que marcaram sua obra fílmica e teórica: a religiosidade, a repressão política, contestações aos valores morais da sociedade, a exploração capitalista, o consumismo exacerbado, os conflitos inerentes à entrega aos mais profanos desejos da mente e do corpo humanos.

    O filme ecoou de forma perturbadora, provocando críticas acirradas para o bem e para o mal. Os longos diálogos filosóficos entre os personagens que habitam a mansão se contrapõem à silenciosa narrativa que acompanha a trajetória do canibal. Teatro e cinema em conjunção em mais uma obra rebelde de Pasolini. 

    Pocilga (Porcile, Itália, 1969), de Pier Paolo Pasolini. Pierre Clémenti (Canibal), Jean-Pierre Léaud (Julian Klotz), Alberto Lionello (Sr. Klotz), Ugo Tognazzi (Herdhitze), Anne Wiazemsky (Ida), Margarita Lozano (Madame Klotz). 

  • Trono manchado de sangue

    O filme é a mais impressionante, tenebrosa e assustadora adaptação da célebre peça Macbeth. Nem mesmo Shakespeare imaginava que seria possível traduzir em imagens a soturna incursão pelos meandros das almas e mentes atormentadas pela cobiça do casal de protagonistas da peça. 

    Akira Kurosawa adaptou a peça para o Japão feudal, um período marcado por batalhas sangrentas entres clãs arraigados às tradições. O General Washizu, destemido guerreiro samurai, é assombrado pela profecia de uma bruxa em uma floresta labiríntica ao voltar de batalha. A concretização da profecia é estimulada pela sua diabólica esposa, Lady Asaji (Isuzu Yamada): Washizu deve assassinar o seu comandante militar e se apoderar da liderança do reino.

    “O maravilhoso Mifune – um dos protagonistas favoritos de Kurosawa em uma parceria longeva (mais de 16 filmes) tão notável quanto a de Martin Scorsese com Robert De Niro – aprofundou sua reputação como ilustre astro internacional japonês com sua atuação. A sequência de sua morte, encenada de forma brilhante, na qual ele é cravado por uma saraivada de flechas, é uma das grandes imagens icônicas do cinema mundial. Elementos do teatro Nô, da tradicional arte de batalha japonesa, de realismo histórico e da reflexão contemporânea sobre a natureza do bem e do mal são fundidos aqui em um mundo opressivo e envolto em neblina, repleto de presságios sinistros e mágicos, com suas florestas e castelos (o castelo foi construído em locações nas alturas do monte Fuji, com a ajuda de um batalhão do Corpo de Fuzileiros navais dos EStados Unidos baseado nas proximidades.)”

    Trono manchado de sangue (Kumonosu-Jô, Japão, 1957), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Isuzu Yamada, Takashi Shimura, Akira Kubo, Minoru Chiaki. 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Elaine

    Elaine. Corpo miúdo, ainda adolescente saída da infância, pele clara, olhos castanhos em tom quase laranja, nariz afinado, seios despontando sob a camiseta de malha branca, cabelos negros cortados rente à orelha, deixando a descoberto o longo pescoço. Foi como a vi naquele domingo de manhã.

    Dezenas de jovens se aglomeravam em pequenos bandos nos arredores do Cemitério da Saudade. Estudantes organizados para uma caminhada pela Serra do Curral. Alguns olhavam a montanha e sentavam-se desolados no meio-fio, imaginando a caminhada. Outros exibiam a disposição em roupas esportivas, marcas famosas estampadas em camisetas e bonés como a anunciar a supremacia da juventude que dava os primeiros passos rumo ao consumo desenfreado que acabou tomando conta das gerações seguintes.

    Elaine chegou, cumprimentou adoradores e desafetos conquistados naqueles anos de colégio. Os adoradores, encantados por beijos no rosto e olhares prometidos. Os desafetos, se lembrando das recusas seguidas de cochichos nos ouvidos das amigas, sabe-se lá que desprezos revelando. Eu estava entre os adoradores, olhar se cruzando às vezes.

    Foram perto de sete horas de caminhada, atravessando a Serra do Curral até a cidade de Nova Lima. Partimos em fila indiana do cemitério. “É necessário organização, solidariedade, disciplina e nada de aventuras arriscadas como sair da trilha, se embrenhar em matas, rios, se descuidar do companheiro da frente”, disse o professor, seguindo como guia, passo ritmado de quem conhece o caminho e, a julgar pelos longos cabelos amarrados em rabo de cavalo e pela barba chegando quase à barriga, também os descaminhos.

    Chegamos ao primeiro topo. À frente, a vista revelava o vazio resultante da mineração: montanhas cortadas até a raiz, substituídas por um imenso vale de poeira e lama se misturando a lagos formados pelo lençol freático. A montanha terminada em dejetos. Descemos. À medida que cruzamos o vale, passamos por gigantescas máquinas cobertas de pó do minério. Escavadeiras, caminhões carregadores com pneus maiores do que quatro de nós empinados. Máquinas assustadoras a demonstrar o terror de que são capazes.

    Elaine caminhava a meu lado, feição às vezes séria, outras vezes sorria a um ou outro gracejo dos amigos. Encobríamos o sentimento de destruição aparente com o humor da juventude reunida, certa de poder vencer até mesmo a tristeza do mundo acabado assim, tão à vista.

    Após atravessar o vale deserto, começamos a subir a segunda montanha. A picada agora era mais íngreme, acidentada, trilha mal formada emoldurada por galhos, espinhos, em determinados pontos era preciso esperar cada um passar devagar, os meninos segurando galhos para segurança das meninas. Cheguei extenuado ao topo da montanha. Olhei para trás. O vale de poeira ganhava a dimensão alcançada pelo olhar. As máquinas, agora diminutas, pareciam insignificantes como miniaturas em uma maquete. À minha frente, a descida anunciava paisagem contrastante,  coberta de mata, mal se via a trilha, mal podia se encontrar o caminho. Os primeiros da fila já alcançavam o vale embaixo.

    Elaine deitou a cabeça em meu ombro, denúncia de cansaço e desalento. Descemos pela encosta. Molhei a boca com a água racionada do cantil, ofereci o resto a Elaine. Eu já pensava na possibilidade em um final seco de jornada, mas o guia conhecia aquelas trilhas. Saindo do meio da mata densa, nos deparamos com uma clareira cortada por um riacho de águas claras correndo entre pedras lisas.

    Vários jovens já tomavam banho sem nem mesmo tirar os jeans, muitos deitados nas pedras, deixando a água deslizar pelo corpo. Elaine sentou-se na margem e tirou o tênis. Apertou com as mãos seus pequenos dedos doloridos, massageou o dorso e a sola dos pés, as mãos trabalhando ao mesmo tempo. Dobrou as pernas da calça até abaixo dos joelhos, colocou os pés na superfície rasa do riacho. Debruçou-se, a cabeça deitada sobre as pernas, as mãos brincando de represa. Meus olhos se prenderam naqueles pequenos pés, na insensata beleza da mulher descalça,.

    Andamos por cerca de três horas. O caminho agora mais fácil, pequenas subidas e descidas até chegar a uma antiga estrada de terra. Entramos em Nova Lima por volta de duas horas da tarde. Elaine já caminhava cansada, as faces vermelhas de sol, procurando as sombras de marquises ou de muros altos. Os moradores da cidade aproveitavam o domingo. Gente olhava a rua da janela, homens nas calçadas dos bares, crianças corriam, uma turma jogava pelada de rua, velhas senhoras de sombrinha paravam para olhar a multidão de jovens sujos, cansados e sedentos descendo da montanha.

    Paramos em uma praça da cidade. Aos poucos, os estudantes se dispersaram. Muitos já tinham encontro marcado com os pais para voltar de carro. Eu, Elaine e um grupo de amigos, planejamos voltar de ônibus, no final da tarde. Pensamos em andar pela cidade, mas o cansaço acabou nos deixando espalhados pelos bancos e gramas da praça. Sentei-me ao lado de Elaine, costas apoiadas na árvore. Não tínhamos mais o que conversar, se criou entre nós aquele sentimento de pessoas que passam o dia inteiro juntos e de repente se encontram sem mais nada para fazer. Ela deitou-se na grama, usando meu colo como travesseiro. Fechou os olhos e dormiu por quase uma hora. Fiquei olhando seu rosto, as mãos acariciando seus cabelos, ousando um toque suave no pescoço para vê-la estremecer no sono. Às vezes ela abria os olhos, sorria. Em todos esses momentos, adiei o gesto de levantar Elaine, apertá-la em meu peito, beijar seu rosto, encontrar seus lábios.

    Deixei o tempo passar. E ainda hoje, tantos anos depois, guardo a sensação de impotência daquele dia diante das máquinas que avançam destruidoras criando o deserto. Diante de Elaine.

  • Amores expressos

    Wong Kar Wai filmou essa fascinante incursão pelos encontros casuais das ruas de uma cidade em apenas 23 dias. São duas histórias que se confundem, se misturam, se integram, essas coisas de destinos. 

    O policial 223 tenta esquecer sua antiga namorada, comendo sem parar enlatados que estão perto de perder a validade. Em um bar, conhece uma bela e misteriosa criminosa, cuja arma atira como nos bons filmes de Godard. O policial 663 tem um tórrido caso com uma aeromoça, que o abandona. Ele faz a ronda da cidade perto de uma lanchonete, onde trabalha uma despretensiosa e irreverente garçonete. Fascinada pelo policial, a garçonete passa a frequentar a casa do policial enquanto ele está no trabalho, promovendo mudanças sutis na decoração, deixando sua marca. 

    Amores expressos foi responsável pela revelação internacional do icônico diretor Wong Kar Wai e, por extensão, abriu os olhos do ocidente para o cinema contemporâneo asiático. O contraponto de cenas aceleradas e outras em câmera lenta estão presentes, assim como a exuberância visual, pontuada sempre por uma trilha sonora que, às vezes, apenas marca a trama, outras, toma conta do espaço cênico – destaque para California Dreams

    Não espere narrativa coerente, bem costurada em termos de roteiro. As duas histórias são fragmentos de encontros, como esses encontros entre jovens que tentam se reconciliar com seus amores. 

    Amores expressos (Chung hing sam I am I, China, 1994), de Wong Kar Wai. Com  Brigitte Lin, Tony Chiu Wai Leung, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Valerie Chow, Jinquan Chen, Lee-Na Kwan, Zhiming Huang, Liang Zhen, Songshen Zuo

  • Ao longo da costa

    Ainda no início da carreira como cineasta, Agnès Varda realizou este curta documental para o Escritório Francês do Turismo. A câmera passeia de forma descontraída pelas praias, ruas e monumentos da Riviera Francesa. No início a diretora avisa, vamos deixar o burro e a vaca de lado, alusão aos animais dos simples moradores da costa azul, pois o tema do documentário são os turistas que chegam aos milhares no verão europeu. 

    Mesmo sendo uma encomenda oficial, o olhar crítico da diretora se traduz em um texto às vezes irônico e imagens simbólicas da imersão turística nas praias ensolaradas, apinhadas de turistas com seus corpos vermelhos expostos ao sol inclemente. 

    Ao longo da costa (Du Côté de la Côte, França, 1958), de Agnès Varda.

  • Duquesa

    A casa está em silêncio nesta noite fria de julho. Todos dormem. Ajeito os travesseiros, o edredom espera esparramado no sofá. Perco-me durante alguns segundos no irritante processo de configurar idioma e legenda do DVD. Apago a luz, me acomodo e num breve instante, antes do filme começar, meus olhos procuram o chão da sala, o hábito de ver ali a almofada cor-de-rosa, Duquesa enrodilhada, o focinho escondido entre as patas, as longas orelhas peludas resvalando no chão.

    Nem sempre ela foi serena assim. Na juventude raivosa, ela levantava-se rápido e corria da sala até o quintal, deixando no rastro latidos curtos e roucos. Parava, ouvidos atentos, olhos procurando suspeitos. Ao menor sinal, latia para essas ameaças encobertas que alegram a vida do cão doméstico. Atrás da proteção dos muros da casa, latem para o vento.

    Duquesa mostrava garras também para os visitantes. Certa feita, se agarrou à barra da calça do entregador de gás. Observava atenta da varanda, sentada no alto da escada, o leiturista da Copasa – olhos sedentos, dentes em prontidão. Pedreiros, pintores, marceneiros, freqüentadores da infinda reforma de minha casa, tomavam sempre o cuidado de saber o paradeiro da cocker antes de entrar. “É pequena mas brava.” – diziam. Até mesmo a diarista de tantos anos olhava ressabiada ao entrar. Duquesa levantava a cabeça discretamente, rosnava por dois ou três segundos e, desapontada por ver gente conhecida, voltava a deitar o focinho entre as patas peludas.

    Seu jeito de comer também era ruidoso. Colocava alguns grãos de ração na boca e os espalhava pelo chão. Depois pegava grão a grão e antes de mastigar latia para o alto.

    Com o tempo, os latidos diminuíram, a maturidade serenou pouco a pouco a revolta contra o vazio. A diarista entrava, Duquesa levantava discretamente a cabeça, nada de rosnados. Assistia tranqüila o entregador de gás deixar o botijão. Do alto da escada, não levantava mais os olhos para o leiturista da Copasa. Passou a marcar os lugares da casa com sua serenidade avançada.

    Durante os almoços em família, ficava enrodilhada na almofada cor-de-rosa no canto. Andava perdida pela casa até se aconchegar na presença de um dos moradores. Se minha filha dormia à tarde, Duquesa deitava aos pés da cama. Se minha esposa passava a tarde trabalhando no jardim, Duquesa deitava na varanda, em vigília adormecida. Perto da cadeira de minha escrivaninha, ela ocupava um pequeno espaço. Só não entrava no quarto do meu filho: arredio a cães, ele a enxotava. A cachorra dava então algumas voltas, chegava o focinho no limite do ambiente proibido, se voltava e deitava na soleira da porta em solene protesto.

    A idade a vencia. Não latia mais. Os visitantes a quem tanto amedrontava agora se referiam a um pequeno bicho de pelúcia estendido em algum canto da casa, o focinho entre as patas, a respiração tranqüila, protegida finalmente de todas as ameaças que tanto perseguiu.

    Nesta noite fria de inverno, meus olhos procuram em vão a almofada cor-de-rosa no centro da sala antes do filme começar. Penso que não é uma boa noite para filme. Vou ao computador me despedir de Duquesa contando sua breve história. História que começou quatorze anos atrás, quando minha filha chegou em casa com um filhote parecido com um pequeno bicho de pelúcia, remexendo em suas mãos, tentando se soltar para correr pela casa com seus latidos curtos e roucos.

  • Amor à flor da pele

    Impossível não entregar todos os sentidos a esta bela história de amor não-concretizado. Chow (Tony Leung) e sua esposa se mudam para uma pequena pensão em Hong Kong no mesmo dia que Li-Zhen (Maggie Cheung) e seu marido. Os dois ocupam quartos vizinhos e se cruzam a todo instante na cozinha, nos corredores, nas ruas molhadas em frente à pensão. Desenvolvem uma fascinante atração mútua a partir de olhares e frases curtas, mas resistem em se entregar, mesmo após desconfiar que seus cônjuges estão tendo um caso. Detalhe: o marido de Li-Zhen e a esposa de Chow nunca aparecem, são vistos de costas, ou em ângulos sinuosos de câmara que não permite ao espectador identificá-los. 

    O estilo de Wong Kar Wai, que deixa a improvisação e a câmera traduzirem de forma livre a história, está arrebatador em Amor à flor da pele. Corpos transitam pelos espaços minúsculos como  em uma dança sutil e elegante, a câmera lenta associada à música, à direção de arte, aos figurinos – destaque para os vestidos belos, simples e sedutores de Li-Zhen, tudo colabora para que o espectador se entregue a esses momentos sensoriais de indescritível beleza. 

    Amor à flor da pele (I fa yeung nin wa, China, 2000), de Wong Kar Wai. Com Maggie Cheung, Tony Leung, Chiu Wai, Ping Lam Siu. 

  • A professora de piano

    Erika é professora de piano no Conservatório de Viena. Ela vive em um pequeno apartamento com a mãe repressora, que controla sua vida e sua carreira de maneira autoritária e conservadora. As duas vivem em conflito permanente, chegando a agressões físicas. A solidão de Erika é marcada por incursões à cabines onde vê filmes pornográficos e comportamento sadomasoquista, incluindo mutilações.

    O aclamado filme de Michael Haneke conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, além dos prêmios de melhor atriz para Isabelle Huppert e melhor ator para Benoit Magimel. A relação de dominação e subserviência sexual que Erika vive com seu aluno Walter Klemmer proporciona algumas das cenas de sexo mais deprimentes do cinema.  

    A professora de piano (La pianiste, Áustria, 2001), de Michael Haneke. Com Isabelle Huppert (Erika Kohut), Annie Girardot (a mãe), Benoit Magimel (Walter Klemmer), Suzanne Lothar (Madame Schober (Anna Sigalevitch (Anna Scober. 

  • A crônica francesa

    O filme começa com uma belíssima homenagem a Jacques Tati: câmera filma do lado de fora um garçom subindo por um prédio, o espectador acompanha a subida pelas janelas, exatamente como a clássica cena de Meu tio (1958). A outra homenagem é também saudosista, pois a narrativa acompanha quatro histórias narradas por jornalistas, de um tempo em que o romantismo, a ousadia, a liberdade de expressão ainda eram tônicas deste fascinante mundo dos contadores de histórias reais. 

    Arthur Howitzer Jr. investe o dinheiro do pai para fundar uma revista, A crônica Francesa, recheada de reportagens de estilo literário. As quatro histórias traduzem o jornalismo investigativo, os repórteres acompanham e investigam os fatos narrados. Um ciclista/jornalista percorre as ruas da cidade contando as histórias de seus moradores; uma crítica de arte narra a fascinante saga de um artista que está preso por assassinato e se torna um expoente da arte moderna; um jornalista capaz das maiores frases literárias da revista se envolve com o mundo do crime para retratar os perfis dos mafiosos; uma jornalista tem um caso com um jovem revolucionário quando cobre os manifestos estudantis nas ruas da cidade. 

    O estilo extravagante na direção de arte e, principalmente, cenografia, está presente em todas as histórias. A narração de Anjelica Huston colabora com o charme deste filme para ser visto e ouvido com os sentidos abertos à sensibilidade artística de Wes Anderson. 

    A crônica francesa (The French Dispatch, EUA, 2021), de Wes Anderson. Com Benicio Del Toro (Moses Rosenthaler), Adrien Brody (Julian Brody), Tilda Swinton (J.K.L. Berensen), Léa Seydoux (Simone), Frances McDormand (Lucinda Krementz), Timothée Chalamet (Zeffirelli), Lyna Khoudri (Juliette), Jeffrey Wright (Roebuck Wright), Mathieu Amalric (The commissaire), Stephen Park (Nescaffier), Bill Murray (Arthur Howitzer, Jr.)