Autor: Robertson B. Mayrink

  • O castelo Cagliostro

    É a primeira animação do lendário Miyazaki, realizada antes da fundação do também lendário Studio Ghibli. A trama é baseada no mangá Lupin III, de Monkey Punch, que Miyazaki já havia adaptado como série de TV. O assaltante Arsene Lupin III rouba notas falsificadas em um cassino em Monte Carlo. Junto com seu fiel aliado Jigen, Lupin parte para o Castelo Cagliostro, pequeno reino onde as notas falsificadas são produzidas. A narrativa envolve desejo de vingança, mas muda de rumo quando Lupin conhece Clarisse, jovem destinada a se casar com o malévolo Conde do castelo. 

    O castelo Cagliostro é uma divertida história com tons medievais das belas princesas que habitam castelos, transitando pelas narrativas de máfias e gangsteres do século XX, ou seja, uma mistura de tons narrativos bem ao estilo de Miyasaki. A animação é repleta de ação, entremeadas por tiroteios, duelos de samurais e lutas corporais. Logo em seu primeiro longa-metragem, Miyazaki provocou furor no universo da animação, anunciando o que viria na sequência: uma sucessão de clássicos criados e dirigidos pelo mestre dos mestres da animação. 

    O castelo Cagliostro (Japão, 1979), de Hayao Miyazaki. 

  • Tarde nublada

    As nuvens encobrem a serra. Daqui a pouco, restará um dia negro, anoitecer provocado nesse final de tarde. Minha vista do décimo andar é invejável, segundo comentários dos visitantes. Confesso, na maioria dos dias desejo outras imagens: o mar, montanhas se perdendo do olhar, nuvens feito algodão do lado de fora da janela do avião, o corpo nu da mulher desejada.

    A montanha desapareceu por completo. Gosto do dia entre o claro e o escuro. A vista confusa, carros se amontoando nas ruas lá embaixo, acendendo faróis, tomando rumos sabe-se lá. Para a solidão, o décimo andar do  apartamento é refúgio seguro, inviolável. A chuva anunciada começa, trazendo raios, trovões, certo pesar nos sentimentos. A luneta de vasculhar janelas e pessoas está encostada no canto, sem razão nessa tarde melancólica. Guarda imagens, lembranças misturadas com o tempo, pedaços que aparecem como quem remexe em papéis amontoados em gavetas ano após ano.

    Maria Emília, sentada na cama, encolhe os joelhos até o queixo, abraça as pernas e se deixa. Alguém pode estar olhando-a nesta pose bonita e sensual.

    O velho Euclides abre a gaveta da cômoda em busca da antiga blusa de lã que usava debaixo do terno preto bem passado nas tardes chuvosas à porta do Cine Brasil.

    Carlos e Amanda acabam de fazer amor. Ele puxa a coberta para encobrir-lhe os seios, temendo-lhe o frio. Olham-se dentro do outro.

    O pai, na varanda do sítio, olha o tempo. Os cachorros se deitam na vida contemplativa, ao lado do dono que só lhes cobra a companhia.

    A mãe pensa, “a novela das seis pode ficar para amanhã”. Se essa chuva deixar de angustiar, de trazer desejos de terra molhada, de flores respingando, do lugar onde ela daria tudo para estar agora, contra a vontade do médico, contra os remédios que aos poucos derrubam a esperança.

    O pequeno Guto volta da escola pisando em poças d’águas. Vai devagar, deixa a chuva entrar por baixo da roupa até a camisa de malha grudar nas costas, o tênis ficar pesado, arrastado. Vai devagar, pensa na mãe correndo para buscar a toalha, no banho quente e demorado que vai ganhar ao chegar em casa.

    Átila tem um sonho, beijar a namorada debaixo da chuva, os cabelos escorrendo, os seios molhados. Se uma das senhoras debaixo da marquise do outro lado da rua aceitasse ser sua namorada.

    Cláudia mora quase ao pé da montanha. Acabou de tomar um chocolate quente. Talvez prepare outro. Tem o coração apertado e pode-se ouvir um ou outro suspiro. Quando se cansa da chuva e da tristeza, volta para a solidão do livro. Mas a cada barulho na vidraça, levanta os olhos e sonha com beijo do namorado que nunca chega.

    Tem um pouco de chuva nesta tarde de cada um. É uma tarde de chuva cada vez mais pesada.

  • Moulin Rouge

    Paris, 1890. O Cabaré Moulin Rouge agita as noites da cidade luz, repleto de homens e mulheres fascinados pelos espetáculos de danças eróticas, principalmente o can-can. O pintor Henri Toulouse-Lautrec é habitual frequentador, assiste a tudo sentado, enquanto esboça desenhos das dançarinas e dançarinos, bem como de frequentadores. 

    Certa noite, quando sai do Cabaré, Toulouse ajuda a prostituto Marie-Charlet a se livrar da polícia e a abriga em sua casa. Ele se apaixona pela jovem, os dois desenvolvem um relacionamento marcado por conflitos e desilusões. 

    A filmografia do célebre pintor tem por base a deformidade que o atingiu nas pernas, depois de uma queda na infância. A trama de John Huston acompanha seus primeiros experimentos como pintor da vida boêmia de Paris, retratando basicamente pessoas que frequentavam a noite. Abre espaço também para a revolução que propagou na divulgação publicitária, através dos famosos cartazes promocionais que pintou para o Moulin Rouge. Usando a técnica da litogravura, os cartazes eram espalhados por Paris.

    De saúde frágil desde a infância, acometido por uma doença rara, ele cresceu apenas das pernas para cima (tinha cerca de 1,50), a narrativa passa pela tristeza que acometia o artista, incapaz de se relacionar amorosamente com as mulheres. A busca incessante pela arte, a entrega à boemia e ao álcool de forma quase suicida, marcam a trama. Uma bela e sensível homenagem ao artista. 

    Moulin Rouge (Inglaterra, 1952), de John Huston. Com José Ferrer (Toulouse-Lautrec/Conde de Toulouse-Lautrec), Zsa Zsa Gabor (Jane Avril), Suzanne Flon (Myriamme Hyam), Colette Marchand (Marie Charlet), Christopher Lee (Georges Seurat), Georges Lannes (Sargento Patou).

  • Minha noite com ela

    A série Contos Morais, de Eric Rohmer, começou com dois curta-metragens: A Padaria de Monceau (La Boulangère de Monceau, 1962) e A Carreira de Suzanne (La Carrière de Suzanne, 1963). Depois vieram os longas A colecionadora (La Collectionneuse, 1967), Minha Noite com ela (Ma Nuit chez Maud, 1969), O joelho de Claire (Le Genou de Claire, 1970) e Amor à tarde (L’Amour l’après-midi, 1972). O tema comum aos filmes é o desejo e a frustração que ele acarreta. 

    “Os seis filmes que constituem o ciclo ‘Contos Morais’ de Eric Rohmer se preocupam com as formas pelas quais o desejo pode perturbar o equilíbrio moral. Impiedosamente sofisticados, perversamente eróticos e de escala modesta, eles consistem em variações sutis de um conceito praticamente idêntico, que Rohmer assumiu como sendo inspirado por Aurora (EUA, 1927), de F. W. Murnau: rapaz está com garota, rapaz conhece outra garota, rapaz pensa em partir com a segunda garota, rapaz termina voltando para a primeira, mas com reservas. Esse esquema permitia que Rohmer investigasse as complicações do meio – tempo, lugar, ambiente – e as formas com que ele subverte, convida e impede o romance.”

    Minha noite com ela é o maior sucesso de crítica da série. Durante a celebração de uma missa católica, Jean-Louis fica fascinado com Françoise. Quando ela sai da igreja, ele tenta segui-la pelas ruas da cidade, mas a perde de vista. Pouco depois, ele reencontra seu amigo Vidal e os dois vão à casa de Maud, médica divorciada que vive de forma livre e despretensiosa com seus relacionamentos. 

    A trama se aproxima de um possível triângulo amoroso, traz a marca do diretor: longos diálogos em ambientes fechados. Françoise e Maud passam a noite conversando sobre religião, filosofia, entre flertes e tentativas frustradas de um relacionamento amoroso. Quando, finalmente, o protagonista encontra seu objeto de desejo, a jovem e bela Françoise, outros triângulos amorosos se inserem de forma sutil na trama, revelando que as ruas, apartamentos, praias, enfim, a cidade, provoca acasos fascinantes e misteriosos. 

    “Não há outro diretor em cuja obra o lugar e a estação sejam mais importantes. Em Minha noite com ela, a neve caindo aumenta o frio na longa cena do apartamento de Maud, fornecendo um pretexto para que o herói passe a noite lá, e mais tarde também permite que encontre a estudante e passe a noite com ela. A complexidade do filme e sua angústia se devem tanto à fotografia em preto-e-branco de Néstor Almendros, com sua ampla variedade de tons sutis, quanto ao diálogo vigoroso e brilhante. Uma atmosfera de détente constrangedora prevalece, emotivamente vinculada à agradável alienação do herói.”

    Elenco: Jean-Louis Trintignant (Jean-Louis), Marie-Christine Barrault (Françoise), Françoise Fabian (Maud), Françoise, Antoine Vitez (Vidal). 

    Referências: 

    1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

    Tudo sobre cinema. Philip Kemp (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2011

  • Máfia em Paris

    A trama se passa em um hotel de luxo. O inspetor Neveu está no quarto de seu tio, junto com a jovem Arielle.  Anos atrás, um assassinato ocorreu nesse mesmo hotel. O Tio era segurança e não conseguiu desvendar o caso, por isso mora ali, em busca de respostas para o crime. Paralela a essa história, uma anunciada luta de boxe esconde as engrenagens subterrâneas desse mundo dominado pela máfia. 

    O título original, Détective, anuncia de forma enganosa a pretensão de Godard em mais uma trama repleta de seus experimentos linguísticos. Na verdade, pouco se investiga no filme, é mais uma catarse do diretor, despejando durante a narrativa fragmentos de imagens: cenas feitas em vídeo, citações a filmes e livros, colagens de diversas mídias… 

    “Se Godard ameaça fazer um filme de detetive, é importante que saibamos desde o início: será um filme de Godard, antes de qualquer outra coisa. Ou seja: mais um enigma. Um enigma que nasce das duas camadas com que Godard costuma trabalhar em seus filmes, digamos, convencionais: o fiapo da história e as ligações externas. E se o espectador viciado em entendimentos procurar explicações para tudo, sua experiência ficará prejudicada.” – Sérgio Alpendre. 

    Máfia em Paris (Détective, França, 1985), de Jean-Luc Godard. Com Laurent Terzieff (William Prospero), Aurelle Doazan (Arielle), Jean-Pierre Léaud (Inspetor Neveu), Claude Brasseur (Emile Chenal), Johnny Hallyday (Jim Fox), Alain Cuny (Mafioso).

     Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.

  • Tempestade

    Chovia. Quando entrei no ônibus, o barulho na lataria insinuava chuva forte, típica pancada de verão. Da minha casa até o local de encontro com Cristiane, o ônibus gastaria cerca de 10 minutos. Domingo à tarde, o calor afugentava das ruas, o trânsito estava calmo, o ônibus vazio. A água escorrendo no vidro provocou imaginações de cinema: namorados correndo de mãos dadas na chuva, se escondendo em marquises, beijos molhados…

    Acordei com um estrondo. As nuvens negras aumentavam na velocidade que só me lembro de ver naqueles efeitos visuais que aceleram as imagens. O dia escureceu, as luzes dos postes acenderam em plena três horas da tarde. A poucos metros do ponto em que eu deveria descer, pesada, assombrosa tempestade desabou.

    Desci do ônibus, pesadas gotas de chuva batendo como pedras em meu rosto, em minhas costas. O vento mudava de sentido rapidamente. Consegui chegar até o abrigo de ônibus na avenida. Cristiane me esperaria no ponto de ônibus do outro lado.

    A chuva dificultava a visão. A cortina de água cortava o ar quase na horizontal. Em alguns intervalos das rajadas, enxerguei um pequeno grupo de pessoas se escondendo das águas no abrigo do outro lado da avenida. Cris era inconfundível, mesmo à distância. Cabelos castanhos que chegavam quase até a cintura, faces brancas, olhos também castanhos, mas o que a distinguia mesmo naquela distância era a altura incomum em uma jovem daquela geração, cerca de 1,75.

    O destino fazia das suas. A enxurrada formou um rio na avenida, impedindo qualquer tentativa de atravessá-la. Alguns carros pararam no meio, motores apagados, a água batendo na altura da porta. Meus pés já estavam submersos, mulheres gritavam no abrigo, uma criança de cerca de dois anos, no colo do pai, assistia a tudo deslumbrada.

    Eu não podia ficar ali. Estudei a situação. Poucos metros acima havia um declive na avenida que terminava onde estávamos, lugar em que a água se juntava, formando uma lagoa, favorecida pelos bueiros insuficientes para o escoamento. No declive, o volume de água era grande, mas a enxurrada corria veloz. Talvez eu pudesse atravessar. Andei cerca de 100 metros e me aventurei. Atravessei com a água batendo nos joelho, ameaçado pela correnteza forte que poderia em um momento ou outro me jogar no meio das águas.

    Cheguei do outro lado. Desci até o abrigo, as roupas pesadas, coladas ao meu corpo, os pés imersos na água.  Cris me recebeu com um grito de alívio, um abraço, seu rosto em meu peito encharcado.

    – Seu maluco.

    – Não podemos ficar aqui.

    – O que vamos fazer? Essa chuva.

    – Minha casa é perto daqui. Talvez a gente consiga pegar um táxi. A chuva está diminuindo.

    Por sorte, o táxi parou ao primeiro sinal que fiz. A altura da água diminuíra um pouco, mesmo assim entramos com dificuldade. O carro andou cerca de trinta metros, patinando na chuva, até que ouvimos barulho de motor engasgando. As luzes do painel se apagaram. O motorista tentou virar a chave na ignição, ouvimos o arranque rateando, rateando…

    – Não tem jeito.

    – E se eu empurrar. Tem uma descida logo ali.

    – Nessa chuva?

    – Eu já estou molhado mesmo. – Cris fez menção de ajudar, mas fechei a porta rapidamente ao descer do carro, fazendo gesto pelo vidro de “fica aí”. A chuva voltou a bater forte nas minhas costas enquanto eu empurrava o carro lentamente, meus pés escorregando no asfalto molhado até que o carro chegou no início da descida. Um pequeno embalo e pude ver a fumaça saindo do cano de descarga, sinal que o motor funcionara.

    Entrei no carro. Em ponto morto, o motorista pisava fundo no acelerador, o barulho do motor agredindo nossos ouvidos. O motorista engatou primeira, soltou a embreagem, o carro deu dois ou três solavancos e voltou a morrer. Cris me olhou com aqueles olhos de “e agora?”. Desci novamente do carro, empurrei com todas as forças para que ele pegasse embalo na descida. Assim que o motor voltou a funcionar, o motorista andou por mais alguns metros, tentando manter o ritmo do motor. Tive que correr atrás do táxi e assim que entrei o motorista arrancou ferozmente, as rodas deslizando, espalhando água para os lados.

    O motorista parou na porta da minha casa. Ele acenou para mim, gesto de negativa ao me ver tirando a carteira do bolso.

    – A corrida é por conta. Não posso cobrar, depois desse empurra-empurra. 

    Senti um frio intenso ao sair do carro. Chovia fino agora, nuvens negras ainda provocavam a escuridão que confundia tarde com noite. Vi nos olhos de Cris a incerteza de quem se depara pela primeira vez com o risco inesperado da vida. Entramos em casa. Meus pais estavam fora.

    – Preciso tomar um banho quente. – ela disse assim que pusemos os pés na sala.

    – Vou pegar uma toalha para você.

    Tirei as roupas molhadas no quarto, enxuguei meu corpo, vesti roupas secas. Um estranho silêncio tomava conta da casa. Ouvia-se apenas o barulho de goteira lá fora, tamborilar intermitente em cima de alguma lata no terreiro, ou talvez no teto de zinco da casinha de ferramentas de meu pai. Eu ouvia claramente outro barulho: o chuveiro ligado, imagem da água quente escorrendo pelo corpo de Cris.

    Meu ouvido captava cada som dentro do banheiro. O barulho da saboneteira batendo no azulejo, o recipiente de shampoo sendo tirado e colocado no suporte, a pesada água dos cabelos caindo no chão, a torneira girando, cotovelos encostando nas paredes do boxe apertado, barulho de toalha secando o corpo, o trinco da porta sendo desfeito.

    Cris apareceu no umbral da porta da sala, a toalha enrolada acima dos seios. Os cabelos molhados, a pele branca de seu rosto com sensação de alívio. Ela sorriu meio sem graça, deixando o frescor de sua pele úmida se espalhar pelo ambiente.

    Restava apenas uma garoa da chuva. Enquanto Cris se vestia no quarto de minha irmã, cheguei até a janela do meu quarto. Dos telhados das casas vizinhas subia uma névoa, um tom londrino marcado pelas luzes do início da noite. A cena não lembrava em nada a assustadora tempestade.  Essa tarde enevoada de dezembro deixou em mim a imagem inelutável de Cris saindo do banho.

  • Drive my car

    Raras vezes o cigarro (esse vício que dizima vidas há tempos imemoriais) se mostra tão poético como na cena em que Yusuke Kafuku e Misaki estendem os braços, com cigarros nos dedos, para fora do teto solar do carro. A cena sela a cumplicidade dos dois, que se conheceram de forma silenciosa, durante os longos trajetos de carro. A jovem Misaki dirigindo, o dramaturgo Kafuku no banco de trás, escutando áudios da peça que está ensaiando.  

    Drive my car arrebatou diversos prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro de filme estrangeiro. Kafuku é casado com a roteirista de TV Fukaku Oto. Oto tem um fascinante processo criativo: durante o sexo, conta histórias ao marido que se transformam em tramas de seus roteiros. Ao chegar em casa, certa noite, o dramaturgo encontra a esposa morta, após um AVC. Dois anos depois, Kafuku é convidado para encenar Tio Vanya, de Tchecov, em Hiroshima. Como regra do festival do qual vai participar, o diretor não pode dirigir seu próprio carro. É assim que conhece Misaki, jovem designada para ser sua motorista. 

    O filme é um longo ensaio sobre a arte, sobre processos criativos que se confundem com a vida de quem cria. Oto vive uma espécie de catarse mediúnica quando faz sexo, criando fascinantes histórias; Fukaku dirige também em uma espécie de transe, ouvindo os longos diálogos de Tio Vanya, ensaiando suas falas e inspirando seus dias; o jovem Takatsuki, protagonista da peça, abandonou uma carreira de sucesso na TV em busca de sua descoberta como artista. Mas são os longos silêncios entre Fukaku e Misaki que movem a trama rumo às descobertas, ao conhecimento revelador do passado. Assim como o silêncio revelador da arte, expresso na atriz surda-muda que interpreta cenas comoventes por meio da linguagem de sinais. 

    Drive my car (Japão, 2021), de Ryusuke Hamaguchi. Com Hidetoshi Nishijima (Fukaku Yusuke), Toko Miura (Watari Misaki), Masaki Okada (Takatsuki Koshi), Park Yoo Rim (Lee Yoon Ah), Reika Kirishima (Fukaku Oto).  

  • Antologia da cidade fantasma

    Na primeira cena do filme, um carro passa pela câmera em alta velocidade, sai da estrada e bate em um contêiner. Simon, o jovem motorista, morre no acidente. Ele era morador de uma pequena comunidade na área rural de Quebec, formada por apenas cerca de 200 moradores. 

    A princípio, a trama desenvolve o processo de luto da família e da comunidade, pois todos se conhecem. O clima de inverno rigoroso, expresso em silenciosas paisagens tomadas pelo gelo e pela neve, intensifica o sentimento de tristeza, principalmente em Jimmy, irmão de Simon. Ele busca e clama, a todo instante, por um sinal de seu irmão, como numa tentativa de entender a morte trágica. 

    Antologia da cidade fantasma transita pele gênero terror, no entanto é um filme de espectros, dos fantasmas que habitam o interior dos personagens e podem se personificar em imagens ao longe, tão silenciosos quanto nossos maiores medos. A triste solidão invernal dos moradores dessa pequena comunidade é a mesma dos espectros que os assombram.  

    Antologia da cidade fantasma (Répertoire des villes disparues, Canadá, 2019), de Denis Côté. Com Robert Naylor (Jimmy Dubé), Josée Deschênes (Giséle Dubé), Jean-Michel Anctil (Romuald Dubé), Larissa Correveau (Adéle), Diane Lavallée (Simone Smallwood), Jocelyne Zucco (Louise), Normand Carriére (Richard), Rémi Goulet (André), Hubert Proulx (Pierre), Rachel Graton (Camille). 

  • Colo

    A adolescente Marta vive os conflitos típicos da idade, agravados por um fato: o pai da jovem está desempregado, a mãe busca o sustento da família trabalhando em dois empregos. Outra adolescente, Júlia, está grávida e vai passar um tempo na casa de Marta. 

    A película de Teresa Villaverde compõe o sensível painel do atual cinema europeu que aborda as questões do desemprego, do subemprego, das burocracias do estado que não sabe lidar com seus cidadãos em busca de auxílio depois que perdem as condições de sustento. A gradativa desestruturação da família de Marta reflete a realidade cruel provocada pelo sistema econômico e político. O pai passa pela crise às vezes de forma violenta, outras entregue à resignação de sua condição. A mãe testa seus limites até à explosão, incapaz de continuar lidando com a obrigatoriedade de se entregar a jornadas exaustivas de trabalho. Marta se descobre em meio ao caos, sua caminhada no final do filme é o retrato da solidão que atinge de forma avassaladora os jovens nessa sociedade cada vez mais desestruturada. 

    Colo (Portugal, 2017), de Teresa Villaverde. Com João Pedro Vaz (Pai), Alice Albergaria Borges (Marta), Beatriz Batarda (Mãe), Clara Jost (Júlia).

  • Asako I & II

    Em Osaka, Asako vê Baku em uma exposição fotográfica. Na saída, Baku se aproxima, os dois conversam e trocam um beijo nos lábios. É o início de uma paixão que dura seis meses, pois Baku desaparece misteriosamente. Dois anos e meio depois, Asako trabalha em uma cafeteria em Tóquio. Quando leva café para a empresa em frente, pensa rever Baku, agora um jovem executivo. 

    O premiado diretor de Drive my car trabalha em Asako I & II com uma narrativa que remete às tramas do duplo, das traições de mentes perturbadas por traumas do passado, claramente uma homenagem a Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock. Questões como a busca dos jovens pela arte em uma sociedade massacrada pela exposição midiática também pontuam a trama. É uma história de amor, ou da resignação que o amor exige quando não se concretiza da forma que tanto desejamos.  

    Asako I & II (Netemo Sametemo, Japão, 2018), de Ryusuke Hamaguchi. Com Masahiro Higashide (Baku/Ryohei), Erika Karata (Asako), Koji Seto (Hirakawa), Sairi Itoh, Misako Tanaka. 

  • Abandono

    Maria entrou no quarto e deixou a toalha cair. Gesto para o flagrante da câmara de cinema se ela fosse alguns anos mais jovem. Talvez até seu marido, estendido na cama, a desvendasse com olhar antigo.

    Ela enxugou os cabelos, os olhos cruzando o espelho, o reflexo gasto do corpo. Escolheu na penteadeira um hidratante ainda cheio até a borda. Apoiou a perna na beirada da cama, começou a passar o creme, as mãos deslizando dos pés as coxas. Vai-e-vem, vai-e-vem, como lembranças. Às vezes, olhava seu marido, estendido na embriaguez, cheiro de suor e álcool.

    Cheirou alguns perfumes esquecidos. Este – cheiro bom de fim de tarde na praia, aquele, leve cheiro de dama da noite ao cair do dia. Perfumou-se no pescoço, braços, seios, barriga. Cheiro de praia, como na noite de hotel em Ipanema – tantos e tantos anos. Ipanema das praias de cinema, dos sonhos. Ipanema. Pés descalços tocando pela primeira vez areias de mar. A primeira vez.

    Abriu o guarda-roupa. Será que essa calça ainda me serve? Essa blusa me caía tão bem! Esse vestido estava na moda quando… como é mesmo o nome daquela atriz? daquele filme?

    Há mais de dez anos não vou ao cinema. A vida, a vida, tarde da noite, sozinha em casa, esperando o marido voltar dos bares. A vida.

    Maria ligou o secador de cabelos. O barulho despertou o marido. Sonolento, ele notou a mulher pelo espelho. Os cabelos ao vento do secador, lábios ganhando aos poucos a cor do batom. Observou-a vestindo a calcinha, uma blusa branca, uma calça leve de verão, sandálias deixando os pés à mostra.

    Ainda com cabelos úmidos, ela pegou a pequena bolsa: colocou um frasco de perfume, batom, espelhinho, contou algum dinheiro, saiu do quarto. Pela janela, o marido a viu subindo a escada da rua. Onde você vai? Maria observou a casa, o olhar desceu pelo telhado colonial, passou pelas paredes recém-pintadas de amarelo, parou nas janelas de madeira, no verniz ainda brilhando que ela fez questão de passar. Me deixa dar o toque final, pedira ao pintor, me deixa depois de tanto tempo terminar com tudo isso, uma pincelada, a marca no tempo. O tempo.

    Onde você vai a essa hora? Repetiu o marido parado na janela, mãos espalhando a ressaca do rosto. Não sei. Talvez eu vá tomar um chopp com uma amiga. Talvez ao cinema. Talvez andar de carro por aí.

  • Édipo Rei

    A incursão de Pasolini pela tragédia escrita por Sófocles se tornou um dos principais filmes deste moderno e, em certo ponto caótico, cinema dos anos 60. Após conhecer uma profecia que anunciava que seria assassinado pelo próprio filho, Laio entrega seu filho para ser executado no deserto. O servo não tem coragem de praticar o ato final, Édipo é resgatado e criado pelo monarca do reino vizinho. Na juventude, Édipo encontra Laio em uma estrada e cumpre a profecia. Logo depois, casa-se com sua própria mãe. 

    As belas e desertas locações no Marrocos são destaque no filme. A verve poética de Pasolini subverte tempo e espaço, desenvolvendo a trama em três partes. No início, Laio é um militar e vive um apaixonado casamento com Giocasta, na cidade de Bolonha dos anos 60. A segunda parte regride ao tempo de Sófocles, desenvolvendo a peregrinação de Édipo rumo ao seu destino profético de cometer parrícidio e incesto. Na terceira parte, o cego Édipo é guiado por Angelo pelas ruas da Bolonha do início. 

    A trama oscila entre as imagens belas e contemplativas de personagens caminhando no deserto, da família feliz brincando nos jardins do palácio, para os planos próximos de personagens, retratos de rostos sofridos e castigados pela miséria e pelo deserto. A verborragia desesperada de Édipo, à medida que se entrega ao seu destino, contrasta com a silenciosa Jocasta que se entrega ao prazer do amor com o próprio filho. Belas e fortes interpretações de Franco Citti e Silvana Mangano. 

    Édipo Rei (Edipo Re, Itália, 1967), de Pier Paolo Pasolini. Silvana Mangano (Giocasta), Franco Citti (Édipo), Alida Valli (Merope), Carmelo Bene (Creonte), Julian Beck (Tiresia(, Luciano Baroli (Laio). 

  • Da Colina Kokuriko

    A jovem Umi Matsuzaki vive em uma pensão no alto da Colina Kokuriko. Logo de manhã, ela avista um barco de pesca no canal abaixo, trocando olhares com o também jovem Shun Kazama, tripulante do barco. O destino dos dois está selado, pois se encontram na escola de ensino médio, onde estudam. O introspectivo Shun lidera um grupo de estudantes que habita após as aulas um prédio abandonado, nos arredores da escola, o Quartier Latin. O interior do velho prédio reflete o comportamento dos estudantes: espaços caóticos, repletos de livros, experimentos e outras quinquilharias. Quando a direção da escola anuncia a demolição do prédio, Umi e suas amigas se juntam aos outros estudantes para limpar e lutar pela preservação do Quartier Latin. 

    Da Colina Kokuriko é a imersão de Goro Miyazaki – o roteiro do filme é escrito por seu pai, Hayo, pela história moderna do Japão. A trama acontece em 1963, às vésperas das Olimpíadas de Tóquio, quando diversas construções estavam sendo demolidas para dar lugar a espaços modernos, simbolizando a nova Tóquio das Olímpiadas.

    A singela história de amor entre Umi e Shun traz belíssimas cenas movidas simplesmente ao olhar, aos gestos sutis, ao espaço cênico dos prédios da escola, da pensão onde a jovem mora, do mar. O conflito entre o velho que precisa ceder seu lugar ao novo é abordado de forma bela e poética nas nuances do relacionamento entre os dois estudantes. Eles tentam manter aquilo que é mais importante: a necessidade perene de lutar pela conservação da beleza, seja de que tempo for.  

    Da Colina Kokuriko (Japão, 2011), de Goro Miyazaki.

  • Vive-se só uma vez

    Quando sai da prisão, após cumprir pena de três anos por assalto, Eddie se casa com Joan, assistente do advogado de defesa do ex-presidiário. Os dois estão em lua de mel em uma pousada e saem para caminhar pelo jardim à noite. Param em frente a um pequeno lago, vislumbram um casal de sapos. Eddie diz a Joan: “Quer saber algo sobre sapos. Se um morre, o outro também morre. Um não vive sem o outro.” Joan comenta: “Como Romeu e Julieta.” A câmera filma o reflexo de Eddie e Joan nas águas, uma pequena turbulência deixa a imagem do casal difusa, como um espelho trincado. 

    A conversa e a força visual da sequência anunciam a tragédia na vida do casal apaixonado. O tema do filme é a impossibilidade de marginais se reintegrarem à sociedade, devido ao preconceito. Logo depois, os dois são expulsos da propriedade, pois os donos descobrem o passado de Eddie. Ele é despedido do trabalho e acusado injustamente de participar de um roubo à banco que resultou na morte de oito policiais.

    A carreira do cineasta alemão Fritz Lang aponta para filmes que desenvolvem lutas individuais contra a força do destino, lutas quase sempre marcadas pela fatalidade. A potência visual de suas obras, exercitadas durante sua experiência no expressionismo alemão, simboliza a sociedade submersa nas sombras, na neblina, como na bela, triste e trágica fuga de Eddie da prisão. 

    “Lang expressa a condenação perpétua de Eddie Taylor por meio do motivo visual das grades, que sempre estão entre o personagem de Henry Fonda e os outros ou cercando-o na forma de sombras, tecendo um signo inequívoco. Mesmo fora da prisão, os cenários em torno de Eddie são compostos por linhas que o confinam, por janelas que o obrigam a ficar de fora ou do lado de lá. (…) Se a sociedade os impede de existir de outro modo, só será possível viver longe dela, num pessimismo romântico em que a liberdade se realiza ou na natureza ou na morte.” – Cássio Starling Carlos

    Vive-se uma só vez (You only live once, EUA, 1937), de Fritz Lang. Com Sylvia Sidney (Joan Graham), Henry Fonda (Eddie Taylor), Barton MacLane (Stephen Whitney), Jean Dixon (Bonnie Graham), William Gargan (Padre Dolan). 

    Referência: Fritz Lang. Vive-se uma só vez. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cassio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

  • Cidade do vício

    A abertura de Cidade do vício destoa das características tradicionais do cinema noir e aproxima o filme de um relato documental. Clete Roberts, repórter, fala diretamente para a câmera, relatando o trabalho de cobertura jornalística que vai realizar na cidade de Phenix City, Alabama: “Estou aqui para descobrir a verdade sobre a cidade. Investigar o controle da cidade por um sindicato do crime e o assassinato a sangue frio  de Albert A. Patterson, procurador geral do Alabama.” Segue-se uma série de entrevistas, primeiro com o jornalista que conquistou o Prêmio Pulitzer com a investigação da atuação dos criminosos na cidade. Depois, o repórter ouve moradores da cidade que lutaram para limpar a cidade. Corta para créditos do filme.

    A segunda parte da película reconstitui a história anunciada pelo repórter, centrando a trama no trabalho do advogado Albert Patterson e seu filho, também advogado, John Patterson. O vício da cidade está instalado na rua principal, ocupada por casas de jogos, prostíbulos e outros estabelecimentos ilegais. O sindicato do crime controla tudo, inclusive a polícia, que assiste a tudo com a passividade característica da lei corrupta, que fecha os olhos.

    Cidade do vício é um dos filmes mais realistas e cruéis do cinema noir. Aparentemente, os criminosos trazem prosperidade para a cidade, empregando grande parte da população nos cassinos e na indústria de produção de equipamentos para a prática da jogatina. Quando um grupo de moradores decide combater a organização, uma série de assassinatos acontece, como aviso para os cidadãos de bem. Jovens, mulheres e crianças, o crime não poupa ninguém em sua escalada sádica e tenebrosa. Quando o cadáver de uma criança negra é atirado de um carro na porta da casa do procurador geral do Alabama, sabemos que estamos diante de um dos filmes mais difíceis de assistir deste fascinante cinema noir. É a realidade, e a realidade é triste, dolorosa e, muitas vezes, sem esperança. 

    Cidade do vício (The Phenix City story, EUA, 1955), de Phil Karlson. Com John McIntire (Albert Patterson), Richard Kiley (John Patterson), Kathryn Grant (Ellie Rhodes), Edward Andreus (Rhett Tanner), Lenka Peterson (Mary Jo Patterson), Biff McGuire (Fred Gage), Truman Smith (Ed Gage), John Larch (Clem Wilson).

  • Accattone

    Vittorio Accattone nunca trabalhou na vida e se orgulha disso, assim como sua trupe de amigos. Cafetão, Vittorio explora sua namorada Maddalena, forçando-a a se prostituir na periferia de Roma. Quando conhece a jovem e bela Stella, Accattone tenta também colocá-la nas ruas, mas se arrepende e tenta se redimir. 

    O primeiro filme de Pasolini é um retrato cruel, mas com uma certa poesia, dos marginalizados de Roma. Accattone tem consciência de sua condição e transita entre a amargura e a diversão pelas ruas da cidade. Accattone é considerado o último filme do movimento neorrealista na Itália, muito mais por ser gravado nas ruas, em locações, com a câmera documental típica do estilo. Diferente de outros filmes do movimento, Pasolini espelha em seu protagonista a sua marca, Vittorio Accattone tenta tirar beleza e poesia da vida cotidiana, mesmo sabendo que seu destino trágico está traçado. A pesquisadora Erika Savernini analisa personagens e o cinema de Pasolini:

    “O estado emocional da personagem (geralmente sofredora de alguma perturbação) serve como pretexto ao cineasta para uma exploração, no mais das vezes formalista, da linguagem cinematográfica. Por isso, o que se torna como a subjetiva da personagem é justamente a visão do cineasta, em alguns momentos, libertada da funcionalidade e tendo como objetivo primordial a expressividade. O embate do cineasta entre sua função como narrador (a entidade que vai selecionar as imagens do seu caos significativo e ordená-las) e seu desdobramento enquanto personagem (ser fictício cuja função é apenas a de viver – portanto, agir, sem estabelecer um sentido estrito) reflete-se na dupla natureza da imagem cinematográfica, que também se desdobra entre a objetividade e a subjetividade, entre prosa e poesia, entre comunicação e expressividade. Entretanto, assim como não se pode estabelecer os limites entre um cinema de prosa e um cinema de poesia, essas dicotomias apontadas por Pasolini também não representam pólos que se excluem, elas se cambiam. Pasolini declara-se comprometido com a narratividade cinematográfica, não lhe interessando a expressividade pura, mas uma possibilidade de língua de poesia em que a expressão mescla-se à narrativa.”

    Accattone – Desajuste social (Accattone, Itália, 1961), de Pier Paolo Pasolini. Com Franco Citti (Accattone), Franca Pasut (Stella), Silvana Corsini (Maddalena). 

    Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Erika Savernini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

  • Love me tender

    Denise estava deitada na cama, o rosto voltado para cima, os longos cabelos castanhos espalhados no travesseiro emoldurando suas faces claras ainda marcadas pelo choro que entrara pela noite. Em alguns momentos, as lágrimas se transformaram quase em convulsões, mas agora seu peito respirava calmo, ritmado, como sono tranquilo a lembrar das coisas boas da vida.

    Horas antes, naquela terça-feira de agosto, Denise entrou correndo pela minha casa e quase gritou parada à minha frente, tentando pegar fôlego: “Elvis morreu.” Fiquei sem reação, sem saber o que dizer, eu era ainda muito jovem para entender a morte. Ela repetiu a frase, “morreu” saiu de sua boca várias vezes como um eco. Depois desabou no sofá, escondeu o rosto entre os joelhos e longos soluços tomaram conta da sala.

    Denise escutava seus discos no aparelho National 3 x 1 que ganhara do pai de aniversário de 15 anos. Ela descobrira Elvis há pouco. Quando o pai trazia um compacto ou um LP novo ela corria a me mostrar, repetindo canções com dedos cuidadosos na agulha para não arranhar o disco. Perdi a conta de quantas vezes ela me pôs a escutar You’ve lost that lovin’ feelin.

    Em uma das festinhas do bairro, ela levou seus discos. A cada sábado, uma casa dos amigos sediava a festa. A turma levava discos, o som era colocado na sala com as caixas na varanda ou no quintal, as luzes quase todas apagadas. Os pais ofereciam k-suco ou refrigerante, nada mais. A festa começava com músicas quentes, passava para as lentas, voltava para quentes, lentas… .

    Certa hora, Denise colocou Love me tender para tocar. Chamei-a para dançar, ela recusou, disse que tinha medo que alguém mexesse no som, arranhasse o disco. Fiquei perto dela, desconcertado, encostado na parede, olhando os casais. As meninas enlaçadas nos pescoços dos meninos, olhos fechados, passos incertos.

    O Jornal Nacional passava uma matéria especial sobre a morte do cantor. Denise dormia no quarto. Não chorava há cerca de meia hora. Minha mãe preparara uma mistura de água com açúcar e insistira para que ela se deitasse um pouco.

    Ainda hoje, quando ouço Elvis Presley, lembro-me daquela noite. Entrei no quarto para ver se ela estava bem. Denise dormia. Sentei-me ao seu lado, o movimento da cama a acordou. Ela abriu os olhos ainda vermelhos, me olhou com tristeza durante alguns segundos e voltou a fechá-los. Senti vontade de acariciar seus cabelos, passar a mão por suas faces. Apoiei o braço na outra extremidade da cama, por cima de Denise. Debrucei-me lentamente sobre ela, meu peito quase tocando os seios. Denise abriu os olhos e sorriu.

    Naquela noite, conheci dois sentimentos inevitáveis da vida.

  • Sol na pele

    O sol bateu no meu rosto naquele amanhecer de verão. Sempre que sinto este calor dos raios na pele, lembro-me dos conselhos da dermatologista, soando em meus ouvidos como determinação: “evite sol na pele, principalmente nos braços.” Há tempos sofro da doença de pele chamada de poroceratose actínica, que pode ser traduzida levianamente como pequenas manchas espalhadas pelos braços, provocada, segundo médicos, pela exposição ao sol.

    Bem, eram os anos setenta e jovens estavam mais interessados em bronzear a pele do que cuidar da saúde. Ninguém pensava em protetor solar, ao contrário, bolsas e mochilas carregavam bronzeadores e outros experimentos como óleo queimado.

    Eu não dormi no ônibus. A viagem de Belo Horizonte a Marataízes transcorreu aos solavancos provocados por estradas em condições precárias, assim como o próprio ônibus da Viação São Geraldo. O amigo dormia ao lado, a cabeça resvalando para o meu ombro vez ou outra, até que um buraco maior o fazia acordar sobressaltado. Segundos depois, a cabeça pendia novamente.

    Chegamos em Marataízes por volta de seis horas da manhã. Caminhamos até a casa, distante pouco mais de dez minutos da rodoviária, quer dizer, uma rua que servia como parada de ônibus. O pai estava acordado, à porta, esperando. A mãe, preparando o café cheiroso. Pão quente, um pedaço de bolo, nada caseiro, coisas da padaria mesmo, mas que remetiam àquelas manhãs de férias em família. O pai e a mãe já estavam na praia há uma semana. Eu começara a trabalhar naquele ano, estava aproveitando o feriado, três dias corridos, para correr atrás de um dos prazeres que me acompanha desde criança e, creio, se estenderá até o fim: o mar.

    Enquanto tomava café, meus pensamentos já estavam na areia, na brisa no rosto, no sol,  nos mergulhos cortando as ondas. Vocês vão dormir um pouco? perguntou a mãe. Não. Vamos para a praia, onde chegamos poucos minutos depois.

    Era novembro. Não um novembro úmido e chuvoso na alma de Ismael. Um novembro ensolarado. Sentei-me na areia, os olhos presos no azul, os ouvidos entregues ao bater das ondas, as mãos brincando com a areia. Deitei-me, como fazia quando criança, olhos fechados, vagando entre devaneios poéticos, imagens à tôa da namorada que deixei em Belo Horizonte, não me recordo bem, memórias da adolescência são apenas imagens que se traduzem em textos para o escritor.

    Acordei quarenta minutos depois, sentindo ardência pelo corpo. Estava sozinho, o amigo deve ter saído para caminhar. As sombrinhas de praia se espalhavam pela areia, famílias chegavam com suas caixas de isopor, brinquedos de plástico para as crianças e demais quinquilharias que fazem do dia na praia verdadeiro acampamento. Meu corpo estava em brasa. Mal consegui me levantar e caminhar até a casa. A mãe esteve prestes a desmaiar ao ver um corpo irreconhecível, fumegante, entrar pela porta. Providenciou um banho frio, ordenou ao pai corrida à farmácia e, minutos depois, me lambuzava de cremes, se assustando com pequenos gemidos à medida que deslizava as mãos pelo meu corpo. Passei o dia buscando posições em cadeiras, impossível deitar. À noite, bolhas tomaram as costas. Quando eu chegava ao espelho, imaginava a pele despregando de meu rosto, quase filme de terror.

    Passei os três dias do feriado às voltas com estes tormentos da pele, rezando para que, como camaleão, eu pudesse retomar a cor original. Isso aconteceu meses depois, à medida que as bolhas cederam lugar a manchas espalhadas e a pele queimada foi se desgrudando lentamente, me transformando em um ser de tonalidades indistintas.

    Eram os anos setenta. Deixaram memórias de noites passadas em bancos desconfortáveis de ônibus, pai e mãe radiantes ao ver o filho sentado à mesa do café da manhã, o cheiro do mar, o sol da manhãzinha revigorando, mãos materna lambuzadas de creme, deslizando cuidadosamente pelas minhas costas. Marcas que ficaram, assim com esta poroceratose actínica.

  • O último metrô

    Em A noite americana (1973), François Truffaut volta suas lentes para os bastidores de uma produção cinematográfica. O próprio Truffaut interpreta um cineasta durante as filmagens de uma obra nos EUA, explorando o complexo processo criativo e técnico da produção. 

    A trama de O último metrô explora processo semelhante, desta vez sobre o teatro.  Marion Steiner dirige o teatro de seu marido, judeu obrigado a se esconder da ocupação nazista na França. Grande parte do filme se concentra nos ensaios da peça “A desaparecida”, a trupe de atores, atrizes e diretor tentando continuar seu trabalho, a busca pela arte, mesmo durante a Segunda Grande Guerra. Fora do teatro, os protagonistas da peça vivem conflitos com os nazistas. O filho de uma integrante da equipe está desaparecido; o ator Bernard Granger luta pela  resistência; Marion tenta se equilibrar entre salvar o teatro ou se render às investidas dos colaboradores do regime. 

    A película é um primor estético, com deslumbrante reconstituição de época e fotografia feita sob medida para destacar a beleza dos protagonistas, principalmente Catherine Deneuve (cada plano, cada close, deixa o espectador em uma espécie de absoluto fascínio por Deneuve, como na mais pura abstração da beleza). 

    “Quando O último metrô estreou na França, em 1980, não faltaram acusações de que Truffaut havia se rendido e feito um filme que correspondia ao cinema de qualidade que ele próprio, três décadas antes, desqualificara em um artigo demolidor. (…) A combinação de filme histórico, requinte fotográfico e cenográfico e um par de estrelas como protagonistas sugere um filme prêt-à-porter, formatado para recuperar a afeição do público que Truffaut, naquele momento, parecia ter perdido após os fracassos de O quarto verde e o A amor em fuga.” – Cássio Starling Carlos.  

    Apesar das críticas, o filme se consagrou nas bilheterias, foi indicado como melhor filme estrangeiro ao Oscar e ao Globo de Ouro e conquistou dez prêmios César, na França: melhor filme, diretor, ator, atriz, roteiro, música, fotografia, direção de arte, montagem e som.

    O último metrô (Le dernier metro, França, 1980), de François Truffaut. Com Catherine Deneuve (Marion Steiner), Gérard Depardieu (Bernard Granger), Jean Poiret (Jean-Loup Cottins), Heinz Bennent (Lucas Steiner), Andréa Ferréol (Arlette Gulaume), Sabine Haudepin (Nadine Marsac), Jean-Louis Richard (Daxiat).

    Referência: François Truffaut. O último metrô. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

  • Carta para Elia

    Os cineastas da Nova Hollywood fizeram parte da primeira geração de cinéfilos a se aventurarem pela realização cinematográfica. Steven Spielberg e George Lucas deram os primeiros passos na direção influenciados pelos filmes e seriados que assistiram vezes sem conta na infância e adolescência. Spielberg afirma que depois de assistir a Lawrence da Arábia (1962) decidiu que sua vida seria o cinema. George Lucas não nega a influência decisiva dos filmes de Akira Kurosawa, principalmente A fortaleza escondida (1958) na criação de Star Wars. 

    Em Carta para Elia, Martin Scorsese, com certeza o mais apaixonado pela história do cinema entre todos que participaram da Nova Hollywood, faz uma declaração bela, sensível e aficionada ao cinema de Elia Kazan. Scorsese desfila diante da câmera seu conhecimento insaciável sobre Kazan, discorrendo sobre a carreira e filmes do diretor. Dedica a maior parte das análises aos filmes que marcaram sua adolescência e influenciaram sua escolha pelo cinema: Sindicato de ladrões (1954) e Vidas amargas (1955). 

    A mancha na carreira de Elia Kazan também é debatida por Scorsese. Na década de 50, Kazan depôs no Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, sob a presidência do senador Joseph McCarthy. Elia Kazan delatou colegas de trabalho, entre eles Lee Strasberg, do Actors Studio, supostamente por participarem de atividades associadas ao comunismo. Martin Scorsese não busca justificativas ou julga a delação de Kazan. 

    Nos anos 70, os dois se aproximaram se tornaram amigos, trocaram confidências sobre a paixão em comum pelo cinema. Scorsese comenta que nunca conversou com Elia Kazan sobre o que representaram Sindicato de Ladrões e Vidas Amargas na sua formação de cineasta. Prefere dizer: “Então, Elia. Isso sempre teve que ficar entre mim e os filmes e a única forma de poder lhe dizer o quanto significou para mim foi fazendo filmes.”

    Carta para Elia (A letter to Elia, EUA, 2010), de Kent Jones e Martin Scorsese.