O tigre e a serpente
encontraram-se
e naquela noite
de lua cheia
respeitosamente
Drácula quietou-se
enquanto o Lobisomem
desorientado
ouvia os gritos
da serpente
e a morte
quase silenciosa
do tigre.
Autor: Robertson B. Mayrink
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Hoje amanheceu para grandes paixões
daquelas que vazam o dia
e a solidão dos casais
um certo ar molhado em volta
um resíduo estranho de sonho.(pena, não posso ter essa grande paixão
se ao menos chovesse e a encontrasse na rua)
De qualquer maneira
volto para casa à noite
assisto o jornal, tomo banho
depois durmo
pensando na grande paixão
que seu perdeu no dia. -
Depois do filme
Desculpe o atraso.
– Não tem problema. Já comprei os ingressos, o filme ainda não deve ter começado. Tem sempre comercial, um curta-metragem antes, é melhor entrar mais tarde.
A sessão de domingo do Cine Roxy era tranquila. O cinema tinha a fama de passar “filmes de arte”, difícil se formar grandes filas. Nem mesmo a pequena bilheteria, uma abertura na parede, com barras de ferro transversais, apresentava problemas. Além de tudo, adquiri desde os meus primeiros encontros o hábito de chegar cedo, cerca de trinta minutos antes das meninas. Eu marcava os encontros para a porta do cinema, ruim só o desconforto de ficar esperando em pé, na rua, às vezes conversando banalidades com o pipoqueiro.
– Vamos entrar? – Marisa tinha a beleza incerta da adolescente em formação. Não sabia ainda o que fazer com os cabelos, cortados em linha reta pouco abaixo dos ombros, enchendo de volume a cabeça a partir do lado direito, caindo ondulados, sem preparo algum. O rosto ovalado não combinava com cabelos assim, as bochechas cheias, levemente rosadas, boca pequena, nariz fino. Também não sabia ainda como se vestir para este ou aquele encontro, estava de tênis, calça jeans e camiseta, roupa mal ajustada … bem, era um encontro. Eu a conhecera duas semanas antes, nestas festas de finais de semana em casa de amigos.
Buscamos cadeiras no meio do cinema. No Roxy não era bom sentar atrás, pois dava para ouvir o barulho de carros da Avenida Augusto de Lima. Assim que o filme começou, Marisa deitou a cabeça em meu ombro, a mão em minha coxa. A sessão estava vazia naquele início de noite do domingo e logo percebi que não estávamos interessados no filme. Era a quinta vez em menos de um mês que eu assistia a Hair.
Na primeira sessão, no Palladium, não consegui me levantar ao final. À medida que os hippies invadiam o gramado à frente do Capitólio, em Washington, cantando Let the sunshine in, sensação indefinida tomou conta. Fiquei sentado olhando para a tela, sem prestar atenção nos créditos, esperando a sessão seguinte. Voltei na outra semana e na outra com o fascínio de quem está assistindo ao filme pela primeira vez.
Quando o filme acabou, Marisa se endireitou na cadeira. No caminho para o ponto de ônibus, no centro da cidade, tive a prudência de não perguntar se ela gostara do filme, pouco assistimos, afinal.
– Você pode me deixar aqui no ponto mesmo. Meu bairro é longe…
– Não. Vou com você até em casa.
– Já são quase onze horas…
– Não tem problema, estou acostumado a andar de noite pela cidade.
O Bairro Santa Inês fica perto de Sabará, mas naquela noite não me pareceu tão longe assim. O ônibus vazio permitiu ainda um ou outro arroubo, importunado apenas pelo olhar displicente do trocador. Andamos cerca de quatro quarteirões da avenida principal até a casa de Marisa. A rua mal iluminada e uma grande árvore na porta da casa colaboraram para uma despedida mais longa do que eu imaginava e podia.
– Será que ainda tem ônibus? – ela perguntou olhando o relógio.
– Não sei, deve passar um noturno naquela avenida. – ela ficou calada por alguns instantes, seus olhos procurando alguma coisa.
– Não quer entrar um pouco?
– É tarde, seus pais….
– Estão viajando. Foram ontem para a praia.
– E você?
– Tenho cursinho, o vestibular já é no início do mês. Amanhã vou para a casa da minha tia. Vem, entra um pouco.
O ponto de ônibus já estava cheio. Decerto, gente que pegava trabalho cedo, homens e mulheres com bolsas a tiracolo, as marmitas quadradas de alumínio bem ajeitadas no fundo, apoiadas dos lados para não virarem.
Preocupada com os vizinhas, Marisa me fizera sair da casa ainda de madrugada. Agora, no ponto de ônibus, fiquei com aquela emoção indefinida, deixando de pegar um ônibus, o outro, mais um, como créditos passando no final da sessão.
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Adeus, Paris
fico com Maria,
Roberto
ouvindo tiros
e o bater do coração.Adeus, Rússia
seus dias
abalaram-me
antes mesmo
de conhecer
Ana.Adeus, Grécia
Itália, Egito
guardo-a
na estante
Elizabeth Taylor.(despeço-me dos
filmes da minha
aldeia universal.)Adeus, Áustria
goodbye, so long
farewell
triste, triste
mil vezes triste
quem não gosta
de musical.Adeus, Casablanca
vai-te avião
mas deixa
Ingrid comigo
para sempre.Adeus, Shane
é hora de dizer
adeus àquela
criança que
madrugava
em frente à TV. -
Caminhamos para distante
como se fosse tão longe
mas tão longe é o caminho do real
que sempre caminhamos nas nuvens
acima do mal.
E tão longe é o caminho do mal
que quase não nos perdemos
apenas nos descobrimos como amantes
nada mais do que humanos
mas algo acima do que homem e mulher
algo além do que além de tudo sonhamos
algo além do notável, procurando o irreal
em uma noite longa
onde vivemos sonhos de poeta
através da lenta progressão do encontro. -
Já faz tempo, vagava
perdido a procurar estrelas
como as vagas ondas do mar
em pedras a se arrebentar.
Te lembras?
Olhares discretos
lugares bonitos
poucas noites
para te descobrir
(eu queria apenas um abraço).
Te lembras do toque de meus dedos em seu braço
em seus seios, em seu sexo?
Não lembres do toque de meus lábios nos seus
viva-o eternamente como um beijo eterno apenas
guarda-o naquelas tardes, naquelas noites
no murmúrio de palavras vãs
no medo de tirarmos as roupas pela primeira vez. -
Frente fria
Pela segunda noite seguida, Iracema não consegue dormir. A frente fria chegara a Belo Horizonte na véspera. “O inverno nessa cidade não é mais confiável”, dizia seu marido, sempre que as noites se apresentavam serenas e no dia seguinte o sol castigava as paredes do prédio onde moravam. Mas não era o inverno que a incomodava. Do frio, do aconchego das roupas e do cobertor ela gostava. Era o vento.
O vento passava pelo 18º andar num uivo desenfreado. Um lamento sem fim, como o gemido de um batalhão atingido por morteiros, granadas. Ouviu a história de um amigo italiano de seu pai. Na primeira grande guerra, os homens saíam a campo às centenas, tentando conquistar alguns poucos metros de terreno. Os que restavam, voltavam exaustos para as trincheiras, deixando para trás companheiros. À noite, o vento trazia o gemido dos feridos abandonados. Os soldados se encolhiam nas trincheiras, as mãos nos ouvidos tentando interromper aquele sofrimento que entrava por todo o corpo.
Iracema rola na cama, anda pela casa, reza o terço. Às vezes, uma forte rajada de vento estremece as janelas como se fosse arrancar vidros, persianas, como se fosse arrancar ela mesma daquele tormento solitário. Quando criança, na pequena cidade do interior de Minas, onde o frio chegava com raiva, impiedoso, a mãe reunia Iracema e os irmãos na cozinha. Eles se apertavam próximos ao fogão à lenha, a mãe sempre avivando o fogo, silenciosa, sem lamentar a escassez de roupas e cobertores para os filhos.
Sentavam-se todos no chão, a palha do milho espalhada pela cozinha, forrando os colchões. Dormiam, acordavam, dormiam de novo, a mãe ali, de vigília. Nada dizia, não sabia ler nem escrever, o rádio estava sempre com o marido, ligado em jogos e notícias do Botafogo do Rio. Seu caminho diário era da casa para a igreja. Era uma mulher sem histórias para contar. De vez em quando, cantarolava uma canção, as crianças sem entender a letra, apenas um murmúrio acompanhado pelo vento lá fora. Quando o frio castigava tanto que o fogo mal dava conta, a mãe juntava os filhos em volta, apertando-os com seus longos braços.
Iracema apertou os braços sobre os seios, ouvindo o vento bater forte na janela do quarto, revoltado com a impossibilidade de entrar e testar de vez a resistência daquela velha mulher que enfrentou tempestades, mas em noites de vento se encolhe no canto do quarto. Ela pensa na ausência do marido, enterrado cinco anos atrás em uma tarde de verão. Na filha, morando no Canadá, no filho cada dia mais distante, com mil afazeres e família para cuidar. Em noites assim, o filho chegava de mansinho, parava na porta do quarto, o travesseiro nas mãos, esperando autorização. Bastava um sorriso, um aceno de cabeça e ele se enfiava debaixo do cobertor. Sentia o calor do corpo do pai, os braços da mãe enlaçando-o todo.
Agora Iracema sente o frio da cama vazia. Adormece, o vento amainando, os primeiros raios de sol refletindo na vidraça. Um sono bom, reconfortante, sonhos se confundindo com lembranças. Acorda às oito da manhã, descansada. Antes de abrir os olhos, um último vestígio do sonho: enxerga a mãe ao lado do fogão à lenha, o bule de café deixando escapar um pequeno vapor.
Levanta-se devagar como em todas as manhãs. Ouve um leve barulho de vento, um pequeno batido no vidro. Abre completamente a janela do quarto e deixa o vento bater forte em seu rosto, olhos fechados.