Autor: Robertson B. Mayrink

  • O tigre e a serpente
    encontraram-se
    e naquela noite
    de lua cheia
    respeitosamente
    Drácula quietou-se
    enquanto o Lobisomem
    desorientado
    ouvia os gritos 
    da serpente
    e a morte
    quase silenciosa
    do tigre. 

  • Hoje amanheceu para grandes paixões
    daquelas que vazam o dia 
    e a solidão dos casais
    um certo ar molhado em volta
    um resíduo estranho de sonho.

    (pena, não posso ter essa grande paixão
    se ao menos chovesse e a encontrasse na rua)


    De qualquer maneira
    volto para casa à noite
    assisto o jornal, tomo banho
    depois durmo
    pensando na grande paixão
    que seu perdeu no dia. 

  • Ando lendo poetas maiores
    que arrevesam a língua
    reiventam palavras
    se transformam
    em compêndios 
    amados e admirados
    até por quem nunca os leu.

    Eu, modesto
    não invento nada
    paixão para mim
    diz apenas paixão
    e na minha poesia
    sou todo paixão. 

  • Arreda esses olhos
    resistência tem limite
    cansei de agarrar seu olhar
    naquele instante gostoso.

    Da próxima vez
    não vai ter vai e vem
    afinal para que palavras?
    é hora dos lábios dizerem tudo.

  • Deita e espera
    de cabelos soltos
    e roupas de dormir
    com uma revista
    qualquer daquelas
    de que gosto
    só para fingir surpresa
    e dizer que pensava em mim.

    Vou chegar cansado
    com vontade de morrer 
    e me esconder onde o dia 
    se desfaz em esquecimento.

  • Será que vale a pena
    amar, sonhar
    crescer e ficar adulto?
    a vida se resume no tédio
    na terna resignação dos dias.

  • O ovo estourou
    já não há mais nada a fazer
    apenas esperar
    pela mansidão dos dias
    a morte
    insignificante morte.

  • Depois do filme

     Desculpe o atraso.

    – Não tem problema. Já comprei os ingressos, o filme ainda não deve ter começado. Tem sempre comercial, um curta-metragem antes, é melhor entrar mais tarde.

    A sessão de domingo do Cine Roxy era tranquila. O cinema tinha a fama de passar “filmes de arte”, difícil se formar grandes filas. Nem mesmo a pequena bilheteria, uma abertura na parede, com barras de ferro transversais, apresentava problemas. Além de tudo, adquiri desde os meus primeiros encontros o hábito de chegar cedo, cerca de trinta minutos antes das meninas. Eu marcava os encontros para a porta do cinema, ruim só o desconforto de ficar esperando em pé, na rua, às vezes conversando banalidades com o pipoqueiro.

    – Vamos entrar? – Marisa tinha a beleza incerta da adolescente em formação. Não sabia ainda o que fazer com os cabelos, cortados em linha reta pouco abaixo dos ombros, enchendo de volume a cabeça a partir do lado direito, caindo ondulados, sem preparo algum. O rosto ovalado não combinava com cabelos assim, as bochechas cheias, levemente rosadas, boca pequena, nariz fino. Também não sabia ainda como se vestir para este ou aquele encontro, estava de tênis, calça jeans e camiseta, roupa mal ajustada … bem, era um encontro. Eu a conhecera duas semanas antes, nestas festas de finais de semana em casa de amigos.

    Buscamos cadeiras no meio do cinema. No Roxy não era bom sentar atrás, pois dava para ouvir o barulho de carros da Avenida Augusto de Lima. Assim que o filme começou, Marisa deitou a cabeça em meu ombro, a mão em minha coxa. A sessão estava vazia naquele início de noite do domingo e logo percebi que não estávamos interessados no filme. Era a quinta vez em menos de um mês que eu assistia a Hair.

    Na primeira sessão, no Palladium, não consegui me levantar ao final. À medida que os hippies invadiam o gramado à frente do Capitólio, em Washington, cantando Let the sunshine in, sensação indefinida tomou conta. Fiquei sentado olhando para a tela, sem prestar atenção nos créditos, esperando a sessão seguinte. Voltei na outra semana e na outra com o fascínio de quem está assistindo ao filme pela primeira vez.

    Quando o filme acabou, Marisa se endireitou na cadeira. No caminho para o ponto de ônibus, no centro da cidade, tive a prudência de não perguntar se ela gostara do filme, pouco assistimos, afinal.

    – Você pode me deixar aqui no ponto mesmo. Meu bairro é longe…

    – Não. Vou com você até em casa.

    – Já são quase onze horas…

    – Não tem problema, estou acostumado a andar de noite pela cidade.

    O Bairro Santa Inês fica perto de Sabará, mas naquela noite não me pareceu tão longe assim. O ônibus vazio permitiu ainda um ou outro arroubo, importunado apenas pelo olhar displicente do trocador. Andamos cerca de quatro quarteirões da avenida principal até a casa de Marisa. A rua mal iluminada e uma grande árvore na porta da casa colaboraram para uma despedida mais longa do que eu imaginava e podia.

    – Será que ainda tem ônibus? – ela perguntou olhando o relógio.

    – Não sei, deve passar um noturno naquela avenida. – ela ficou calada por alguns instantes, seus olhos procurando alguma coisa.

    – Não quer entrar um pouco?

    – É tarde, seus pais….

    – Estão viajando. Foram ontem para a praia.

    – E você?

    – Tenho cursinho, o vestibular já é no início do mês. Amanhã vou para a casa da minha tia. Vem, entra um pouco.

    O ponto de ônibus já estava cheio. Decerto, gente que pegava trabalho cedo, homens e mulheres com bolsas a tiracolo, as marmitas quadradas de alumínio bem ajeitadas no fundo, apoiadas dos lados para não virarem. 

    Preocupada com os vizinhas, Marisa me fizera sair da casa ainda de madrugada. Agora, no ponto de ônibus, fiquei com aquela emoção indefinida, deixando de pegar um ônibus, o outro, mais um, como créditos passando no final da sessão.

  • Sonhei com você
    sonho de paixão
    acordei atormentado
    com vontade de vê-la
    será que posso?
    de longe apenas, 
    prometo
    não chego perto
    pois de perto
    eu não resisto.

  • Adeus, Paris
    fico com Maria, 
    Roberto
    ouvindo tiros
    e o bater do coração.

    Adeus, Rússia
    seus dias
    abalaram-me
    antes mesmo
    de conhecer
    Ana. 

    Adeus, Grécia
    Itália, Egito
    guardo-a 
    na estante
    Elizabeth Taylor. 

    (despeço-me dos
    filmes da minha
    aldeia universal.)

    Adeus, Áustria
    goodbye, so long
    farewell
    triste, triste
    mil vezes triste
    quem não gosta
    de musical. 

    Adeus, Casablanca
    vai-te avião
    mas deixa
    Ingrid comigo
    para sempre. 

    Adeus, Shane
    é hora de dizer
    adeus àquela
    criança que
    madrugava
    em frente à TV.

  • Saudade de amor
    é bonita de doer
    porque machuca
    fere sangra mata 
    até a vítima
    se levantar da 
    saudade e correr
    correr com música
    de fundo e tudo
    para se curar de vez
    com um único
    demorado beijo
    aqueles beijos
    do cinema americano.

  • Se eu pudesse escolher
    seria agricultor pequeno
    sem pretensões, sonhos?
    só da minha terra
    e o que dela restar.

    Viveria o sol
    dormiria com a lua
    depois de amar
    a doce camponesa.

    Seria assim minha vida
    todo o tempo do mundo
    para amar sem fim
    porque a camponesa
    precisa ser amada
    todo o tempo do mundo.

  • Caminhamos para distante
    como se fosse tão longe
    mas tão longe é o caminho do real
    que sempre caminhamos nas nuvens
    acima do mal.


    E tão longe é o caminho do mal
    que quase não nos perdemos
    apenas nos descobrimos como amantes
    nada mais do que humanos
    mas algo acima do que homem e mulher
    algo além do que além de tudo sonhamos
    algo além do notável, procurando o irreal
    em uma noite longa
    onde vivemos sonhos de poeta
    através da lenta progressão do encontro. 

  • Já faz tempo, vagava
    perdido a procurar estrelas
    como as vagas ondas do mar
    em pedras a se arrebentar.

    Te lembras?
    Olhares discretos
    lugares bonitos
    poucas noites
    para te descobrir
    (eu queria apenas um abraço).

    Te lembras do toque de meus dedos em seu braço
    em seus seios, em seu sexo?
    Não lembres do toque de meus lábios nos seus
    viva-o eternamente como um beijo eterno apenas
    guarda-o naquelas tardes, naquelas noites
    no murmúrio de palavras vãs
    no medo de tirarmos as roupas pela primeira vez.

  • Frente fria

    Pela segunda noite seguida, Iracema não consegue dormir. A frente fria chegara a Belo Horizonte na véspera. “O inverno nessa cidade não é mais confiável”, dizia seu marido, sempre que as noites se apresentavam serenas e no dia seguinte o sol castigava as paredes do prédio onde moravam. Mas não era o inverno que a incomodava. Do frio, do aconchego das roupas e do cobertor ela gostava. Era o vento.

    O vento passava pelo 18º andar num uivo desenfreado. Um lamento sem fim, como o gemido de um batalhão atingido por morteiros, granadas.  Ouviu a história de um amigo italiano de seu pai. Na primeira grande guerra, os homens saíam a campo às centenas, tentando conquistar alguns poucos metros de terreno. Os que restavam, voltavam exaustos para as trincheiras, deixando para trás companheiros. À noite, o vento trazia o gemido dos feridos abandonados. Os soldados se encolhiam nas trincheiras, as mãos nos ouvidos tentando interromper aquele sofrimento que entrava por todo o corpo.

    Iracema rola na cama, anda pela casa, reza o terço. Às vezes, uma forte rajada de vento estremece as janelas como se fosse arrancar vidros, persianas, como se fosse arrancar ela mesma daquele tormento solitário. Quando criança, na pequena cidade do interior de Minas, onde o frio chegava com raiva, impiedoso, a mãe reunia Iracema e os irmãos na cozinha. Eles se apertavam próximos ao fogão à lenha, a mãe sempre avivando o fogo, silenciosa, sem lamentar a escassez de roupas e cobertores para os filhos.

    Sentavam-se todos no chão, a palha do milho espalhada pela cozinha, forrando os colchões. Dormiam, acordavam, dormiam de novo, a mãe ali, de vigília. Nada dizia, não sabia ler nem escrever, o rádio estava sempre com o marido, ligado em jogos e notícias do Botafogo do Rio. Seu caminho diário era da casa para a igreja. Era uma mulher sem histórias para contar. De vez em quando, cantarolava uma canção, as crianças sem entender a letra, apenas um murmúrio acompanhado pelo vento lá fora. Quando o frio castigava tanto que o fogo mal dava conta, a mãe juntava os filhos em volta, apertando-os com seus longos braços.

    Iracema apertou os braços sobre os seios, ouvindo o vento bater forte na janela do quarto, revoltado com a impossibilidade de entrar e testar de vez a resistência daquela velha mulher que enfrentou tempestades, mas em noites de vento se encolhe no canto do quarto. Ela pensa na ausência do marido, enterrado cinco anos atrás em uma tarde de verão. Na filha, morando no Canadá, no filho cada dia mais distante, com mil afazeres e família para cuidar. Em noites assim, o filho chegava de mansinho, parava na porta do quarto, o travesseiro nas mãos, esperando autorização. Bastava um sorriso, um aceno de cabeça e ele se  enfiava debaixo do cobertor. Sentia o calor do corpo do pai, os braços da mãe enlaçando-o todo.

    Agora Iracema sente o frio da cama vazia. Adormece, o vento amainando, os primeiros raios de sol refletindo na vidraça. Um sono bom, reconfortante, sonhos se confundindo com lembranças. Acorda às oito da manhã, descansada. Antes de abrir os olhos, um último vestígio do sonho: enxerga a mãe ao lado do fogão à lenha, o bule de café deixando escapar um pequeno vapor.

    Levanta-se devagar como em todas as manhãs. Ouve um leve barulho de vento, um pequeno batido no vidro. Abre completamente a janela do quarto e deixa o vento bater forte em seu rosto, olhos fechados.

  • Dia da aula de inglês
    no meio de jovens universitárias
    de bermudas, decotes e sandálias
    que deixam imaginar
    ah, pés descalços.

    Para que aprender inglês
    Ô shakespeare?
    with my midsummer-night’s dream
    Baudelaire seria mais condizente

    Alguém pode explicar
    por que ando lendo
    tanto D.H. Lawrence?

  • Quero-te nua
    sedutora
    me olha felina
    depois recua
    encantadora.

    Perdoa a ausência
    meus versos, perdoa
    mas vivo em poesia
    te lembrando nua
    na noite proibida. 

  • Você perto de mim
    sua respiração, seu cheiro
    seios e boca
    falta tão pouco
    uma palavra
    um gesto mais atrevido
    vou ficar devendo
    não faz parte de mim
    covarde, você disse
    volte pra casa
    e sonhe comigo
    enquanto morre. 

  • Maria estendeu as pernas
    daí por diante
    partículas desconhecidas
    insondáveis
    daqui até Klingon
    dominaram o microcosmo de Spock.

  • Seu beijo já não basta
    quero mais
    quero o beijo que exalta
    prostra, desconcerta
    liberta em gritos
    a tristeza prolongada
    quero o beijo que mata
    a dor da vida.