Parece que vou adormecer
embalando a tristeza em seu colo
parece mentira
ando perdido em seus seios
na verdade, estou de novo apaixonado.
Por onde andam aqueles olhos
que na adolescência das paixões
penetravam na puberdade de nossa cama?
O vento a trouxe de volta
e agora ando sonâmbulo na noite
por favor, não me torture
me beija, me dispa, me ame
ou então me faça esquecer.
Já vai? adeus. Quando voltar
me procura na ilusão
verá doces lembranças
de quando andávamos pelos sonhos
procurando por estrelas
em cada olhar apaixonado.
Autor: Robertson B. Mayrink
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Seu vestido preto
anda desbotado
gasto de tão desejado
a alvura do que esconde
que decote sutil
envergonhou meu olhar
e esse corte entre as pernas
faz-me sonhar noite e dia
com ele se rasgando inteiro.Agora que já me expôs tanto
dispa-se desse receio tolo
ajudo com o fecho se difícil
prometo-me eterno a você
peça, tudo faço
mas por favor
tira logo esse vestido. -
O tiro saiu do eleitor
e atingiu fundo a nação
agora gente pega em armas
alguns com dedos apontados nas ruas
outros despejam cartuchos em favelas
outro posa de metralhadora
a maioria incrédulos assustados
anda à desvio de balas perdidas
e à noite sente tristeza
por quem decidiu
que a segurança de todos
deve estar debaixo do travesseiro. -
Apaixonados
beijam à tôa
param pela cidade
em pontos
de namorados
tempo ousado
se conhecem
dentro dos carros.Casados
beijam de boa noite
flertam pela cidade
com dias passados
tempo usado
se desconhecem
dentro do quarto.Amantes
beijam roubados
desafiam pela cidade
o perigo e a maldade
tempo louco
descobrem
a vida sem planos. -
Um livro de contos policiais
coleção negra, clássicos noir
algo assim como a
mulher de cabelos negros.Sexta-feira, lua-cheia
em algum canto, alguém morre
em outros cantos, amantes
bêbados, assassinos e prostitutas
Los Angeles, San Francisco, Continental OP.Só conheço a vida de livros
na varanda, no canto, sozinho
um conto, um gole de cerveja
onde anda a mulher noir? -
Percorremos drivein’s e motéis de terceira
fizemos amor no quintal de sua casa
em pé, na varanda, atrás das portas
sob o signo devasso, desvairado.Vivemos o prazer cruel da infidelidade
a aventura noturna dos bares
bebendo ávidos na madrugada
gotas e gotas da vida.Havia necessidade violenta
agressiva, fome talvez
havia desejo e juventude
era sempre a última noite. -
Tardes de domingo
“Cuidado com os degraus.” Acomodei minha filha entre os braços de forma que eu pudesse enxergar os lances da escada após o alerta de minha esposa. Meu filho mais velho descera rápido e pude ouvir, à distância, o toque da campainha. Minha esposa descia devagar à frente, duas bolsas penduradas em cada ombro com todos os apetrechos necessários a passeios com crianças pequenas. Fomos os últimos a chegar, o sol batia perpendicular em uma das janelas da sala.
“Trouxe os filmes?” Respondi ao meu irmão com o olhar na direção da bolsa saliente pelas caixas de VHS.
“Você tem sessão de filmes antigos?” Era a terceira locadora que eu percorria no centro da cidade, horário de almoço se esgotando. Nas outras duas, apenas filmes comerciais, lançamentos recentes, sucessos de bilheteria do cinema que inundavam o mercado de VHS, satisfazendo um público eufórico com a novidade de assistir a filmes na telinha, sem as amarras de horários, dublagens mal-feitas e cortes para comerciais que a TV impõe. O atendente indicou a pequena prateleira escondida no canto da loja.
Nas prateleiras dos blockbusters, as capas com fotos e nomes dos filmes em relevo se destacavam, com espaços entre uma fita e outra para deixar todas bem à mostra. Na esquina de filmes antigos, espécie de escaninho acomodava pequenos fichários, com o nome do filme sobressaindo na ponta, acima do orifício que encobria a ficha inteira. Olhei para a distante luz do teto, ajeitei os óculos e comecei a garimpar ficha por ficha, levantando o pequeno pedaço de papel plastificado, buscando na memória nomes de filmes, diretores, atores aos quais meu pai se referia.
“Gary Cooper e Ingrid Bergman. Você precisa ver este filme. Assisti no Cine Brasil, espera um pouco.” Meu pai voltou pouco depois com álbum de fotografias, remexeu nas páginas e mostrou novamente a foto: ele na porta do Cine Brasil, terno, gravata e chapéu, ao fundo a enorme fila do cinema. “Era o meu programa de sábado, domingo, segunda… olha a fila, repara, todo mundo bem vestido, era um ritual. E os filmes, ah, os filmes…”
O atendente da locadora pegou as fichinhas, separou as fitas, pensei alguns segundos se voltava à esquina da loja em busca de mais um ou dois filmes. O tempo, tempo e dinheiro eram incertezas nestes primeiros anos de casamento.
Depois do lanche, o irmão mais velho chamou a família para perto da TV e apresentou a novidade: um aparelho preto, embutido na estante abaixo. Os meninos se acomodaram pelo chão da sala, deixando o sofá para os avós, pais e tios. Coletânea de desenhos da Warner Bros, depois A história sem fim, todos os olhares presos na tela de TV. Ninguém se mexia, às vezes a sala era invadida pelo silêncio expressivo, momento de entrega e suspense, até que gargalhadas das crianças, espontâneas, sinceras, de contágio imediato, percorriam a sala. A tarde de domingo terminou junto com o filme, em poucos segundos as crianças corriam pela casa.
Busquei outra fita na sacola. Os adultos voltaram a se acomodar, minhas irmãs já com ar de cansaço, minha mãe sentou do lado de fora, preferindo os netos. Meu pai permaneceu no canto do sofá, seus olhos pequenos, desproporcionais diante dos grandes óculos, fitos nos créditos: Gary Cooper e Ingrid Bergman.
Com pouco menos de meia hora de filme só restavam eu e meu pai na sala. Todos saíram aos poucos. Quando Roberto explodiu a ponte, o contador marcava mais de duas horas de filme. Crianças menores dormiam, minha esposa perguntara por duas vezes a hora de ir embora, minha mãe cochilava na rede. Há algum tempo eu ouvia roncos de meu pai.
Roberto era o último a atravessar o desfiladeiro, o cavalo desviando dos morteiros dos soldados de Franco. Uma explosão, o cavalo cai, Roberto é carregado pelos amigos até uma saliência e colocado no chão, encostado à rocha, as pernas quebradas.
São várias lembranças daquela tarde noite de domingo. O pai deitado no sofá, entregue ao cansaço; a mãe cochilando na rede; os irmãos conversando baixo na mesa da sala para não atrapalhar minha entrega ao filme; a esposa em voltas pela casa, vigiando o sono da filha; crianças correndo, jogando videogame no quarto; Roberto, ferido, despedindo-se de Maria. Que meus olhos ainda estejam presos neste domingo é mágica associação da beleza da família assim, espalhada pela casa. E um filme de fundo.
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As primeiras sessões de cinema
O pai segura firme a mão da filha caçula ao atravessar a rua. Anda rápido no calçamento de pedras, olha entre um sentido e outro preocupado com carros. Ele sequer olha para trás, pois desde cedo ensinara os filhos homens a se cuidarem sozinhos. Mesmo assim, meu irmão mais velho me prende pela gola da camisa, acelerando os passos ao notar minha distração no meio da rua.
O trânsito de Belo Horizonte, no início dos anos 70, não era de provocar receios. Adolescentes ao volante sem carteira conviviam com velhos motoristas. Antes dos 14 anos, meu irmão já dirigia o Gordini branco do pai, atravessando a cidade, geralmente à noite, quando guardas de trânsito preparavam os lençóis. Dirigia como experiente motorista, despreocupado, até que a família sentiu o temor da polícia bater à porta.
Nestes anos de farda no país, o menor sinal de polícia fazia tremer. Domingo à tarde, meu irmão saiu de carro e foi surpreendido poucos quarteirões depois por uma viatura. Apesar dos insistentes sinais da polícia, acelerou o carro, empreendendo uma fuga até a porta de nossa casa. Vizinhos saíram à rua, meninos correram em volta da viatura que parou atrás do Gordini, mulheres assustadas correram a gritar os maridos.
Meu irmão entrou correndo em casa e o pai, com a tranquilidade que irritava seus adversários mais ferrenhos na porrinha, saiu à rua e entabulou conversa à boca miúda com os dois policiais. Minutos depois, estavam todos sentados no sofá da sala. Na cozinha, a mãe andava de um lado para o outro, sem saber direito onde estava o bule de café.
Meia hora depois, os policiais trocavam apertos de mãos com o pai na porta de casa. Um deles, ante o olhar atento dos vizinhos, fez uma repreensão severa à qual o patriarca respondeu com promessa de nunca mais deixar o filho roubar seu carro.
O pai passava o tempo ensimesmado em suas tarefas diárias. O aperto de um parafuso nas velhas máquinas que tanto e tão bem consertava. Os olhos parados na TV em preto e branco, assistindo a desenhos dos estúdios Hanna Barbera. O remexo do garfo no prato de comida de um jeito calmo, como quem não tem mais nada a fazer.
A língua do pai se soltava depois de um ou dois copos de cerveja, quando, no bar, começava a discutir cinema com um amigo. Os dois passavam horas conversando sobre clássicos do cinema.
– Qual o melhor faroeste de todos os tempos?
– Rastros de ódio. – respondia de pronto o amigo.
– Prefiro Johnny Guitar. – retrucava o pai, bebericando a cerveja. – E a cena de Jane Russell deitada na grama… Quem é mesmo o diretor do filme?
– Howard Hawks.
– Não, é o outro Howard… Hughes.
Homem de hábitos, um deles, levar os filhos todo domingo às sessões matinais do Cine São Carlos, no início da Rua Padre Eustáquio. Ele deixa o carro na Rua Rio Casca e segue na frente com a filha caçula segura pela mão. Os filhos homens andam atrás, enfrentando pequenos desafios da vida como atravessar ruas. O caminho para minhas primeiras sessões de cinema.
Na porta do cinema, o pai segue até a pequena abertura na parede, protegida por grossas barras de ferro. Ingressos na mão, beija a face da filha, passa a mão nos meus cabelos, fita o primogênito, recomenda:
– Cuide de seus irmãos. E se comportem. Sala de cinema é um templo, quando a luz do projetor se acender, silêncio… . – à medida que a fila anda, conta pelo menos uma cena do desenho.
– Vocês vão ver uma das imagens mais impressionantes, nem parece filme infantil. Os abutres voando pelo desfiladeiro… bem, não posso contar o final.
– Ninguém consegue segurar as lágrimas quando Bambi vê a mãe… deixa pra lá.
– Você já viu um elefante bêbado? – solta uma risada leve, quase sem som.
O pai nunca entrava conosco. Voltava para nos buscar perto do horário de almoço.
Naquele domingo, como de costume, ele espera os filhos passarem pela roleta. Quando entramos no saguão do cinema, o irmão comenta.
– Uê! Ele não contou nada do filme.
Assim que sentia os filhos em segurança dentro do cinema, o pai dava meia volta em direção à Rua Rio Casca. Logo depois, a gente corria para dentro do cinema, já participando da algazarra que tomava conta da sala. Naquele domingo, o pai continua parado na porta do cinema. As mãos, como de costume, enfiadas no bolso. Até que, sem mais nem menos, ele grita, desviando o olhar para o cartaz afixado na parede lateral.
– Ei, ele pode voar.
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De onde saiu você
daquelas conchas
que se cata na areia
última página de
romance policial
filme água com açúcarDe onde saiu você
de salada de fruta
cheiro de hortelã
siesta na Espanha
gole de coca-cola
com gelo e limãoDe onde saiu você
mulher cheirando a banho
cama com lençol lavado
chuva na vidraça
cerveja na varanda
na hora do pôr-do-solDe onde saiu você
camelot, atlântida, liliput
e se for do planeta mongo
cheia de poderes para o bem
para o mal, para não me deixar
mais sair de você -
Humphrey
Humphrey Bogart. Você se parecia com Humphrey Bogart naquela noite de chuva. – Elza bateu com força a pequena pá de jardim na terra seca, tentando cavar um buraco, pequeno que fosse.
– Lembra? Sapatos pretos, uma das mãos no bolso do sobretudo cinza, daqueles que a gente só vê no cinema, a outra segurando o cigarro nos lábios, um charme!, chapéu cinza. A aba do chapéu, levemente inclinada, fazia sombra no seu rosto. – as mãos doíam, ela pegou o regador e molhou um pouco mais a terra, com cuidado, jogando água nos rasgos que já fizera, ajudando com a pá, tentando penetrar no solo resistente.
– Você se escondia da chuva, debaixo da marquise, encostado na porta lateral da igreja. A luz da rua fraquinha, piscando, o tempo estava tão ruim. Em noites de chuva, a praça ficava vazia, os pais não confiavam, mandavam chamar, pra casa!, a cidade deserta, nem as estrelas apareciam. – deixou a pá de lado e tirou a terra do buraco com as mãos.
– Como é mesmo o nome do filme? Isso. A Condessa descalça. Muitos anos depois, vimos o filme no Cine Brasil. Acho que é uma das primeiras cenas, Humphrey Bogart na chuva, assistindo a um enterro. Quando a gente ia ao cinema você nunca olhava para mim, olhava fascinado o tempo todo para a tela, às vezes me dava um ciúme. Mas eu fiquei olhando para você e descobri que na noite em que te vi pela primeira vez, debaixo da marquise da igreja, você se parecia com aquele ator de chapéu e sobretudo na chuva.
– Humphrey Bogart, trabalhou em Casablanca, O tesouro de Sierra Madre, você me disse entusiasmado quando perguntei o nome daquele homem charmoso. – Elza colocou a muda, ainda com o plástico preto em volta, no pequeno buraco.
– Nome complicado. Falta pouco agora.
Ela retirou a muda, molhou mais um pouco a terra, a água formou uma pequena poça, demorando a infiltrar. Voltou a escavar lentamente, a ponta da pá fazendo pequenos rasgos, as mãos doendo, princípios de calos latejando na confluência dos dedos.
Retirou o plástico preto da muda, espalhou um pouco de adubo no buraco, em seguida uma pequena medida de esterco. Colocou cuidadosamente a planta no lugar, misturou terra preta, esterco e húmus em uma vasilha, espalhando a solução em volta da muda. As mãos ajudavam a terra fértil a tomar seu lugar, o buraco do terreno árido ganhando uma cor viva, a muda pronta para florescer. Nivelou a terra na superfície, por fim molhou com carinho o seu trabalho, a água infiltrando rápida, fácil.
Elza levantou-se, as mãos nas costas tentando parar a leve dor, pequenas pontadas, – nada de mais na minha idade. O sol já encostava na montanha, deixando o céu no tom amarelo de que tanto gostava. Era hora de sentar na varanda, aproveitar a última luz e contemplar suas plantas, suas flores, seu recanto agora solitário.
Abaixou-se novamente, roçou a palma da mão levemente nas minúsculas folhas de murta, como se formasse uma aura em volta de toda a planta. Duas lágrimas escorreram por seu rosto.
– Você se parecia com Humphrey Bogart, meu querido.