Dois peregrinos percorrem o Caminho de Santiago. Sem dinheiro, vivem da caridade de estranhos durante a viagem. O road-movie os coloca diante de personagens simbólicos, em histórias episódicas pautadas por referências e citações bíblicas. Presente e passado se confundem aos olhos dos espectadores, além de incursões surrealistas, como a bela personificação da morte no assento traseiro do carro.
“Buñuel considerava que Via Láctea era uma narrativa documental sobre a história das heresias no seio do cristianismo, posto que se constitui como uma dramatização de discussões teológicas. Percebe-se, então, o papel fundamental desempenhado pelos diálogos para a criação da continuidade narrativa. Os diferentes episódios e suas épocas dialogam diretamente; e esse diálogo enfatiza a presentificação da narrativa. Passado e presente só são reconhecidos como tal pelo figurino das personagens e pela espacialidade criada (o desvio dos peregrinos para fora da estrada).”
Via Láctea (La voie lactée, França/Itália, 1969), de Luis Buñuel. Com Paul Frankeur, Laurent Terzieff, Alain Curry.
Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004
A jovem Leana administra pousada em uma bela ilha das Filipinas. Em frente ao estabelecimento, o navio Aurora bate nas rochas, provocando centenas de mortes. Os corpos não são resgatados, devido às péssimas condições do mar e os habitantes começam a abandonar a ilha. Leana é convencida por familiares dos náufragos a permanecer na pousada por pelo menos mais trinta dias, pois a mudança do tempo pode levar corpos à praia.
A película asiática (de onde surgem bons filmes de terror do cinema contemporâneo) não se furta aos clichês do gênero. A casa, cujo segundo andar esconde mistérios, o vento constante, a chuva, relances através das vidraças. No entanto, é o terror psicológico que dita os rumos da narrativa. As visões aterradoras de Leana elucidam a trama passo a passo até o clímax que remete a desesperadas tentativas de sobrevivência, cuja esperança pode ser a última imagem captada pelo olhar.
Aurora – O resgate das almas (Aurora, Filipinas, 2018), de Yam Laranas. Com Anne Curtis (Leana), Allan Paulie, Mercedes Cabral, Andrea Del Rosario.
Se Charlie Chaplin assistisse a UP – altas aventuras (UP, EUA, 2009), de Peter Docter, iria proclamar mais uma vez o poder do cinema mudo. Diria, mesmo com as mais avançadas tecnologias digitais, capazes de fazer personagens e objetos voarem tela afora, o cinema não precisa falar.
O começo do filme narra visualmente a história do casal Carl e Ellie, do dia em que se conheceram na infância até a morte da esposa na velhice. Humor, romantismo, tristezas, alegrias, sonhos, desejos, a dor da separação, tudo se passa na tela sem diálogos, com pequenas inserções sonoras. É uma grande e bela demonstração da capacidade do cinema encantar, sugestionar, provocar emoções sem a necessidade de palavras. Como no maravilhoso cinema mudo.
O manifesto em favor do cinema mudo, escrito em 1928 pelos cineastas soviéticos Eisenstein, Pudovkin e Alexandrov defende: “Atualmente, o cinema, trabalhando com imagens visuais, tem um efeito poderoso sobre as pessoas e com todo o direito assumiu um dos primeiros lugares entre as artes.” Mas nem os mais puristas foram capazes de renegar o acelerado desenvolvimento tecnológico do cinema. Som, cor, formatos panorâmicos, cinema em terceira dimensão, avançados efeitos especiais chegando ao ápice da tecnologia digital. Todo este desenvolvimento converge no objetivo de transformar o cinema na mais espetacular experiência visual.
UP tem momentos admiráveis ao conjugar som e imagem, como o estouro do balão associado ao som de flash fotográfico para demarcar passagem de tempo de uma década. Remete a soluções antológicas do som no cinema, como em Cidadão Kane (1944). O pequeno Kane recebe um trenó de presente e ouve de seu tutor “Bem Charles, feliz natal”, corta para imagem do tutor cerca de 15 anos mais velho que diz “E feliz ano novo.”
O fascínio das imagens digitais é outro destaque em UP. A viagem de Carl ao mundo perdido é uma sequência de ousadas imagens de ação e aventura, com as mais belas paisagens digitais do cinema de animação contemporâneo; tudo conjugado com altas doses de emoção.
A animação digital traz para o cinema a possibilidade de mostrar batalhas aéreas tridimensionais, como a dos cães-pilotos contra o escoteiro Russel, ao mesmo tempo em que Carl e o explorador Charles Muntz se confrontam no teto do dirigível, tudo a alguns mil pés de altura. É a tradicional batalha entre o bem e o mal que enobrece um bom filme de animação da Disney/Pixar.
Na surrealista procura pelo mundo perdido, o velho e a princípio imutável Carl se defronta com grandes dilemas da humanidade moderna: o limite entre a espiritualidade e os bens materiais, a vaidade, o egoísmo. A frase “É apenas uma casa” resume o sentimento que se revela para o velho Carl no exato momento em que ele abre mão do sonho de uma vida. Frase que todos sabemos necessária mas poucos têm coragem de assumir nesta sociedade dominada inexoravelmente pelo consumo.
O final do filme volta ao poder da imagem, reforçando a transformação de Carl em poucas e rápidas cenas. Nestes imagéticos minutos de filme está a beleza maior de UP. Como a história de Carl e Ellie, uma vida inteira pode passar assim, em pouco mais de dez minutos. São nossas lembranças, resta-nos fazer delas sequências emocionantes, como imagens ternas de cinema.
Sequestro relâmpago incorpora dois gêneros importantes do cinema: suspense e road-movie. A trama se passa em uma noite. Isabel é sequestrada por dois jovens após sair de um bar. O plano de Matheu e Japonês é achar um caixa-eletrônico e forçar a jovem a sacar dinheiro, no entanto, o caixa que encontram está quebrado. Começa então a peregrinação pela São Paulo noturna, Isabel dirigindo seu próprio carro e seus algozes em conflito permanente, se atacando próximos de confronto mortal.
Em alguns momentos, Isabel tenta fugir, em outros busca dominar a situação, em outros se aproxima dos sequestradores. A ótima Tata Amaral trabalha com o ambiente fechado do carro, as ruas e a noite como o escape impossível, tanto para Isabel quanto para Matheu e Japonês. Talvez dirigir pela noite em conflito constante, consigo mesmo e com os outros, seja a única possibilidade para esses personagens marginais de nossas cidades.
Sequestro relâmpago (Brasil, 2018), de Tata Amaral. Com Marina Ruy Barbosa, Sidney Santiago, Daniel Rocha.
Luis Buñuel planejou A morte no jardim como referência direta à Espanha do General Franco, de onde o diretor teve que se exilar no início de sua carreira. O cenário é a pequena vila de mineração incrustada em país indefinido da América Latina. O governo toma posse da mina de ouro e expulsa os mineradores. Eles se revoltam nas ruas da cidade e grupo de foragidos se encontra em um barco: o jovem explorador europeu que é acusado de roubo; minerador rico e sua filha surda e muda; o missionário da cidade; um soldado; a prostituta e o mercenário dono do barco.
Em termos narrativos, A morte no jardim guarda semelhanças com No tempo da diligências (1939), de John Ford. Representantes de classes sociais distintas estão juntos no mesmo veículo e se defrontam com o perigo. No faroeste de Ford, são os índios. No drama social de Buñuel, a floresta amazônica coloca em risco mortal os personagens.
A morte no jardim (La mort en ce jardin, França/México, 1956 ), de Luis Buñuel. Com Simone Signoret (Djin), Charles Vanel (Castin), Michel Piccoli (Padre Lizardi), Michèle Girardon (Maria), Georges Marchal (Shark).
A jovem Tristana perde a mãe e Dom Lope a assume como tutor. Já idoso, Dom Lope tem ideias progressistas, renega a religião, defende os trabalhadores e flerta com o socialismo, apesar de viver de renda em uma bela casa. Ele desenvolve por Tristana sentimentos dúbios: amor paternal e marital, a adotando como pai e amante. Tudo muda quando Tristana se apaixona por um jovem pintor.
O surrealista Buñuel despeja em Tristana, uma paixão mórbida seu olhar sem piedade sobre a sociedade e as relações humanas. O nobre Dom Lope reverte seus princípios ao menor desejo sexual; a ingênua Tristana se dilui entre o amor e o ódio, sem pudor em usar as pessoas de acordo com as oscilações de seu caráter.
“Buñuel desejava filmar esta adaptação do romance clássico de Benito Pérez Galdós desde 1963. Ele aborda um de seus tópicos favoritos: a sedução e a corrupção de uma pessoa inocente, Tristana (Catherine Deneuve) por Dom Lope (Fernando Rey), um cavalheiro muito mais velho cujos ideais políticos declarados são muito mais radicais do que sua forma de tratar as mulheres. Tristana sobrevive a essa opressão, depois da perda de uma perna, duplicando sua crueldade e estendendo seus efeitos, como na cena perturbadora em que ela exibe o seu corpo ao jovem empregado Saturno (Jesús Fernández).”
Tristana, uma paixão mórbida (Tristana, França/Itália/Espanha, 1970), de Luis Buñuel. Com Catherine Deneuve, Fernando Rey, Franco Nero, Lola Gaos, Antonio Casas.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008
Cláudia Abreu é a Berenice do título e sua procura é anunciada logo na abertura. O cadáver da transgênero Isabelle (Valentina Sampaio) é encontrado na praia de Copacabana. A narrativa retrocede 36 horas para apresentar personagens que se cruzaram na boate onde Isabelle se apresentou na noite de sua morte.
Berenice procura, adaptado de obra de Luiz Alfredo Garcia-Roza, trabalha com os clichês das tramas policiais, sem novidades, previsível inclusive na conclusão. O destaque do filme está na abordagem de personagens da noite carioca, alguns inescrupulosos como a cafetã interpretada por Vera Holtz, outros que buscam apenas sentido para a vida, como Isabelle.
Berenice procura (Brasil, 2016), de Allan Fiterman. Com Claudia Abreu, Eduardo Moscovis, Vera Holtz, Caio Manhente, Valentina Sampaio
É um filme silencioso, a narrativa motiva o espectador a se entregar aos belos cenários (Parque Estadual dos Três Picos, região serrana do Rio de Janeiro) e às angústias da protagonista. A menina Maria vive reclusa com a mãe, sofrendo com a ausência do pai que abandonou a família. Um criador de cabras acampa perto da casa e deflagra desejos em mãe e filha. Narrativa paralela coloca Maria e o pai em um ambiente indefinido, conversando em forma de fragmentos.
A película é adaptada dos contos O unicórnio e Matamoros de Hilda Hilst. A adaptação tenta transpor para as telas o universo intimista, carregado das angústias femininas da autora. Poucos atores em cena, característica do cinema brasileiro contemporâneo, paisagens que ajudam a compor a solidão de mãe e filha, ambiente claustrofóbico que permeia a possível insanidade do pai, composição fotográfica que remete ao universo das fábulas. Filme silencioso e reflexivo.
Unicórnio (Brasil, 2017), de Eduardo Nunes. Com Patrícia Pillar, Zé Carlos Machado, Lee Taylor, Bárbara Luz.
Orson Welles foi um dos pilares da minha dissertação de mestrado, defendida em 2003 na Escola de Belas Artes da UFMG. Dediquei um capítulo do texto à revolução narrativa de Cidadão Kane (1941), no qual o diretor faz um jogo interpretativo com o espectador da primeira à última cena. A seguir, a análise se pautou em Soberba (1942), filme mutilado pelos produtores na sala de montagem (pelo então montador Robert Wise) enquanto Welles estava no Brasil, tentando filmar É tudo verdade. Foi a primeira obra do gênio a sofrer com interferências dos executivos dos estúdios de Hollywood (outro crime aconteceu com A marca da maldade).
Era o começo da lenda difundida por executivos, críticos e membros da comunidade hollywoodiana de que Orson Welles não tinha interesse em terminar seus filmes. A filha do diretor refuta categoricamente, dizendo que basta prestar atenção na genialidade dos filmes terminados (e montados) pelo diretor. A afirmação está em um dos melhores documentários sobre o cinema de todos os tempos: Serei amado quando morrer (They’ll love me when I’m dead, EUA, 2018), de Morgan Neville, produzido pela Netflix.
O documentário reúne imagens do mais célebre filme inacabado de Orson Welles, O outro lado do vento, cujas filmagens se iniciaram no início dos anos 70 e se estenderam durante toda a década. Orson Welles faleceu em 1985 sem montar o filme. A versão finalizada pela Netflix está disponível no serviço de streaming – a derradeira obra-prima de Welles.
Depoimentos de atores, diretores e técnicos que participaram da odisséia compõem um retrato da genialidade incompreendida daquele que é considerado por muitos como o maior diretor de todos os tempos. O diretor Peter Bogdanovich depõe sobre a sua participação como ator, revelando com emoção passagens importantes do relacionamento entre os dois.
No entanto, o primor do documentário está na própria participação de Welles, em inúmeras imagens de arquivo, depoimentos sinceros e emocionantes sobre o cinema, sobre Hollywood, sobre sua paixão irrestrita pela sétima arte. No final do documentário, após a morte de Orson Welles, o também diretor John Huston (protagonista de O outro lado do vento) tem acesso a um trecho de película no qual Welles ri espontaneamente para a câmera. O responsável pelas filmagens revela que, após assistir ao trecho, John Huston chorou ao ver o amigo gargalhando. Simplesmente chorou, virou as costas e foi embora.
O filme começa com o casal de protagonistas lendo cartas nas quais desfilam sentimentos felizes na vida em comum, descrevendo como se encantam, como se deslumbram, como riem um do outro. No final das narrações, o espectador é surpreendido: trata-se de terapia em casal, pois Charlie e Nicole já estão no processo de desgaste do casamento.
Charlie é promissor diretor de teatro em Nova York. Nicole abandonou provável carreira de sucesso na TV e no cinema em Los Angeles para seguir o marido. Na primeira parte do filme, a narrativa acompanha os dilemas do casal em vias de separação, mas ainda incertos ante as consequências. Quando Nicole decide voltar para Los Angeles, História de um casamento envereda para pungente drama psicológico envolvendo pais e filhos, além de discutir os processos jurídicos colocando em cena dois combativos advogados (Laura Dern ganhou Oscar de atriz coadjuvante pelo papel da advogada de Nicole). As interpretações de Scarlett Johansson e Adam Driver são o ponto forte do filme, com direito a embate que termina com sofrida (para as personagens e para o espectador) cena no chão da sala.
História de um casamento (Marriage story, EUA, 2019), de Noah Baumbach. Com Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Ray Liotta.
A abertura do filme é antológica, define o primor visual de Billy Wilder, mestre em deixar a imagem traduzir: visão geral de prédios de Nova York, lenta panorâmica permite ao espectador vislumbrar o fascínio da cidade fotografada por John F. Seitz; câmera passeia pela parede de um prédio, a primeira janela aberta, a segunda com vaso de flor na beirada, a terceira, para surpresa de todos, tem uma garrafa de uísque amarrada pendurada por uma corda. Câmera se aproxima da janela e mostra Don Birman (Ray Milland, oscar de melhor ator pelo filme) arrumando a mala dentro do quarto. Ele olha para fora, seu irmão entra em cena e começam a conversar sobre o final de semana que vão passar fora da cidade.
Alfred Hitchcock também usou janelas de forma clássica na abertura de Janela indiscreta e Psicose. Nos três filmes, a placidez do movimento técnico, conhecido como panorâmica, elucida visualmente os rumos da narrativa. Farrapo humano trata do alcoolismo, de cara o espectador é apresentado à doença de Don Birman que esconde a garrafa do irmão. É o primeiro filme hollywoodiano a tratar com seriedade o vício.
“Com exceção dos filmes ambientados nos anos 1920, nos quais a lei seca aparece vinculada ao crime, a bebedeira tinha sempre conotação cômica, derivada da confusão sensorial e física provocada pelo álcool. Wilder achou que era hora de corrigir essa imagem, representando o vício como algo que consome o indivíduo, levando-o a perder a razão. A escolha de Ray Milland como protagonista, ator até então associada a papéis de galã e sedutor, foi parte da estratégia de provocar empatia entre o público e o personagem.” – Cássio Starling Carlos.
Quase memória, de Carlos Heitor Cony, é dos mais belos romances da literatura moderna brasileira. O autor faz incursão à sua infância e juventude, retratando o pai Ernesto, jornalista romântico e visionário.
Ruy Guerra transpõe essas memórias para o cinema com ousadia nos recursos narrativos. Dois Carlos contracenam, tentando reconstituir as memórias do pai. Tony Ramos é o Carlos adulto; Charles Fricks seu alter ego jovem. Flashbacks recriam essas memórias. Mariana Ximenes é a mãe, João Miguel interpreta Ernesto, o pai jornalista que se entrega aos tempos românticos da profissão, ao momentos lúdicos com o filho, à obsessão em fazer voar memorável balão de São João. O tema do filme é a memória, a importância desses momentos passados por vezes incompreensíveis que permeiam a vida de todos nós. E o afeto, sentimento que precisa voltar a ser cultivado em sua plenitudes nesses tempos de crueldade.
Quase memória (Brasil, 2017), de Ruy Guerra. Com Tony Ramos, Charles Fricks, João Miguel, Mariana Ximenes.
Não há momento mais oportuno no Brasil para a produção de filmes sobre o drama das nações indígenas. O documentário de Luiz Bolognesi se debruça sobre tema urgente: a descaracterização da cultura dos povos ancestrais de nossa terra. Perpera foi preparado para ser Pajé da tribo Paiter Suruí. No entanto, abandonou o posto quando uma igreja evangélica foi instalada na região e o pastor angariou fiéis entre a tribo, alardeando que os pajés são “coisas do diabo”.
O próprio Perpera adere à religião. Continua com sua vida simples de pescador e tenta ensinar às crianças os costumes de seu povo. Ele se vê em conflito quando integrantes da tribo recorrem ao Pajé para ajudar em casos de doença, já que os remédios dos brancos não resolvem.
A câmera do roteirista e documentarista Luiz Bolognesi registra tudo com imparcialidade, sem recorrer a julgamentos. Deixa as imagens falarem, o que basta para provocar a reflexão sobre a cruel interferência que o mundo dito civilizado insiste em fazer nas nações indígenas. A película conquistou menção honrosa no troféu Glashutte de documentário no Festival de Berlim.
Clint Eastwood é o mais longevo e produtivo diretor americano. Perto de completar 90 anos, entrega pelo menos um filme por ano, apesar de atuar cada vez menos. Em A mula, Eastwod dirige e protagoniza. Ele é Earl Stone, senhor de 90 anos obcecado pelo cultivo de orquídeas. Está em conflito com a ex-mulher e a filha que o acusam de ter abandonado a família. Stone trabalhou a vida inteira como motorista nas estradas e se vangloria de jamais ter ganhado uma multa. Desempregado e sem dinheiro, ele é despejado de sua casa e acaba se envolvendo com cartel de drogas do México, transportando drogas em sua picape.
O filme é baseado na vida de Leo Sharp que ficou conhecido como a “mula de 90 anos”. Clint Eastwood se baseou em reportagem do The New York Times para contar essa inusitada história. Earl Stone transporta as drogas como se viajasse a passeio pelas estradas do meio-oeste americano: para em lanchonetes, conversa cordialmente com todos, ajuda uma família a trocar pneus na estrada, ouve música e canta descontraidamente enquanto dirige. Impossível suspeitar de uma mula assim e Stone acaba caindo nas graças do chefe do cartel.
Como em outras películas, Clint Eastwood tece críticas sobre temas controversos: o sistema político e econômico americano, a estrutura familiar, a acelerada entrega dos jovens à tecnologia, o tráfico de drogas, a emigração, preconceito racial. O velho Earl Stone transita por tudo isso nas estradas, na sua vida cotidiana, um retrato dos EUA.
A mula (The mule, EUA, 2018), de Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bradley Cooper, Michael Pena, Alison Eastwood, Diane Wiest.
Gloria Grahame (1923/1981) foi das atrizes mais promissoras do cinema clássico americano. Trabalhou com grandes diretores como Frank Capra, Vincente Minnelli, Nicholas Ray (com quem foi casada). Em 1952, conquistou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme Assim estava escrito, uma das melhores produções sobre o sistema de estúdio hollywoodiano. Logo depois, sua carreira entrou em declínio devido a escândalos relacionados a assédio sexual. A atriz foi casada quatro vezes, uma delas com seu ex-enteado, Anthony Ray, filho de Nicholas Ray. O diretor acusou Gloria de ter começado o relacionamento com Anthony quando ele tinha apenas 13 anos. Nos anos 70, a atriz trabalhou basicamente com teatro nos EUA e na Inglaterra.
Estrelas de cinema nunca morrem aborda os últimos três anos de vida de Gloria Grahame, quando ela conheceu e se apaixonou pelo jovem ator Peter Turner, de Liverpool. O filme, baseado no livro de Peter, retrata uma atriz vaidosa e obcecada por seu trabalho, o que poderia, inclusive, ter contribuído para sua morte aos 57 anos. Gloria foi diagnosticada com câncer, mas se recusou a fazer quimioterapia pois perderia seus cabelos, em consequência ela não conseguiria mais atuar.
O título original é bela homenagem à relação da cidade de Liverpool com o cinema, representada pela família de Peter Turner. O destaque da película é a abordagem da vida de uma estrela de Hollywood, sofrendo com as imposições dos estúdios mas lutando para se entregar às paixões fora das telas.
Estrelas de cinema nunca morrem (Film stars don’t die in Liverpool, EUA, 2017), de Paul McGuigan. Com Annette Bening (Gloria Grahame), Jamie Bell (Peter Turner), Julie Walter (Bella Turner).
A Grande Feira (Brasil, 1961) é o segundo longa-metragem de Roberto Pires, após Redenção (1959), considerado o primeiro longa-metragem produzido na Bahia. O filme reúne alguns expoentes do cinema novo ligados ao ciclo baiano, entre eles um jovem Glauber Rocha, responsável pela produção executiva.
O filme “é inspirado em uma revolta popular detonada quando o governo do Estado pensou em acabar com a feira Água dos Meninos, onde trabalhavam mais de mil feirantes, para atender os interesses de grandes companhias imobiliárias que pretendiam construir no local.” – Fernão Ramos.
A trama traz princípios do cinema novo que buscava revolução estética, narrativa e conceitual para o cinema brasileiro. A negra Maria, ladra e prostituta, transita pela Grande Feira e mora no andar de cima da boate de Zazá. O violento Chico Diabo, amante de Maria, logo no início do filme rouba uma joalheria e, na saida, mata um policial. O marinheiro Sueco chega na comunidade e vai mexer com o coração de Maria e da aristocrata Ely, esposa de um rico industrial. Ely sofre com o tédio, citando Camus e Carlos Drummond de Andrade enquanto busca aventuras na noite. Esses tipos marginais, que conta ainda com o receptador Ricardo, se cruzam nos becos, bares, quartos, boates em gradativa adrenalina de sensualidade e violência. Para salvar os feirantes, o plano de Chico Diabo é explodir os tanques da Esso, nos arredores da feira, provocando um incêndio de proporções monumentais.
Está no filme a visão rebelde – e a estética realista – do cinema novo que coloca nas mãos do povo a decisão de seu destino, mesmo que seja através da violência. Segundo ramos, em A Grande Feira, “a representação do universo burguês é caricata e a fala popular revolucionária enunciada sem dramaticidade e com impostação.”
Roberto Pires usa a fotografia em preto e branco e câmera realista para compor o painel caótico dos feirantes nas cenas externas. Nas cenas internas, o diretor não se furta a fotografar os corpos sensuais dos belos atores que compõem o triângulo amoroso. O louro sueco (Del Rey com cabelos tingidos) e a negra Maria emolduram a tela em uma sensual sequência no quarto, com direito a clichês como sapatos caindo ao chão. A fútil Ely se entrega também ao Sueco em fascinantes composições na praia e no cais.
O final do filme é um primor estético e conceitual: cena vista do alto mostra o cais após a despedida de Ely e Sueco. O marido de Ely abre a porta. O espectador vê, à distância, a mulher diminuta, frustrada, entregue ao seu destino, entrar no carro. “Apesar do respeito pelo povo e seus costumes há, no entanto, sempre uma ponta de desprezo (caso de BARRAVENTO, A GRANDE FEIRA e TOCAIA NO ASFALTO) pela apatia e pela incapacidade popular em perceber sua situação e reagir de forma radical.” – Fernão Ramos.
A Grande Feira (Brasil, 1961), de Roberto Pires. Com Geraldo Del Rey (Ronny/Sueco), Helena Ignez (Ely), Luiza Maranhão (Maria), Antonio Pitanga (Chico Diabo), Milton Gaúcho (Ricardo).
Referência: História do Cinema Brasileiro. Fernão Ramos (organizador). São Paulo: Círculo do Livro, 1987.
Vitório perdeu a visão na infância. Vive feliz com sua condição: é pizzaiolo de sucesso, se diverte com amigos, frequenta estádios de futebol. Clarisse, sua esposa, insiste que ele faça uma operação para recuperar a visão. Vitório reluta, mas cede aos apelos.
O filme faz interessante abordagem sobre escolhas, mesmo que seja manter a deficiência que, para muitos, significa estar de olhos fechados para o mundo. O egoísmo também está presente nas relações: para a família, o melhor é Vittório voltar a enxergar. O tom de comédia está na relação entre Vitório e seu assistente Cleomar.
Como outros filmes – Perfume de mulher, O milagre de Anne Sullivan, Um clarão nas trevas, Por trás de seus olhos, a película de Paulo Nascimento trata com sensibilidade a questão da deficiência visual.
Teu mundo não cabe no meus olhos (Brasil, 2018), de Paulo Nascimento. Com Edson Celulari (Vitório), Leonardo Machado (Cleomar), Giovana Echeverria (Alicia), Soledad Villamil (Clarisse), Roberto Birindelli (Dr. Jantzen).
A trama segue a tradicional estrutura de histórias paralelas que podem se cruzar. São quatro, envolvendo diversos personagens: ator de filme pornô discute ao telefone com a mulher, garota de programa; motoboy se apaixona por atendente de lanchonete; casal discute a relação; madrasta e enteada colocam em debate a relação, enquanto velam o corpo do homem responsável pela convivência forçada das duas. A ousadia da trama está na leitura de trechos de um romance que está também sendo encenado em novela de rádio e pode ser o ponto de união das histórias.
O destaque do filme é Marjorie Estiano (das grandes estrelas do cinema nacional) como garota de programa, vestida a caráter para a prática de atos sadomasoquistas. Ao mesmo tempo, ela se entrega ao programa e discute a relação com o marido no telefone. As quatro histórias oscilam entre o drama e a comédia.
Todo clichê do amor (Brasil, 2017), de Rafael Primot. Com Débora Falabella, Eucir de Souza, Clarissa Kiste, Maria Luísa Mendonça, Marjorie Estiano.
Tramas ambientadas em mundo apocalíptico, no qual a humanidade foi praticamente dizimada, dominam a ficção científica do cinema contemporâneo. Basta dar uma passada pelo catálogo da Netflix para achar uma dúzia de filmes do tipo. A inovação em Um lugar silencioso está na escolha do plot que movimenta a narrativa: a terra foi invadida por seres que não enxergam, mas caçam suas vítimas, os humanos, através do apurado senso auditivo. Casal, interpretado por John Krasinski e Emily Blunt, vive com os dois filhos em cabana na floresta. Só podem se comunicar através de sinais, vivem no mundo silencioso. O problema é que a mulher está grávida, terá seu filho sem anestesia.
A primeira sequência do filme apresenta de forma perturbadora o que vem pela frente. A luta dos humanos contra o desconhecido, que pode surgir do nada ao menor ruído, rende ótimas cenas de suspense. Em sua estreia como diretor, o ator John Krasinski promete ser dos grandes nomes por trás da câmera.
Um lugar silencioso (A quiet place, EUA, 2018), de John Krasinski. Com Emily Blunt, Noah Jupe, Millicent Simmonds, Cade Woodward, Leon Russom, John Krasinski.
Filmes recentes do cinema brasileiro exploram o impacto virtual na vida dos jovens, incluindo Yonlu, Benzinho e Aos teus olhos. No longa de Carolina Jabor a temática é o linchamento virtual a partir de denúncia não-comprovada. Rubens (Daniel de Oliveira), jovem professor de natação, é acusado de ter beijado um aluno na boca. A acusação parte da própria criança. O menino afirma que o fato aconteceu quando eles estavam sozinhos no vestiário, ou seja, sem testemunhas e sem câmeras de segurança (trama similar ao ótimo Infâmia, de William Wyler).
O que se segue são acusações dos pais, a mãe postando em redes sociais, provocando o linchamento virtual e disseminando a revolta em outros pais. O professor de natação não tem como se defender e, em determinado momento, é ameaçado fisicamente. O filme é baseado na peça O princípio de Arquimedes e a opção de Carolina Jabor é não fechar a questão, deixando todos na dúvida. O instigante plano final do filme provoca no espectador o desejo de entrar na mente de Rubens e descobrir a verdade.
Aos teus olhos (Brasil, 2017), de Carolina Jabor. Com Daniel de Oliveira, Marco Ricca, Malu Galli, Stella Rabello, Gustavo Falcão.